Sáb, 10 de Dezembro de 2011 09:17 -
Muitos dizem por aí que minha casa é mais um castelo com ponte levadiça do que residência de praia.
Sei não. Acho que a gente acaba tornando-se muito seletivo com o passar dos anos. Por outro lado, está a experiência das coisas vividas, aquilo que a gente guardou durante tantos anos de sobrevivência. Teve uma época em que eu fui mais sociável, mais aberto, mais comunicativo, menos rude. As coisas que vivi me levaram a ser como sou. E não reclamo. Nos aguentamos muito bem, eu e o espelho. Com o resto, Deus dirá. A gente faz o que pode, não é mesmo?
Questão de uns quarenta anos atrás, os regimes militares de Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai decidiram entrar em acordo e participar do que seria a maior caça às bruxas da história.
Bolaram um plano secreto de cooperação que foi denominado Operação Condor. Alguns dizem que leva esse nome pela astúcia desta ave das montanhas ao selecionar sua presa. Outros, porque o condor é a única ave que consegue voar a 6.000 metros de altura e não passar mal. É, leu bem. O condor é uma ave de rapina típica dos Andes, das altas montanhas. Habita naqueles lugares em que o homem jamais sequer sonhou em pôr os pés.
Mas enfim. Independente do nome, estão as ações. Seja qual for o interesse, e aqui cabe aclarar que nada tenho a observar ou criticar sobre esses atos, a não ser as atrocidades, os crimes cometidos, a Operação Condor tem na sua conta quase meio milhão de pessoas mortas, desaparecidas (o que significa quase que com certeza mortas, mas não achadas), exiladas, perdidas, prejudicadas por esta ignomínia.
Muitos dirão que é mito, pura falácia minha. Mas eu sou desse tipo de sujeito que não gosta de ficar falando ao vento: por isso faço públicas as provas do que digo. Não porque isto possa me proteger das possíveis represálias de alguém que não goste do que escrevo: é apenas porque aprendi que não se deve deturpar a imagem de ninguém, a não ser que existam realmente fatos que comprovem aquilo que foi, é ou será dito. Tampouco o leitor deve pensar que estou fazendo apologia sobre isto ou aquilo: ledo engano. Como já dissera várias vezes, o meu único interesse é mudar o nome dessa praça, e mais nada. Digamos que tenha se tornado este assunto algo pessoal, por assim dizer.
Há coisas que acontecem na vida da gente que deixam marcas perenes; outras deixam profundas cicatrizes, feridas sem probabilidade de cura. Está em nós lidar com isso: haverá dentro de cada um de nós o remédio necessário para curar as feridas de guerra, ou aprender a conviver com elas. Afinal, toda guerra sempre deixa sua marca de mortes, violência, abusos, essas coisas todas. Sempre digo que a gente sabe realmente como são as pessoas, quando estas estão com o poder ou uma arma na mão. Ali a gente verá realmente quem é quem.
Você dirá, quem sabe: “Não houve guerra... Houve guerrilha, mas não houve guerra”.
Houve guerra sim, e das piores. Porque por um lado combatia-se uma forma de pensamento, uma forma de melhora social, uma forma de escape do mais pobre da violência da pobreza; por outro, o autoritarismo e as imposições de pessoas totalmente despreparadas para lidar com uma sociedade que estava descobrindo o seu próprio caminho.
Falar sobre um passado tão recente é muito doloroso. Dói lembrar de amigos, parentes e conhecidos que desapareceram, dói lembrar dos abusos cometidos em nome da pátria e um monte de balela proferida por covardes que se esconderam atrás de um uniforme e da “obediência devida”. Mas dói ainda mais a injustiça, a impunidade, o riso dos que cometeram infinidade de crimes e riram, e ainda continuam rindo da justiça.
Mas obviamente, não sou um justiceiro. Quem dera. Sou um simples mortal que paga seus impostos e tenta viver decentemente. Infelizmente hoje em dia viver decentemente é matar um leão por dia, e na unha. As ditaduras me devem, e muito. Me devem 50 anos de exílio forçado e sofrimento do meu pai, me devem 50 anos de medo, porque na época eu saía da casa da minha mãe para estudar, mas não sabia se voltava.
Me devem o medo que passei, quando sequestraram à ponta de pistola na própria sala de aula um dos mais queridos professores que já tive. Não há dinheiro que pague isso. Não há dinheiro que pague o meu cabelo cortado em uma escura cela de delegacia. E não há dinheiro que pague as porradas que tomei por ter entre meus livros o Manifesto Comunista. Eu tinha apenas 15 anos. O meu pecado? Adorava ler, e fiquei curioso em saber por quê Marx era “proibido”. Com 15 anos senti por vez primeira o gostinho amargo que deixa na gente o tal de cacetete.
Talvez por isso tenha decidido iniciar esta cruzada. Porque está na hora de mostrar a verdade, está na hora de parar de esconder as sujeiras embaixo do tapete, e divulgar aos quatro ventos tudo o que aconteceu. Para que ninguém diga daqui a 30 anos que isso é mais uma mentira, é mais uma propaganda falsa.
“O Comunismo é uma ameaça para todo o mundo livre. No Paraguai as nossas Forças Armadas, com o Presidente da República na cabeça, não permitirão que essa faísca provoque algúm incêndio. Nós temos uma democracia autêntica. Mas que fique bem claro, sem comunismo e sem comunistas.” (Alfredo Stroessner, setembro de 1979).
“Não podiamos fuzilar em massa, digamos assim, 5.000 pessoas. A sociedade argentina não teria suportado os fuzilamentos. Não tinha outra maneira, a não ser sumir com esses prisioneiros. Todos estivemos de acordo nisso. Pensamos em certo momento em divulgar as listas, mas logo surgiu a pergunta: se os damos por mortos, logo virão as perguntas que não podem ser respondidas: quem matou, onde, como?” (Jorge Rafael Videla, declaração aos autores do livro “O Ditador”, fevereiro de 2001).
De maneira oficial, o plano conjunto das Forças Armadas do Cone Sul, ou Operação Condor, começou a ser executado em finais de 1975. Mas seria o ano seguinte, 1976, o ano mais terrível de repressão contra todas as organizações e pessoas catalogadas como opositoras às ditaduras. Esse período de violência teria muitos aspectos semelhantes nos seis países participantes. Porém, houve coisas que diferenciaram a repressão em cada país. Na Argentina estava se desenvolvendo um genocídio que ficou popularizado por um eufemismo até então pouco usado: os desaparecidos. No Chile, a ditadura de Pinochet preferia fuzilamentos coletivos. Os militares uruguaios optaram pelas prisões prolongadas sem julgamento. No Brasil já não era necessária tanta violência, porque os generais já tinham imposto um estado de terror psicológico. O mesmo ocorria no Paraguai, a mais antiga das ditaduras, onde a oposição ao regime estava na sua maior parte presa ou no exílio.
No Brasil foi criada recentemente a “Comissão da Verdade” para investigar o assunto. Acho válido, muito válido. Um resgate da própria história recente do país. Mas sem julgamento, sem condenação, sem divulgação dos nomes envolvidos, creio eu que seja uma perda de tempo. Sei lá. Tampouco tenho nada com isso.
Já disse que meu problema é o nome da praça na Praia dos Surfistas. E mais nada, pelo menos por enquanto. Infelizmente, a sociedade guaratubana ainda tem medo. Tem medo de opinar, de se manifestar. E acaba concordando em preservar o nome do senhor que inventou os “voos com queda livre”, numa singela praça no meio da restinga. Que diga-se de passagem, aquilo é restinga, e não lugar de praça com nome de ditador.
E já para ir parando por hoje, vou lhe contar o que eram os “voos com queda livre”. Como não se podia matar de forma mais evidente do que já estava sendo feita, inventaram no Paraguai de colocar presos políticos em aviões militares, e jogá-los de lá das alturas sobre a mata e sobre os rios. Tempos depois, a ditadura argentina assumiria também essa forma de “reciclagem”.
Um pedido especial: Leia os documentos que pedi ao senhor editor a gentileza de publicar. Analise, pense, comente, discuta. Guaratuba é uma bela cidade, para que manchar seu nome com estas histórias tão tristes?
Até a próxima, se Deus quiser.
Sei não. Acho que a gente acaba tornando-se muito seletivo com o passar dos anos. Por outro lado, está a experiência das coisas vividas, aquilo que a gente guardou durante tantos anos de sobrevivência. Teve uma época em que eu fui mais sociável, mais aberto, mais comunicativo, menos rude. As coisas que vivi me levaram a ser como sou. E não reclamo. Nos aguentamos muito bem, eu e o espelho. Com o resto, Deus dirá. A gente faz o que pode, não é mesmo?
Questão de uns quarenta anos atrás, os regimes militares de Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai decidiram entrar em acordo e participar do que seria a maior caça às bruxas da história.
Bolaram um plano secreto de cooperação que foi denominado Operação Condor. Alguns dizem que leva esse nome pela astúcia desta ave das montanhas ao selecionar sua presa. Outros, porque o condor é a única ave que consegue voar a 6.000 metros de altura e não passar mal. É, leu bem. O condor é uma ave de rapina típica dos Andes, das altas montanhas. Habita naqueles lugares em que o homem jamais sequer sonhou em pôr os pés.
Mas enfim. Independente do nome, estão as ações. Seja qual for o interesse, e aqui cabe aclarar que nada tenho a observar ou criticar sobre esses atos, a não ser as atrocidades, os crimes cometidos, a Operação Condor tem na sua conta quase meio milhão de pessoas mortas, desaparecidas (o que significa quase que com certeza mortas, mas não achadas), exiladas, perdidas, prejudicadas por esta ignomínia.
Muitos dirão que é mito, pura falácia minha. Mas eu sou desse tipo de sujeito que não gosta de ficar falando ao vento: por isso faço públicas as provas do que digo. Não porque isto possa me proteger das possíveis represálias de alguém que não goste do que escrevo: é apenas porque aprendi que não se deve deturpar a imagem de ninguém, a não ser que existam realmente fatos que comprovem aquilo que foi, é ou será dito. Tampouco o leitor deve pensar que estou fazendo apologia sobre isto ou aquilo: ledo engano. Como já dissera várias vezes, o meu único interesse é mudar o nome dessa praça, e mais nada. Digamos que tenha se tornado este assunto algo pessoal, por assim dizer.
Há coisas que acontecem na vida da gente que deixam marcas perenes; outras deixam profundas cicatrizes, feridas sem probabilidade de cura. Está em nós lidar com isso: haverá dentro de cada um de nós o remédio necessário para curar as feridas de guerra, ou aprender a conviver com elas. Afinal, toda guerra sempre deixa sua marca de mortes, violência, abusos, essas coisas todas. Sempre digo que a gente sabe realmente como são as pessoas, quando estas estão com o poder ou uma arma na mão. Ali a gente verá realmente quem é quem.
Você dirá, quem sabe: “Não houve guerra... Houve guerrilha, mas não houve guerra”.
Houve guerra sim, e das piores. Porque por um lado combatia-se uma forma de pensamento, uma forma de melhora social, uma forma de escape do mais pobre da violência da pobreza; por outro, o autoritarismo e as imposições de pessoas totalmente despreparadas para lidar com uma sociedade que estava descobrindo o seu próprio caminho.
Falar sobre um passado tão recente é muito doloroso. Dói lembrar de amigos, parentes e conhecidos que desapareceram, dói lembrar dos abusos cometidos em nome da pátria e um monte de balela proferida por covardes que se esconderam atrás de um uniforme e da “obediência devida”. Mas dói ainda mais a injustiça, a impunidade, o riso dos que cometeram infinidade de crimes e riram, e ainda continuam rindo da justiça.
Mas obviamente, não sou um justiceiro. Quem dera. Sou um simples mortal que paga seus impostos e tenta viver decentemente. Infelizmente hoje em dia viver decentemente é matar um leão por dia, e na unha. As ditaduras me devem, e muito. Me devem 50 anos de exílio forçado e sofrimento do meu pai, me devem 50 anos de medo, porque na época eu saía da casa da minha mãe para estudar, mas não sabia se voltava.
Me devem o medo que passei, quando sequestraram à ponta de pistola na própria sala de aula um dos mais queridos professores que já tive. Não há dinheiro que pague isso. Não há dinheiro que pague o meu cabelo cortado em uma escura cela de delegacia. E não há dinheiro que pague as porradas que tomei por ter entre meus livros o Manifesto Comunista. Eu tinha apenas 15 anos. O meu pecado? Adorava ler, e fiquei curioso em saber por quê Marx era “proibido”. Com 15 anos senti por vez primeira o gostinho amargo que deixa na gente o tal de cacetete.
Talvez por isso tenha decidido iniciar esta cruzada. Porque está na hora de mostrar a verdade, está na hora de parar de esconder as sujeiras embaixo do tapete, e divulgar aos quatro ventos tudo o que aconteceu. Para que ninguém diga daqui a 30 anos que isso é mais uma mentira, é mais uma propaganda falsa.
“O Comunismo é uma ameaça para todo o mundo livre. No Paraguai as nossas Forças Armadas, com o Presidente da República na cabeça, não permitirão que essa faísca provoque algúm incêndio. Nós temos uma democracia autêntica. Mas que fique bem claro, sem comunismo e sem comunistas.” (Alfredo Stroessner, setembro de 1979).
“Não podiamos fuzilar em massa, digamos assim, 5.000 pessoas. A sociedade argentina não teria suportado os fuzilamentos. Não tinha outra maneira, a não ser sumir com esses prisioneiros. Todos estivemos de acordo nisso. Pensamos em certo momento em divulgar as listas, mas logo surgiu a pergunta: se os damos por mortos, logo virão as perguntas que não podem ser respondidas: quem matou, onde, como?” (Jorge Rafael Videla, declaração aos autores do livro “O Ditador”, fevereiro de 2001).
De maneira oficial, o plano conjunto das Forças Armadas do Cone Sul, ou Operação Condor, começou a ser executado em finais de 1975. Mas seria o ano seguinte, 1976, o ano mais terrível de repressão contra todas as organizações e pessoas catalogadas como opositoras às ditaduras. Esse período de violência teria muitos aspectos semelhantes nos seis países participantes. Porém, houve coisas que diferenciaram a repressão em cada país. Na Argentina estava se desenvolvendo um genocídio que ficou popularizado por um eufemismo até então pouco usado: os desaparecidos. No Chile, a ditadura de Pinochet preferia fuzilamentos coletivos. Os militares uruguaios optaram pelas prisões prolongadas sem julgamento. No Brasil já não era necessária tanta violência, porque os generais já tinham imposto um estado de terror psicológico. O mesmo ocorria no Paraguai, a mais antiga das ditaduras, onde a oposição ao regime estava na sua maior parte presa ou no exílio.
No Brasil foi criada recentemente a “Comissão da Verdade” para investigar o assunto. Acho válido, muito válido. Um resgate da própria história recente do país. Mas sem julgamento, sem condenação, sem divulgação dos nomes envolvidos, creio eu que seja uma perda de tempo. Sei lá. Tampouco tenho nada com isso.
Já disse que meu problema é o nome da praça na Praia dos Surfistas. E mais nada, pelo menos por enquanto. Infelizmente, a sociedade guaratubana ainda tem medo. Tem medo de opinar, de se manifestar. E acaba concordando em preservar o nome do senhor que inventou os “voos com queda livre”, numa singela praça no meio da restinga. Que diga-se de passagem, aquilo é restinga, e não lugar de praça com nome de ditador.
E já para ir parando por hoje, vou lhe contar o que eram os “voos com queda livre”. Como não se podia matar de forma mais evidente do que já estava sendo feita, inventaram no Paraguai de colocar presos políticos em aviões militares, e jogá-los de lá das alturas sobre a mata e sobre os rios. Tempos depois, a ditadura argentina assumiria também essa forma de “reciclagem”.
Um pedido especial: Leia os documentos que pedi ao senhor editor a gentileza de publicar. Analise, pense, comente, discuta. Guaratuba é uma bela cidade, para que manchar seu nome com estas histórias tão tristes?
Até a próxima, se Deus quiser.
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