Luiz Etevaldo da Silva – Mestre em Educação.
Dom, 26 de outubro de 2014
O Brasil em nível federal foi governado por chefes de executivos do campo popular/progressista/esquerda por 12 anos. Nesse período inúmeras políticas públicas foram empreendidas, cujos beneficiários eram, sobretudo, as camadas populares (PROUNI, Minha Casa Minha Vida, programas de microcrédito, Bolsa Família), que, por sinal, com o auxílio do Estado tiveram significativas melhorias nas condições de vida.
A partir do exposto acima, perguntas relativas a isso estão nas rodas de conversa: por que o governo do campo popular/progressista/esquerda que tanto ajudou os que mais necessitam do Estado (governo) e este governo esteve sob o comando do PT (Partido dos Trabalhadores) hoje é tanto rejeitado, ou seja, aumenta o sentimento de antipetismo?
Então, reflexões: os partidos do campo popular, progressista ou de esquerda ao ganharem a eleição somente tomam o comando do governo, porém não em sua totalidade, visto que tem coligações com partidos da direita, mas vamos supor que isso aconteceu. Contudo, o poder político continuou com a direita, na medida em que os aparelhos ideológicos do Estado permaneceram com ela. Visto que, as redes de televisão, os jornais, as revistas, as rádios, predominantemente expressam o pensamento político conservador.
E como a mídia tem sido ao longo da história a grande formadora ideológica, assim as opiniões da direita se disseminam pelo tecido social brasileiro. A esquerda tem conseguido, no máximo, o comando do Executivo ou do governo, mas o pensamento dominante continua sendo o de direita.
Pela minha leitura, não existe um simples antipetismo, o que existe é um pensamento político conservador, sendo assim, qualquer partido que represente o campo popular, progressista ou de esquerda tem sido repelido por percentual significativo da população. Isto acontece pela maior parte da classe média, classe alta e, também, por uma parcela da classe baixa manipulada pelos grupos dominantes.
Sendo assim, o processo de criação de opiniões continua com os grupos dominantes do País. Eles, por meio da mídia, sobretudo, permanentemente manipulam mentes de indigentes políticos (Leonardo Boff) e analfabetos políticos (Bertold Brech), indivíduos que não conseguem compreender os projetos de sociedade, de governo, ou seja, o papel do Estado.
Mas, então, como Lula e Dilma do PT venceram por duas vezes, cada um, o governo Federal? É que isto está em processo de mudança, quando as pessoas percebem que sua vida melhorou com ajuda do Estado/governo, as consciências também vão mudando. As políticas públicas dos últimos 12 anos se constituíram em fator decisivo na compreensão de que nem todos são iguais em termos de política, que há projetos diferentes. É cerca de 52% dos eleitores que, em tese, já entenderam.
Claro, ainda falta muito para se atingir um nível de politização satisfatório, são apenas 52% dos eleitores, tendo a eleição como referência. Grande parcela da população ainda não tem em mente um projeto social de acordo com sua classe social, neste caso o pensamento dominante se encarrega de adestrá-los ao projeto de Estado que interessa às classes sociais privilegiadas, no ponto de vista econômico, social, cultural e político.
Nos processos eletivos isto fica evidente quando se percebe trabalhador assalariado, diaristas, autônomos, aposentado de salário mínimo, ambos com baixa renda, votando e, às vezes, militando em partidos de direita, no total é cerca de 48% dos eleitores do País. Neste conjunto estão indivíduos das camadas privilegiadas e os que são usados pelas elites para se perpetuarem no poder.
No entanto, já avançamos no Brasil, talvez com a elevação da escolaridade, trabalhadores chegando às universidades, o Estado beneficiando as camadas populares, não obstante, ainda estamos longe de ter uma consciência política capaz de promover uma mudança mais ampla a partir do campo popular, progressista e de esquerda, que luta pela justiça e o desenvolvimento social e cultural de todos.
O projeto emancipatório, de uma sociedade mais justa e favorável aos trabalhadores, de gente que sobrevive do labor diário, é muito mais amplo que o projeto de se ganhar uma eleição. É importante, não resta dúvida, ter-se o Estado governado por quem tem compromisso com o campo popular. Mas a luta pelo projeto continua nos movimentos sociais, via educação, nas entidades de classe, sindicatos, a utopia permanece viva.
Em nível federal já se conseguiu criar processos e estruturas capazes de conquistar a maior parte da população e se ter ao lado do campo popular, progressista e de esquerda, apoiando mudanças no modelo de governar. Então, nas unidades da federação (estados) ainda é preciso se esperar mais tempo. Em vários estados, cujo PT e seus aliados fizeram administrações empoderadoras, no entanto a população beneficiada não entendeu que fosse importante continuar, como caso do Estado do RS, por exemplo.
Temos avanços na totalidade das políticas públicas no Brasil, mas ainda se precisa avançar nas partes (estados). As mudanças de fato, no sentido amplo, conforme a visão dialética, devem ser consideradas a partir da perspectiva totalidade-partes, de maneira relacional, trabalhando com as contradições para criar condições para novas relações sociais.
O que está em curso no Brasil é um projeto amplo de sociedade, cujos sinais de mudanças começam a surgir, não obstante, temos que ter em mente que está apenas começando o processo de mudanças. Sendo assim, está posto o desafio, então, de ampliar a luta de ideias e empreender ações empoderadoras.
O novo Brasil está em processo de formação, nele a luta tenaz pela justiça social, solidariedade e disposição de esforços pela humanização das relações sociais. Neste sentido, cria-se, assim, condições para o desenvolvimento social e cultural da população, com um todo.
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