terça-feira, 25 de junho de 2013

Um mercado bilionário e cada vez mais concentrado

Raquel Júnia, da Fiocruz, 23/04/2012, 16:12:53

Seminário realizado na Anvisa mostra o processo de concentração da produção e comercialização de insumos agrícolas. Pesquisador alerta para risco à soberania nacional.

O mercado mundial de agrotóxicos movimentou US$ 51,2 bilhões em 2010. E o brasileiro US$ 7,3 bilhões. As seis maiores empresas -Basf, Bayer, Dow, Dupont, Monsanto e Syngenta – controlam hoje 66% do mercado mundial. E, no Brasil, as dez maiores empresas foram responsáveis por 75% da venda nacional de agrotóxicos na última safra. As gigantes do setor estão comprando as empresas menores, tanto de agrotóxicos, quanto de sementes, formando monopólios e oligopólios. Os dados foram apresentados no 2º Seminário Mercado de Agrotóxicos e Regulação, realizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no dia 11 de abril, com a palestra do professor da Universidade Federal do Paraná Victor Pelaez.

Segundo o pesquisador, que também é coordenador do Observatório da Indústria de Agrotóxicos, a tendência é de que as grandes empresas continuem adquirindo as pequenas. “Existe um ciclo vicioso porque para baixar os preços é preciso produzir em escala maior, e, portanto, as menores empresas não têm condição de se manterem no mercado com os preços menores. Por isso cada vez o mercado se concentra mais”, explica.

Victor avalia que se por um lado esse processo de concentração representa um risco para as condições de concorrência do mercado e ainda evidencia o poder econômico e político das empresas, por outro revela também uma resposta da indústria a uma maior exigência das agências reguladoras quanto à segurança na produção e comercialização de venenos. “A trajetória tecnológica nesse ramo de atividade tem evoluído no sentido de buscar moléculas que tenham um bom desempenho agronômico, também combinado com um menor impacto ambiental e à saúde, com substâncias menos tóxicas. Os organismos regulatórios tendem a ser mais exigentes à medida que se desenvolvem novos métodos de análise, inclusive exigindo que alguns produtos sejam eliminados do mercado. Quem tem condição de atender a essas exigências regulatórias são essas grandes empresas. Isso está provocando uma tendência a maior concentração”, observa.

Para Pelaez, apesar de haver essa evidência positiva de um maior controle das agências reguladoras, o quadro é preocupante, pois as empresas passam a controlar cada vez mais também os alimentos que as pessoas vão consumir. “Essa dependência a um número muito pequeno de empresas que produzem sementes e todos os insumos é extremamente arriscado para a soberania de qualquer país, não só do Brasil. Essas empresas controlam também o comércio internacional de grãos e definem em primeira instância as políticas agrícolas e alimentares de grande parte do planeta”, alerta.

O professor mostrou durante a apresentação que quase todas as grandes corporações do ramo de agrotóxicos adquiriram empresas de sementes nos últimos anos. E aquelas que não participam desse esquema acabam ficando de fora do mercado. “Ao vender para o agricultor, a empresa faz o pacote com a semente e o agrotóxico junto, com uma série de facilidades. Isso dá uma competitividade fantástica às empresas que conseguem ter esse portfólio de produtos. É o que chamamos de economia de escopo. Elas podem dar um desconto grande num produto e ganhar dinheiro em outro produto, e com isso vai faltando espaço e recursos para as empresas que não tiverem essa estratégia”, detalha.

Dificuldade de informações

No final do ano passado, a Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados aprovou um relatório sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde. O texto aborda inúmeras evidências dos malefícios desses venenos e da falta de controle na utilização dos produtos. Dentre as inúmeras recomendações do documento, está a necessidade de melhoria das informações repassadas pelas empresas aos órgãos de fiscalização.

O tema também apareceu no seminário. De acordo com Pelaez, os dados informados pelo setor regulado à Anvisa, ao Ministério da Agricultura e ao Instituto Nacional do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), responsáveis pela fiscalização dos agrotóxicos, são divergentes. “As empresas não têm um controle muito rígido no atendimento dessa demanda. E, por outro lado, é uma demanda que exige muita atenção e cuidado na leitura do manual de preenchimento dos formulários online e também um esforço e trabalho criterioso no preenchimento das informações. O que percebemos em grande parte é uma desatenção e uma falta de cuidado nesse sentido. E os sistemas têm alguns critérios diferentes que fazem com que a empresa não consiga aportar exatamente os mesmos dados”, avalia o professor.

O pesquisador acrescenta que tanto as empresas, quanto os órgãos públicos deveriam se esforçar para aprender a usar os sistemas e para aprimorá-los. Ele reforça que o ideal é que existisse um único sistema de informações sobre a produção, comercialização e utilização de agrotóxicos. “O Ministério do Meio Ambiente não disponibiliza os dados. Portanto, se os órgãos não conseguem ter acesso aos dados uns dos outros, fica difícil. A Anvisa se viu obrigada a criar um terceiro sistema de coleta de dados, mas o racional seria um único sistema”, opina.

Controle

Além das dificuldades no acesso às informações sobre o mercado de agrotóxicos, outro problema é a falta de estrutura dos órgãos de fiscalização brasileiros. Enquanto nos Estados Unidos a Agência de Proteção Ambiental (EPA) tem 850 técnicos, a Anvisa tem 26 e somados os profissionais do Ibama e do Ministério da Agricultura não chega a 50 o número de técnicos responsáveis por essa fiscalização. “É absurda a diferença considerando que nós temos um mercado que é 10% maior do que o mercado americano”, comenta Victor.

Outra diferença do Brasil em relação aos Estados Unidos são os valores pagos pelo registro e reavaliação dos agrotóxicos. No Brasil, o custo para registro varia entre 50 e mil dólares. Já nos EUA, esse valor chega a custar 630 mil dólares. A reavaliação e a manutenção anual não são cobradas no Brasil e nos Estados Unidos as empresas precisam pagar 150 mil dólares em caso de reavaliação e de cem a 425 dólares para manutenção anual.

Segundo Pelaez, são esses montantes que arcam com a estrutura de funcionamento da fiscalização nos Estados Unidos. “Nos EUA, conseguiram fazer com que a indústria arque com esse valor que gira em torno de US$ 14 milhões. Esses recursos são destinados para financiar programas de treinamento de agricultores e uma política mais consistente de redução do risco da utilização dos agrotóxicos. Para ter mais celeridade, maior segurança e melhor qualidade no processo, alguém tem que pagar por isso, e aqui no Brasil é a sociedade que paga. As empresas são, inclusive, isentas de IPI e têm isenção de até 60% de ICMS”, aponta.

Representantes das empresas presentes no seminário criticaram a demora da Anvisa em conceder registros de novos produtos, o que, segundo o presidente da Agência, José Agenor da Silva, de fato é uma realidade devido, entre outros motivos, à falta de estrutura da Agência. Por outro lado, José Agenor e Pelaez comentaram que muitas vezes as empresas conseguem o registro, mas não concretizam a fabricação do produto, o que torna a reclamação contraditória. De acordo com os dados apresentados no seminário, metade dos produtos com registro no Brasil não chegam às mãos dos agricultores. Além disso, 24% das empresas instaladas no Brasil não produziram nem comercializaram nenhum produto durante a última safra. “As empresas estão sempre desqualificando o trabalho da Anvisa porque ela não consegue cumprir as demandas de registro. Dizem que, ao não cumprir essa demanda, está sendo contra a agricultura nacional. Mas aí mostramos que não é bem assim, porque uma quantidade de produtos são aprovados e não são comercializados, porque não há recursos para isso”, observa o professor.

Pelaez defende a existência de critérios de prioridade para concessão de registros. Ele explica que a fila hoje é por ordem de chegada, o que ignora uma série de procedimentos fundamentais em um processo regulatório. Segundo o pesquisador, a Anvisa já divulgou essa proposta de elaboração de critérios para a fila de registro e recebeu resposta favorável de alguns setores do empresariado. “Estabelecendo prioridades podemos começar a pensar onde há um gargalo e se há possibilidade de incluir produtos menos tóxicos”, detalha.

Agricultores à mercê das empresas

Os dados sobre o mercado mundial de agrotóxicos apresentados no seminário revelam que esse comércio e o modelo de agricultura que o sustenta não mostram sinais de enfraquecimento. De 2000 a 2010, este mercado cresceu 190% no Brasil e 93% no mundo. Durante a ultima safra (segundo semestre de 2010 e primeiro de 2011), foram produzidos 833 mil toneladas de produtos em 96 empresas analisadas, do total de 130 cadastradas no país. A América Latina detém 22% do mercado mundial de agrotóxicos, sendo que o Brasil, sozinho, é responsável por uma fatia de 19%.

Para Pelaez, é fundamental discutir qual modelo de agricultura o país quer manter. “Esse modelo de agricultura não esteve aí sempre, não é a ordem natural das coisas como tentam colocar como sendo inevitável e irreversível. Pelo contrário, são escolhas econômicas e políticas que vão acontecendo ao longo do tempo. E lógico, depois de algumas décadas, passa a ser o modelo dominante”, diz.

O professor caracteriza o modelo hegemônico na agricultura mundial como altamente excludente e dependente de subsídios do poder público. “Tentativas de implantação desse modelo agrícola na África, em alguns países que não tinham recursos financeiros para subsidiar, fracassaram. A indústria de sementes, agrotóxicos e fertilizantes na verdade é subsidiada pelas populações em geral, dado o custo elevadíssimo”, explica.

Embora o quadro de concentração das empresas de agrotóxicos e sementes tenda a se intensificar na avaliação do pesquisador, as contradições dessa estratégia e os prejuízos para os próprios agricultores e para o país também estão se tornando cada vez mais evidentes. Pelaez dá o exemplo da empresa Monsanto, que aumentou recentemente em cinco vezes o preço da semente resistente ao agrotóxico glifosato, ambos – agrotóxico e semente – produzidos pela empresa. “Essa era a crônica da morte anunciada. Essa combinação que a Monsanto faz do glifosato com a semente resistente ao glifosato possibilita esse aumento de preços fantástico. Agricultores gaúchos que sempre foram extremamente favoráveis à difusão da soja transgênica resistente ao glifosato entraram com uma liminar contra o pagamento desses royalties. Isso é surpreendente porque eles sempre foram os grandes aliados desse modelo e agora estão sendo vítimas do que sempre defenderam. Isso mostra como o risco está presente”, alerta.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

ADUBO PAPEL

Em meados da década de 70, devido à baixa produtividade das lavouras, foi criada uma Lei favorecendo o "sofrido agricultor". Com ela ficou facilitada a comprar de adubo, através de juros baixos e muitos anos de carência...

Funcionava assim: você comprava o adubo, sem necessidade de análise de solo, simplesmente levava a nota fiscal ao Banco e solicitava o financiamento...

A "maracutaia" estava no fato de não comprar o adubo, mas levar a nota, para se aproveitar da política de "incentivo" do Governo... O "esperto" pegava a grana e aplicava na "Caderneta de Poupança"...

Teve gente que "comprou" tanto adubo que se botasse na lavoura "dava metros de altura".

Seria interessante que cada um de nós relembrasse esse fato, questionando pais e avós sobre a sua veracidade e os efeitos da falcatrua, que enriqueceu famílias e quebrou com Bancos em todos os cantos deste país.


Abaixo seguem páginas de jornais da época:

 http://sandracureau.com/2013/03/25/criminal-golpe-do-adubo-papel-correio-do-povo-11-8-1977/


 http://sandracureau.com/2013/03/27/golpe-do-adubo-papel-zero-hora-11-8-77/

‘Relatório Figueiredo’

Jango foi derrubado por ter decidido fazer a reforma agrária. Esse foi o estopim da sua queda. Os militares que tomaram o poder, contudo, permitiram uma redistribuição de terras bastante original: a ferro e fogo. A Comissão Nacional da Verdade, que completou um ano de trabalho, redescobriu o chamado “Relatório Figueiredo”, um dossiê de mais de 7 mil páginas, desaparecido por quase quatro décadas, organizado pelo procurador Jáder de Figueiredo Correia no final dos anos 1960. O material mostra como fazendeiros, empresários e amigos do regime espoliaram índios, exterminaram tribos e apropriaram-se das suas terras torturando e saqueando.

Entre as técnicas sofisticadas de “reforma agrária” usadas por esses “desbravadores” constam a trituração de tornozelos de índios, divertidas caçadas a indígenas com azeitadas metralhadoras e distribuição de açúcar envenenado. As práticas do Velho Oeste americano parecem inocentes quando comparadas às nossas.

De quebra, segundo o balanço da Comissão Nacional da Verdade, houve “desvio de verbas, negociatas e negligência com populações
em extinção”. Tudo isso na suposta ditadura sem corrupção. O pau comeu desde o primeiro dia. Como se sabe, só em 1964, em torno de 50 mil pessoas foram presas por “subversão”.

Quarenta e quatro resistentes foram “suicidados”. Aos que ainda falam na bobagem do tal “julgamento dos dois lados”, vale ainda citar o historiador Carlos Fico: “Não menos de 20 mil foram submetidas à violência da tortura. Nos cerca de 800 processos por crimes contra a segurança nacional, e encaminhados à Justiça Militar, figuraram 11 mil indiciados e 8 mil acusados, resultando em alguns milhares de condenações”.

Aí está.

Segundo a Comissão da Verdade já foram identificados 223 casos
de violações a direitos de camponeses “com participação direta
ou indireta de agentes da ditadura no período 1961-1988”. Isso inclui tortura, assassinatos de padres e freiras, invasão de terras e “organização de movimentos armados de proprietários de terras”.

Pelo menos 17 povos indígenas foram vítimas da sanha “reformista” dos “pacatos” representantes do progresso. A Comissão Nacional da Verdade botou a mão em cima de 300 documentos ultrassecretos e de 600 documentos secretos.

Volto a Carlos Fico: entre 1968 e 1973, a CGI analisou 1.153 processos de corrupção: “Mais de 41% dos atingidos eram políticos (prefeitos e parlamentares) e aproximadamente 36% eram
funcionários públicos. Num único ato, em 1973, chegaram ao Sistema CGI cerca de 400 representações ou denúncias”. Fico pergunta:

“Por que, então, fracassou a iniciativa de ‘combate à corrupção’ do regime militar pós-AI-5?”. A resposta é desconcertante: “Em primeiro lugar, a impossibilidade de manter os militares num compartimento estanque, imunes à corrupção, notadamente quando já ocupavam tantos cargos importantes da estrutura administrativa federal. Não terão sido poucos os casos de processos interrompidos por causa da identificação de envolvimento de afiliados ao regime”.

Juremir Machado da Silva, Correio do Povo, 24/05/2013.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

AOS QUE AINDA SABEM SONHAR

O fundamental não é lutar pelo direito de fumar maconha em paz na sala da sua casa. O fundamental não é o direito de andar vestida como uma vadia sem ser agredida por machos boçais que acham que têm esse direito porque você está "disponível". O fundamental não é garantir a opção de um aborto assistido para as mulheres que foram vítimas de estupro ou que correm risco de vida. O fundamental não é impedir que a internação compulsória de usuários de drogas se transforme em ferramenta de uma política de higienismo social e eliminação estética do que enfeia a cidade. O fundamental não é lutar contra a venda da pena de morte e da redução da maioridade penal como soluções finais para a violência. O fundamental não é esculachar os torturadores impunes da ditadura. O fundamental não é garantir aos indígenas remanescentes o direito à demarcação das suas reservas de terras. O fundamental não é o aumento de 20 centavos num transporte público que fica a cada dia mais lotado e precário.

O fundamental é que estamos vivendo uma brutal ofensiva do pensamento conservador, que coloca em risco muitas décadas de conquistas civilizatórias da sociedade brasileira.

O fundamental é que sob o manto protetor do "crescimento com redução das desigualdades" fermenta um modelo social que reproduz – agora em escala socialmente ampliada – o que há de pior na sociedade de consumo, individualista ao extremo, competitiva, ostentatória e sem nenhum espaço para a solidariedade.

O fundamental é que a modesta redução da nossa brutal desigualdade social ainda não veio acompanhada por uma esperada redução da violência e da criminalidade, muito pelo contrário. E não há projeto nacional de combate à violência que fuja do discurso meramente repressivo ou da elegia à truculência policial.

O fundamental é que a democratização do acesso ao ensino básico e à universidade por vezes deixam de ser um instrumento de iluminação e arejamento dos indivíduos e da própria sociedade, e são reduzidos a uma promessa de escada para a ascensão social via títulos e diplomas, ao som de sertanejo universitário.

O fundamental é que os políticos e grandes partidos antigamente ditos "libertários" e "de esquerda" hoje abriram mão de disputar ideologicamente os corações e mentes dos jovens e dos novos "incluídos sociais" e se contentam em garantir a fidelidade dos seus votos nas urnas, a cada dois anos.

O fundamental é que os políticos e grandes partidos antigamente ditos "sociais-democratas" já não tem nada a oferecer à juventude além de um neo-udenismo moralista que flerta desavergonhadamente com o autoritarismo e o fascismo mais desbragados.

O fundamental é que a promessa da militância verde e ecológica vai aos poucos rendendo-se aos balcões de negócio da velha política partidária ou ao marketing politicamente correto das grandes corporações.

O fundamental é que os sindicatos, movimentos populares e organizações estudantis estão entregues a um processo de burocratização, aparelhamento e defesa de interesses paroquiais que os torna refratários a uma participação dinâmica, entusiasmada e libertária.

O fundamental é que temos em São Paulo um governo estadual que é francamente conservador e repressivo, ao lado de um governo federal que é supostamente "progressista de coalizão". Mas entre a causa da liberação da maconha e defesa da internação compulsória, ambos escolhem a internação. Entre as prostitutas e a hipocrisia, ambos ficam com a hipocrisia. Entre os índios e o agronegócio, ambos aliam-se aos ruralistas. Entre a velha imprensa embolorada e a efervescência libertária da Internet, ambos namoram com a velha mídia. Entre o estado laico e os votos da bancada evangélica, ambos contemporizam com o Malafaia. Entre Jean Willys e Feliciano, ambos ficam em cima do muro, calculando quem pode lhes render mais votos.

O fundamental é que o temor covarde em expor à luz os crimes e julgar aqueles agentes de estado que torturaram e mataram durante da ditadura acabou conferindo legitimidade a auto-anistia imposta pelos militares, muitos dos quais hoje se orgulham publicamente dos seus crimes bárbaros – o que nos leva a crer que voltarão a cometê-los se lhes for dada nova oportunidade.

O fundamental é que vivemos numa sociedade que (para usar dois termos anacrônicos) vai ficando cada vez mais bunda-mole e careta. Assustadoramente careta na política, nos costumes e nas liberdades individuais se comparada com os sonhos libertários dos anos 1960, ou mesmo com as esperanças democráticas dos anos 1980. Vivemos uma grande ofensiva do coxismo: conservador nas ideias, conformado no dia-a-dia, revoltadinho no trânsito engarrafado e no teclado do Facebook.

O fundamental é que nenhum grupo político no poder ou fora dele tem hoje qualquer nível mínimo de interlocução com uma parte enorme da molecada – seja nas universidades ou nas periferias – que não se conforma com a falta de perspectivas minimamente interessantes dentro dessa sociedade cada vez mais bundona, careta e medíocre.

Os mesmos indignados que se esgoelam no mundo virtual clamando que a juventude e os estudantes "se levantem" contra o governo e a inação da sociedade, são os primeiros a pedir que a tropa de choque baixe a borracha nos "vagabundos" quando eles fecham a 23 de Maio e atrapalham o deslocamento dos seus SUVs rumo à happy-hour nos Jardins.

Acuados, os políticos "de esquerda" se horrorizam com as cenas de sacos de lixo pegando fogo no meio da rua e se apressam a condenar na TV os atos de "vandalismo", pois morrem de medo que essas fogueiras causem pavor em uma classe média cada vez mais conservadora e isso possa lhes custar preciosos votos na próxima eleição.

Enquanto isso a molecada, no seu saudável inconformismo, vai para as ruas defender – FUNDAMENTALMENTE – o seu direito de sonhar com um mundo diferente. Um mundo onde o ensino, os trens e os ônibus sejam de qualidade e gratuitos para quem deles precisa. Onde os cidadãos tenham autonomia de decidir sobre o que devem e o que não devem fumar ou beber. Onde os índios possam nos mostrar que existem outros modos de vida possíveis nesse planeta, fora da lógica do agribusiness e das safras recordes. Onde crenças e religião sejam assunto de foro íntimo, e não políticas de Estado. Onde cada um possa decidir livremente com quem prefere trepar, casar e compartilhar (ou não) a criação dos filhos. Onde o conceito de Democracia não se resuma à obrigação de digitar meia dúzia de números nas urnas eletrônicas a cada dois anos.

Sempre vai haver quem prefira como modelo de estudante exemplar aquele sujeito valoroso que trabalha na firma das 8 da manhã às 6 da tarde, pega sem reclamar o metrô lotado, encara mais quatro horas de aulas meia-boca numa sala cheia de alunos sonolentos em busca de um canudo de papel, volta para casa dos pais tarde da noite para jantar, dormir e sonhar com um cargo de gerente e um apartamento com varanda gourmet.

Não é meu caso. Não tenho nem sombra de dúvida de que prefiro esses inconformados que atrapalham o trânsito e jogam pedra na polícia. Ainda que eles nos pareçam filhinhos-de-papai, ingênuos em seus sonhos, utópicos em suas propostas, politicamente manobráveis em suas reivindicações, irresponsavelmente seduzidos pelos provocadores de sempre.

Desde a Antiguidade, esses jovens ingênuos e irresponsáveis são o sal da terra, a luz do sol que impede que a humanidade apodreça no bolor da mediocridade, na inércia do conformismo, na falta de sentido do consumismo ostentatório, nas milenares pilantragens travestidas de iluminação espiritual.

Esses moleques que tomam as ruas e dão a cara para bater incomodam porque quebram vidros, depredam ônibus e paralisam o trânsito. Mas incomodam muito mais porque nos obrigam a olhar para dentro das nossas próprias vidas e, nessa hora, descobrimos que desaprendemos a sonhar.

(Andre Borges Lopes, publicado no Blog do Nassif)

Algumas cenas e combinações preocupantes

O povo organizado nas ruas lutando por seus direitos é fundamental para o avanço da democracia. Mas há algumas combinações e cenas preocupantes. Não resumem o que está acontecendo, mas sugerem, no mínimo, alguma prudência: discursos generalizados contra “a política” e os partidos, tentativas de colocar fogo em parlamento (como ocorreu no Rio), depredação de prédios, ônibus e telefones públicos (como ocorreu em Porto Alegre), elogio da ausência de direção política. Mesmo que seja uma minoria a atacar parlamentos e sedes de governos, se a maioria recusa a política e os partidos, o que sobra, afinal de contas? A violência da polícia sempre é esperada. Excluindo-se a hipótese de querer enfrentar a violência da polícia com mais violência, só resta a via da política. E esses protestos podem ser uma grande oportunidade para debater o papel e a continuidade das polícias militares no Brasil. Mas, para isso, é preciso dar outros passos.

As redes sociais são ferramentas de mobilização e articulação, mas não são substitutos de programas e de organização política. Podem dar origem a grandes manifestações e o que mais? O culto da horizontalidade, esvaziado de política, com multidões nas ruas, leva para onde exatamente?

A solução para a chamada crise da representação política, para a violência da polícia, para o alto custo e baixa qualidade do transporte público, para o custo das obras da Copa é extinguir os partidos e tocar fogo nos parlamentos e nos políticos? Obviamente esse não é o objetivo da imensa maioria dos protestos, mas os ataques, mais ou menos agressivos, contra sedes de governos e de parlamentos ocorreram com uma frequência que recomenda no mínimo um pouco de atenção. Foram uma minoria? Foram. Mas, às vezes, minorias enlouquecidas podem deslegitimar o movimento da maioria.

Multidão nas ruas, sem direção, sem agenda definida, com elogio do espontaneísmo e discurso contra a política, contra partidos, contra “tudo isso que está aí” e que deixa uma minoria violenta assumir protagonismo, que não hesita em colocar fogo em ônibus de transporte coletivo?  Qual é o próximo passo, exatamente? Uma nova manifestação. E depois? Outra manifestação… E aí? Tomar o poder? Ou mudar o Brasil e o mundo sem tomar o poder? Sem política, fica difícil. Mas, enfim, apenas um exercício de advogado do diabo que não tira a legitimidade e o valor do que vem ocorrendo nos últimos dias no país.
(Marco Weissheimer, editor da Carta Maior e do blog RS Urgente]

Sobre o que dizem as ruas

A forma menos adequada de buscarmos a compreensão de um fenômeno social complexo é a simplificação. Não encontraremos uma única motivação para os recentes protestos que se espalharam pelas principais cidades do país, se o procurarmos. Temos questões mais gerais e universais ao lado de outros muitos temas locais e setoriais. Há aspectos que aproximam os manifestantes de São Paulo aos do Rio e de Porto alegre e, outros tantos, que os distanciam. O papel da internet e das redes sociais é central e, em geral, os políticos e formadores de opinião não o tem compreendido minimamente. Buscar algum grau de compreensão do atual fenômeno, a partir do ponto de vista de uma esquerda que se coloca diante do dificílimo desafio de governar transformando, é o objetivo desse breve artigo. 

O que se pode dizer preliminarmente é que estamos diante de uma expressão política do novo Brasil. A revolução democrática, levada a termo pelos governos Lula, redefiniu a estrutura de classes da sociedade brasileira, incluiu milhões de brasileiros à sociedade de consumo e possibilitou a emergência de novas expressões culturais e políticas. Mas o inédito processo de inclusão social e econômica ainda é imperfeito, inconcluso e contraditório. As dinâmicas políticas decorrentes do processo massivo de inclusão social em curso ainda são imprevisíveis, mas algumas pistas são visíveis e exigem da esquerda brasileira uma reflexão mais adensada.

As conquistas sociais dos últimos anos vieram acompanhadas da despolitização da política, de uma onda conservadora que constrange o Congresso Nacional e paralisa os partidos de esquerda, distanciando, ainda mais, a juventude da política tradicional. Lembremos que, recentemente, tivemos manifestações espontâneas, em todo o país, contra a indicação de Marcos Feliciano à Comissão de Direitos Humanos do Congresso Nacional. Na oportunidade, nenhum manifestante propunha o fechamento do Congresso ou a criminalização dos políticos. E o que fez nosso Parlamento enquanto Instituição? Nada. Esperou solenemente o movimento se dispersar. Frente à onda conservadora que estimula a homofobia, o racismo e a violência sexista, o que têm feito os partidos políticos? Os ruralistas de sempre se organizam no Congresso Nacional para anular os direitos dos indígenas e o que dizem nossos parlamentares progressistas?

Os dez anos de governo de esquerda no país nos deixam um legado de grandes conquistas, entretanto, há incerteza e imprecisão quanto aos próximos passos. Demandas históricas não atendidas carecem de respostas mais amplas. Além disso, novas questões sempre se impõem num cenário de conquistas sociais e políticas.  Pois, se é verdade que os governos do PT incluíram milhões e possibilitaram acesso a inúmeros serviços antes inacessíveis, também é verdade que temos, em diversas áreas, serviços de baixa qualidade e, fundamentalmente, caros. O transporte nas grandes cidades é um drama cotidiano para milhões de brasileiros. Temos pleno emprego em diversas regiões metropolitanas do país e, no entanto, ainda temos um oceano de precariedade e informalidade. E aqueles que ingressaram na sociedade de consumo nos últimos anos, legitimamente, querem mais: anseiam por cultura, lazer, mais e melhores serviços, educação de qualidade, saúde, segurança e transportes. São os efeitos colaterais de toda experiência exitosa de redução das desigualdades sociais e econômicas.

Evidentemente, há ainda o afastamento e o desencantamento com a política e os políticos. A denominada “crise da representação” não é um conceito acadêmico abstrato. O déficit de democracia e de legitimidade das Instituições políticas coloca em xeque a capacidade dos atuais representantes em absorver e compreender as novas dinâmicas sociais e políticas que se expressam nas ruas do país. Nossa jovem democracia corre o risco de caducar precocemente, caso não tenhamos êxito em ressignificá-la e reaproximá-la dos setores sociais mais dinâmicos.

Essas seriam algumas das questões mais gerais que aproximam os movimentos do Sul, sudeste e nordeste. Mas há ainda temas locais que incidem sobre dinâmicas especificas e mobilizam pessoas a partir de questões mais sensíveis a partir de sua vivência concreta nos territórios.

O Rio de Janeiro, por exemplo, se tornou uma das cidades mais caras do mundo. Há uma reorganização em grande escala do espaço urbano e há setores sociais que se sentem completamente alheios (e marginalizados) ao processo de “modernização” da cidade. Em São Paulo, temos uma polícia orientada para o uso desmedido e desproporcional da força e da violência – e isso não diz respeito somente aos dias de protestos. Também há ali um tipo de violência estrutural contra homossexuais e mulheres sem que o Poder Público organize qualquer resposta mais contundente. Poderíamos estender a lista. 

Por fim, cumpre registrar que seria recomendável aos dirigentes políticos do campo progressista afastar o risco de reproduzir aqui os erros da esquerda espanhola que, inicialmente, criminalizou o 15-M e terminou falando sozinha nas últimas eleições. Também seria recomendável não outorgar, de forma alguma, às elites brasileiras uma capacidade de mobilização que ela não possui e jamais possuirá. Refutar a idéia de que os jovens estão nas ruas em função da mídia ou de qualquer tipo de conspiração das “elites” é o primeiro passo para não cair em um erro elementar que seria bloquear qualquer possibilidade de dialogo com esses novos movimentos. 

Melhor acreditar que é possível extrair do atual momento elementos para a renovação da agenda da esquerda brasileira e reforçar os laços que unem os governos progressistas da América Latina a todas as lutas contra as diversas formas de privatização da vida. É hora de reforçarmos nossa capacidade de dialogo, de escuta, e ouvir a voz nada rouca das ruas – a mesma que nossos adversários sempre buscaram silenciar. Estamos diante de uma oportunidade singular para renovarmos nossos discursos e nossas práticas, projetando o próximo passo da Revolução Democrática no Brasil com base na força sempre renovadora das mobilizações da juventude.

(Vinicius Wu, Secretário Geral do Governo Tarso)

O GRANDE LADRÃO

Tem que protestar... mas tem que estar ligado. Pra não virar massa de manobra, bucha de canhão.

Contra quem você está protestando? Ontem, ouvi uma menina dizer: “tem que tirar este partido do poder”! Perguntei: quê partido? Ela titubeou por alguns segundos e concluiu: “todos os partidos”.

Entendi. O objetivo é apear “este” partido do poder e, em seguida, deixar um vazio... Nenhuma proposta. 

Desculpa te dizer, menina: não existe vazio de poder. Cai um, sobe outro... pode não ter propostas, mas tem interesses... e como tem!

Então, te liga. Taí a grande mídia fazendo seu trabalho, martelando na cabeça de todos que o Brasil virou uma gandaia e que nada presta. Mas “nada” não chega ao poder.

Então, minha maninha, você vai ao protesto contra o “grande ladrão”? Pois é, mas eu pensei que você pensasse que o “grande ladrão” é o sistema financeiro... mas, não, você acha que é o governo.

Sabe? O Lula e a Dilma conseguiram reduzir os juros que o governo e o povo pagam aos bancos e sangram este país desde o tempo da ditadura militar. Sabe?... os bancos... aqueles que são os grandes anunciantes da televisão, das revistas e jornais da grande mídia...

Só com o que o governo brasileiro deixou de pagar aos bancos na forma destes juros ainda extorsivos que eles nos sugam todos os dias, o Lula e a Dilma tiraram milhões de brasileiros da miséria absoluta; evitaram que o Brasil caísse na crise que está demolindo a economia e a estrutura social da Europa; recuperou a Petrobrás; recuperou a indústria naval; abriu a oportunidade de ensino universitário para milhões de jovens brasileiros...

E, enquanto isto, a grande mídia desonesta martela duas coisas em tua cabeça honesta: 1) o governo é ladrão... e 2) tem que aumentar os juros.

Aliás, isto não é novo. Você já ouviu falar de Getúlio Vargas? Foi presidente do Brasil. Quando governou, criou leis sociais e promoveu distribuição de renda. Tirou dinheiro não sei da onde e investiu em escolas, hospitais, industrialização do Brasil... E sabe o quê a grande mídia dizia dele? Pois é... que ele era o “grande ladrão”... o corrupto.

Então, te liga, tá? Tem uma lista correndo por aí, mostrando os políticos que foram condenados por corrupção nos últimos tempos, com seus respectivos partidos... Não é difícil de conseguir, postei ela ontem no meu perfil. Dá uma olhadinha. É muito extensa, mas vale a pena. Só que... interessante... o que menos tem lá é gente do partido que você acha que tem que tirar do poder. O quê mais tem é dos outros, aqueles que não conseguem mais ganhar eleição.

Eu sei, eu entendi: você é contra todos os partidos, mas estes que estão aí na listinha não estão muito preocupados com isto. Eles estão é loucos pra ocupar o vazio de poder que você está pensando em provocar.

Pois é! Me diz uma coisa, você já ouviu falar de alguma proposta de reforma política que possa diminuir a corrupão no Brasil.

Não? Claro, a grande mídia não divulga. 

É, mas existe uma proposta muito interessante – estranho que a grande mídia não divulgue, né? A proposta é que as campanhas eleitorais não possam mais ter financiamento privado. Nem banco, nem empreiteira custearia as campanhas eleitorais, que hoje custam milhões e milhões de Reais.

Claro, você sabe, os bancos e as empreiteiras são muito bonzinhos... eles pensam muito no futuro da nação e, por isto, investem estes milhões todos nas campanhas eleitorais, para eleger gente que pensa no futuro da nação, sabe?

Falando nisto: você acredita em Papai Noel? E no Coelhinho da Páscoa?

Ah... esqueci de perguntar: você sabe qual é o partido que quer vedar o financiamento privado das campanhas eleitorais?

Não? Procura te informar então.

Acordá, tá? Bom dia.

(Carlos Mosmann)

PRECISAMOS OUVIR A VOZ DAS RUAS

"O Brasil hoje acordou mais forte. A grandeza das manifestações de ontem comprovam a energia da nossa democracia. A força da voz da rua e o civismo da nossa população. É bom ver tantos jovens e adultos – o neto, o pai, o avô – juntos com a bandeira do Brasil, cantando o hino nacional e dizendo com orgulho ‘eu sou brasileiro’ e defendendo um país melhor. O Brasil tem orgulho deles. Devemos louvar o carácter pacífico dos atos de ontem. O carácter pacífico dos atos de ontem evidenciou também o correto tratamento dado pela Segurança Pública para a livre manifestação popular, convivendo pacificamente. Infelizmente, porém, é verdade, aconteceram atos minoritários de violência contra pessoas, contra o patrimônio público e privado, que devemos condenar e coibir com rigor. Sabemos, governo e sociedade, que toda a violência é destrutiva, lamentável e só gera mais violência. Não podemos aceitar jamais conviver com ela.

Isso, no entanto, não ofusca o espírito pacífico das pessoas democraticamente pedindo pelos seus direitos. Essas vozes das ruas precisam ser ouvidas. Elas ultrapassam, e ficou visível isso, os mecanismos tradicionais das instituições, dos partidos políticos, das entidades de classe e da própria mídia. Os que foram ontem às ruas deram uma mensagem direta ao conjunto da sociedade, sobretudo aos governantes de todas as instâncias. Essa mensagem direta das ruas é por mais cidadania, por melhores escolas, melhores hospitais, postos de saúde, pelo direito à participação. Essa mensagem direta das ruas mostra a exigência de transporte público de qualidade e a preço justo. Essa mensagem direta das ruas é pelo direito de influir nas decisões de todos os governos, do Legislativo e do Judiciário. Essa mensagem direta das ruas é de repúdio à corrupção e ao uso indevido do dinheiro público. Essa mensagem direta das ruas comprova o valor intrínseco da democracia, da participação dos cidadãos em busca de seus direitos. E eu queria dizer aos senhores, a minha geração sabe o quanto isso nos custou.

Eu vi ontem um cartaz muito interessante que dizia 'DESCULPE O TRANSTORNO, ESTAMOS MUDANDO O PAÍS!'. Eu quero dizer que o meu governo está ouvindo essas vozes pela mudança. O meu governo está empenhado e comprometido com a transformação social. A começar pela elevação de 40 milhões de pessoa à classe média, com o fim da miséria. O meu governo, que quer ampliar o acesso à educação e à saúde, compreende que as exigências da população mudam. Mudam quando nós mudamos também o Brasil, porque incluímos, porque elevamos a renda, porque ampliamos o acesso ao emprego, porque demos acesso a mais pessoas à educação. Surgiram cidadãos que querem mais e que tem direito a mais. Sim, todos nós estamos diante de novos desafios. Quem foi ontem às ruas querem mais. As vozes das ruas querem mais cidadania, mais saúde, mais educação, mais transporte, mais oportunidades. Eu quero aqui garantir a vocês que o meu governo também quer mais, e que nós vamos conseguir mais para o nosso país e para o nosso povo."
 

(Dilma Rousseff, presidente do Brasil, 18/06/2013)

Jovens nas ruas

Criticavam os jovens por só quererem jogar videogames e namorar nos shopping centers. Os mais velhos e politizados recorriam a uma palavra pré-histórica para chicotear essa juventude conformista: alienação. Os jovens estão nas ruas. Enfrentaram o aumento das passagens de ônibus em Porto Alegre, Goiânia e São Paulo. Foram combatidos violentamente pelas forças progressistas da ordem. Receberam duras e contraditórias críticas: desordeiros, manipulados por partidos políticos, militantes radicalizados e irresponsáveis. Escrevo este texto depois de ter lido sobre a morte de Pierre Mauroy, o primeiro a ocupar o cargo de primeiro-ministro num governo socialista na França, em 1981, na Presidência de Mitterrand. Pierre e François queriam “mudar a vida”.

Os jovens brasileiros que, com alguns exageros típicos das manifestações de massa, incomodam governos municipais de esquerda, como em São Paulo, também querem mudar a vida. Mauroy desejava colocar mais azul no céu. Era um tempo em que ainda não se falava em fim da história nem em decadência das utopias. Em 1984, ele pediu demissão. O socialismo francês encolheu, o comunismo do Leste europeu bateu as botas sem deixar saudades, o neoliberalismo teve os seus dias de glória e capotou com a crise de 2008. Os jovens saíram dos centros comerciais, das redes sociais e dos games para defender um pouco mais de azul nos céus das pátrias.

Um jovem que não experimenta sair às ruas para tentar mudar o mundo, ainda que modestamente, perde um pouco do que o mundo lhe reserva como experiência existencial. Não deixa de ser divertido ver a Polícia de São Paulo, em defesa do prefeito mauricinho Fernando Haddad, poste de Lula, baixar o pau para tirar das ruas uma juventude incômoda e excessivamente politizada. Os jovens estão cansados de gente de meia idade ou idade avançada com bom senso desmedido. É em nome da sensatez que se quer tomar as terras dos índios em Mato Grosso do Sul, trocar árvores por asfalto em Porto Alegre, espancar manifestantes por toda parte e não perturbar a paz dos torturadores do regime militar com as investigações da Comissão da Verdade. Só a insensatez dos jovens salva.

O excesso de sensatez é o mal de Alzheimer dos políticos e dos empresários preocupados exclusivamente com a saúde dos negócios. Os jovens de hoje são tão maravilhosamente insensatos
que praticam a infidelidade partidária. Colocam as suas causas e convicções acima dos partidos. A fila anda. A irresponsabilidade dessa juventude é tamanha que eles exigem saber quanto lucram as empresas de ônibus que lhes prestam os maus serviços de todo dia. A inconsequência desses jovens é tanta que colocam a defesa do meio ambiente acima dos interesses do desenvolvimento econômico e não se impressionam facilmente com o argumento prêt-à-porter da criação de empregos. Querem provas, números, demonstrações, dados.

Definitivamente, essa galera das redes sociais é muito perigosa. Quer botar mais azul no céu dos negócios. Por falta de experiência, acha que se pode mudar a vida. Por insensatez, entendo que o interesse público é maior.

Juremir Machado da Silva, Correio do Povo, 10/06/2013.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Exageros e regularidade de travessuras podem sinalizar distúrbios nas crianças

Para identificar se um comportamento é típico ou extrapola o adequado, é importante ficar de olho em como os pequenos brincam

05/06/2013 | 08h03

Dennis, o Pimentinha e o Menino Maluquinho são personagens que encantaram adultos e crianças durante os anos de 1980 e de 1990 principalmente pelas peraltices. Guardadas as devidas proporções, os discípulos desse garotinhos existem e costumam deixar os pais e mães sem saber o que fazer.

Especialistas alertam que é comum as travessuras dos filhos surpreenderem os adultos, mas eles precisam ficar atentos a sinais que indiquem a existência de um transtorno comportamental. A psicanalista infantil e professora da Universidade de Brasília (UnB) Maria Izabel Tafuri explica que as brincadeiras são imprescindíveis, pois "ajudam a criança a desenvolver a capacidade de atenção e a estimular a imaginação". Para identificar se um comportamento é típico ou extrapola o adequado, é importante ficar de olho em como os pequenos brincam:

— Eles precisam se divertir sozinhos e com outras crianças e devem ser assistidos durante esse período para que se perceba se existe um comportamento problemático.

Psicóloga e analista do comportamento, Maria Martha Hübner ressalta que algumas atitudes dos pais podem estimular o mau comportamento dos filhos. O que acontece é que muitas vezes os adultos dão mais ênfase aos erros da criança e deixam de valorizar o que ela faz de bom. Em outros casos, dão mais atenção para um filho do que para outro, o que pode gerar a necessidade de chamar a atenção pelas travessuras.

— Quando a criança faz algo errado, é melhor falar para ela parar e ter uma conversa rápida, explicando por que o comportamento não deve ser repetido. Dar muitos sermões e aplicar punições pode não ser eficiente — aconselha.

Segundo a psicóloga, é preciso avaliar o cenário em que o erro ou o excesso é cometido pela criança. A separação dos pais também costuma ser um período de comportamentos exagerados. Raros, os transtornos de conduta costumam ser resultado de excessos praticados inicialmente pelos pais, segundo Maria Martha. Uma criança com transtorno desafiador opositor (TDO) — quando é excessivamente respondona e reage negativamente aos estímulos — poder ter desenvolvido o problema em razão do exagero de ordens dadas pelos pais.

— Existem estudos que mostram que alguns pais e mães chegam a dar mais de mil ordens por dia aos filhos — diz a psicóloga.
Na opinião de Maria Martha, a escola exerce um papel importante no desenvolvimento infantil, porém, precisa melhorar no que diz respeito à aplicação de políticas mais inclusivas.

— Quando a criança não se comporta como deveria, a maioria das escolas ainda entende que ela tem um problema e pronto, sendo que seria melhor acolher o aluno — critica.

Para ela, é mais efetivo conversar e estabelecer uma interação mais próxima com a família para descobrir o que está causando um comportamento atípico. Esse é o caso do Instituto Natural de Desenvolvimento Infantil (INDI), que atua dentro da proposta de inclusão.

— Trabalhamos com a qualificação das relações humanas e tentamos ajudar a criança a entender seus sentimentos e saber expressá-los. A escola inclusiva tenta também respeitar as caraterísticas de cada aluno e ajudá-lo a se desenvolver dentro de suas condições — explica a diretora, Júlia Chaves.

O que fazer

O tratamento oferecido pela psicanálise baseia-se na procura pelos estímulos que causam os comportamentos inadequados. A intenção é analisar os momentos críticos da vida da criança e descobrir o que estimula o comportamento. De acordo com a psicóloga Maria Izabel Tafuri, não adianta tentar resolver o problema por meio da medicação. É importante investir na terapia familiar. Os remédios, como a Ritalina, têm sido indicados às crianças de forma abusiva, observa Tafuri.

Fique de olho

Confira quais são os principais transtornos infantis diagnosticados por especialistas:

Hiperatividade

— O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) tem maior incidência na infância e na adolescência — é presente em cerca de 5% da população em idade escolar. Os principais sintomas são dificuldade em manter o foco de atenção e/ou manter-se quieto.

Ansiedade de separação

 — Ansiedade excessiva envolvendo o afastamento de casa ou dos pais. A criança acha que vai se perder e tem medo de nunca mais ver os pais.

Falta de limites

 — É o transtorno desafiador opositor (TDO), que tem padrão persistente de comportamentos desafiadores e hostis. Os pequenos são bastante respondões e costumar dizer não a pedidos e estímulos feitos pelos adultos.