sexta-feira, 29 de março de 2013

Presidenta, crie corvos e eles bicarão teus olhos


27/03/13 | 22h - Por Maria Luiza Tonelli


O Brasil teve a mais longa ditadura da América Latina: 21 anos. Passamos por um período de redemocratização iniciado em 1985 e, finalmente, em 1988, com a Constituição chamada por Ulysses Guimarães de constituição cidadã, entramos efetivamente num sistema político de democracia, sob o Estado Democrático de Direito. Nossa democracia ainda é muito jovem, considerando que pela primeira vez o Brasil desfruta de um período de democracia ininterrupta, sem golpes no meio do caminho.

Às vésperas de completar 49 anos do golpe militar que contou com o apoio das classes privilegiadas, da imprensa, de intelectuais de direita, de grande parte da classe média brasileira e dos EUA, ainda estamos longe de viver numa verdadeira democracia em termos de efetiva igualdade de todos perante a lei e do respeito à dignidade humana, corolário da nossa Constituição.

O Brasil é um país constitucionalista, ou seja, um Estado no qual ninguém está acima da lei, nem governantes nem governados. Significa que nenhuma lei pode estar em contradição com a Constituição, bem como a nenhum cidadão ou grupo de indivíduos cabe, sob qualquer pretexto, agir de modo tal que contrarie o que diz nossa Lei Maior, mesmo quando percebemos que há colisão entre direitos.

Isso quer dizer que nenhum direito é absoluto. O direito à liberdade de expressão não é absoluto a ponto de violar o direito à imagem, à privacidade e à dignidade humana. Mesmo quando se trata de figuras públicas, o direito mínimo à privacidade deve ser garantido. Estar na condição de agente público não exclui direitos fundamentais e direitos humanos do político como indivíduo e como cidadão.

De modo simplificado, o que podemos dizer sobre a dignidade humana é que todo ser humano deve ser tratado como um fim em si mesmo, não como um meio, segundo a fórmula kantiana.

A dignidade humana é um valor intrínseco ao ser humano, um direito constitucional a ser respeitado e um direito humano que tem como pressuposto o fato de que, por sermos humanos,  todas as pessoas devem ser tratadas com igual respeito.

Trata-se de um valor supremo. Direitos humanos são universais, para todos, pelo simples fato de fazermos parte da espécie humana. É uma conquista da civilização o direito de não ser tratado de forma humilhante e degradante. O direito a não sofrer tratamento cruel, física ou psicologicamente. Mesmo um prisioneiro, pelo simples fato de pertencer à espécie humana, deve receber tratamento digno de modo a ter preservada a sua integridade física e mental.

Foi durante os 21 anos de estado de exceção que surgiram e fortaleceram-se, em termos econômicos e políticos, os grandes meios de comunicação hegemônicos deste país. Mesmo que a Constituição Federal vede o monopólio dos meios de comunicação, apenas seis famílias dominam a chamada grande mídia, concentrada fundamentalmente no eixo Rio-São Paulo.

Além disso, foi durante o período da ditadura que concessões de rádio e TV foram distribuídas para políticos que apoiavam o regime militar. Como verdadeiros latifúndios eletrônicos, através de rádios e TVs pelo Brasil afora, principalmente no Nordeste do Brasil, políticos perpetuam-se no poder, que é passado de pai para filho. Temos então num país de dimensões continentais uma grande mídia nas mãos de seis famílias e seus tentáculos nos estados da federação.

Isso, tudo junto e misturado, significa que quando a mídia se assume oposicionista ela atua fora dos marcos do parlamento, uma vez que além de atuar como porta voz dos partidos de oposição, também se constitui num verdadeiro partido político na defesa de seus interesses e de sua ideologia. Uma mídia que se arvora em ser representante dos interesses da sociedade, como se fosse um quarto poder na república.

Não é por acaso que os donos dos meios de comunicação querem nos fazer crer que regulação da mídia é sinônimo de censura. Não admitem a democratização dos meios de comunicação porque querem manter o monopólio a fim de conservar o poder político e aumentar cada vez mais  sua força econômica. Vale lembrar sempre que os meios de comunicação privados são empresas comerciais; logo, regidas pela lógica do mercado, embora apregoem que atuam na defesa da democracia, em nome da liberdade de expressão e de imprensa. Liberdade de imprensa não é sinônimo de liberdade de expressão. Além disso, devemos nos lembrar que empresas de comunicação são concessões públicas que, portanto, estão sujeitas a regras e normas constitucionais.

A longa preleção acima presta-se, principalmente, a uma questão: pode um meio de comunicação, em nome da liberdade de expressão e de imprensa, através de um programa pretensamente humorístico, expor uma pessoa a um tratamento humilhante, degradante, aviltante, em nome da liberdade de expressão e de imprensa, como fez o CQC com o deputado José Genoíno, sem considerar que se trata de um ser humano com direitos a serem respeitados? Uma mídia que hipocritamente fala tanto em moral e valoriza tanto os “valores da família” não considera que José Genoíno também tem uma família que sofre com tamanho linchamento moral?

Estamos às vésperas de completar 49 anos de um golpe militar que nos impôs 21 anos de ditadura, quando muitos foram mortos, outros perseguidos, presos, torturados barbaramente, simplesmente porque lutavam contra o regime de exceção e defendiam a democracia que nos foi solapada quando um presidente legitimamente empossado no cargo foi deposto pelos militares, saudados pela imprensa em seus editoriais no dia seguinte ao golpe.

José Genoíno, preso e torturado, foi um dos que teve a coragem de lutar contra a ditadura. Pelo mesmo motivo foi perseguida, presa e torturada a mulher que hoje preside este país. Genoíno, hoje achincalhado, é torturado psicologicamente pela mesma mídia que agora defende a democracia.

A presidenta Dilma já disse várias vezes que prefere o barulho da mídia na democracia do que o silêncio da ditadura. Nós não queremos o barulho de uma mídia que não respeita a Constituição nem os direitos humanos, pois no Estado Democrático de Direito ninguém está acima da lei. O que queremos é o barulho da democracia com uma comunicação democratizada. Direitos quando são para poucos já não são direitos, mas privilégios.

A democracia foi inventada pelos gregos há quase dois mil e quinhentos anos como o regime da palavra e assim continua sendo.  Quando a comunicação está nas mãos de poucos não é apenas o direito humano e constitucional ao uso da palavra de todos que está sob ameaça, é a democracia que está em perigo.

Para quem sofreu na alma e na própria carne os horrores da ditadura, como a presidenta Dilma, é compreensível e louvável que defenda a total liberdade de expressão e a liberdade de imprensa. Mas isso não é condição suficiente para que tenhamos uma verdadeira democracia. Sabemos muito bem a quem interessa e o que favorece a desregulamentação da mídia neste país.

A presidenta Dilma deve saber o significado do adágio popular espanhol cria cuervos que te sacarán los ojos.

Maria Luiza Tonelli é advogada, Mestre e Doutoranda em Filosofia pela USP
http://www.sul21.com.br/jornal/2013/03/presidenta-crie-corvos-e-eles-bicarao-teus-olhos/

quinta-feira, 7 de março de 2013

50 verdades sobre Hugo Chávez e a Revolução Bolivariana


Razões pelas quais o chefe de Estado venezuelano marcou para sempre a história da América Latina

O presidente Hugo Chávez, que faleceu no dia 5 de março de 2013, vítima de câncer, aos 58 anos, marcou para sempre a história da Venezuela e da América Latina.

1. Jamais, na história da América Latina, um líder político alcançou uma legitimidade democrática tão incontestável. Desde sua chegada ao poder em 1999, houve 16 eleições na Venezuela. Hugo Chávez ganhou 15, entre as quais a última, no dia 7 de outubro de 2012. Sempre derrotou seus rivais com uma diferença de 10 a 20 pontos percentuais.

2. Todas as instâncias internacionais, desde a União Europeia até a Organização dos Estados Americanos, passando pela União de Nações Sul-Americanas e pelo Centro Carter, mostraram-se unânimes ao reconhecer a transparência das eleições.

3. Jimmy Carter, ex-presidente dos Estados Unidos, inclusive declarou que o sistema eleitoral da Venezuela era “o melhor do mundo”.

4. A universalização do acesso à educação, implementada em 1998, teve resultados excepcionais. Cerca de 1,5 milhão de venezuelanos aprenderam a ler e a escrever graças à campanha de alfabetização denominada Missão Robinson I.

5. Em dezembro de 2005, a Unesco decretou que o analfabetismo na Venezuela havia sido erradicado.

6. O número de crianças na escola passou de 6 milhões em 1998 para 13 milhões em 2011, e a taxa de escolarização agora é de 93,2%.

7. A Missão Robinson II foi lançada para levar a população a alcançar o nível secundário. Assim, a taxa de escolarização no ensino secundário passou de 53,6% em 2000 para 73,3% em 2011.

8. As Missões Ribas e Sucre permitiram que dezenas de milhares de jovens adultos chegassem ao Ensino Superior. Assim, o número de estudantes passou de 895.000 em 2000 para 2,3 milhões em 2011, com a criação de novas universidades.

9. Em relação à saúde, foi criado o Sistema Nacional Público para garantir o acesso gratuito à atenção médica para todos os venezuelanos. Entre 2005 e 2012, foram criados 7.873 centros médicos na Venezuela.

10. O número de médicos passou de 20 por 100 mil habitantes, em 1999, para 80 em 2010, ou seja, um aumento de 400%.

11. A Missão Bairro Adentro I permitiu a realização de 534 milhões de consultas médicas. Cerca de 17 milhões de pessoas puderam ser atendidas, enquanto que, em 1998, menos de 3 milhões de pessoas tinham acesso regular à saúde. Foram salvas 1,7 milhão de vidas entre 2003 e 2011.

12. A taxa de mortalidade infantil passou de 19,1 a cada mil, em 1999, para 10 a cada mil em 2012, ou seja, uma redução de 49%.

13. A expectativa de vida passou de 72,2 anos em 1999 para 74,3 anos em 2011.

14. Graças à Operação Milagre, lançada em 2004, 1,5 milhão de venezuelanos vítimas de catarata ou outras enfermidades oculares recuperaram a visão.

15.  De 1999 a 2011, a taxa de pobreza passou de 42,8% para 26,5%, e a taxa de extrema pobreza passou de 16,6% em 1999 para 7% em 2011.

16. Na classificação do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), a Venezuela passou do posto 83 no ano 2000 (0,656) ao 73° lugar em 2011 (0,735), e entrou na categoria das nações com o IDH elevado.

17. O coeficiente Gini, que permite calcular a desigualdade em um país, passou de 0,46 em 1999 para 0,39 em 2011.

18. Segundo o PNUD, a Venezuela ostenta o coeficiente Gini mais baixo da América Latina, e é o país da região onde há menos desigualdade.

19. A taxa de desnutrição infantil reduziu 40% desde 1999.

20. Em 1999, 82% da população tinha acesso a água potável. Agora, são 95%.

21. Durante a presidência de Chávez, os gastos sociais aumentaram 60,6%.

22. Antes de 1999, apenas 387 mil idosos recebiam aposentadoria. Agora são 2,1 milhões.

23. Desde 1999, foram construídas 700 mil moradias na Venezuela.

24. Desde 1999, o governo entregou mais de um milhão de hectares de terras aos povos originários do país.

25. A reforma agrária permitiu que dezenas de milhares de agricultores fossem donos de suas terras. No total, foram distribuídos mais de 3 milhões de hectares.
 
26. Em 1999, a Venezuela produzia 51% dos alimentos que consumia. Em 2012, a produção é de 71%, enquanto que o consumo de alimentos aumentou 81% desde 1999. Se o consumo em 2012 fosse semelhante ao de 1999, a Venezuela produziria 140% dos alimentos consumidos em nível nacional.

27. Desde 1999, a taxa de calorias consumidas pelos venezuelanos aumentou 50%, graças à Missão Alimentação, que criou uma cadeia de distribuição de 22.000 mercados de alimentos (MERCAL, Casa da Alimentação, Rede PDVAL), onde os produtos são subsidiados, em média, 30%. O consumo de carne aumentou 75% desde 1999.

28. Cinco milhões de crianças agora recebem alimentação gratuita por meio do Programa de Alimentação Escolar. Em 1999, eram 250 mil.

29. A taxa de desnutrição passou de 21% em 1998 para menos de 3% em 2012.

30. Segundo a FAO, a Venezuela é o país da América Latina e do Caribe mais avançado na erradicação da fome.

31. A nacionalização da empresa de petróleo PDVSA, em 2003, permitiu que a Venezuela recuperasse sua soberania energética.

32. A nacionalização dos setores elétricos e de telecomunicação (CANTV e Eletricidade de Caracas) permitiu pôr fim a situações de monopólio e universalizar o acesso a esses serviços.

33. Desde 1999, foram criadas mais de 50.000 cooperativas em todos os setores da economia.

34. A taxa de desemprego passou de 15,2% em 1998 para 6,4% em 2012, com a criação de mais de 4 milhões de postos de trabalho.

35. O salário mínimo passou de 100 bolívares (16 dólares) em 1998 para 247,52 bolívares (330 dólares) em 2012, ou seja, um aumento de mais de 2.000%. Trata-se do salário mínimo mais elevado da América Latina.

36. Em 1999, 65% da população economicamente ativa recebia um salário mínimo. Em 2012, apenas 21,1% dos trabalhadores têm este nível salarial.

37. Os adultos com certa idade que nunca trabalharam dispõem de uma renda de proteção equivalente a 60% do salário mínimo.

38. As mulheres desprotegidas, assim como as pessoas incapazes, recebem uma ajuda equivalente a 70% do salário mínimo.

39. A jornada de trabalho foi reduzida a 6 horas diárias e a 36 horas semanais sem diminuição do salário.

40. A dívida pública passou de 45% do PIB em 1998 a 20% em 2011. A Venezuela se retirou do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, pagando antecipadamente todas as suas dívidas.

41. Em 2012, a taxa de crescimento da Venezuela foi de 5,5%, uma das mais elevadas do mundo.

42. O PIB por habitante passou de 4.100 dólares em 1999 para 10.810 dólares em 2011.

43. Segundo o relatório anual World Happiness de 2012, a Venezuela é o segundo país mais feliz da América Latina, atrás da Costa Rica, e o 19° em nível mundial, à frente da Espanha e da Alemanha.

44. A Venezuela oferece um apoio direto ao continente americano mais alto que os Estados Unidos. Em 2007, Chávez ofereceu mais de 8,8 bilhões de dólares em doações, financiamentos e ajuda energética, contra apenas 3 bilhões da administração Bush.

45. Pela primeira vez em sua história, a Venezuela dispõe de seus próprios satélites (Bolívar e Miranda) e é agora soberana no campo da tecnologia espacial. Há internet e telecomunicações em todo o território.

46. A criação da Petrocaribe, em 2005, permitiu que 18 países da América Latina e do Caribe, ou seja, 90 milhões de pessoas, adquirissem petróleo subsidiado em cerca de 40% a 60%, assegurando seu abastecimento energético.

47. A Venezuela também oferece ajuda às comunidades desfavorecidas dos Estados Unidos, proporcionando-lhes combustíveis com tarifas subsidiadas.

48. A criação da Alba (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América), em 2004, entre Cuba e Venezuela, assentou as bases de uma aliança integradora baseada na cooperação e na reciprocidade, agrupando oito países membros, e que coloca o ser humano no centro do projeto de sociedade, com o objetivo de lutar contra a pobreza e a exclusão social.

49. Hugo Chávez está na origem da criação, em 2011, da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), agrupando, pela primeira vez, as 33 nações da região, que assim se emancipam da tutela dos Estados Unidos e do Canadá.

50. Hugo Chávez desempenhou um papel chave no processo de paz na Colômbia. Segundo o presidente Juan Manuel Santos, "se avançamos em um projeto sólido de paz, com progressos claros e concretos, progressos jamais alcançados antes com as FARC, é também graças à dedicação e ao compromisso de Chávez e do governo da Venezuela".

quarta-feira, 6 de março de 2013

Hugo Chávez, um democrata caluniado

Postado por Juremir em 6 de março de 2013 - Política

Hugo Chávez está morto.


Foi certamente o melhor presidente da história da Venezuela.
Submeteu-se a mais de uma dezena de eleições sempre vigiadas por comissões internacionais conduzidas por homens do porte de Jimmy Carter.


Usou o petróleo, que antes jorrava só para os ricos, em favor dos pobres.


Fez o país crescer.


Tornou a Venezuela o país menos desigual da América Latina.


Ao contrário do que se diz, jamais eliminou a oposição ou impediu totalmente a liberdade de expressão. Tem jornal na Venezuela que nunca passou um dia sem detoná-lo. Chávez é, certa forma, o produto de uma Venezuela podre, a reação com tendência autoritária à corrupção dos partidos que dominaram o país ao longo da história. O ódio devotado a ele pela direita é diretamente proporcional aos interesses que contrariou e aos privilégios que cancelou.


Podem existir líderes mais democráticos do que Chávez.


Mas, no contexto da América Latina, ele foi um gigante.


Tudo o que os seus opositores esperam é poder fazer o tempo recuar, devolvendo a Venezuela ao seu atraso dos anos 1990.


É muito provável que consigam.
http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=3884

Comunicação: avançar sem mexer na Constituição?


Beto Almeida – 05/03/2013

Novamente, o Diretório Nacional do PT aprovou resolução em favor da luta pela regulamentação da mídia. Reafirma, com isto, a centralidade da comunicação na política e consciência sobre a atuação da mídia como partido principal da oposição conservadora. Resoluções são muito importantes, mas, no caso, não resolvem o problema do PT não ter maioria no Congresso Nacional, sem o que é impossível estabelecer regras democráticas para assegurar a pluralidade, a diversidade e da democracia na comunicação. Aliás, como está na Constituição desde 1988, sem que o campo progressista tivesse força para regulamentar o que lá já está.

A novidade da Resolução do PT está na convocação da militância para colher 1,5 milhão de assinaturas para um Projeto de Iniciativa Popular. Nos anos 90, a Fenaj também iniciou coleta de assinaturas, abandonada por falta de força social. Hoje, após o PT ter eleito três presidentes da república, a relação de forças alterou-se. Mas não ainda o suficiente dentro do Congresso, onde o PT - segundo alguns orixás - tem que ter "juízo" para não romper uma aliança com o PMDB, que, além de presidir as duas Casas, não tem interesse em pautar a regulamentação da mídia. Sozinho, o governo pode até enviar uma proposta, mas com poucas chances de aprovação nesta legislatura. As 90 entidades que aprovam a medida tampouco têm força social, isoladamente, para mudar esta relação de forças, especialmente em ano pré-eleitoral. 

Experiência argentina

As 90 entidades que assinam o Manifesto do FNDC ainda não elaboraram uma unidade em torno de um programa que inclua alas empresariais não oligopólicas, como na Argentina, com o que se construiu um amplo campo de apoio em favor da nova Ley de Medios, finalmente assumida pela presidenta Cristina. Los hermanos discutiram a nova Ley de Medios até mesmo com as instituições militares. Vale lembrar que o ex-presidente chegou a prorrogar o prazo de validade da lei de mídia que vinha da ditadura. Mesmo assim, o movimento pela democratização da comunicação de lá evitou criticá-lo e romper com ele. Depois disso, Nestor outorgou uma antiga emissora da Marinha Argentina para a Associação de Madres Plaza de Mayo, hoje, a Rádio Madres, a primeira da esquerda do dial, diz o seu bordão...

Ou seja, sem um amplo arco de alianças e sem aliança clara e propositiva com o governo, a Ley de Medios jamais teria sido implementada na Argentina. Com tudo isto, ainda está parcialmente bloqueada na justiça portenha. Aqui, onde o PT não tem maioria parlamentar e o PMDB tem força parlamentar para travar o governo, é preciso pensar muito antes de lançar manifestos que, se não tiverem boa pontaria, podem dar a impressão de ruptura do movimento de democratização da mídia com o governo da presidenta Dilma, o que seria, evidentemente, um suicídio tolo. Certamente, seria mais produtivo organizar uma relação política com o setor empresarial de comunicação não oligopólico. Ou será que alguém imagina que sem maioria no Congresso, com o delicado cuidado por manter a frente de esquerda intacta e também a aliança com o PMDB, será possível "virar a mesa" e aprovar uma revolução midiática imediatamente? 

Voz do Brasil: a regulamentação informativa ameaçada

Mas, há muito o que fazer agora, sem precisar mudar a Constituição. Defender, por exemplo, o programa Voz do Brasil, experiência bem sucedida de regulamentação informativa. Pode e deve ser melhorada, expandida em sua estrutura jornalística para todo os Estados, deixando de ser só a Voz de Brasília. Mas, entre os signatários do Manifesto do Forum Nacional de Democratização da Comunicação - que aliás silencia sobre a Voz do Brasil - há algumas vozes que coincidem com a proposta da ABERT para a flexibilização neoliberal do programa de rádio que leva a presença do poder público para todos os grotões do território nacional. Evidentemente, a ABERT quer estado mínimo e quer uma hora a mais para fazer sua rádio-baixaria consumista alienante. O PT, corretamente, retirou o projeto de lei de flexibilização neoliberal da pauta de votações da Câmara, no que foi apoiado por várias entidades, apesar do FNDC ainda não ter se posicionado oficialmente sobre o tema. Afinal, a Voz do Brasil é uma regulamentação informativa concreta, vigente, está no ar e ameaçada pelos bolsões neoliberais que a Dona Judith Brito, da ANJ, identifica, ela mesma, como partido de oposição. Qual a razão do silêncio do FNDC?

Oportunidades não aproveitadas

Revitalizar a Telebrás estatal, é outro tema essencial que consta da posição política emitida pelo Diretório Petista. Além disso, algo que também não depende de qualquer mudança, constitucional ou legislativa, é a revisão dos critérios democráticos e não-oligopolistas para a distribuição das verbas publicitárias, com o que se pode estimular a pluralidade e diversidade de veículos, de regiões e de modalidades comunicacionais, pois as mídias não-oligopólica, pública, universitária, comunitária, sindical, cooperativa, poderiam sim serem mais valorizadas, o que estaria em total sintonia com o discurso do próprio governo, por exemplo, em defesa da economia solidária ou da redução das disparidades regionais.

O tema tem sido tratado adequadamente em algumas palestras por José Dirceu, que reconhece ser a comunicação um daqueles itens em que, nos 10 anos do PT no governo, se avançou pouco. É como se fizéssemos todos uma espécie de balanço das oportunidades não aproveitadas, sendo, uma delas, logo no início do governo Lula, em 2003, quando havia grave crise financeira da Globo-Net, que pediu socorro ao BNDES. Uma das sugestões, não consideradas, era a de que o BNDES, ao emprestar, também buscasse se tornar parte do corpo acionário da empresa auxiliada. Aquela oportunidade pode ter passado, mas, como tem havido sucessivas falências e fechamento de jornais nos últimos anos, é preciso averiguar a possibilidade de algumas soluções criativas para não deixar passar novas oportunidades. O presidente Evo Morales cansou de ser apresentado pelos jornais da oligarquia boliviana como "narco-presidente", e ajudou na montagem de um jornal público denominado Cambio, que, com apenas 3 anos de vida, tem tiragem igual à do mais antigo diário da Bolívia, o La Razon, com mais de 74 anos.

Jornal popular, nacional, de massas

Por fim, também sem mexer na Constituição, pode-se formar uma grande cooperativa, com milhares de sindicatos e entidades cotistas, para montar um jornal diário, nacional e popular, com tiragem inicial de 1 milhão exemplares, no mínimo. Ao invés da dispersão em milhares de jornais modestos, um jornal de massas, distribuído a preços módicos ou gratuitamente. O campo progressista, que elegeu 3 presidentes e colocou milhões de famílias para estudar, comer e vestir melhor, não poderia montar um jornal popular para elevar a leitura, a cultura e a consciência do nosso povo? Argentina, Bolívia, Equador e Bolívia já têm. O próprio José Dirceu tem dito que o PT deve defender os legados de Vargas, dos Tenentes e da Revolução de 30, entre outros. E, entre esses legados, encontram-se a Rádio Nacional, a Rádio Mauá - a emissora dos trabalhadores, o Instituto Nacional de Cinema Educativo. E, além disso, Vargas, montou o Última Hora. 

Jornalista, Membro da Junta Diretiva da Telesur.

“O PDT se afastou do trabalhismo”, afirma Carlos Araújo


Samir Oliveira

Ex-deputado estadual e fundador do PDT no Rio Grande do Sul, Carlos Franklin Paixão Araújo afirma que o partido está “descaracterizado” e “afastado das raízes do trabalhismo” no país. Após romper com a sigla em 2000 e permanecer ausente da política desde então, o ex-marido da presidente Dilma Rousseff (PT) voltará a se filiar ao PDT em março deste ano.

O retorno de Carlos Araújo ao PDT ocorre às vésperas da convenção que irá eleger o comando nacional da sigla – que permanece com o ex-ministro do Trabalho Carlos Lupi desde a morte de Leonel Brizola, em 2004. Carlos Araújo retorna ao PDT para ajudar os netos de Brizola a disputar a hegemonia no partido.

Nesta entrevista ao Sul21, Carlos Araújo fala sobre a situação do PDT no país e no Rio Grande do Sul e defende uma maior formação política dos seus militantes. Para o ex-deputado, o trabalhismo é doutrina que irá levar o brasil ao socialismo. “Pretendo me filiar em março. O trabalhismo é o caminho brasileiro para o socialismo. Quero participar dessa luta”, explica.

Com 75 anos de idade, Carlos Araújo é natural de São Francisco de Paula e ingressou clandestinamente na Juventude do Partido Comunista Brasileiro aos 14 anos – sigla na qual militou até 1957. Formado em Direito pela UFRGS, começou a ter contato com Leonel Brizola durante a campanha da Legalidade, em 1961. Após o golpe militar, em 1964, ingressou na luta armada e foi um dos dirigentes da VAR-Palmares. Foi na guerrilha que conheceu sua ex-mulher, Dilma Rousseff, com quem foi casado durante 30 anos, de 1969 a 1999. Graças ao relacionamento com Carlos Araújo, Dilma veio morar em Porto Alegre, já que o marido encontrava-se detido na Ilha do Presídio, durante os anos 1970. Ainda hoje, Carlos Araújo é uma das pessoas mais próximas de Dilma, com quem teve uma filha, Paula, e compartilha um neto, Gabriel.

Após eleger-se deputado estadual em 1982 e reeleger-se por mais duas legislaturas, Carlos Araújo – que também disputou a prefeitura de Porto Alegre em 1988 e 1992 – abandonou a vida pública, devido a um enfisema pulmonar que vem lhe causando complicações desde 1995.

Sul21 – Como o senhor avalia a situação atual do PDT no país?
Carlos Araújo – O PDT está um pouco descaracterizado, se afastou das raízes do trabalhismo. Falta ao PDT uma prática social maior, uma maior participação nos movimentos sociais. O partido deveria se voltar aos grandes problemas nacionais, mas não faz esses debates. A atuação é muito tímida. Internamente, é preciso haver mais democracia, discussão e revezamento de poder no PDT. Não podemos ter lideranças que se eternizam no poder.

Sul21 – Como o partido vem administrando a era pós-Leonel Brizola?
Carlos Araújo – Sempre é difícil administrar um partido após a perda de um grande líder. Leva tempo até que se encontre um rumo. O PDT procura esse rumo, mas não tem encontrado. A perda de um grande líder sempre gera embaraços, cria dificuldades e barreiras a serem superadas.

Sul21 – Foi um erro do partido ficar tão dependente do Brizola?
Carlos Araújo – Acho que não. A história tem mostrado, principalmente nos países emergentes, que as forças sociais se estruturam em cima de grandes lideranças. Líderes como Fidel Castro, Hugo Chávez e Leonel Brizola discursam durante muito tempo. Fidel chegou a falar por 14 horas seguidas. O Brizola já discursou por 7 horas. Esses líderes aprenderam que a educação para a consciência das massas é formada, em grande parte, pela audição. Esses líderes se destacam e é muito difícil formar um partido com eles. O PT tem um grande líder, mas o partido depende muito do Lula. É bom para o PT ter estrutura, conseguir caminhar sozinho, mas é algo muito difícil.

Sul21 – O senhor ajudou a fundar o PDT no Rio Grande do Sul. O que o partido representava em sua origem?
Carlos Araújo – O PDT sempre representou o trabalhismo. É uma corrente de pensamento que tem como base a defesa dos direitos sociais no capitalismo. Getúlio Vargas, que é o fundador do trabalhismo, quando tomou o poder, em 1930, tinha que responder à seguinte pergunta: “Como vai ser o processo de desenvolvimento capitalista no Brasil?”. Então ele disse: “O meu governo terá como base uma democracia social, uma democracia política e uma democracia econômica. O Estado será um indutor do desenvolvimento, mas as rédeas do processo estarão nas mãos das forçais sociais”. Ele usava essa expressão: “Forças sociais”. Em seguida, as elites paulistas e mineiras se levantaram, em 1932, dizendo que esse projeto não servia para o país. Eles acreditavam que as forças sociais não conseguiam gerir o capitalismo no Brasil, defendiam que só quem poderia fazer isso era o capital internacional. Queriam que os representantes do capital internacional desenvolvessem o capitalismo brasileiro.

Sul21 – Esse embate existe até hoje no país?
Carlos Araújo – Continua. Por isso tentaram derrubar o Getúlio em 1932 e em 1937. Por isso conseguiram derrubá-lo em 1945 e o levar ao suicídio em 1954. Foi a mesma questão que levou a derrubarem o Jango em 1964. Getúlio dizia que a hegemonia do processo político tem que estar com as forças sociais. Em 1866, quando houve a primeira eleição na Inglaterra, perguntaram ao Marx – que dirigia a Internacional – como os trabalhadores deveriam votar. Havia um candidato capitalista e outro que representava o regime monárquico anterior. O capitalismo naquela época era terrível, com crianças morrendo nas fábricas, trabalhando 20 horas por dia. Marx respondeu que os trabalhadores deveriam fazer uma aliança com os capitalistas. E disse que o ideal seria que, nessa aliança, os trabalhadores tivessem a hegemonia. Ele dizia que os trabalhadores seriam capazes de desenvolver o capitalismo com mais sabedoria do que os próprios capitalistas, dando um sentido mais social a ele. Foi isso que Getúlio falou. É isso que aconteceu nos governos Lula e acontece no governo Dilma. É o desenvolvimento do capitalismo com as rédeas do processo nas mãos das forças sociais. É a única forma de desenvolver o capitalismo e dividir o bolo enquanto ele vai crescendo. Se não vai tudo apenas para um lado. O trabalhismo representa essa visão do desenvolvimento capitalista.

Sul21 – O PDT não alimenta mais o discurso do trabalhismo?
Carlos Araújo – Não está mais adotando esse discurso e está muito desvinculado dos movimentos sociais. O PDT perdeu muito espaço, mas ele pode ser recuperado. Há um espaço para que o PDT avance. Embora tenha feito e esteja fazendo grandes governos, o PT perdeu a sua auréola. Isso nos faz pensar em como será no futuro. Sem o PT, surgirá outro partido para ocupar seu espaço? É uma questão muito delicada e o trabalhismo tem um papel a desempenhar nesse contexto, desde que esteja envolvido com os movimentos sociais.

Sul21 – O PDT pode voltar a disputar o poder dentro da esquerda?
Carlos Araújo – Sim. Esse é o destino do PDT, por isso o partido precisa retomar o seu caminho. O Brizola concorreu por duas vezes à Presidência. Em uma, ele perdeu por pouco no primeiro turno e apoiou Lula no segundo. Na outra eleição, foi vice do Lula. Nosso caminho é esse, é marchar junto com as forças de esquerda.

Sul21 – O senhor retornará ao PDT?
Carlos Araújo – Pretendo me filiar em março. Eu estava esperando melhorar um pouco a saúde. Sou trabalhista, penso que o trabalhismo é o caminho brasileiro para o socialismo. Quero participar dessa luta.

Sul21 – Quando o senhor tomou essa decisão?
Carlos Araújo – Essa decisão foi construída. O que me levou a acelerar o processo foi eu pensar que os netos do Brizola têm um papel a cumprir no partido. Eles estão sendo muito injustiçados dentro do PDT. Isso me levou à aproximação com eles.

Sul21 – Foi difícil o rompimento com o PDT em 2004?
Carlos Araújo – Foi, eu senti muito. Mas era uma conjuntura em que eu não queria mais permanecer no PDT nem em partido nenhum. Foi um afastamento. Saí para ficar mais livre, para não dizerem que eu desobedeci às normas do partido. Mas continuei muito amigo dos companheiros trabalhistas, nunca me afastei totalmente. Nunca tive vontade de ingressar em outros partidos.

Sul21 – Com o retorno ao PDT, o senhor pretende voltar a disputar eleições?
Carlos Araújo - Não vou concorrer. Vou ajudar na formação de quadros e em tudo o que eu puder. Como eu fiquei doente, é muito difícil permanecer na política institucional. Quem é de esquerda e está na política institucional tem que ser militante. Tem que pular muro e subir morro.

Sul21 – Qual a importância da convenção nacional do PDT para renovação do partido?
Carlos Araújo – É muito difícil que haja uma renovação agora. O estatuto do PDT é muito rígido e autoritário, dá muito poder à executiva e ao diretório nacional. É muito difícil furar esse cerco. Eu estou retornando ao PDT e participando de uma corrente que quer sacudir o partido, que vai disputar a convenção. Estamos tentando fazer uma conciliação, para verificar se há trânsito dentro do partido. Acreditamos que o Alceu Collares é um bom candidato para essa transição. Precisamos ter um candidato que consiga unificar o partido, que está muito dividido. E que seja um candidato de transição, fixando regras para uma nova eleição e aproximando as correntes para construir a unidade possível.

Sul21 – Essa transição seria para realizar reformas no estatuto?
Carlos Araújo – Sim, para oxigenar o partido. O estatuto precisa ser mais democrático e adequado a nossa realidade. O estatuto atual foi feito pelo Brizola, que já havia perdido um partido e não queria perder outro. Então ele fez um estatuto extremamente centralizado e muito rígido. Agora não temos mais uma liderança do vulto do Brizola, por isso precisamos adequar o estatuto à nossa realidade.

Sul21 – Então a intenção é lançar um candidato de conciliação? Não haverá um candidato de oposição ao atual grupo que comanda o PDT?
Carlos Araújo – Se não der, iremos lançar sim esse candidato. Tentaremos fazer a conciliação até onde der. Se não for possível, lançaremos um candidato, mesmo que seja para perder.

Sul21 – Os irmãos Juliana Brizola (deputada estadual gaúcha), Carlos Brizola (deputado federal licenciado e atual ministro do Trabalho) e Leonel Brizola (vereador do Rio de Janeiro), todos netos de Leonel Brizola, fazem parte deste movimento. Quem mais integra o grupo? 
Carlos Araújo – Dos integrantes gaúchos eu destacaria o Afonso Mota (secretário estadual do Gabinete dos Prefeitos) e o deputado federal Giovani Cherini. Também há muitos prefeitos.

Sul21 – É um grupo majoritariamente formado por gaúchos?
Carlos Araújo – Não, temos apoios nos estados. Minas Gerais nos apoia. Há esforços em vários estados. Essa análise deve ser feita mais adiante. Na segunda-feira (4) tem uma reunião da executiva nacional que fixará as regras para a convenção nacional.

Sul21 – O ex-ministro do Trabalho Carlos Lupi – afastado da pasta por denúncias de corrupção e presidente nacional da sigla desde a morte do Brizola – prejudicou o partido?
Carlos Araújo – Eu não gostaria de pessoalizar nada. Prefiro não abordar esse assunto, ao menos no momento. Quero travar a luta interna em um nível estritamente político.

Sul21 – Mas no entendimento do grupo do senhor, os dirigentes atuais do PDT são responsáveis pela situação que vocês criticam.
Carlos Araújo – Sim. Queremos democratizar o partido. Queremos que o PDT tenha uma vida política interna permanente, não só em época de eleição. Há uma crise partidária na esquerda. Os partidos estão muito desorganizados e não formam seus militantes. Os jovens querem cursos, mas os partidos não dão. O PDT tem uns cerca de 600 jovens atuantes em Porto Alegre, que disputaram os DCEs da UFRGS e da PUCRS com chapa própria. Tem bastante dirigente jovem atuando. Mas eles estão sedentos por conhecimento e por discussão política. É um absurdo eles não saberem onde buscar conhecimento, quais livros ler. Eu fiz uma reunião com esses jovens na terça-feira (26), vou começar a dar cursos a eles nos sábados à tarde. Eles querem discutir e participar e a esquerda não está ocupando plenamente esse espaço de debates.

Sul21 – Por que não?
Carlos Araújo – Talvez por estar no poder. São as chamadas “consequências do poder”. Há uma certa acomodação. Todos os quadros políticos vão para o aparelho do Estado e ficam envolvidos em atividades burocráticas. Teria que haver uma maior formação política. Mas, ao mesmo tempo, os quadros precisam ir para o aparelho do Estado, precisam governar. É uma questão complicada.

Sul21 – Com a chegada do PT e seus aliados ao poder, outros grupos políticos fazem fortes críticas à esquerda deste projeto que está no governo do país há 10 anos.
Carlos Araújo – Há uma fragmentação. Mas, veja bem: na sociedade, o prestígio do Lula e da Dilma é muito grande. Todas as pesquisas demonstram muito apoio da população. Mas essa força eleitoral fantástica não se expressa da mesma forma como grande força política. Há um descompasso.

Sul21 – No campo ideológico, mudou o debate na esquerda? Anteriormente, principalmente nos anos 1960 e 1970, havia mais forças organizadas defendendo a superação total do capitalismo. Essa bandeira já não é mais defendida por muitos desses grupos hoje.
Carlos Araújo – Isso muda com o governo Lula. O mundo impôs essa mudança. O Vietnã, a China, Cuba e a União Soviética mostraram que, nos termos em que colocaram, foi inviável a construção do socialismo numa época em que o regime capitalista ainda era muito forte no resto do mundo. Lênin, quando estava no poder na União Soviética, elaborou a Nova Política Econômica, a chamada NEP. Era uma política de desenvolvimento do capitalismo. O que está em discussão hoje é a viabilidade do socialismo. Ele é viável somente em um país? Ou é viável somente quando houver um grande desenvolvimento internacional do socialismo?

Sul21 – Na sua avaliação, existe algum país plenamente socialista hoje em dia?
Carlos Araújo – Não. Existe um certo nível de bem estar social em alguns países, como a Suécia. Mas isso foi conquistado em cima de outros países. O capital sueco no Brasil é muito forte. A principal questão colocada hoje é a do bem estar do conjunto da sociedade ainda no capitalismo. Uma revolução socialista não está colocada na ordem do dia. Quem quiser fazer isso pode ter um pequeno espaço em alguns lugares, não terá um espaço significativo. A realidade demonstra isso. O que fazem Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa em seus países? Eles estão desenvolvendo o capitalismo para tirar a população da miséria. Mas é claro que esses governos vão se fortalecendo e a América Latina vai se unindo.

Sul21 – É possível passar desta etapa de gestor do capitalismo ao socialismo pleno?
Carlos Araújo – A internacionalização do capital é um processo em direção ao socialismo. É um processo de desenvolvimento capitalista, mas é, também, um processo em direção ao socialismo. O capitalismo vai se internacionalizando, rompendo fronteiras nacionais e se fragmentando. Hoje um controlador de uma grande empresa tem 10% do seu capital. Socializar essa empresa já não significa mais tirar das mãos de uma única pessoa. Se a GM (General Motors) for nacionalizada hoje, por exemplo, quem irá sentir essa medida a não ser uma meia dúzia de acionistas mais significativos, que possuem 5% ou 8% das ações? Não estou dizendo que já estamos no socialismo. Mas, como dizia Marx, a nova sociedade é gerada no útero da atual sociedade.

Sul21 – Voltando ao tema do PDT: o partido no Rio Grande do Sul é muito diferente do PDT nacional?
Carlos Araújo – O partido sempre foi bastante concentrado no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro. E sempre enfrentou resistências históricas em São Paulo. Mas isso não significa que não possam ter lideranças em outros estados, o PDT está se fortalecendo.

Sul21 – No Rio Grande do Sul, o PDT aderiu ao governo Yeda Crusius (PSDB) após perder as eleições de 2006 com Alceu Collares e, em 2010, concorreu ao lado de José Fogaça (PMDB). Como o senhor avalia essas ações?
Carlos Araújo – Foram equívocos. Isso se confirmou com a eleição da Dilma. Naturalmente, se formou uma aliança em torno da candidatura dela no Rio Grande do Sul, inclusive com setores do PMDB liderados pelo Mendes Ribeiro Filho. Esses equívocos fazem parte da política, mas não podem se repetir.

Sul21 – O que o senhor defende para o PDT em 2014 no Rio Grande do Sul?
Carlos Araújo – Há uma discussão em torno desse assunto. Uns defendem candidatura própria, outros querem aliança com o PMDB e outros querem permanecer apoiando o governo Tarso Genro. Eu defendo que o PDT apoie o atual governo em 2014, mas com uma maior participação política nas decisões e com um acordo para que o PT apoie o PDT em 2018. O PDT é muito forte no estado, precisa ter candidato, mas agora não é o momento, o partido ainda não está suficientemente organizado e com força expressiva para isso.

Sul21 – O PDT precisa reivindicar a indicação do vice-governador em uma eventual aliança com Tarso em 2014?
Carlos Araújo – Isso é inevitável. Parece que o PSB está tentando um caminho próprio, isso faz com que o PDT passe a ser o parceiro próximo do Tarso.

Sul21 – Em Porto Alegre, depois de muito tempo o PDT conseguiu vencer uma eleição para a prefeitura.
Carlos Araújo – Vários fatores influenciaram. Um deles foi a construção de uma ampla frente política. E os candidatos adversários não tinham muita força política e eleitoral. Isso também pode pesar a favor do Tarso. Com todas as críticas que se pode ter ao seu governo, não há uma liderança expressiva para enfrentá-lo.

Sul21 – A senadora Ana Amélia Lemos é a grande aposta do PP. Ela conquistou 3,4 milhões de votos em 2010.
Carlos Araújo – Ela tinha mais potencial antes das eleições municipais. Ela é uma candidata que tem uma expressão eleitoral, mas ficou enfraquecida por não seguir as determinações do seu partido em 2012.

Sul21 – Voltando a Porto Alegre, o senhor disse que um dos fatores que favoreceram a vitória de José Fortunati foi a construção de uma ampla aliança. Mas até que ponto uma aliança tão ampla e diversa se sustenta politicamente? A de Porto Alegre contém partidos aliados e partidos que fazem oposição aos governos Dilma e Tarso, como o DEM, o PPS e o PSDB.
Carlos Araújo – As alianças muito amplas são trabalhosas de serem administradas. O Fortunati vai ter que se desdobrar para conseguir governar com uma aliança tão ampla. Começam a vir exigências, principalmente fisiológicas. E essas alianças atingem, de certa forma, o perfil político do governo. Eu sou favorável a alianças. Às vezes são composições que não queremos fazer, mas não existe outra saída. É uma questão delicada, principalmente quando são alianças muito amplas, que podem levar o governo ao imobilismo.

Sul21 – Outro partido que está querendo disputar espaço político e se lançar eleitoralmente à Presidência é o PSB.
Carlos Araújo – O PSB tem sido um companheiro de viagem na esquerda. Provavelmente terá um candidato à Presidência, o que é justo, mas precisa apresentar um programa de governo. É indispensável que o PSB diga o que quer e a que vem. O PSB precisa explicar quais as suas diferenças com o PT, o PDT e o PCdoB. Isso ainda não está colocado. Tomara que o partido permaneça sempre como força de esquerda.

“Marighella é um gigante da história do Brasil”


Mário Magalhães
Publicado em 14-Jan-2013

Pesquisa extenuante, riqueza de detalhes, revelações, inteligência na exposição e honestidade. Essas são apenas algumas das qualidades de “Marighella”, livro do jornalista Mário Magalhães lançado no fim do ano passado. É com o autor que este blog tem o prazer de fazer a entrevista deste mês.

A biografia de Carlos Marighella já recebeu diversos, empolgados e mais do que merecidos elogios desde que foi lançada. São 732 páginas de uma história fascinante, resultado de mais de nove anos de pesquisa em diversos países e com 256 entrevistados.

“Sua trajetória tem muita ação, aventura, drama, humor, mistérios, espionagem, ideias, amor e histórias. Permitiu contar a história trepidante de quatro décadas do Brasil e do mundo, de 1930 a 1960. Dezenas de coadjuvantes ou coprotagonistas merecem, eles mesmos, biografias exclusivas, tal seu encanto. Com o que mais um repórter poderia sonhar, além disso?”, diz Magalhães.

Um dos muitos pontos altos da biografia foi o de não fazer o julgamento de Marighella, não o elegendo como um herói ou um bandido: “Mais do que pintar Marighella como um facínora destituído de decência, certa historiografia oficial se empenhou em eliminá-lo da memória do país. Perderam: não lograram apagá-lo da história.”.

Para ele, o silêncio sobre Marighella no ensino de história representa um crime de desonestidade intelectual. Acompanhem a entrevista:
  
[ Zé Dirceu ] Mário, como aconteceu a ideia deste trabalho sobre o Marighella?

[ Magalhães ] Nasci na primeira semana de abril de 1964, a do golpe de Estado que derrubou o governo constitucional do presidente João Goulart. Em 2003, eu tinha 39 anos. Antes de completar os 40, queria mergulhar em uma reportagem de fôlego, sem as amarras de tempo e espaço próprias de uma redação de jornal. Decidi escrever uma biografia. Não encontrei personagem com vida mais fascinante, goste-se ou não dele, do que Carlos Marighella (1911-69).

Sua trajetória tem muita ação, aventura, drama, humor, mistérios, espionagem, ideias, amor e histórias. Permitiu contar a história trepidante de quatro décadas do Brasil e do mundo, de 1930 a 1960. Dezenas de coadjuvantes ou coprotagonistas merecem, eles mesmos, biografias exclusivas, tal seu encanto. Com o que mais um repórter poderia sonhar, além disso?

[ Zé Dirceu ] Conte-nos um pouco como foi seu trabalho de pesquisa, quanto tempo durou e como se deu a reunião da documentação, das entrevistas.

[ Magalhães ] Foram mais de nove anos de trabalho, dos quais cinco anos e nove meses em dedicação exclusiva. Entrevistei 256 pessoas, das quais cerca de 30 já faleceram _não sou pé-frio, eram na maioria octogenários e nonagenários, contemporâneos de Marighella. Até com a professora de inglês dele e seu camarada Maurício Grabois, Heddy Peltier, eu conversei. Ela lhes deu aulas no fim dos anos 1920, no célebre Ginásio da Bahia.

Os documentos foram garimpados em arquivos públicos e privados de Rússia, República Tcheca, Estados Unidos, Paraguai e Brasil. No total, consultei mais de 70 mil páginas de documentos. Em boa parte secreta (no caso de papéis produzidos pelo Estado) ou clandestina (por militantes de oposição) na origem. A bibliografia somou 600 títulos, equivalendo a quase 700 volumes.
Organizado, esse material rendeu em torno de 5.500 arquivos digitais, incluindo a transcrição de perto de mil horas de entrevistas. Com um comando de busca, posso encontrar todas as informações armazenadas referentes a um determinado personagem do livro.

[ Zé Dirceu ]  Gostaríamos de saber mais sobre essas entrevistas. Você pode citar alguma que te marcou mais ou que foi mais representativa?

[ Magalhães ] Eu seria profundamente injusto se destacasse um só entrevistado. Todos foram relevantes para contar a história de Marighella. Dos seus partidários mais fiéis aos inimigos mais encarniçados. Para muitas pessoas, a entrevista para a biografia serviu como desabafo, com confidências guardadas por décadas. Não foram poucas as que se emocionaram. Um dos aspectos que mais me chamaram a atenção foi como os antagonistas respeitavam ou mesmo se assombravam com a coragem de Marighella. Não foram apenas seus correligionários que o qualificaram como valente, mas perseguidores como o policial Cecil Borer, que o caçou no Rio de Janeiro por mais de 30 anos.

[ Zé Dirceu ] O que mais te impressiona no Marighella? Se você fosse contar para alguém que jamais ouviu falar dele, como você o sintetizaria?

[ Magalhães ] Marighella foi um revolucionário que deu a vida pelos ideais que defendia.  Era um homem valente, essencialmente de ação. Viveu intensamente. Para ele, a vida estava muito longe de se resumir à política. Ele se autodefiniu em meados da década de 1940: “Sou um mulato baiano”.

[ Zé Dirceu ] Como você avalia a memória dos brasileiros em relação ao Marighella e, também, ao período militar como um todo?

[ Magalhães ] A memória está sendo construída. Mais do que pintar Marighella como um facínora destituído de decência, certa historiografia oficial se empenhou em eliminá-lo da memória do país. Perderam: não lograram apagá-lo da história. Assim como não “colou” o papel de vilão a que tal historiografia pretendeu condenar os militantes que combateram legitimamente a ditadura, a despeito das viúvas daquele regime que ainda hoje esperneiam.
Isso tudo apesar de Marighella ainda ter hoje muito mais projeção no exterior do que no Brasil. É impossível fazer uma relação dos brasileiros mais conhecidos mundo afora no século XX, excluindo artistas e desportistas, sem incluir Marighella. É incrível que a Bahia ainda hoje não tenha um Memorial Marighella. O político baiano mais famoso no exterior em todos os tempos não é Juracy Magalhães (nascido no Ceará, mas com carreira na Bahia), Antonio Conselheiro (outro cearense), Otávio Mangabeira ou Antonio Carlos Magalhães. É Marighella, disparado!
Em 2012, o Brasil conheceu um pouco mais Marighella. Foram lançados o filme dirigido por Isa Grinspum Ferraz; o clipe de Daniel Grinspum, com os Racionais MC’s; a música “Um comunista”, de Caetano Veloso; e a biografia que escrevi  – tudo sobre Marighella.

Ainda há muito por se descobrir a respeito do nosso passado, mas os brasileiros sabem que a ditadura foi nefasta. Por que não aparece um só candidato a cargo majoritário em eleição defendendo o regime que vigorou de 1964 a 85? Porque só obteria meia dúzia de votos.

Espero que a Comissão Nacional da Verdade contribua decisivamente para o reencontro do Brasil com sua memória e para que se faça justiça. Enquanto responsáveis por crimes contra os direitos humanos não forem punidos, novas gerações de carrascos se sentirão desimpedidas para perpetrar de novo as mesmas violações do período inaugurado em 1964. A rigor, já perpetram, na tortura e extermínio cotidiano de jovens pobres por agentes do Estado.

[ Zé Dirceu ] Você afirmou que projeção internacional de Marighella é maior do que a no Brasil. Por quê? Fale-nos mais sobre esse reconhecimento internacional.

[ Magalhães ] Ao se tornar o personagem mais influente e conhecido da luta armada contra a ditadura no Brasil, Marighella tornou-se figura mundial. O jornal francês “Le Monde” o chamava de “mulato hercúleo”. A revista americana “Time” se referiu ao “mulato de olhos verdes” – Marighella se transformava em mito; seus olhos na verdade eram castanhos. Quando a Ação Libertadora Nacional (ALN), organização fundada e comandada por Marighella, tomou os transmissores da Rádio Nacional paulista, em agosto de 1969, o “New York Times”, um dos diários mais importantes do planeta, dedicou ao fato mais de 250 linhas.

A Central Intelligence Agency, a CIA norte-americana, apontou Marighella como o sucessor do guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara na inspiração de movimentos rebeldes na América Latina. Em todo o mundo, movimentos contestatórios e revolucionários se inspiraram em Marighella e seu “Minimanual do guerrilheiro urbano”, brochura de junho de 1969. “Todo o mundo” mesmo, dos Panteras Negras nos Estados Unidos à Organização para a Libertação da Palestina (OLP) no Oriente Médio.

Sem contar a dimensão de Marighella no Brasil enquanto viveu e não foi alvo da tentativa de eliminá-lo da história. Para ficar em um exemplo, a revista “Veja” dedicou-lhe duas vezes a capa, em novembro de 1968 e novembro de 1969. Quantos personagens ganharam duas vezes a capa de “Veja” em um período tão curto?

[ Zé Dirceu ] Você traz duas importantes novidades na pesquisa. A primeira que Marighella não trocou tiros com os militares durante a emboscada. Como você descobriu isso?

[ Magalhães ] A rigor, o livro tem centenas de revelações, do lugar onde Marighella realmente nasceu às circunstâncias de seu assassinato. Sobre Marighella não ter disparado um só projétil na noite de 4 de novembro de 1969, quando o mataram, inexiste controvérsia: jamais apareceram relatos de que ele tenha atirado. A polícia montou uma farsa na versão oficial da morte de Marighella, mas não chegou ao ponto de inventar que ele tivesse dado algum tiro. O que eu fiz foi checar todas as fontes, dos registros balísticos e da necropsia até entrevistar pessoas presentes na cena do crime, incluindo alguns agentes repressores e dois frades partidários de Marighella.

O que os funcionários da ditadura fantasiaram foi a existência de seguranças de Marighella. No livro, eu esquadrinho todas as provas de que isso não passa de cascata. Narro a morte em minúcias no capítulo “Tocaia”. O capítulo seguinte é “Post mortem: anatomia de uma farsa”. Nele, explico em minúcias as provas que permitem descrever com segurança os momentos derradeiros de Marighella. Por exemplo: como saber que Marighella, ao contrário de tantas versões, estava mesmo desarmado? Explico na biografia.

[ Zé Dirceu ] Como você chegou à conclusão de que Marighella entrou com 23 anos no Partido Comunista e não com 19?

[ Magalhães ] Esse é o típico empenho de apuração que passa despercebido ao leitor. Na página 68, gasto uma só frase, com menos de dez palavras, para cravar que Marighella ingressou no PCB em 1934, ano do seu 23º aniversário. Quase todos os relatos conhecidos dão conta de que Marighella foi admitido com 18 ou 19 anos no partido. Eu já sabia que isso era impossível, pois em agosto de 1932 ele fora preso por apoiar o movimento paulista contra Getulio Vargas. Como o Partido Comunista se opunha tanto ao presidente da República como aos oligarcas de São Paulo, Marighella não poderia ser na época militante daquela agremiação.

Na Casa de Oswaldo Cruz, li um depoimento do médico Manuel Isnard Teixeira, que recepcionou Marighella na Juventude Comunista. Seu relato indica que isso ocorreu a partir de 1933, mas não determina o ano.

Só em 2012 foi possível ter certeza, com base numa fonte privilegiada: o próprio Marighella contou que se integrou ao PCB em 1934. A informação consta de uma autobiografia manuscrita por ele em castelhano. Em sete páginas, foi redigida em 1954, na então União Soviética. Até hoje está guardada em Moscou, em arquivos da ex-URSS que o dirigente russo Vladímir Pútin manteve fechados por muitos anos, mas que recentemente voltaram a ser abertos ao público.

[ Zé Dirceu ] Como você avalia o lugar de Marighella na história?

[ Magalhães ]  Carlos Marighella é um gigante da história do Brasil, independentemente do juízo que se faça sobre ele. É legítimo amá-lo ou odiá-lo, mas é impossível ficar indiferente à sua história fascinante. Enquanto ele for mantido à margem dos livros escolares, continuará a ser um brasileiro maldito. Não defendo que os manuais de história o promovam, nem que o condenem. Mas não podem mais calar sobre ele.

O silêncio sobre Marighella no ensino de história representa um crime de desonestidade intelectual. Seria como apagar o nome de Carlos Lacerda, o mais tonitruante anticomunista no Brasil do século XX. Ou seja, um absurdo. E Lacerda nunca teve maior projeção internacional, ao contrário de Marighella, que até hoje inspira revolucionários em todo o mundo.

[ Zé Dirceu ] Qual o papel do jornalismo investigativo hoje e o que é necessário para fazer uma boa biografia?
[ Magalhães ] O jornalismo dito investigativo não pode se conter nas aparências. Tem de apurar a essência. Não deve ser preconceituoso. Tem de ser mais substantivo e menos adjetivo. Em outras palavras, ater-se à informação, sem se deixar contaminar por tanta opinião. Repórteres e jornalistas que contam histórias não deveriam nutrir veleidades de promotor (por exemplo, para acusar personagens como Marighella ou instituições às quais ele pertenceu); de advogado (para defendê-los); e muito menos de juiz (cabe aos repórteres, biógrafos ou não, fornecer informações que permitam ao leitor tirar as suas próprias conclusões).

No caso de Marighella, não o julguei. A biografia que escrevi não afirma nem que ele é herói, nem que é vilão. Narro o que ele fez, disse e pensou. Ofereço matéria-prima para cada pessoa concluir o que quiser, conforme suas próprias ideias. Marighella já tem muitos partidários e inimigos; meu propósito foi o de contar sua história frenética.

Uma necessidade indispensável para o biógrafo é a de tempo. Eu poderia produzir no período de dois ou três anos um livro sobre Marighella. Mas não seria a biografia que escrevi. A redação do livro me tomou mais tempo do que a apuração, por mais imensa que esta tenha sido. Há um risco altíssimo de transformar um volume monumental de informações em texto de tom relatorial, enfadonho.  Eu me propus a redigir o livro como se ele fosse um romance, com a diferença escrupulosa de que nele tudo é verdade _ao fim do volume, 2.580 notas indicam a fonte de cada informação interessante ou relevante. Pensei assim: ao contar uma vida de tirar o fôlego, meu propósito estético tem de ser o de produzir uma narrativa de tirar o fôlego. Não sei se consegui, mas é o que tentei fazer.

[ Zé Dirceu ] Você afirma que Marighella é um gigante da História. O que é preciso para que ele seja reconhecido como tal?

[ Magalhães ] É preciso que se conheça sua história – ela fala por si.

“Marighella”
Autor: Mário Magalhães
Editora: Companhia das Letras
784 páginas