quinta-feira, 12 de abril de 2012

Erundina fala sobre grupo que vai monitorar a Comissão da Verdade

29/12/2011 19:49,  Por Carta Maior

Erundina fala sobre grupo que vai monitorar a Comissão da VerdadeEm entrevista ao jornal Página/12, a deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP) fala sobre suas expectativas quanto ao trabalho da Comissão da Verdade que está marcado para iniciar em 2012. Erundina não é nem muito otimista nem muito pessimista. “Vejo a Comissão da verdade com realismo, sei que vamos enfrentar pressões. A deputada lidera um organismo parlamentar criado para acompanhar e dar apoio aos trabalhos da Comissão da Verdade.

Darío Pignotti – Página/12

A deputada Luiza Erundina, líder de um organismo que dará apoio à Comissão da Verdade sobre a ditadura (1964-1985), afirmou que este ano foi histórico em matéria de direitos humanos, mas observou com cautela o cenário para 2012, diante das pressões militares. “É claro que a criação da Comissão da Verdade por parte da presidenta Dilma Rousseff foi um fato de importância histórica, mas ainda não podemos ser muito otimistas sobre se ela atingirá seus objetivos em 2012”, declarou Erundina.

“Não sou excessivamente otimista nem pessimista, vejo a Comissão da Verdade com realismo, sei que vamos enfrentar pressões. Já enfrentamos essas pressões nestes meses por parte de grupos conservadores”, disse a parlamentar. A dirigente socialista falou de atrasos. “Sinceramente, esperávamos que a presidenta anunciasse os nomes dos sete integrantes da Comissão da Verdade no dia 10 de dezembro, como disseram algumas pessoas do governo informalmente, mas isso não ocorreu”, comentou. Daí a precaução expressa por Erundina. “Agora se diz que a comissão só começa a trabalhar a sério em maio, e não esqueçamos que se fixou 2014 como prazo para que apresente seu informe sobre mais de duas décadas de ditadura. Não se pode demorar”, acrescentou.

Luiza Erundina, do Partido Socialista, foi eleita há duas semanas titular de um organismo parlamentar cuja missão será “auxiliar a Comissão da Verdade que, nos parece, voltará a sofrer pressões quando tentar revelar fatos importantes, vamos recolher informações, testemunhos”. Para a congressista, nos próximos meses possivelmente ocorrerão “manobras para obstruir os trabalhos, fazer com que a comissão seja desnaturalizada, não chegue a nada que ajude um posterior trabalho da Justiça”.

“São evidentes as novas pressões militares. Elas estiveram presentes no dia do anúncio presidencial, impedindo que a filha de um desaparecido fizesse o discurso que tinha preparado”, exemplificou Erundina. Ela se referiu à suspensão do discurso que iria ser feito pela filha do deputado Rubens Paiva, desaparecido desde 1971, no ato de lançamento da comissão, no dia 18 de novembro. Assistiram à cerimônia, realizada no Palácio do Planalto, vários ministros, familiares e vítimas do regime, juntamente com os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

“Lamento que a filha do deputado Paiva não tenha falado e creio que teria sido interessante que os militares também tivessem feito um discurso. Seria positivo que eles expressassem seu pensamento de uma maneira clara, republicana, sobre as investigações dos delitos”, observou Erundina. Meios de comunicação publicaram que ocorreram discussões acaloradas entre os ministros da Justiça, da Defesa e dos Direitos Humanos nas horas prévias à apresentação da Comissão da Verdade.

Erundina disse ter conhecimento dessas versões. “E, pelo que me disseram, o ministro da Defesa (o ex-chanceler Celso Amorim) foi de alguma maneira o mediador, aquele que transmitiu as queixas militares e suas demandas para que não fosse lido o discurso” da filha do deputado desaparecido. A deputada esclareceu que esse foi um comentário que chegou até ela, mas que essa informação não está confirmada.

Ex-prefeita de São Paulo na década de 1990, Luiza Erundina ordenou, na época, investigar as tumbas com corpos sem nome no cemitério de Perus, onde foram achados alguns opositores assassinados pelo governo da ditadura.

Recentemente, as autoridades brasileiras entregaram os restos do comerciante espanhol Miguel Sabat Nuet aos seus familiares. Ele morreu em uma cela da polícia política da ditadura, DOPS, em São Paulo. “É preciso seguir analisando os corpos encontrados que ainda foram identificados. Isso pode demorar mais tempo, mas estamos contando com o apoio claro do Ministério Público Federal e as comissões da verdade que começam a ser criadas em vários estados. Isso é importante”, concluiu Erundina.

Tradução: Katarina Peixoto

Verônica fala e a imprensa descobre o livro

28 de Dezembro de 2011 - 15h12

Demorou, mas finalmente a chamada grande imprensa – ou pelo menos os jornais paulistas O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo – admitem em seu noticiário a existência do livro A privataria tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr.

Por Luciano Martins Costa*

Nas edições desta quarta (28), os dois diários reproduzem uma nota distribuída pela filha do ex-governador José Serra, Verônica, na qual ela se defende das acusações contidas no livro. Coincidentemente, a revista Veja, que até o começo da semana ignorava a existência da obra, acaba de descobrir que o livro de Ribeiro Jr. é um best-seller e o inclui em sua lista dos mais vendidos. Mas faz uma média esquisita e, em vez de situá-lo em segundo lugar, conforme indicado pelas livrarias Cultura, Saraiva e Publifolha, decide que é o sexto mais vendido.

Já que a filha do ex-governador se manifestou, pode-se esperar que, antes de acabar o ano, os jornais ainda venham a tomar a iniciativa de publicar uma resenha do livro ou entrevistar o autor.

Sem notícia

Verônica Serra é apenas uma das pessoas citadas por Amaury Ribeiro Jr., entre parentes e amigos de José Serra, como acusadas de manter negócios em paraísos fiscais, para movimentar dinheiro das privatizações. Ela nega ter sido sócia de outra Verônica, irmã do banqueiro Daniel Dantas.

Ela afirma que apenas participou, com Verônica Dantas, do conselho da empresa Dedidir, que fazia checagem de crédito, verificação de identidade e processamento de assinaturas eletrônicas. Cada uma delas representava um investidor diferente. Argumentando que “participar de um mesmo Conselho de Administração, representando terceiros, não caracteriza sociedade”, Verônica Serra afirma que nem chegou a conhecer a irmã e sócia de Dantas.

A filha do ex-governador diz também que é mentira a afirmação, contida no livro, de que foi indiciada pela Polícia Federal por quebra de sigilo financeiro. No texto que complementa sua nota, a Folha informa que, em 2001, a Decidir, de cujo conselho Verônica Serra participava, foi alvo de inquérito da Polícia Federal por suposta quebra de sigilo de dados de milhares de correntistas no Brasil. O processo contra a empresa corre na Justiça desde 2003 e não há notícias na imprensa sobre essa acusação.

Se ela foi ou não indiciada, é fácil verificar: basta acessar o site da Justiça Federal em São Paulo e seguir número 0000370-36.2003.4.03.6181. O nome de Verônica Allende Serra está lá.

Agora é notícia

A declaração da filha do ex-governador e ex-ministro – que foi publicada originalmente no blog de Eduardo Graeff, ex-secretário geral da Presidência durante o governo Fernando Henrique Cardoso (ver aqui) – é a primeira informação relacionada ao livro de Ribeiro Jr. publicada pelos jornais de circulação nacional. Antes disso, apenas referências em alguns artigos e frases esparsas.

O silêncio em torno do livro – que se tornou um fenômeno de vendas assim que foi lançado, há duas semanas – era motivo de constrangimento para a imprensa, diante da grande repercussão de suas denúncias através da TV Record e das redessociais na internet.

Afora um ou outro artigo, quase todos condenando liminarmente a obra, mesmo sem ter havido tempo para a leitura de suas mais de 300 páginas, os jornais se negavam a reconhecer sua mera existência.

Se os jornais entendiam que a reportagem de Amaury Ribeiro Jr. não tem fundamento, deveriam ter entrevistado Verônica Serra e dado espaço para sua defesa. Com a omissão, apenas estimularam a torrente de comentários na internet, que agravou ainda mais o efeito das denúncias.

O fato de ela ter preferido o blog de Eduardo Graeff dá um caráter partidário à sua nota e causa certo estranhamento – por que publicar no blog de um amigo e correligionário e não na imprensa tradicional?

Na introdução ao texto de Verônica Serra, Graeff se refere ao livro como “o mais recente dossiê fabricado contra o PSDB”, indicando claramente a intenção dos gestores de crise encarregados de lidar com o caso de manter a questão no ambiente político-partidário.

Personalizando a questão na simpática figura de Verônica Allende Serra e estendendo a polêmica ao âmbito partidário, quem sabe a imprensa esqueça de investigar as acusações contidas no livro a outros personagens ligados ao ex-governador.

Nem o dono do blog nem Verônica se referem ao fato – admitido por Ribeiro Jr. – de que a investigação contra parentes e amigos de José Serra foi iniciada como reação do ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves, também do PSDB, no contexto da disputa entre os dois políticos pela candidatura a presidente da República.

Em sua declaração, Verônica Serra rebate algumas das acusações contidas em A privataria tucana e promete recorrer à Justiça. Segundo a Folha de S.Paulo, ela vai processar não apenas o autor do livro, mas também os veículos de comunicação que têm reproduzido partes de seu conteúdo.

Se isso for verdade, finalmente teremos o assunto nas páginas dos jornais.

Por Luciano Martins Costa no Observatório da Imprensa

Fonte: Adnews

PSDB quer censurar A Privataria Tucana

Texto publicado em 27 de Dezembro de 2011 - 10h06

Fonte: Causa Operária Online

Depois de algumas semanas da publicação do livro A Privataria Tucana, o jornalista Amaury Ribeiro Júnior deve sofrer nas próximas semanas seu primeiro processo por causa do livro que vem batendo recordes de venda nos últimos dias. No dia 21 de dezembro o jornal Causa Operária entrevistou Ribeiro Júnior e uma das perguntas dizia respeito justamente ao fato se ele já havia sofrido algum processo por denunciar o PSDB. Sua resposta foi a  seguinte: “Até agora não. Mas eu não tenho medo disso porque até agora tudo que eu denunciei no livro A Privataria Tucana está documentado. Eu estou preparado para a guerra”.

Se até aquela data Ribeiro Júnior não tinha sido alvo de nenhum protesto, a situação irá mudar em breve. Sérgio Guerra, presidente nacional do PSDB, declarou ao Blog do Noblat que entrará esta semana com um processo contra o jornalista e a editora que publicou a obra.

Esta é, na verdade, mais uma tentativa de censurar o livro. A primeira de seu por meio de ameaças de José Serra, o principal articulador da “privataria” na era FHC, ao autor do livro. Depois, o mesmo José Serra tentou comprar todas os exemplares da primeira edição do livro e, desta forma, tirá-lo de circulação.
Como as duas manobras iniciais deram errado, agora tentam censurar as denúncias por meio de processos contra o jornalista e a editora.

É preciso denunciar esta atitude, pois ela mostra a tradicional política da direita de tentar calar seus adversários. O mesmo método de calar seus adversários é usado por ela por meio do seu controle sobre a maioria da imprensa capitalista. Desta forma, a obra que vendeu 120 mil exemplares quase não teve destaque nos jornais e revistas semanais.

São estes mecanismos de censura que fazem com que a direita apareça como “ética” para muitos ingênuos que acreditam nesta máquina de mentiras que é a imprensa burguesa.

Neste sentido, o livro de Amaury Ribeiro Júnior, independente de suas ligações com o governo e o PT, tem o mérito de mostrar a corrupção e diversas ilegalidades por trás da política do PSDB.

Massacre de Porongos (INDICAÇÃO RUI FEYH)

ANO 117 Nº 45 - PORTO ALEGRE, SEGUNDA-FEIRA, 14 DE NOVEMBRO DE 2011

Todo dia 14 de novembro eu penso no massacre de Porongos, acontecido em 1844, no final da "gloriosa" Revolução Farroupilha, quando, por simples coincidência, tropas imperiais caíram justo sobre o acampamento dos negros a serviço dos farrapos e os assassinaram. O acampamento dos brancos teve mais sorte. Na véspera da chacina, o comandante farrapo Davi Canabarro recebeu um aviso por um emissário da irmã do general Neto, fazendeira na região, de que os imperiais estavam na área. Canabarro saiu-se com uma bravata: "O Moringue sentindo a minha catinga aqui não vem. Marche para a sua casa e não ande espalhando esta notícia aterradora aqui no acampamento". Não bastasse, mandou desarmar a infantaria, tirando-lhe o cartuchame. Está tudo documentado. Faço uma minuciosa análise de tudo o que aconteceu em meu livro, odiado por muitos, que prometeram até me capar, "História Regional da Infâmia, o Destino dos Negros Farrapos e Outras Iniquidades Brasileiras".

Não falo disso para fazer autopropaganda. Não é preciso. O livro vende muito bem. Falo para homenagear os negros que foram sacaneados. Eram, na maioria, escravos dos imperiais cooptados pelos farroupilhas com a promessa de liberdade em caso de vitória. Tornaram-se, porém, um obstáculo para a paz, pois seus donos exigiam que fossem devolvidos. O providencial ataque aos negros desarmados em Porongos eliminou uma parte considerável do problema. Aqueles que escaparam foram entregues a Caxias e enviados para o Rio de Janeiro, onde se tornaram escravos da Nação, depositados no Arsenal da Marinha. Existe também a famosa carta assinada por Caxias que dá conta de uma combinação com Canabarro, que acabou fugindo só de cuecas, para eliminar os negros. A carta teria sido assinada depois dos fatos. Um caso único. Assinatura verdadeira, conteúdo falso. Uma linda fábula farroupilha. Malabarismos são feitos para justificar Caxias e Canabarro, que morreram mudos sobre o assunto. Tenta-se explicar a retirada do cartuchame. Tudo lógico demais para ser verdadeiro. Os negros foram rifados em Porongos.

Lanceiros e infantes negros morreram para que um acerto entre os fazendeiros brancos e o Império se concretizasse. Tentou-se apagar previamente a imagem futura de traição dos farrapos aos negros, com a entrega deles aos imperiais, com uma traição ainda maior, a entrega das suas vidas ao inimigo que se sabia próximo e pronto para atacar. Eu li tudo. Não me contaram. Não venham com "subsídios". Eu analisei como ninguém todo o processo e provei que os negros foram levados para o Rio de Janeiro, não para a Fazenda Santa Cruz como se dizia, quando não se negava isso, mas para o Arsenal da Marinha. Provei também que a revolução louvada como abolicionista vendeu negros no Uruguai para se financiar. Por isso, todo ano, em novembro, eu penso naqueles bravos negros massacrados em função de uma esperteza dos nossos "heróis". Aquilo foi malandragem e covardia. Não me venham com "eram os valores da época". A infâmia é intemporal e universal. Os negros sabiam muito bem disso.
http://www.correiodopovo.com.br/Impresso/?Ano=117&Numero=45&Caderno=0&Editoria=120&Noticia=359871

Bairrismo do centro (INDICAÇÃO RUI FEYH)

ANO 116 Nº 335 - PORTO ALEGRE, QUARTA-FEIRA, 31 DE AGOSTO DE 2011

O mundo é cheio de contradições. Uma contradição inteligente e sem solução se chama de paradoxo. Deve ser uma invenção da natureza para que tudo seja mais divertido ou tragicômico. Uma das coisas que mais me chamam a atenção é o bairrismo do centro. Ninguém é mais bairrista no Brasil do que cariocas e paulistas. Nem os baianos. Muito menos os gaúchos. O bairrismo dos cariocas e dos paulistas já começa nessa crença de que eles são realmente centro. É uma ideia do tempo em que não havia Internet nem globalização. Hoje, tudo é centro. Até a periferia. Carioca é tão bairrista que acha que não tem sotaque e, com aquele sotaque de cobra sibilando, imita o sotaque dos outros. Paulista faz o mesmo, só que com aquele sotaque de caipira enrolando a língua.

Já disse aqui que a principal marca do bairrismo paulista está em se ver como cosmopolita. É o cosmopolita do "ô meu" e do "ô loco". O cosmopolita do "Curintia" ou da padaria da esquina. A marca do bairrismo carioca é achar que todo carioca é malandro e bom de humor, aquele humor de irmão mais velho, da implicância e do bullying. Carioca vê clichês nos costumes dos outros. Já os seus clichês são sempre positivos. Nada mais bairrista do que a mídia carioca e paulista, que se julga nacional, embora até escreva com sotaque. Nessa história dos 50 anos da Legalidade, cariocas e paulistas deram um show de bairrismo. Cobriram a renúncia de Jânio Quadros e o papel de Carlos Lacerda, o presidente bebum que haviam inventado para varrer a corrupção e o jornalista mentiroso que passou a vida tentando ser presidente.

Cariocas e paulistas acham que os gaúchos são bairristas porque mandamos no Brasil com Getúlio Vargas, Jango e até com os milicos. Não suportam o fato de que não torcemos para Flamengo e Corinthians e, com Inter e Grêmio, vivemos dando laço neles. Os cariocas, mais pragmáticos, resolveram aderir e elegeram Brizola duas vezes para governar o Rio de Janeiro. A dor dos paulistas é maior. Depois de 1930, nunca mais voltaram realmente a controlar as rédeas do Brasil. Tentam nos enfiar pela goela os seus gostos esquisitos, a começar pelos sertanejos. Não cola. A Legalidade é mais uma cicatriz na vaidade das elites cariocas e paulistas. Jânio se foi como um louco. Os ministros militares tentaram um golpe absurdo. Lacerda reprimiu a imprensa e os movimentos sociais e tentou deixar a bola com seus amigos fardados.

O Rio Grande do Sul estragou a festa. Colocou água no chopinho da galera do centro. Desesperados, cariocas e paulistas, donos da mídia mais provinciana do Brasil, mais do que a Rede Baita Sol, de Palomas, o que é uma baita façanha, tentam nos rotular de bairristas para encobrir o próprio bairrismo. O jornal Estado de S. Paulo, que botou luto pela morte de Pinochet, e a Folha de S.Paulo, que bajulou a ditadura e depois a chamou, não faz muito, em editorial, de "ditabranda", simularam interesse. A tucana revista Veja, como sempre, nada viu. Afinal, olha para o passado com sua ideologia conservadora. Veja continua na Guerra Fria. Dá até pena.
http://www.correiodopovo.com.br/Impresso/?Ano=116&Numero=335&Caderno=0&Editoria=120&Noticia=333031

NYT: Brasil fica atrás de seus vizinhos na punição a torturadores

21 de dezembro de 2011 10h11 atualizado às 10h25


Os "fantasmas" do regime militar brasileiro mostram que, se o País é um líder regional em termos econômicos, ele fica atrás de seus vizinhos quando se trata de punir autoridades responsáveis por torturas e assassinatos, afirma uma reportagem publicada nesta quarta-feira no jornal The New York Times. De acordo com o texto, desde que a presidente Dilma Rousseff (PT) sancionou a criação da Comissão da Verdade (que investigará crimes cometidos durante a ditadura) e a Lei de Acesso a Informações Públicas (que limita o sigilo de documentos oficiais), os céticos se perguntam se o País está preparado para "lidar com os crimes do passado".

"O Brasil começou a encarar a possibilidade de que, no âmbito dos direitos humanos - diferentemente de assuntos econômicos e diplomáticos regionais -, o manto da liderança pode não vir tão facilmente, no fim das contas", diz a reportagem. "Fantasmas do período militar, de 1964 a 1985, começaram a se mexer, revelando como o Brasil, embora uma potência emergente da América Latina e a quarta maior democracia do mundo, ainda fica atrás de seus vizinhos no que diz respeito a processar autoridades por crimes que incluem assassinatos, desaparecimentos e tortura", ressalta a reportagem.

O texto afirma que a Comissão da Verdade, que começa a trabalhar em janeiro, foi criticada tanto por militares - citando o caso de um oficial reformado que foi à Justiça contra a medida - quanto das famílias das vítimas, que consideram o projeto "simbólico", já que os responsáveis por abusos continuam protegidos pela Lei da Anistia de 1979.

Penas pesadas

A reportagem do NYT diz que, enquanto países como Argentina, Uruguai e Chile aplicaram penas pesadas a militares que cometeram crimes, e até revogaram leis de anistia, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a Lei da Anistia de 1979 ainda é válida, embora ela seja considerada irregular pelo Tribunal Interamericano de Direitos Humanos da OEA.

"Até aqueles intimamente familiarizados com as tentativas de lançar luz sobre o período militar do Brasil ficam frequentemente perdidos sem entender por que tal resistência é tolerada", afirma o texto, que lembra o fato da presidente Dilma Rousseff raramente fazer referências ao fato de ter sido presa e torturada enquanto era militante de esquerda, nos anos 1970.

Segundo a reportagem, uma "postura contra o escrutínio" ainda vigora entre os militares brasileiros, citando o fato de que a primeira iniciativa para criar a Comissão da Verdade, em 2009, levou os comandantes das Forças Armadas a ensaiar uma renúncia coletiva, junto do então ministro da Defesa, Nelson Jobim.

"Dada tal oposição, alguns aqui (no Brasil) temem que a Comissão da Verdade, que terá somente dois anos para completar seu trabalho de investigar e relatar os abusos dos militares, possa acabar sendo vítima do tempo, já que aqueles responsáveis por crimes estão diminuindo em número", diz o texto.

Privataria tucana: a República caminha no fio da navalha

21/12/2011 14:54,  Por Gilberto de Souza - do Rio de Janeiro


O Congresso equilibra-se na linha das denúncias contidas no livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., A Privataria tucana, igual a quem anda sobre o fio da navalha. É de competência dos parlamentares apurar os fatos sobre o maior assalto aos cofres públicos já visto ao Sul do Equador, desde o saque do Pau Brasil, do ouro e do açúcar, arrancados das Terras Brasilis pelas coroas de Portugal, Holanda, França e Inglaterra, entre outras menos cotadas, ainda nos primórdios da nação. Desta feita, no entanto, a patifaria privatista diluiu no caldo tóxico da corrupção o patrimônio de uma Vale do Rio Doce inteira, com uma Companhia Siderúrgica Nacional, de quebra, na sopa de entulhos da propinagem que, segundo documentos anexados à obra, ganhou o reforço de todo o sistema nacional de telefonia e de algumas companhias elétricas. Por pouco, pouco mesmo, não traçam a Petrobras e o Banco do Brasil, para ficar no raso.

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) convocada na Câmara para apurar os fatos e indicar a punição dos responsáveis pela roubalheira é, hoje, a última linha de defesa da moralidade nacional antes de, segundo o conselho lapidar do saudoso Stanislaw, locupletar-mo-nos todos. A barbárie está lá fora, à espreita, de prontidão para assolar o país caso alguém seja louco de oferecer uma pizza para calar Opinião Pública e as instituições, a exemplo da cabeça coroada que perguntou sobre os brioches, antes de se separar, irremediavelmente, do belo corpinho. Trata-se de uma questão de justiça para com a magistratura brasileira reconhecer que, apesar das falhas, integra um sistema hábil e eficaz. O processo do dito ‘Mensalão’ segue em análise no Supremo Tribunal Federal. Os casos mais comezinhos de corrupção trilham as cortes inferiores e, se ninguém foi preso até agora, agradeçam os réus à qualidade dos profissionais inscritos na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Que o diga o ex-governador do Distrito Federal, José Inácio Arruda. Os privateiros seguem na mesma direção.

Pesa sobre os ombros dos parlamentares, na CPI da Privataria, a responsabilidade de passar a limpo esse período enlameado da História do Brasil. O deputado e delegado federal Protógenes Queiroz (PCdoB-SP), acostumado já às lides deste porte comandou, em boa hora, a reação da sociedade brasileira diante do pântano de imundícies que marcou a gestão tucana, durante a ‘Era FHC’, revelado no livro de Amaury Ribeiro Jr. Trata-se, segundo o autor, de um achaque de bilhões de dólares aos cofres públicos, o equivalente a ainda mais bilhões de reais retirados do país com o beneplácito de setores vitais da máquina estatal. Dinheiro suficiente para comprar votos, burlar a Justiça, patrocinar o escárnio ao suor sagrado do rosto de cada trabalhador que, feito escravo, paga pelas mansões cinematográficas dos próceres tucanos.

Não há mais espaço, na democracia brasileira, para acordos como aquele patrocinado ao raiar da ‘Era Lula’, no caso da CPI do Banestado, entre a esquerda e a direita, que enterraram juntas, na cova rasa da mentira, a base de um dos maiores escândalos financeiros da história nacional. Na época, o recém-empossado presidente Luiz Inácio Lula da Silva agiu com sabedoria ao perceber que a força do Partido da Imprensa Golpista (PIG) era de alguns megatons, capaz de levar os brasileiros a atitudes impensadas das quais, no futuro, iríamos todos nos arrepender. Os diários conservadores haviam demonstrado seu poderio ao derrubar, uma década atrás, o presidente da República que o próprio PIG elegeu. Embora amargassem, sem uma explicação fácil, a derrota do emplumado tucano José Serra para o operário classificado de semianalfabeto, pobre e burro, os grandes conglomerados da mídia estavam mais afiados do que nunca.

Outros tempos

Hoje em dia, apenas para tranquilizar o leitor do Correio do Brasil preocupado com o cerceamento da informação devido à pequena audiência dos jornais não alinhados, em um comentário sobre o editorial Uma resposta necessária ao colunista Merval Pereira, o jornalismo levado a sério, como fazemos aqui no CdB, recebe o apoio dos milhões de leitores que acessam a internet em quantidade e velocidade cada vez maiores. Arrisco a prever, sem medo de errar, a vitória da seriedade contra as práticas oblíquas da velha imprensa, na verdadeira revolução em marcha no campo da Comunicação Social, aqui e no mundo.

Em pleno verão, a ‘primavera’ brasileira chega no lombo da internet, a exemplo das rebeliões árabe, norte-americana e europeia, pela banda larga da cidadania exercida por cada leitor que, diante do pronunciamento da dignidade e no clamor por uma pátria mais justa, compartilha, repassa, curte, assina, dissemina, faz a notícia voar mais alto do que as baterias da imprensa golpista conseguem atingir. Desde a fundação, há 12 anos, tem sido assim com o Correio do Brasil, para desespero dos detratores da verdade e da consciência pública. Estes, sim, ainda que encastelados na cumplicidade com o capital internacional, têm razões de sobra para tremer. Sentado sobre o butim achacado do poder público, sob ameaças de retaliação, ou com a venda de espaços privilegiados em suas páginas aos poderosos, o PIG agora sua diante da nova realidade que se avizinha, pois “tudo o que é sólido, desmancha no ar”, já dizia o velho barbudo, ainda no tempo em que sequer existia computador.

Gilberto de Souza é editor-chefe do Correio do Brasil

Protógenes protocola CPI que pode levar tucanos para a cadeia

21 de Dezembro de 2011 - 15h21

Um dia histórico para o país. Nesta quarta-feira (21), o deputado Protógenes Queiroz protocolou junto ao presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), o requerimento para a instalação da CPI da Privataria Tucana. “A Câmara hoje se mobiliza atendendo a um apelo popular muito forte, através principalmente das redes sociais”, comentou Protógenes.

“Começou como CPI da Privataria, mas muitos já estão chamando de CPI da Cidadania, pois é uma CPI pluripartidária, com assinaturas de todos os partidos. Muitos deputados da oposição assinaram porque também se disseram surpreendidos com as revelações do livro”, informou o deputado comunista.

Foram colhidas 206 assinaturas para a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito que pretende investigar um grande esquema de corrupção ocorrido durante o processo de privatizações das estatais no governo de Fernando Henrique Cardoso.

O fato novo que motivou o pedido de CPI foi a publicação do livro Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Junior, que trouxe centenas de documentos comprovando o recebimento de propinas e lavagem de dinheiro em paraísos fiscais. Participaram da entrega do requerimento, ao lado de Protógenes, os deputados Jô Moraes (PCdoB-MG), Reginaldo Lopes (PT-MG), Ricardo Berzoini (PT-SP) e Chico Alencar (PSOL-RJ).

Clamor popular

Protógenes considerou um dia histórico, pois os deputados atendem a um clamor popular pela criação da CPI. “Queremos esclarecer e dizimar uns fantasmas que rondam a política brasileira. Nas privatizações da década de 90, nós pagamos um custo social muito alto e agora descobrimos para onde foi o dinheiro”.

O deputado fez questão de ressaltar que todo o movimento que surgiu no país se deve `a publicação do jornalista Amaury, “é muito mais que um livro, é um verdadeiro documento, uma espécie de libelo acusatório. E nós vamos procurar através dessas acusações as verdades que o Brasil quer e precisa saber”.

Delegado da Operação Satiagraha, que em 2008 prendeu o banqueiro Daniel Dantas, Protógenes viu conexões entre as informações do livro e outras operações policiais. “Nunca imaginávamos que grande volume de dinheiro enviado para o exterior era do processo de privatização”, afirmou.

Presidente

O presidente Marco Maia considerou que esta pode ser uma “CPI explosiva, com contornos muito claros de debate político”. Maia informou que recebido o requerimento, o próximo passo é encaminhar para a secretaria geral da Câmara para as devidas conferências. “Além disso, será feita uma análise jurídica do conteúdo do requerimento. Vamos cumprir na integralidade do regimento no que diz respeito a instalação da CPI e assim identificar se há um fato determinado”.

Maia comunicou também que ainda essa semana vai assinar a constituição de duas CPIs para começarem a funcionar a partir do início do próximo ano. A primeira investigará o possível aumento do trabalho escravo no país e outra terá como foco o tráfico de pessoas, em um trabalho complementar ao que foi desenvolvido no Senado.

De Brasília,
Kerison Lopes

Cúpula Social do Mercosul quer Comissão Coletiva da Verdade

19 de Dezembro de 2011 - 9h35


Durante a Cúpula Social do Mercosul, iniciada no domingo (18) no Uruguai, especialistas e pesquisadores de direitos humanos pediram a criação, no seio da organização, de organismos especializados para coordenar e trabalhar de forma coletiva na busca da verdade sobre a repressão durante as ditaduras que assolaram a região no século 20. Nesta segunda (19) serão temas de debates questões como migrações, jovens, grupos de homossexuais, educação, incapacitados ou voluntariado social, entre outros.


O encontro, que reúne agentes sociais, civis e políticos dos países que fazem parte do bloco é realizado antes da cúpula de chefes de Estado que começa na terça-feira (20), e teve como abertura o debate “Terrorismo de Estado no contexto da Operação Condor e os processos de verdade e justiça no Cone Sul”.

Todos os expositores concordaram que a "Operação Condor" – a coordenação de tarefas de repressão ilegal entre os governos de fato de Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Paraguai e Peru durante a década de 1970 – constituiu um tipo de "integração demoníaca" da região e que, portanto, só o trabalho comum dos países que o sofreram pode proporcionar a verdade perante o que ocorreu.

Comissão civil de direitos humanos
Participante do debate, o diretor da rádio de Associação das Mães da Praça de Maio, da Argentina, Pedro Lanteri, disse que "este é o pontapé inicial" para a formação de "uma comissão de direitos humanos formada pela comunidade civil".

"A história merece ser conhecida, investigada e julgada para que não se repita", acrescentou Lanteri.

A jornalista e escritora argentina Stella Calloni disse que é fundamental que "o tema dos direitos humanos seja uma coisa cooperativa, coletiva (...). Temos um montão de elementos que, se juntarmos, podemos fazer grandes descobertas e chegar à raiz e aos autores intelectuais" do Plano Condor, acrescentou.

Segundo Víctor Abramovich, diretor do Instituto de Políticas Públicas em Direitos Humanos do Mercosul, esta "coordenação repressiva" sofrida por todos os países que hoje integram o bloco constitui "um passado comum que de alguma maneira serve para construir identidades coletivas".

"Ao construir esta memória é preciso partir da base que a repressão não se limitou a violar direitos civis e políticos, mas buscou disciplinar os movimentos políticos de avanço social", acrescentou Abramovich.

"Assim, pensar nos direitos humanos na região tem a ver com avançar no desenvolvimento dos direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais, com uma memória social como garantia de não repetição do passado", disse.

Movimentos sociais
O representante geral do Mercosul, Samuel Pinheiro, destacou a importância da participação dos movimentos sociais na luta contra as desigualdades de todo tipo.

Pinheiro assinalou que a América é o continente mais desigual do mundo não por um processo casual, mas pelas estruturas econômicas, sociais e políticas que se reproduziram por mecanismos de concentração de poder.

Histórico
A primeira Cúpula Social da instituição ocorreu em dezembro de 2006 em Brasília, segundo proposta do Brasil, com o objetivo de fortalecer a participação cidadã desde a integração regional.

Analistas indicaram que este propósito instigou os organismos sociais, culturais, sindicais e estudantis do bloco, que desde então participam ativamente nas diferentes oficinas de trabalho.

Com informações de agências

Debate: Por que os torturadores escondem os seus rostos?

18 de Dezembro de 2011 - 10h40
A foto de Dilma Rousseff sendo interrogada por funcionários da ditadura tem se prestado a várias leituras. A cena dos dois homens escondendo o rosto com a mão assemelha-se muito à imagem de criminosos escondendo a face para não serem reconhecidos. Eles são autores de crimes que definem a verdadeira impunidade que ainda precisa ser enfrentada no Brasil.

Por Katarina Peixoto

No dia 3 de dezembro, a revista Época publicou uma foto de Dilma Rousseff sendo interrogada por delinquentes oficiais depois de 22 dias de tortura. A foto é extraordinária sob muitos aspectos e um deles é a sua expressividade como história, como fato histórico. Uma jovem altiva mira o ou os interrogadores e dois dos delinquentes que participavam da barbárie esconderam o rosto para o fotógrafo (a história desse ato fotográfico mereceria por si só uma análise detida, não tanto da intenção do fotógrafo, mas da função desse tipo de foto, numa ditadura, em sessões de interrogatório). Dilma, como todos podem saber, foi torturada. Os torturadores de Dilma, não.

Essa foto tem sido objeto de algumas reflexões na imprensa brasileira. Uma delas, assinada pelo jornalista Moisés Mendes, do jornal Zero Hora (edição de 11/12/2011) chama a atenção por uma curiosa escolha de palavras. Estabelecendo uma relação entre o período histórico da ditadura e a foto de Dilma, o jornalista escreve:

“Éramos alienados, seu Mino. Jovens com o perfil de Dilma, comunistas, democratas ou anarquistas, que provocaram o confronto com o regime com suas próprias vergonhas, eram quase todos da minoria da militância estudantil. Só leve a sério quem aparecer contando vantagem, com histórias de resistência e bravura naquele 1970, se conhecer sua trajetória.

A foto de Dilma no interrogatório não é a síntese da juventude brasileira de quatro décadas atrás. É apenas a foto de uma moça destemida diante de dois homens torturados pela desonra”. (ver íntegra do artigo no final)

Torturados pela desonra? A cena dos dois homens escondendo o rosto com a mão assemelha-se muito à imagem de criminosos escondendo a face diante das lentes de uma máquina fotográfica ou de uma câmera de televisão. Considerando o período histórico e o contexto da cena, parece muito mais plausível que a tentativa de esconder o rosto tenha pouco a ver com um “sentimento de desonra” e tudo a ver com um gesto com um objetivo bem definido: não ser identificado. Os criminosos, em geral, não gostam de ser identificados.

A possibilidade de os torturadores sentirem-se envergonhados obviamente não está descartada; seria nada mais que uma possibilidade e, enquanto tal caberia averiguar. Uma das dificuldades para que isso ocorra é que, no Brasil, os torturadores nunca se disseram envergonhados, sequer assumiram o que fizeram e menos ainda foram punidos. Como não bastasse, os arquivos em que seus delitos estão registrados foram ou destruídos ou sonegados da cidadania brasileira e assim seguem, mesmo quase trinta anos após o fim da ditadura. A ocultação dos torturadores, dos seus atos e de suas personalidades de direito torna impossível averiguar a sua vergonha.

De fato, em termos jurídicos, um crime imprescritível (como o são os crimes contra a humanidade, dentre eles a tortura), uma vez não investigado, processado e punido se constitui como crime continuado. Assim, não há qualquer obstáculo jurídico ou lógico para se atribuir aos delinquentes que torturaram, entre outros, a atual presidente democraticamente eleita do Brasil o adjetivo que lhes é devido: criminosos contra a humanidade.

Aqui aparece um ponto que parece ser decisivo para as leituras da foto em questão. O Estado brasileiro, até hoje, não reconheceu que foi autor de crimes no período da ditadura. Não se trata apenas de reconhecer crimes contra o marco constitucional da época. Um governo eleito foi derrubado por alguns setores civis e militares, num movimento autoritário que feriu de morte o marco constitucional da época. Além desse crime, outros foram praticados: prisões arbitrárias e ilegais, demissões arbitrárias do serviço público e de empresas, perseguições, sequestros, torturas, assassinatos...Crimes cometidos por agentes de um estado de exceção.

Neste contexto, os interrogadores de Dilma escondem o rosto não porque estão “torturados pela desonra”, mas porque, objetivamente, pertencem a uma organização criminosa que tomou de assalto o Estado brasileiro. O fato de isso não ser reconhecido por um jornalista sério mostra o quanto o Brasil precisa acertar as contas com sua própria história.

Os crimes praticados por criminosos que até hoje insistem em esconder seus rostos continuam sem inquérito, sem processo, sem acusação, sem defesa, sem julgamento. Os torturadores não têm vergonha alguma pelo simples fato de que eles, institucionalmente, isto é, como membros do aparato de segurança e das forças armadas, jamais confessaram seus crimes.

E se o Brasil tivesse aberto os arquivos da ditadura civil-militar que se seguiu ao golpe de estado de 1964? E se as famílias dos supliciados e desaparecidos tivessem tido acesso aos corpos de seus entes familiares, bem como às condições de seu assassinato?

Os delinquentes que participaram do interrogatório da jovem Dilma Rousseff, depois de esta passar por 22 dias de tortura, por acaso foram investigados e padeceram como acusados sem inquérito, tiveram os seus corpos supliciados e as suas subjetividades invadidas pela brutalidade da violação física e mental de que se faz a tortura? Há alguma confissão inconfessa ao público, em que algum torturador teria incorrido?

As dificuldades e resistências em reconhecer que o Estado foi autor de crimes só reforçam a importância de uma Comissão da Verdade, que traga à luz os rostos que até hoje tentam se esconder e os fatos que até hoje permanecem escondidos. Há um jargão (distorcido) que costuma ser repetido à exaustão que consiste em dizer que “o Brasil é o país da impunidade”. As nossas prisões estão abarrotadas e todos sabem qual é o perfil de seus habitantes. A impunidade no Brasil aplica-se, sobretudo, aos chamados crimes de colarinho branco, mas a mãe de todas as impunidades é a que até hoje está encravada no coração do Estado. Os crimes cometidos pelo Estado brasileiro, como o da tortura, permanecem impunes e, mais do que isso, sendo reproduzidos em peças policiais obscuras que também escondem o rosto.

Por isso, também, seria importante que Dilma determinasse a abertura dos arquivos da ditadura militar. Mais do que pela autoridade moral de ter sido vítima da ação dos delinquentes torturadores e assassinos; mais do que pela sua subjetividade e decência, mais do que pelo respeito que ela tem pelos que ficaram pelo caminho, pelos que foram subtraídos, até em seus restos mortais, de seus familiares, ela pode abrir os arquivos. Para além da confusão gerada e reproduzida pela lei da anistia, é importante abrir esses arquivos para acabar com as mentiras históricas, até quando cometidas por gente séria, em conotações equívocas e que dão guarida à falsidade na descrição do que se passou.

(*) O jornal Zero Hora só disponibiliza os links dos textos de sua edição impressa para assinantes. Segue abaixo o artigo em questão:

11 de dezembro de 2011 | N° 16914

A foto de Dilma
Por Moisés Mendes

Enquanto alguém fotograva Dilma Rousseff naquele interrogatório da Auditoria Militar do Rio, você fazia o quê? Você que era jovem, com idade para duelar com a ditadura e cometer loucuras em nome da democracia ou de uma revolução, o que você fazia naquele novembro de 1970 enquanto Dilma encarava os militares com o nariz empinado e você nem sabia que Dilma existia?

Admita: você, seus irmãos, seus colegas, seus vizinhos não faziam quase nada. Eu confesso: tinha 17 anos, dormia escutando as baladas da Rádio El Mundo de Buenos Aires e acordava pensando no milagre que eliminaria minhas espinhas da cara. Como nos empurraram para a alienação naquele 1970, em Alegrete ou em Porto Alegre!

E agora você, que tem hoje a idade de Dilma em 1970, que tem 22 aninhos, que já postou mais de mil fotos suas no Facebook: você já tem uma foto síntese como aquela de Dilma? Tem a imagem que revele sua alma, que dispense legendas, que esteja para você como a Mona Lisa está para todas as mulheres e como a Guernica de Picasso está para todas as guerras? Você tem uma imagem que tenha condensado tudo de você?

Se ainda não produziu a foto reveladora de sua presença neste mundo, não se penitencie. A foto de Dilma é única. Não acredite na conversa de que todos os jovens daquele 1970 enfrentavam a ditadura com o olhar de laser de Dilma. Os jovens de 1970 estavam anestesiados por quatro anos de regime militar, pelo Tri no México, pela censura.

A edição número 115 de Veja, de 18 de novembro daquele 1970, trazia esta capa: Em quem os jovens votaram. A reportagem tratava de uma pesquisa com mil jovens de 18 a 22 anos, de São Paulo, Rio, Porto Alegre e Recife, que votavam pela primeira vez no dia 15 daquele mês para eleger senadores e deputados.

Algumas revelações da pesquisa: 52% não sabiam por que os militares fizeram o golpe de 64; outros 25% disseram que o golpe evitara o comunismo; 71% achavam que o povo estava feliz com a situação do país; 51% dos jovens gaúchos votariam na Arena (o partido do governo) e 44% no MDB (da oposição); e 55% de todos os pesquisados no país votavam “por obrigação” (só 10% entendiam que votar era um direito). E quem tinha sido Oswaldo Aranha? 83% não tinha a menor noção. E qual seria a nota para o presidente Médici? Um 8,4. E assim por diante.

Na eleição, de 70, o MDB levou uma lambada de dois votos por um da Arena. A Arena elegeu 41 senadores e 223 deputados federais. O MDB, apenas seis senadores e 87 deputados. No Estado, Daniel Krieger e Tarso Dutra, arenistas, foram eleitos senadores com o dobro de votos dos emedebistas Paulo Brossard e Geraldo Brochado da Rocha.

Foi uma goleada do partido do governo, com o voto faceiro dos jovens. Vão dizer que havia a campanha do voto nulo, que o país ainda estava confuso, que faltava coesão ao MDB, aos democratas e às esquerdas. Nessa confusão, os jovens eram, como escreveu Mino Carta, o diretor de Veja, “pouco politizados, muito práticos e eventualmente ingênuos”.

Éramos alienados, seu Mino. Jovens com o perfil de Dilma, comunistas, democratas ou anarquistas, que provocaram o confronto do regime com suas próprias vergonhas, eram quase todos da minoria da militância estudantil. Só leve a sério quem aparecer contando vantagem, com histórias de resistência e bravura naquele 1970, se conhecer sua trajetória.

A foto de Dilma no interrogatório não é a síntese da juventude brasileira de quatro décadas atrás. É apenas a foto de uma moça destemida diante de dois homens torturados pela desonra.

Fonte: CartaMaior

Juan Gelman: "A única maneira de esquecer a dor é com a verdade"

18 de Dezembro de 2011 - 11h39

Juan Gelman não é só um dos maiores poetas contemporâneos, como também um incansável militante da causa contra o esquecimento dos crimes cometidos pelas ditaduras militares que ensanguentaram o cone Sul nos anos 70 e 80. O filho e a nora foram assassinados pelas ditaduras na Argentina e no Uruguai. A neta foi roubada por militares. Em entrevista, ele fala sobre sua busca por verdade e justiça, defende as comissões da verdade e fala da participação do Brasil na Operação Condor.

Juan Gelman estremece: com sua poesia, com a memória da repressão que carrega dentro de si e com o combate contra os censores dessa memória e seu empenho por não deixar impunes os responsáveis da barbárie.

Sua história cabe em suas próprias palavras: “Sou pai de um filho de 20 anos, sequestrado, torturado, assassinado em 1976. Sou sogro de sua esposa, sequestrada quando tinha 19 anos, levada de Buenos Aires para Montevidéu grávida de 8 meses e meio e assassinada pela ditadura militar uruguaia dois meses depois de dar à luz. Sou avô de uma neta da qual me roubaram seus primeiros 23 anos de vida”.

Já se passaram quase 30 anos desde o fim da ditadura argentina e Juan Gelman segue buscando a verdade sobre o que aconteceu com seu filho, sua nora e sua neta. Em janeiro de 2010, o coronel aposentado uruguaio Manuel Cordero Piacentini, acusado do sequestro do filho, da nora e da neta Gelman, foi extraditado pelo Brasil para a Argentina. Cordero havia escapado da justiça em 2004, mas foi capturado em 2005, em Santana do Livramento.

Em agosto de 2010, o Supremo Tribunal Federal do Brasil autorizou sua extradição para a Argentina. O militar uruguaio operava dentro da operação Condor, essa multinacional do crime montada pelas ditaduras da Argentina, Uruguai, Brasil, Paraguai e Chile para perseguir opositores políticos. Cordero é acusado de desempenhar um papel central no centro de detenção clandestino conhecido como Automotores Orletti.

O ex-militar uruguaio está implicado em dez desaparecimentos, entre eles, os de Marcelo Gelman, filho de Gelman, e sua esposa, María Claudia García, que estava grávida de oito meses quando foi presa. Sem o empenho do poeta, o rosto dos criminosos nunca teria sido conhecido.

Gelman moveu céu e terra até averiguar que a esposa de seu filho tinha sido transportada a Montevidéu, onde deu luz a uma menina antes de desaparecer. A menina foi adotada por um militar uruguaio e durante muitos anos nada se soube dela. Juan Gelman a recuperou em 2000: “No dia 14 de janeiro de 1977 foi deixada em uma cesta na porta de uma família que pensei serem meus pais até que fiquei sabendo que era filha de desaparecidos”, relatou a neta de Gelman, que hoje se chama María Macarena Gelman García. Macarena nasceu na prisão clandestina do Serviço de Informação de Defesa de Montevidéu, no dia 1° de novembro de 1976.

A obra poética de Juan Gelman é extensa e de uma originalidade e profundidade que lhe valeram numerosas distinções, entre elas o prêmio mais importante em língua espanhola, o Cervantes, obtido em 2007. Gelman, que nasceu na Argentina em 1933 e atualmente reside no México, é um poeta excepcional. Seu primeiro livro, Violino e outras questões, marcou uma fronteira na poesia escrita em espanhol. Sua obra está marcada pela busca de uma linguagem transcendente onde se combinam realismo crítico e intimismo, uma trama verbal deliciosa na qual está presente o compromisso social e político.

Juan Gelman é a busca: buscar, sempre buscar, entre as palavras, na realidade, buscar justiça, buscar que nunca se apague a linguagem da memória, que é justiça, que é restauração.

Carta Maior: Introduzo duas perguntas ditadas pela atualidade: o descobrimento no Brasil de documentos que constatam que você estava sob vigilância pela Operação Condor. Qual é sua análise, tantos anos depois, dessas descobertas?
Juan Gelman:
Não há muito o que dizer. A participação do Brasil na Operação Condor é notória. No Rio desapareceram vários dirigentes montoneros em 1979, por exemplo.

Carta Maior: O Brasil acaba de criar sua Comissão da Verdade. No sul da América Latina, é um dos últimos países a aceitar as investigações. Na sua opinião, qual o valor e utilidade desse tipo de comissão?Juan Gelman: Elas são úteis para averiguar o que aconteceu, coisa que nunca se consegue por completo por causa do silêncio dos repressores e o silenciamento dos arquivos militares que não são abertos. Mas se não servem para dar o passo seguinte, ou seja, fazer justiça, sua utilidade é relativa, ainda que nada desdenhável.

Carta Maior: Você acredita que, tantos anos depois dos fatos e com uma democracia já consolidada, esse tipo de comissões da verdade ainda conservam seu sentido?Juan Gelman: Absolutamente. A ignorância do ocorrido impede a conquista de uma consciência cívica sadia.

Carta Maior: Você segue permanentemente comprometido com a busca da verdade. Há algumas semanas, voltou a se manifestar sobre a causa do desaparecimento de bebês. Essa busca tem sido uma espécie de arqueologia: tudo é clandestino, oculto, tapado por cumplicidades. Como é essa experiência que requer uma vontade inquebrantável e que expõe permanentemente a dor?Juan Gelman: Por um lado, é uma experiência dolorosa. Por outro, a busca do destino dos seres queridos o retira, interiormente, do papel de vítima. É muito difícil para muitos, cabe dizer, conseguir algo nesta investigação, mas as pessoas se empenham nela. Outros são vencidos pela impotência.

Carta Maior: O que a verdade e o julgamento dos culpados trazem?Juan Gelman: Já não estamos na época de Péricles, na qual os cidadãos deviam esquecer por decreto os crimes de uma ditadura.

Carta Maior: Você sente que o Estado devolve algo às vítimas ou a seus familiares quando cumpre com sua missão de fazer justiça ou de assumir plenamente as investigações?Juan Gelman: Assumir as investigações e fazer justiça são obrigações do Estado. Quando ela as cumpre, faz o que os familiares das vítimas não estão em condições de fazer e abre a eles a possibilidade de esvaziar alguns rincões de sua dor. Em algumas ocasiões permite o encontro dos restos do “desaparecido”, dar-lhe uma sepultura, ter um lugar de memória e homenagem, recuperar sua história.

Carta Maior: Você disse no discurso de entrega do Prêmio Cervantes que “a nossa verdade é a verdade do sofrimento”. No entanto, neste mesmo discurso, você destacou que o único tratamento é a verdade e a justiça. Chega-se, assim, ao esquecimento ou ao apaziguamento?Juan Gelman: É a única maneira possível de “esquecer”.

Carta Maior: Volto a esse discurso, onde você evoca aqueles que, ao contrário, dizem que não se deve voltar ao passado e “vilipendiam este esforço de memória”. O que você diz hoje a esses militantes do esquecimento?Juan Gelman: O que disse a eles nesta ocasião: alguns devem estar muito interessados em que não haja memória dos crimes e das ofensas à democracia perpetradas pela ditadura militar. Na Argentina não muitos recordam a participação em, ou a cumplicidade com, ou os benefícios recebidos de, que caracterizam certos partidos políticos.

Carta Maior: Você disse em uma entrevista: “Sempre estamos escrevendo para nos inteirarmos do que queremos dizer”. Essa é sua experiência com a poesia?Juan Gelman: Eu me refiro aí ao que me leva a escrever poesia, algo que ignoro e que muitas vezes tampouco descubro com o escrito.

Carta Maior: Muitos acreditam hoje que a hipermodernidade matou a poesia, ou, em todo caso, nossa capacidade para lê-la. Mas lendo seus poemas, essa afirmação se desfaz. Por acaso a poesia é algo inato no ser humano, algo assim como o amor que precisa ser despertado e explorado?Juan Gelman: Pelo que se sabe há 50 séculos de poesia atrás de nós. Seu tempo atravessou catástrofes naturais, desastres provocados pelo homem, regimes políticos e sociais diferentes. E ela segue aí.

Carta Maior: Você escreveu: “A poesia é resistência simplesmente por existir”. Em que forma a poesia resiste ou engrandece nossa capacidade de resistência?Juan Gelman: Hoje, mais do que nunca, é resistência contra a vil mercantilização desta época em que querem recortar, uniformizar nosso espírito, para convertê-lo em terra abandonada para qualquer autoritarismo. A poesia não muda o sistema social imperante, ela enriquece aqueles que, algum dia, haverão de fazê-lo.

Carta Maior: Você recorre muitas vezes a neologismos. Que função eles têm para você: ir mais além do sentido, buscar outro, ou só jogar com o som?Juan Gelman: São tentativas de cruzar os limites da linguagem, nunca jogos.

Carta Maior: Você escreveu: “Escuto algo no ato de escrever”. É muito bonito, mas fica para mim uma pergunta: “escuta-se mais do que se plasma na escrita”?Juan Gelman: Muitíssimo mais.

Fonte: Carta Maior
Tradução: Katarina Peixoto

Terceira Carta às Esquerdas

Boaventura de Sousa Santos*

Quando estão no poder, as esquerdas não têm tempo para refletir sobre as transformações que ocorrem nas sociedades e quando o fazem é sempre por reação a qualquer acontecimento que perturbe o exercício do poder. A resposta é sempre defensiva. Quando não estão no poder, dividem-se internamente para definir quem vai ser o líder nas próximas eleições, e as reflexões e análises ficam vinculadas a esse objetivo. 

Esta indisponibilidade para reflexão, se foi sempre perniciosa, é agora suicida. Por duas razões. A direita tem à sua disposição todos os intelectuais orgânicos do capital financeiro, das associações empresariais, das instituições multilaterais, dos think tanks, dos lobbistas, os quais lhe fornecem diariamente dados e interpretações que não são sempre faltos de rigor e sempre interpretam a realidade de modo a levar a água ao seu moinho. Pelo contrário, as esquerdas estão desprovidas de instrumentos de reflexão abertos aos não militantes e, internamente, a reflexão segue a linha estéril das facções.

Circula hoje no mundo uma imensidão de informações e análises que poderiam ter uma importância decisiva para repensar e refundar as esquerdas depois do duplo colapso da social-democracia e do socialismo real. O desequílibrio entre as esquerdas e a direita no que respeita ao conhecimento estratégico do mundo é hoje maior que nunca.

A segunda razão é que as novas mobilizações e militâncias políticas por causas historicamente pertencentes às esquerdas estão sendo feitas sem qualquer referência a elas (salvo talvez à tradição anarquista) e muitas vezes em oposição a elas. Isto não pode deixar de suscitar uma profunda reflexão. Essa reflexão está sendo feita? Tenho razões para crer que não e a prova está nas tentativas de cooptar, ensinar, minimizar, ignorar a nova militância. 

Proponho algumas linhas de reflexão. A primeira diz respeito à polarização social que está a emergir das enormes desigualdades sociais. Vivemos um tempo que tem algumas semelhanças com o das revoluções democráticas que avassalaram a Europa em 1848. A polarização social era enorme porque o operariado (então uma classe jovem) dependia do trabalho para sobreviver mas (ao contrário dos pais e avós) o trabalho não dependia dele, dependia de quem o dava ou retirava a seu belprazer, o patrão; se trabalhasse, os salários eram tão baixos e a jornada tão longa que a saúde perigava e a família vivia sempre à beira da fome; se fosse despedido, não tinha qualquer suporte exceto o de alguma economia solidária ou do recurso ao crime. Não admira que, nessas revoluções, as duas bandeiras de luta tenham sido o direito ao trabalho e o direito a uma jornada de trabalho mais curta. 150 anos depois, a situação não é totalmente a mesma mas as bandeiras continuam a ser atuais.

E talvez o sejam hoje mais do que o eram há 30 anos. As revoluções foram sangrentas e falharam, mas os próprios governos conservadores que se seguiram tiveram de fazer concessões para que a questão social não descambasse em catástrofe. A que distância estamos nós da catástrofe? Por enquanto, a mobilização contra a escandalosa desigualdade social (semelhante à de 1848) é pacífica e tem um forte pendor moralista denunciador.

Não mete medo ao sistema financeiro-democrático. Quem pode garantir que assim continue? A direita está preparada para a resposta repressiva a qualquer alteração que se torne ameaçadora. Quais são os planos das esquerdas? Vão voltar a dividir-se como no passado, umas tomando a posição da repressão e outras, a da luta contra a repressão?

A segunda linha de reflexão tem igualmente muito a ver com as revoluções de 1848 e consiste em como voltar a conectar a democracia com as aspirações e as decisões dos cidadãos. Das palavras de ordem de 1848, sobressaíam liberalismo e democracia. Liberalismo significava governo republicano, separação ente estado e religião, liberdade de imprensa; democracia significava sufrágio “universal” para os homens. Neste domínio, muito se avançou nos últimos 150 anos. No entanto, as conquistas têm vindo a ser postas em causa nos últimos 30 anos e nos últimos tempos a democracia mais parece uma casa fechada ocupada por um grupo de extraterrestres que decide democraticamente pelos seus interesses e ditatorialmente pelos interesses das grandes maiorias. Um regime misto, uma democradura. 

O movimento dos indignados e do occupy recusam a expropriação da democracia e optam por tomar decisões por consenso nas sua assembleias. São loucos ou são um sinal das exigências que vêm aí? As esquerdas já terão pensado que se não se sentirem confortáveis com formas de democracia de alta intensidade (no interior dos partidos e na república) esse será o sinal de que devem retirar-se ou refundar-se?

* Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

A Comissão da Verdade e a tortura

24/11 às 21h49 - Atualizada em 24/11 às 21h52

Jornal do BrasilJoão Baptista Herkenhoff

A criação da Comissão da Verdade repõe em debate a questão da tortura contra presos politicos no regime ditatorial. Ao sancionar a lei que criou a Comissão da Verdade, disse a presidente Dilma Rousseff: "Hoje o Brasil inteiro se encontra, enfim, consigo mesmo, sem revanchismo, mas sem a cumplicidade do silêncio".

Serve de introito a este artigo uma decisão do Supremo Tribunal Federal, proferida em 29 de abril de 2010. 

Pretendo contribuir, através deste escrito, para uma discussão ética, que não se prende no tempo, não se localiza no calendário, porque é perene. No infeliz 9 de abril de 2010, o Supremo, por maioria, entendeu terem sido abrigadas pela lei de anistia todas aquelas pessoas que, durante o regime de exceção instaurado em 1964, torturaram opositores do regime. 

Cingiu-se o Supremo a uma interpretacão textual da lei de anistia. Fundamentou seu entendimento no princípio da segurança jurídica, que estaria ameaçado se, por via da interpretação judicial, fosse dada dimensão restrita ao leque dos anistiados, deixando ao desamparo da anistia os torturadores. Parece-me que, neste caso, a razão esteve com a minoria, ou seja com os dois ministros derrotados no seu entendimento: Ayres Britto e Ricardo Lewandovski. Entenderam esses magistrados que a tortura é crime comum, não é crime politico, daí que não foi abrangido pela anistia.

A decisão do Supremo que tivesse posto a tortura fora da anistia não levaria os torturadores do antigo regime, de imediato, para a prisão. Eles estariam ao desabrigo da anistia, mas teriam de ser submetidos a processo, com direito de defesa. A efetiva participação nos atos de tortura, relativamente a cada um dos acusados, teria de ficar configurada. O que a consciência ético-jurídica nacional esperava do Supremo Tribunal é que decidisse: 

“Tortura não é crime político, os torturadores não foram anistiados. Prossigam-se os processos para julgamento de todos aqueles acusados de terem praticado a tortura ou de terem sido coniventes com essa prática ignóbil”.

O que fica, do lamentável aresto do mais alto tribunal do país, é a afirmação de que a tortura, amplamente praticada numa fase de nossa História contemporânea, teve a ressalva de crime político, razão pela qual os praticantes da tortura foram anistiados.Na verdade, e isto deve ser proclamado com todas as forças, em homenagem ao Brasil de amanhã, a tortura não é crime político. Nenhuma razão política, nenhum credo, nenhum motivo que se alegue, nenhuma causa de qualquer natureza, nenhuma excludente, nada, absolutamente nada, justificou, no passado, ou autorizará, no futuro, a prática da tortura. 

A tortura é um crime contra a humanidade, é sempre um escárneo à dignidade humana. Fere o torturado e degrada o torturador.A Declaração Universal dos Direitos Humanos repudia, de forma absoluta, a tortura: 

"Ninguém será submetido a tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante". 
Observe-se o uso do pronome ”ninguém“, no texto. O mesmo pronome de significado total foi utilizado nas diversas línguas em que a Declaração Universal foi proclamada. A tolerância para com a tortura jogaria por terra toda a Declaração Universal dos Direitos Humanos.Transmitamos a nossos filhos e a nossos netos a rejeição veemente ao ato de torturar.

João Baptista Herkenhoff, professor pesquisador da Faculdade Estácio de Sá do Espírito Santo, é autor de 'Curso de direitos humanos' (Editora Santuário, Aparecida, SP). E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br

Fidel Castro é a pessoa que mais sofreu tentativas de assassinato

16/12/2011 12:00 - Atualizado em 16/12/2011 12:23

Site afirma que líder cubano afastado desde 2006 entrou para o Guiness

O líder cubano Fidel Castro, afastado do poder desde 2006 por razões de saúde, entrou para o livro dos recordes, o Guinness, por ser "a pessoa que mais vezes foi alvo de tentativas de assassinato", em 638 ocasiões, disse nessa quinta-feira um portal oficial cubano. "O líder histórico da Revolução Cubana, Fidel Castro, é a pessoa que mais vezes foi alvo de tentativas de assassinato, segundo registrou o Livro dos Recordes, o Guinness, e certamente os arquivos da CIA dos Estados Unidos, principal promotora dessas tentativas de homicídio", afirmou o site Cubadebate.

O Cubadebate afirma que até 2006, quando entregou o comando do governo a seu irmão Raúl, "somavam 638 as tentativas de assassinato contra ele, promovidas quase todas pela CIA". "Os métodos adotados para matá-lo eram diversos, apesar de todos terem fracassado: desde franco-atiradores, explosivos colocados em seus sapatos, veneno injetado em um charuto, até uma pequena carga explosiva dentro de uma bola de baseball, entre outras variantes", completa.

O site afirma ainda que desde a Revolução Cubana de 1959, “as agências americanas de espionagem e subversão” estavam “entre os mais interessados em eliminá-lo”.

O Guinness World Records é um livro publicado anualmente com uma coleção de recordes mundiais, e está entre os mais vendidos do mundo.

Assembleia aprova Comissão da Verdade paulista e corre para fechar o ano

15/12/2011 19:12,  Por Rede Brasil Atual


Deputado Adriano Diogo, autor do projeto, disse que a comissão vai apurar, levantar dados, ouvir e produzir provas – e que eventuais penalidades caberão ao Judiciário

Por: Raoni Scandiuzzi, Rede Brasil Atual - Publicado em 15/12/2011, 18:08

São Paulo – A Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) aprovou na noite da quarta-feira (14) o Projeto de Resolução 36/2011, do deputado Adriano Diogo (PT), que cria a Comissão da Verdade no estado. O parlamentar afirmou que, apesar de o projeto prever um trabalho conjunto com a Comissão da Verdade aprovada em Brasília, o andamento em São Paulo será independente. “Para iniciar os trabalhos vamos esperar a constituição da Comissão da Verdade de Brasília. Seria uma descortesia, um oportunismo instalarmos a nossa comissão sem esperar a do governo federal. Em Brasília é uma comissão fechada, que não tem partido. É outro funcionamento”, observou. 

A comissão de Brasília deverá começar seus trabalhos em seis meses após a sanção da lei, assinada dia 18 de novembro pela presidenta Dilma Rousseff. Até maio de 2012, a presidenta deverá escolher os membros da comissão.  

A comissão paulista irá proporcionar o direito à verdade e à memória histórica, promovendo a consolidação do Estado de Direito Democrático, em relação às violações de direitos humanos no período da ditadura militar (1964-1985). A federal será responsável por apurar as violações de direitos ocorridas entre 1946 e 1988, período que compreende os chamados “anos de chumbo”.

Os nomes para compor a comissão serão indicados pelo presidente da Alesp, deputado Barros Munhoz (PSDB). Os parlamentares serão escolhidos proporcionalmente à representação partidária na Casa. Diogo destacou que a intenção da comissão não é punir. “Vamos apurar, levantar dados, ouvir, produzir provas”, disse. Ele ressaltou que cabe ao Judiciário o acompanhamento dos trabalhos e eventuais penalidades.

O deputado é membro da Comissão de Direitos Humanos da Alesp. Ele afirmou que a proposta de uma Comissão da Verdade paulista está intimamente ligada à sua história. Adriano Diogo iniciou sua militância política em 1963. Participou da resistência à ditadura e da luta pela anistia e pelos direitos humanos.