Por MARCELO GODOY, estadao.com.br, Atualizado: 19/3/2012 3:06
Um grupo de militares da reserva lançou um manifesto em resposta ao documento feito pelos colegas que criticava as ministras Maria do Rosário (Direitos Humanos) e Eleonora Menicucci (Mulheres), ambas favoráveis à revogação da Lei da Anistia.
Articulado pelos capitães de mar e guerra Luiz Carlos de Souza e Fernando Santa Rosa, o documento obteve apoio de militares como o brigadeiro Rui Moreira Lima, que, aos 93 anos, tem uma história incomum. Herói da Segunda Guerra, é um dos dois únicos pilotos sobreviventes que participaram do 1.º Grupo de Aviação de Caça da Força Aérea Brasileira (FAB). Na Itália, cumpriu 94 missões de combate e recebeu a Cruz de Combate (Brasil), a Croix de Guerre avec Palmes (França) e a Distinguished Flying Cross (EUA) por heroísmo.
Lima evita críticas ao presidente de seu clube - o da Aeronáutica -, o brigadeiro Carlos Almeida Batista. 'Ele é um companheiro nobre e só deve ter assinado em solidariedade aos demais.' Mas diz apoiar a Comissão da Verdade. 'Ela é necessária não para punir, mas para dar satisfação ao mundo e aos brasileiros sobre atos de pessoas que, pela prática da tortura, descumpriram normas e os mais altos valores militares', diz Lima.
Intervenção. Lima e outros militares não concordam com a intervenção do governo nos Clubes Militares - o ministro Celso Amorim (Defesa) tentou enquadrar as entidades pelas críticas feitas à presidente Dilma Rousseff. Dizem que a reserva tem direito de se manifestar, mas nenhum deles se sente à vontade em assinar um manifesto na companhia de torturadores. 'Eles citam o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra', diz o professor da Unesp Paulo Cunha, pesquisador da caserna.
Segundo o professor, muitos oficiais da reserva - e, entre eles, generais - consideram que o governo foi inábil para resolver o caso dos textos dos Clubes Militares. 'Esse novo manifesto mostra que o Clube Militar não é uma entidade monolítica, que há vozes discordantes.'
No novo manifesto, os capitães dizem que seus colegas da reserva não falam pelos da ativa nem mesmo por muitos dos militares que estão na reserva. Para Santa Rosa, quem está por trás do documento são 'os fascistas, os saudosos da ditadura'.
'Os torturadores (militares e civis), que não responderam a nenhum processo, encontram-se 'anistiados', permaneceram em suas carreiras, e nunca precisaram requerer, administrativa ou judicialmente, o reconhecimento dessa condição, diferentemente de suas vítimas, que até hoje estão demandando junto aos tribunais para terem os seus direitos reconhecidos', afirma o documento. E acrescenta: 'Onde estão os corpos dos que foram mortos pelas agressões sofridas?'
http://estadao.br.msn.com/ultimas-noticias/manifesto-de-militares-critica-colegas-que-atacaram-ministras-1
“A Constituição Federal, nos artigos 5°, incisos IV e IX, e 220, garante o direito individual e coletivo à manifestação do pensamento, à expressão e à informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, independentemente de licença e a salvo de toda restrição ou censura.”
quarta-feira, 30 de maio de 2012
O MANIFESTO NHEÇUANO
Enéas Athanázio, (16 de março/2012), CooJornal nº 778.
Desde que foi fundado o chamado Manifesto Nheçuano, no Rio Grande do Sul, venho participando do movimento, ainda que à distância. Inconformado com as injustiças que vem sofrendo ao longo da história o cacique-pajé Nheçu, líder dos índios guaranis e outras tribos da região missioneira daquele Estado, um grupo de jovens idealistas decidiu iniciar um trabalho de revisão crítica da história regional e procurar recolocar as coisas nos seus devidos lugares. Com o entusiasmo típico dos jovens, Giani, Marco, Júlio e Adriano se puseram em campo e trataram de dar início a esse trabalho ao mesmo tempo justiceiro e renovador que vem movimentando a cidade de Roque Gonzáles e a região lindeira com a Argentina. Enfrentando a descrença de alguns, mas contando com o apoio decidido de outros, fundaram a Associação Cultural Nheçuanos (ACN), publicando um jornal (“O Nheçuano”), mantendo um site na Internet e iniciando um permanente intercâmbio com pessoas interessadas pela causa indigenista em todo o país. Como eu havia escrito um texto sobre o referido cacique, publicado em meu livro “Mundo Índio” (2003), e diversos artigos sobre o tema, fui desde o início um entusiasta do movimento, passei a escrever para o jornal e a manter contato com os integrantes do grupo.
Nheçu, o grande chefe daqueles povos, intuiu que a invasão europeia nos seus domínios teria resultados catastróficos. A chegada daqueles estranhos homens brancos, barbudos e glabros, trajando vestuários esquisitos e impondo novos costumes lhe pareceu desde logo grave ameaça aos índios, sua cultura e a própria existência de sua gente. A situação se agravou quando os brancos começaram a interferir nas práticas imemoriais dos indígenas, impondo novas crenças em substituição às antigas, estabelecendo modos de agir e limitando as atividades de homens e mulheres até então livres, nômades, caçadores e pescadores natos, procurando transformá-los em agricultores e sedentários. Trazendo uma tecnologia adiantada, ferramentas, cavalos e gado de corte, usavam desses recursos em troca da conversão e do apoio de numerosos indígenas que aderiram aos que chegavam, sua religião e suas práticas. As consequências, - como previa Nheçu, - foram desastrosas e alguma coisa precisaria ser feita com urgência para estancar o mal e impedir a destruição do mundo guarani. Em conferências com os caciques menores e os sábios da tribo, o grande cacique se decide pela resistência, usando para tanto dos recursos de que dispunha. E assim, tomada a grave decisão, investem contra os invasores. São derrotados em toda a linha porque não dispunham de armamento capaz de enfrentar os arcabuzes e demais armas mortíferas do colonizador. Segundo alguns, Nheçu teria perecido nas águas do rio e, segundo outros, foi morto pelos bandeirantes. Desde então Nheçu teve sua memória denegrida pela história escrita pelo vencedor. Contra essa visão única e dominante se ergue agora a voz do Manifesto Nheçuano num trabalho revisionista e justiceiro que, aliás, deveria ser realizado em numerosos outros episódios da história nacional.
Todos os anos o grupo realiza na referida cidade um encontro festivo de associados e simpatizantes para debater o assunto e reavivar a cultura missioneira e regional. O III Manifesto Nheçuano, como foi designado o encontro, aconteceu nos dias 11 e 12 de novembro e tive a satisfação de comparecer e participar. Houve um verdadeiro desfile de grupos musicais, músicos, declamadores, poetas, compositores, trovadores e até artistas plásticos. Compareceram, entre outros, Odécio ten Caten, Ivaldino Tasca, Ruy Nedel, Renato Schorr, Antonio Cabrera, Nelson e Inês Hoffmann, os integrantes da diretoria da ACN, autoridades e convidados em geral. Composta a mesa dos debatedores, houve manifestações de vários deles e, no final, me concederam a honra de fazer o encerramento. Foi um evento marcante, contando com considerável presença de público e bem difundido pela mídia regional. Tudo indica que a ACN se consolida e o número de associados só tende a crescer. Já são muitos os simpatizantes de vários pontos do país.
http://www.riototal.com.br/coojornal/eneasathanazio.htm
Desde que foi fundado o chamado Manifesto Nheçuano, no Rio Grande do Sul, venho participando do movimento, ainda que à distância. Inconformado com as injustiças que vem sofrendo ao longo da história o cacique-pajé Nheçu, líder dos índios guaranis e outras tribos da região missioneira daquele Estado, um grupo de jovens idealistas decidiu iniciar um trabalho de revisão crítica da história regional e procurar recolocar as coisas nos seus devidos lugares. Com o entusiasmo típico dos jovens, Giani, Marco, Júlio e Adriano se puseram em campo e trataram de dar início a esse trabalho ao mesmo tempo justiceiro e renovador que vem movimentando a cidade de Roque Gonzáles e a região lindeira com a Argentina. Enfrentando a descrença de alguns, mas contando com o apoio decidido de outros, fundaram a Associação Cultural Nheçuanos (ACN), publicando um jornal (“O Nheçuano”), mantendo um site na Internet e iniciando um permanente intercâmbio com pessoas interessadas pela causa indigenista em todo o país. Como eu havia escrito um texto sobre o referido cacique, publicado em meu livro “Mundo Índio” (2003), e diversos artigos sobre o tema, fui desde o início um entusiasta do movimento, passei a escrever para o jornal e a manter contato com os integrantes do grupo.
Nheçu, o grande chefe daqueles povos, intuiu que a invasão europeia nos seus domínios teria resultados catastróficos. A chegada daqueles estranhos homens brancos, barbudos e glabros, trajando vestuários esquisitos e impondo novos costumes lhe pareceu desde logo grave ameaça aos índios, sua cultura e a própria existência de sua gente. A situação se agravou quando os brancos começaram a interferir nas práticas imemoriais dos indígenas, impondo novas crenças em substituição às antigas, estabelecendo modos de agir e limitando as atividades de homens e mulheres até então livres, nômades, caçadores e pescadores natos, procurando transformá-los em agricultores e sedentários. Trazendo uma tecnologia adiantada, ferramentas, cavalos e gado de corte, usavam desses recursos em troca da conversão e do apoio de numerosos indígenas que aderiram aos que chegavam, sua religião e suas práticas. As consequências, - como previa Nheçu, - foram desastrosas e alguma coisa precisaria ser feita com urgência para estancar o mal e impedir a destruição do mundo guarani. Em conferências com os caciques menores e os sábios da tribo, o grande cacique se decide pela resistência, usando para tanto dos recursos de que dispunha. E assim, tomada a grave decisão, investem contra os invasores. São derrotados em toda a linha porque não dispunham de armamento capaz de enfrentar os arcabuzes e demais armas mortíferas do colonizador. Segundo alguns, Nheçu teria perecido nas águas do rio e, segundo outros, foi morto pelos bandeirantes. Desde então Nheçu teve sua memória denegrida pela história escrita pelo vencedor. Contra essa visão única e dominante se ergue agora a voz do Manifesto Nheçuano num trabalho revisionista e justiceiro que, aliás, deveria ser realizado em numerosos outros episódios da história nacional.
Todos os anos o grupo realiza na referida cidade um encontro festivo de associados e simpatizantes para debater o assunto e reavivar a cultura missioneira e regional. O III Manifesto Nheçuano, como foi designado o encontro, aconteceu nos dias 11 e 12 de novembro e tive a satisfação de comparecer e participar. Houve um verdadeiro desfile de grupos musicais, músicos, declamadores, poetas, compositores, trovadores e até artistas plásticos. Compareceram, entre outros, Odécio ten Caten, Ivaldino Tasca, Ruy Nedel, Renato Schorr, Antonio Cabrera, Nelson e Inês Hoffmann, os integrantes da diretoria da ACN, autoridades e convidados em geral. Composta a mesa dos debatedores, houve manifestações de vários deles e, no final, me concederam a honra de fazer o encerramento. Foi um evento marcante, contando com considerável presença de público e bem difundido pela mídia regional. Tudo indica que a ACN se consolida e o número de associados só tende a crescer. Já são muitos os simpatizantes de vários pontos do país.
http://www.riototal.com.br/coojornal/eneasathanazio.htm
Juiz recusa reabrir crimes da ditadura
Por:Domingos Grilo Serrinha, Correspondente no Brasil, 17/03/2012.
A discussão sobre a legalidade e a necessidade de uma vasta investigação sobre crimes cometidos durante o regime militar que governou o Brasil por 20 anos, a partir de 1964, está a elevar ao rubro os ânimos no país, opondo, de um lado, militares e importantes juristas e, do outro, sectores de esquerda, outros juristas e o próprio governo. A decisão de um juiz do estado do Pará, que recusou julgar e mandou arquivar uma acção contra um oficial militar acusado de crimes nessa época, acaba de pôr mais lenha na fogueira e criar uma nova e acesa polémica.
O magistrado João César Otoni de Matos, da cidade de Marabá, no sul do Pará, recusou a acção, interposta por um promotor público, contra o coronel da reserva Sebastião Curió, acusado de, há 38 anos, ter sequestrado, torturado e feito desaparecer cinco militantes da luta armada de esquerda na região do Araguaia, centro-oeste do Brasil, onde se concentravam muitos guerrilheiros que lutavam contra o regime de então.
Para o juiz, quase 40 anos depois, não é plausível pensar-se que os cinco militantes, que nunca mais foram vistos, ainda estejam em cativeiro sob mando do coronel. O magistrado pensa que os cinco estão mortos, o que, pela lei da amnistia aprovada em 1979, extinguiu qualquer possibilidade de se punir o crime, mesmo que fosse possível comprová-lo.
A esquerda brasileira, membros do governo, defensores internacionais dos direitos humanos e a própria ONU ficaram revoltados com a decisão e ameaçam recorrer a todas as instâncias possíveis para que esse e outros militares se sentem no banco dos réus. Para os defensores da investigação, como os cinco militantes da luta armada nunca apareceram, legalmente o crime de sequestro continua e o coronel pode ser julgado, posição que é contestada por importantes juristas.
Os ânimos têm-se exaltado bastante entre defensores e críticos de uma ampla investigação de crimes do período da ditadura desde que, no ano passado, o Congresso brasileiro aprovou a criação da Comissão da Verdade, entidade criada para investigar essa parte da história do Brasil. Os militares exigem que, se forem investigados crimes praticados por agentes do estado, também o sejam as acções violentas dos grupos radicais que combatiam o governo e que desencadearam assaltos, atentados bombistas e execuções de militares.
Outro ponto da discórdia é o alcance da Comissão da Verdade, que ainda não está em actuação por não ter tido oficializados os seus membros. No projecto de criação, ficou claro que a entidade tem fim único de esclarecer situações obscuras daquele período, principalmente para dar uma satisfação às famílias das vítimas, não tendo função punitiva. Mas sectores da esquerda, nomeadamente do Partido dos Trabalhadores, de Lula e de Dilma, e até vários ministros que, tal como a presidente, passaram pelas prisões militares durante os anos de ferro da ditadura, gostariam de ver os seus algozes no banco dos réus e condenados a pesadas penas.
Caça ao Curió
ANO 117 Nº 168 - PORTO ALEGRE, SEXTA-FEIRA, 16 DE MARÇO DE 2012
Sebastião Curió Rodrigues de Moura é a encarnação da impunidade no Brasil. Ele comandou a repressão brutal aos participantes da Guerrilha do Araguaia. Vive numa boa. Tem a proteção dos que legitimaram a ditadura militar implantada em 1964 por um bando de conservadores obcecados com uma ameaça comunista inventada com a ajuda da CIA e usada para acobertar suas barbaridades. As costas largas e quentes do senhor da violência mantêm-se sem punição. Mandou matar e torturar. Os corpos continuam desaparecidos. Achava que nada mais poderia incomodá-lo graças à confirmação da Lei da Anistia pelo STF. Essa Lei da Anistia foi, acima de tudo, um presente que os militares se deram na hora de sair do campo minado. Curió não contava com a indignação de um grupo de procuradores da República, integrantes do Grupo de Trabalho Justiça de Transição, coordenado pelo gaúcho Ivan Marx. Complicou.
Dá gosto de ler a nota publicada: "O Ministério Público Federal assinou denúncia que será encaminhada à Justiça Federal em Marabá em face do coronel da reserva do Exército do Brasil, Sebastião Curió Rodrigues de Moura (na época conhecido como Dr. Luchini), pelo crime de sequestro qualificado contra cinco militantes, capturados durante a repressão à Guerrilha do Araguaia na década de 70 e até hoje desaparecidos. Maria Célia Corrêa (Rosinha), Hélio Luiz Navarro Magalhães (Edinho), Daniel Ribeiro Callado (Doca), Antônio de Pádua Costa (Piauí) e Telma Regina Cordeira Corrêa (Lia) foram todos sequestrados por tropas comandadas pelo então major Curió entre janeiro e setembro de 1974 e, após terem sido levados às bases militares coordenadas por ele e submetidos a grave sofrimento físico e moral, nunca mais foram encontrados. Se condenado, Curió pode pegar de dois a 40 anos de prisão". Por favor, pena máxima, na boa.
Os procuradores entendem que sequestro é crime permanente: "É irrelevante a mera suspeita de que as vítimas estejam mortas". Dado que os corpos não foram encontrados, não há prescrição. Extraordinário paradoxo: o serviço sujo feito com perfeição poderá pegar Curió pela pata. Ivan Marx lembra que cabe ao Estado, depois de um grave atentado aos direitos humanos, como uma ditadura, reparar, esclarecer e promover justiça. O Brasil vem reparando com as indenizações. Vai tentar esclarecer com a Comissão da Verdade. Mas não quer saber de promover justiça. Neca de punição. Está na contramão das recomendações das principais organizações internacionais. Em bom português, continua refém da pressão dos militares. Tem medo de cutucar a onça com vara curta. Prefere passar a borracha e deixar como está.
A melhor maneira de iniciar o ciclo de reflexões sobre os 50 anos do golpe de 1964, data que se tornará redonda em 2014, seria a condenação de Curió. Meter esse bicho na gaiola e mostrá-lo ao mundo melhoraria mais a imagem do Brasil no mundo civilizado do que a Copa do Mundo. Custaria menos. Ou mais. Como se trata de um julgamento político, o STF certamente terá de manifestar-se novamente. O ministro Marco Aurélio já saiu na frente. É contra. Pode ser que ele mude de opinião amanhã. Não?
Dá gosto de ler a nota publicada: "O Ministério Público Federal assinou denúncia que será encaminhada à Justiça Federal em Marabá em face do coronel da reserva do Exército do Brasil, Sebastião Curió Rodrigues de Moura (na época conhecido como Dr. Luchini), pelo crime de sequestro qualificado contra cinco militantes, capturados durante a repressão à Guerrilha do Araguaia na década de 70 e até hoje desaparecidos. Maria Célia Corrêa (Rosinha), Hélio Luiz Navarro Magalhães (Edinho), Daniel Ribeiro Callado (Doca), Antônio de Pádua Costa (Piauí) e Telma Regina Cordeira Corrêa (Lia) foram todos sequestrados por tropas comandadas pelo então major Curió entre janeiro e setembro de 1974 e, após terem sido levados às bases militares coordenadas por ele e submetidos a grave sofrimento físico e moral, nunca mais foram encontrados. Se condenado, Curió pode pegar de dois a 40 anos de prisão". Por favor, pena máxima, na boa.
Os procuradores entendem que sequestro é crime permanente: "É irrelevante a mera suspeita de que as vítimas estejam mortas". Dado que os corpos não foram encontrados, não há prescrição. Extraordinário paradoxo: o serviço sujo feito com perfeição poderá pegar Curió pela pata. Ivan Marx lembra que cabe ao Estado, depois de um grave atentado aos direitos humanos, como uma ditadura, reparar, esclarecer e promover justiça. O Brasil vem reparando com as indenizações. Vai tentar esclarecer com a Comissão da Verdade. Mas não quer saber de promover justiça. Neca de punição. Está na contramão das recomendações das principais organizações internacionais. Em bom português, continua refém da pressão dos militares. Tem medo de cutucar a onça com vara curta. Prefere passar a borracha e deixar como está.
A melhor maneira de iniciar o ciclo de reflexões sobre os 50 anos do golpe de 1964, data que se tornará redonda em 2014, seria a condenação de Curió. Meter esse bicho na gaiola e mostrá-lo ao mundo melhoraria mais a imagem do Brasil no mundo civilizado do que a Copa do Mundo. Custaria menos. Ou mais. Como se trata de um julgamento político, o STF certamente terá de manifestar-se novamente. O ministro Marco Aurélio já saiu na frente. É contra. Pode ser que ele mude de opinião amanhã. Não?
Juremir Machado da Silva
Os valentes de ontem, os poltrões de hoje e uma pergunta
15.03.2012 | Fonte de informações: Pravda.ru
Eric Nepomuceno
Um coronel da reserva, que também ostenta um diploma de advogado e se chama Pedro Ivo Moézia de Lima, escreveu para a procuradoria da República, em Brasília, pedindo que o Ministério Público Federal abra um 'procedimento administrativo' contra Dilma Rousseff e Celso Amorim, respectivamente presidente da República e ministro da Defesa. Diz que violaram a lei, e pede providências. Sua explicação tem a consistência de um pudim de nuvens. Seus argumentos têm a força de uma borboleta de uma só asa. Pouco importa. O que importa é sua prepotência. Não é um civil opinando e agindo: é um militar se insubordinando.
O general da reserva Marco Antonio Felício, autor do texto divulgado pelo Clube Militar desacatando o ministro da Defesa e chamando insolentemente às falas a presidente da República, dá uma entrevista por escrito. Sente-se impune. Lança uma frase que soa a desafio, ao exibir sua certeza de que não será punido. Aproveita para negar que tenha havido tortura durante a ditadura, e garante que volta e meia aparece algum desaparecido. Diz que existem muitos terroristas que não só jamais foram punidos como agora ocupam postos no governo. Não cita nome algum.
De novo: não é um civil, um paisano, dizendo o que pensa. É outro militar se insubordinando. Sua prepotente prerrogativa é justamente o fato de guardar no armário, além de um pijama, uma farda. E como ele e o coronel advogado, há muitos mais.
Ou seja: o ambiente entre os militares da reserva, em especial do Exército e da Aeronáutica, continua fervendo. O que impressiona é o poder que julgam ter para contrariar a verdade e ofender a memória.
O mesmo general Marco Antonio Felício diz que, além de seus colegas da reserva, muitos dos militares da ativa compartilham sua indignação. E que, se pudessem, assinariam o texto que desacata a presidente e o ministro de Defesa.
Quando se nota, nas assinaturas do tal manifesto, a presença significativa de um elevado número de oficiais de alta patente que até muito pouco tempo estavam não só na ativa, mas ocupando postos de destaque em suas respectivas armas, ou seja, no governo, é compreensível que o general Felício pense assim. Difícil de compreender é que não haja nenhuma voz entre os militares da ativa desmentindo o que ele diz.
A esta altura, chama a atenção a obtusa tenacidade com que se manifestam militares, tanto da reserva como da ativa (estes, pela omissão, pelo silêncio) diante de um ato legal, ou seja, a instalação da Comissão da Verdade, que tem a tarefa igualmente amparada em lei de investigar os atos cometidos sob o manto do terrorismo de Estado implantado nos tempos da ditadura que se estendeu de 1964 a 1985.
O inquieto espernear dessa constelação de generais estrelados é sintomático e significativo. Ao denunciar à exaustão o revanchismo que estaria partindo do governo da presidente Dilma Rousseff, deixam nua e exposta aos olhos da rua a verdadeira razão de sua ira, do seu mais profundo temor: que a Comissão da Verdade, além de dar o nome de quem fez o que fez, leve os culpados aos tribunais.
Ora, a Comissão carece de base legal para isso. Os que praticaram terrorismo de Estado estão amparados por uma Lei de Anistia bizarra, que foi ratificada por outra bizarrice da Corte suprema do país. Que ministros do governo e parte da sociedade esperem que, além de se estabelecer a verdade, algum dia se desfaça essa lei e se faça justiça, é um direito de todos nós. Não significa que se trate de uma política de governo, como asseguram, em outro equívoco do tamanho de um dromedário, os esperneantes e estrelados generais e sua tropa.
Se justiça houver algum dia, será para conceder aos militares, além de funcionários civis igualmente implicados em crimes contra a humanidade, aquilo que eles negaram aos torturados, espancados, levados ao exílio, seqüestrados, assassinados. Aquilo que negaram às mulheres humilhadas e violadas: o direito de defesa.
Valentes diante de prisioneiros amarrados, valentes diante de mulheres indefesas e vexadas, agora se derretem, furiosamente, de medo que essa valentia toda seja conhecida e julgada. Onde a hombridade de todos eles?
Sim: algum dia este país saberá honrar o fim daqueles tempos de breu e fazer justiça. Até lá continuará valendo o medo dos que negam o que aconteceu. Negam o que cometeram ou viram alguém cometer. Negam o que sabem e sabiam.
Uma pergunta, enfim, não sai da minha cabeça: de onde esses senhores tiram tamanha empáfia? Qual a fonte de semelhante insolência? O que alimenta esse poder? Aliás, existe, esse poder? Esse poder que o país parece temer?
O que produz essa inércia numa sociedade que prefere o esquecimento à verdade, que prefere a omissão à justiça?
Homem afirmou há 10 anos que seu trabalho resultou na morte do ex-presidente em 1976
Foi preso na noite desta quarta-feira um ex-agente de inteligência do governo uruguaio que seria responsável pela espionagem do presidente João Goulart, o Jango, de 1973 até 1976. Mário Neira Barreiro, de 67 anos, afirmou, em uma entrevista para a Folha de São Paulo em 2002, que o trabalho dele resultou na morte do presidente por envenenamento a mando do governo brasileiro.
O foragido foi capturado enquanto trabalhava em conserto de ar-condicionados em um shopping de Cachoeirinha, na região Metropolitana de Porto Alegre. De acordo com a Brigada Militar (BM) do município, junto com o homem foi detido outro jovem com antecedentes por furto e tráfico de drogas. Ele foi identificado como Diego Uilliam Domingues dos Santos, de 23 anos, também era foragido do sistema prisional. A prisão ocorreu depois que a polícia recebeu uma denúncia anônima.
A BM suspeita que Barreiro e Santos estavam planejando ataques a carros-forte. Barreiro saiu em setembro de 2008 da Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc) e cumpria pena no regime semi-aberto na casa de detenção Patronato Lima Drummond, em Porto Alegre. Na noite de 17 de fevereiro deste ano, ele não retornou para o albergue.
Barreiro foi encaminhado para prestar depoimento na Delegacia de Pronto Atendimento de Gravataí.
O presidente João Goulart morreu no dia 6 de dezembro de 1976, na Argentina. A causa da morte, oficialmente, foi ataque cardíaco. Ele comandou o Brasil de 1961 até ser deposto pelo golpe militar, em 31 de março de 1964.
http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/?Noticia=402532
O foragido foi capturado enquanto trabalhava em conserto de ar-condicionados em um shopping de Cachoeirinha, na região Metropolitana de Porto Alegre. De acordo com a Brigada Militar (BM) do município, junto com o homem foi detido outro jovem com antecedentes por furto e tráfico de drogas. Ele foi identificado como Diego Uilliam Domingues dos Santos, de 23 anos, também era foragido do sistema prisional. A prisão ocorreu depois que a polícia recebeu uma denúncia anônima.
A BM suspeita que Barreiro e Santos estavam planejando ataques a carros-forte. Barreiro saiu em setembro de 2008 da Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc) e cumpria pena no regime semi-aberto na casa de detenção Patronato Lima Drummond, em Porto Alegre. Na noite de 17 de fevereiro deste ano, ele não retornou para o albergue.
Barreiro foi encaminhado para prestar depoimento na Delegacia de Pronto Atendimento de Gravataí.
O presidente João Goulart morreu no dia 6 de dezembro de 1976, na Argentina. A causa da morte, oficialmente, foi ataque cardíaco. Ele comandou o Brasil de 1961 até ser deposto pelo golpe militar, em 31 de março de 1964.
http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/?Noticia=402532
Comissão aprova novas regras sobre direito de resposta na mídia
14/03/2012 - 16h46 - Comissões - Constituição e Justiça
Garantia de direito de resposta sem ameaça à liberdade de imprensa. Esse foi o argumento que garantiu a aprovação por unanimidade na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), nesta quarta-feira (14), de projeto de lei (PLS 141/11) do senador Roberto Requião (PMDB-PR) que regula o exercício do direito de resposta ou retificação do ofendido por matéria divulgada, publicada ou transmitida por veículo de comunicação social. Como foi aprovada em decisão terminativa, a matéria seguirá direto para a Câmara dos Deputados se não houver recurso para votação pelo Plenário do Senado.
Vácuo jurídico aberto por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) ao considerar inconstitucional a Lei de Imprensa (Lei nº 5.250/67) motivou Requião a apresentar o PLS 141/11. O peemedebista resgatou proposta apresentada em 1996, que contou com aprovação unânime do Senado, mas foi arquivada na Câmara. Com a recente “liquidação” da Lei de Imprensa, decidiu colocar novamente em discussão a garantia de um rito especial e célere para o direito de resposta.
- Nos últimos três anos, o Senado enviou 148 cartas para a imprensa para a correção de erros e afirmações descabidas e sequer uma foi publicada. O projeto só quer contrabalançar a provável, e freqüente, irresponsabilidade (da imprensa), abrindo direito de resposta com rito rápido e seguro – comentou Requião.
Antes mesmo de apresentar seu parecer favorável, com emendas, ao PLS 141/11, o relator, senador Pedro Taques (PDT-MT), fez questão de deixar claro que o projeto “não quer cercear o direito à informação nem censurar a imprensa, que deve ser livre”.
- A liberdade de imprensa deve ser cultuada por todos, mas é bom lembrar que liberdade rima com responsabilidade. Aqui não se trata – porque seria inconstitucional – de censura prévia ou limitação de conteúdo. Trata-se só do direito de resposta – enfatizou Taques.
Na avaliação do relator, a falta de uma norma específica regulando as relações da mídia com a sociedade prejudica o pleno exercício do direito de resposta assegurado pela Constituição. Ele justificou ajustes feitos no texto original com o argumento de compatibilizar a manifestação do ofendido pelos meios de comunicação com a garantia de liberdade de expressão, de modo a impedir excessos e eventuais arbitrariedades.
Retratação espontânea
A proposta assegura ao ofendido a divulgação de resposta gratuita e proporcional ao agravo. Mas impede o exercício desse direito em caso de retratação espontânea do veículo, resguardando, entretanto, a possibilidade de ação de reparação por dano moral.
Esse aspecto do projeto não foi alterado pelo relator, mas o próprio Requião, instigado por dúvida levantada pelo senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), questionou o critério a ser seguido para se considerar satisfatória uma retratação espontânea. Randolfe indagou se não seria inconstitucional o fato de essa atitude voluntária do veículo de comunicação inviabilizar o direito de resposta.
Taques não vê risco de inconstitucionalidade se a retratação espontânea ocorrer de modo proporcional ao agravo, ou seja, for divulgada com o mesmo destaque, publicidade, periodicidade e dimensão. Em resposta a Requião, observou que o ofendido é quem vai avaliar se a réplica voluntária cumpriu essas exigências e, caso não se sinta atendido, entrar com contestação na Justiça.
Prova
Por sugestão de Requião e do senador Demóstenes Torres (DEM-GO), o relator reviu emenda e dispensou a exigência de prova “inequívoca” para o juiz – em decisão provisória – fixar data e demais condições para veiculação da resposta ou retificação da ofensa, a ocorrer em prazo não superior a dez dias. Requião temia que a expressão “inequívoca” pudesse criar litígio no processo. Já Demóstenes argumentou que nenhum juiz decide em caráter liminar sem prova que não tenha lastro, o que tornaria dispensável, portanto, esse termo.
Outra preocupação de Randolfe, também acolhida por Taques, relacionava-se à obrigatoriedade de quem garantiu direito de resposta por liminar, e teve essa decisão revista em sentença, arcar com as custas processuais e despesas pela veiculação da resposta. Taques explicou que essa providência tinha a intenção de evitar ações temerárias (sem fundamento) contra a mídia, inclusive com fins políticos. A solução para resguardar o cidadão de boa fé foi dada por Demóstenes: imputar essa taxação apenas em caso comprovado de ação temerária.
Outras mudanças
Por recomendação de Taques, o ofendido deverá exercer o direito de resposta no prazo de 60 dias, contado da data da primeira divulgação – e não da última, como propôs Requião – da matéria. Sem perder de vista a exigida proporcionalidade entre resposta e agravo, o relator eliminou do projeto a previsão de que a resposta a ofensa veiculada pela televisão ou pelo rádio tivesse acréscimo de três e dez minutos, respectivamente, com defendido na proposta original.
O PLS 141/11 estabelece ainda que o juiz, após receber o pedido de resposta ou retificação, terá 24 horas para mandar citar o responsável pelo meio de comunicação. A sentença deverá ser expedida em, no máximo, 30 dias após o ajuizamento da ação, salvo na hipótese de conversão do pedido em reparação por perdas e danos.
A exemplo dos demais senadores, Alvaro Dias (PSDB-PR) concordou que o PLS 141/11 preenche uma lacuna no ordenamento jurídico com a declaração de inconstitucionalidade da Lei de Imprensa. O senador pelo Paraná listou como pontos essenciais da proposta o prazo decadencial de 60 dias para direito de resposta; a exclusão dessa possibilidade para comentários de leitores feitos em sites dos veículos de comunicação; a exigência do pedido de resposta ser enviado por correspondência com aviso de recebimento ao responsável pelo veículo; e a garantia de resposta com o mesmo destaque, publicidade, periodicidade e dimensão da ofensa.
Simone Franco / Agência Senado
Anunciada primeira ação penal por crimes da ditadura no Brasil
13/03/2012 23:42 - Atualizado em 14/03/2012 00:04
Processo pede julgamento de major Curió pelo sequestro de cinco membros da Guerrilha do Araguaia
Quatro procuradores federais anunciaram, nesta terça-feira, a primeira ação penal por crimes cometidos durante a ditadura (1964-1985), pelo sequestro de cinco membros da guerrilha do Araguaia. A denúncia acusa o coronel reformado do Exército brasileiro Sebastião Curió Rodrigues de Moura, conhecido como "Dr. Luchini", pelo "sequestro de cinco militantes capturados durante a repressão à guerrilha do Araguaia na década de 1970". A informação foi divulgada pelo procurador Tiago Rabelo.
A denúncia criminal será apresentada na quarta-feira à Justiça da cidade de Marabá, no estado do Pará. Rabelo trabalha na jurisdição do processo e concedeu coletiva com outros três procuradores de São Paulo e Rio Grande do Sul, que subscrevem a ação. Depois de três anos de investigação, os querelantes afirmam que os cinco militantes, duas mulheres e três homens, foram "sequestrados por tropas comandadas pelo major Curió entre janeiro e setembro de 1974 e, depois de serem levados a bases militares por ele e submetidos a grave sofrimento físico e moral, nunca mais foram encontrados".
O Estado brasileiro reconhece 400 mortos e desaparecidos durante a ditadura. Diferentemente do restante dos países no Cone Sul, não houve condenações penais no Brasil, já que a Lei de Anistia de 1979, corroborada recentemente pelo Superior Tribunal Federal (STF), protege os repressores de prisão e julgamentos. Em várias partes do País familiares de vítimas e promotores já apresentaram ações civis.
A Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) declarou, no fim de 2010, sem "efeitos jurídicos" a Lei de Anistia e ordenou o País a determinar as responsabilidades penais e aplicar sanções pela prisão arbitrária, tortura e desaparecimento forçado de cerca de 70 pessoas da guerrilha do Araguaia. Os procuradores, que integram um grupo que apoia a decisão da Corte Interamericana, advertiram que poderão ser feitas outras denúncias.
O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante, expressou "simpatia" por esta ação, mas disse que apenas terá sucesso se o STF reconsiderar sua decisão de ratificar a validade da Lei de Anistia.
"A ação penal que estamos abrindo não confronta as decisões do STF", avaliou Rabelo. Os procuradores baseiam sua demanda em duas decisões da Corte, que aceitou extraditar para a Argentina dois ex-militares por considerar que os crimes durante a ditadura dos quais o país os acusava não haviam prescrito, explicou.
"As vítimas nunca foram localizadas, o crime de sequestro não termina. Portanto, a Lei de Anistia de 1979 não se aplica neste caso, porque o crime continua ocorrendo depois", disse o procurador Sergio Gardenghi Suiama, de São Paulo. A ação aumenta as polêmicas geradas recentemente pela criação de uma Comissão da Verdade destinada a esclarecer os crimes da ditadura, uma iniciativa do governo que não significava ações penais, mas que recentemente levantou a ira de setores das Forças Armadas do País. A presidente Dilma Rousseff, ex-guerrilheira torturada e presa na ditadura, sancionou em novembro a criação da Comissão da Verdade. Seus membros ainda não foram nomeados.
Os responsáveis pelos clubes das Forças Armadas do Brasil, que representam os militares da reserva e reformados, publicaram em fevereiro uma carta com duras críticas ao governo e à ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, que disse que, no futuro, os militares poderiam ser levados à Justiça para responder por crimes cometidos durante a ditadura. As ditaduras do Cone Sul latino-americano começaram no Paraguai (1954-1989) e seguiram no Brasil (1964-1985), Uruguai (1973-1985), Chile (1973-1990) e Argentina (1966-1973 e 1976-1983). Juntas coordenaram o chamado "Plano Condor" de perseguição de opositores.
A denúncia criminal será apresentada na quarta-feira à Justiça da cidade de Marabá, no estado do Pará. Rabelo trabalha na jurisdição do processo e concedeu coletiva com outros três procuradores de São Paulo e Rio Grande do Sul, que subscrevem a ação. Depois de três anos de investigação, os querelantes afirmam que os cinco militantes, duas mulheres e três homens, foram "sequestrados por tropas comandadas pelo major Curió entre janeiro e setembro de 1974 e, depois de serem levados a bases militares por ele e submetidos a grave sofrimento físico e moral, nunca mais foram encontrados".
O Estado brasileiro reconhece 400 mortos e desaparecidos durante a ditadura. Diferentemente do restante dos países no Cone Sul, não houve condenações penais no Brasil, já que a Lei de Anistia de 1979, corroborada recentemente pelo Superior Tribunal Federal (STF), protege os repressores de prisão e julgamentos. Em várias partes do País familiares de vítimas e promotores já apresentaram ações civis.
A Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) declarou, no fim de 2010, sem "efeitos jurídicos" a Lei de Anistia e ordenou o País a determinar as responsabilidades penais e aplicar sanções pela prisão arbitrária, tortura e desaparecimento forçado de cerca de 70 pessoas da guerrilha do Araguaia. Os procuradores, que integram um grupo que apoia a decisão da Corte Interamericana, advertiram que poderão ser feitas outras denúncias.
O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante, expressou "simpatia" por esta ação, mas disse que apenas terá sucesso se o STF reconsiderar sua decisão de ratificar a validade da Lei de Anistia.
"A ação penal que estamos abrindo não confronta as decisões do STF", avaliou Rabelo. Os procuradores baseiam sua demanda em duas decisões da Corte, que aceitou extraditar para a Argentina dois ex-militares por considerar que os crimes durante a ditadura dos quais o país os acusava não haviam prescrito, explicou.
"As vítimas nunca foram localizadas, o crime de sequestro não termina. Portanto, a Lei de Anistia de 1979 não se aplica neste caso, porque o crime continua ocorrendo depois", disse o procurador Sergio Gardenghi Suiama, de São Paulo. A ação aumenta as polêmicas geradas recentemente pela criação de uma Comissão da Verdade destinada a esclarecer os crimes da ditadura, uma iniciativa do governo que não significava ações penais, mas que recentemente levantou a ira de setores das Forças Armadas do País. A presidente Dilma Rousseff, ex-guerrilheira torturada e presa na ditadura, sancionou em novembro a criação da Comissão da Verdade. Seus membros ainda não foram nomeados.
Os responsáveis pelos clubes das Forças Armadas do Brasil, que representam os militares da reserva e reformados, publicaram em fevereiro uma carta com duras críticas ao governo e à ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, que disse que, no futuro, os militares poderiam ser levados à Justiça para responder por crimes cometidos durante a ditadura. As ditaduras do Cone Sul latino-americano começaram no Paraguai (1954-1989) e seguiram no Brasil (1964-1985), Uruguai (1973-1985), Chile (1973-1990) e Argentina (1966-1973 e 1976-1983). Juntas coordenaram o chamado "Plano Condor" de perseguição de opositores.
Na noite dos cravos, choram Marias, Hildas, Idas e Darcis
Sete mulheres tornam-se oficialmente anistiadas políticas e contam suas histórias na ditadura
São Paulo – As cadeiras fazem barulho no auditório da Cinemateca Brasileira, em São Paulo, quando dezenas de pessoas se levantam para acompanhar o ponto alto da cerimônia: o secretário nacional da Justiça e presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, pede desculpas em nome do Estado brasileiro a quem sofreu com perseguição e violência durante a ditadura. Na noite da última sexta (9), a cena se repetiu sete vezes. Sete mulheres tornaram-se, oficialmente, anistiadas políticas, na 55ª edição da Caravana da Anistia. Algumas tiveram dificuldade para contar suas histórias.
A primeira é Maria Angélica Santos Bacellar, que leva dois minutos para conseguir falar. “Apesar dos muitos anos, é muito dolorido falar disso”, explica. Em abril de 1974, grávida de quatro meses, ela foi presa pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Dops de São Paulo. “Eu não tinha envolvimento com nenhuma organização, mas conhecia todos (os pais eram militantes comunistas), e era isso que ele queria saber”, lembra Maria Angélica. “Como ele dizia, você vai ser a ‘pessoinha’ que vai me contar isso.”
Foram duas horas andando vendada de carro pela cidade, antes de se iniciarem as torturas. “As coisas que não podiam ser contadas eu anulei. Como se diz hoje em dia, deletei”, diz Maria Angélica, que lembra da ajuda que recebeu de um carcereiro chamado Adão – ele passou a cuidar ainda mais quando soube que ela estava grávida. Levava remédios, inclusive. “Dentro do Dops, daquela coisa horrível... Muitas vezes ele trocava de plantão quando sabia que eu ia para a tortura.”
No final de maio – ou começo de junho –, Maria Angélica deixou a prisão, mas conta que ainda passou um tempo sendo seguida. Ficou com problemas na coluna. “Não tenho passado muito bem, mas segui a vida e consegui criar meu filho.” Pedro, que ela quase perdeu no Dops, é formado em Odontologia e especialista em implantes.
Retorno triunfal
Militante da Polop (Política Operária), Hilda Alencar Gil conheceu o jornalista Pedro Ferreira de Medeiros em meados de 1968. Em novembro daquele ano, ele escreveu uma matéria para a revista O Cruzeiro que se tornaria célebre, falando das atividades do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) e dando nomes. Sob ameaças, tiveram de sair do país – pelo sul, foram para o Chile. “Não foram só ameaças. O carro que o Pedro tinha na época explodiu”, recorda. “Ele sempre se recusou a desmentir qualquer uma daquelas afirmações.” Pedro morreu em 1999.
Ela pleiteou, e foi atendida, o direito de voltar a estudar Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP), curso que teve de largar em razão das perseguições. O conselheiro José Carlos Moreira da Silva Filho ainda recomendou que seu retorno à universidade seja acompanhado de perto. “A USP ainda precisa muito de uma intensa democratização”, afirmou. Ao pedir desculpas em nome do Estado, Pedro Abrão acrescentou: “E que o seu retorno à Universidade de São Paulo seja triunfal”.
Milagre
"É um milagre estar aqui", diz Ida Scharge, que lembra de várias pessoas com quem conviveu e lhe fazem falta, incluindo "uma pessoa que se matou na Alemanha, a Dora, de Minas Gerais”. A pedagoga foi presa em 1969, 25 dias depois de entrar na Osram, fábrica de lâmpadas, como militante da Ação Popular (AP). Passou quatro meses no Dops. Lembra-se com carinho de Dulce Maia (ex- Vanguarda Popular Revolucionária, VPR), com quem dividiu cela e cama, “você (Dulce) fazendo cafuné, dando remédio”.
A chegada à Alemanha, onde mora até hoje, também não foi fácil. “A embaixada (brasileira) sempre nos colocou como criminosas”, afirma. Na Europa, ela conta que ajudou a formar a Frente Brasileira de Informações (FBI) – a residência do casal tornou-se um abrigo de perseguidos. Hoje, Ida é terapeuta familiar. Ainda fala com raiva dos tempos de cárcere. “O sadismo com que eles se comunicavam, o sexismo, porque eles usaram e abusaram. Como é que as mulheres desses homens vivem com esses carrascos? Espero que eles sejam julgados, porque muitos merecem. É incrível como o processo de tortura, de quebrar o indivíduo, é internacionalizado”, diz Ida, que espera "não ter mais medo e não ter vergonha porque não morri".
Irmãs
As irmãs Maria Nadja e Maria Niedja Leite de Oliveira, militantes no movimento estudantil, tiveram os casos julgados simultaneamente. A primeira, estudante de Pedagogia na Universidade Federal do Ceará (UFCE), foi presa em 1968, durante uma manifestação em Fortaleza. Até consegue brincar com o fato: “Considero a minha prisão um demérito, porque corri tanto e me deixei prender na passeata”. Clandestina em São Paulo, era auxiliar de escritório quando voltou a ser presa, em 1971, e foi companheira de Dilma Rousseff no Presídio Tiradentes. “Chamaram no departamento pessoal, achei que era minha carteira assinada. Era a equipe do Fleury me esperando.”
Ela conta que estava há 40 dias de se formar quando foi presa no Ceará. Sua indenização foi calculada com base na ocupação de escriturária. O presidente da Comissão de Anistia explica que as reparações econômicas não podem ser calculadas tendo como base uma possível futura profissão. Maria Nadja também teve os direitos cassados durante dez anos, com base no Decreto 477, criado pela ditadura em 1969.
Já a geógrafa Maria Niedja diz que foi impedida de tomar posse em 1976 como professora na USP, após passar em concurso interno, por um “controle ideológico” imposto pela faculdade. Também foi confundida com a irmã. Chegou a ser presa, em 1972, no Doi-Codi. “É mais simbólico (o pedido de reparação), a constatação de um processo de controle ideológico que a Universidade de São Paulo fez com grande parte de seus professores”, afirmou.
Tortura
Eram quase 11 da noite quando os nove conselheiros começaram a discutir o processo de Darci Toshiko Miyaki, presa em janeiro de 1972 – o mandado de prisão foi expedido apenas seis meses depois. A ex-militante da ALN (Ação Libertadora Nacional) também precisou de algum tempo para contar sua história. “Apesar de ter passado por cadeira de dragão, pau de arara, choque elétrico, a pior tortura é a psicológica”, disse, afirmando discordar da Lei de Anistia. “Pune-se um crime, um delito. Nós não cometemos crime nenhum. Tínhamos o dever, o direito, pelo princípio da legalidade, de lutar contra uma ditadura que cerceou todas as liberdades, que tirou um governante eleito pelo povo, que torturou, que matou.”
Presa em 25 de janeiro no Rio de Janeiro, foi transferida para São Paulo três dias depois. “Só soube que era dia 28 porque um dos carcereiros ligou o rádio”, lembra. A seu lado estava Hélcio Pereira Fortes, também da ALN. “Soube que anunciaram a morte do Hélcio nesse dia. Não, ele estava vivo. Ele foi transferido comigo”, diz Darci. “Eu ouvi os gritos dele sendo torturado.” Um carcereiro (Casadei, que consta de lista de torturadores como atuante no Doi-Codi em São Paulo), conta, se referiu a ele como “presunto fresquinho”. Ela passou sete meses na prisão.
Darci vai se recordando de vários companheiros, anunciados como mortos após resistir à prisão, uma alegação constante da ditadura. “A cada notícia de morte de um companheiro, eu torcia – chegava a rezar – para que eles realmente tivessem morrido em tiroteio, para não terem sofrido as torturas”, afirma, lembrando do que passou. “Eles enfiam aqueles dedos imundos no seu corpo, para enfiar fios elétricos. Como podem se atrever a chamar esses crimes de crimes conexos?”
Sem conseguir falar mais, Darci desce do palco e é abraçada por várias pessoas, todas chorando, até voltar ao seu lugar. O conselheiro José Carlos diz: “Não podemos chamar de crime algo que uma legislação autoritária classificou assim, quando se tratava de um direito de resistência”. Paulo Abrão encurta a mensagem oficial para Darci e diz apenas: “Desculpas”.
O último “julgamento” da noite é de Gilda Fioravanti da Silva, proibida de ir ao evento por recomendação médica – aos 72 anos, tem seis pontes de safena e uma mamária. Foi presa em 1971, em Mauá, na região do ABC paulista onde militou Herbert de Souza, o Betinho. Foi presa e torturada no Dops. Abrão recomendou a uma neta, presente à sessão, que desse a notícia da anistia à avó com muito cuidado, para não emocioná-la demais.
Por se tratar de uma Caravana da Anistia em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, todas receberam cravos.
O discurso da direita
08/03/2012
A direita brasileira tem no seu DNA o golpe de 1964 e a ditadura militar. No momento mais decisivo da história brasileira até aqui, quando se jogava o futuro do país, no choque entre democracia e ditadura, a direita – em todas as suas vertentes, partidárias, intelectuais, midiáticas, empresariais, religiosas – ficou com a ditadura.
A boa pergunta a cada homem público, a cada instituição, a cada força política, a cada jornalista, a cada intelectual, a cada brasileiro, a cada cidadão, é saber onde estava naquele momento crucial: defendendo a democracia ou apoiando o golpe e a ditadura militar?
Por isso os constrangimentos desses setores todos para se referir àquele período da nossa história. Tratam de esconder sua postura na ruptura da democracia, para deslocar tudo para os momentos em que foram vítimas do próprio monstro que ajudaram a criar como, por exemplo, na censura a órgãos de imprensa. Querem deixar de passar como verdugos para aparecerem como vítimas da ditadura cuja instalação eles apoiaram. Ou para anularem o papel de verdugos e vítimas, igualando e anulando aos dois.
Como a direita se refere agora à ditadura? Há vários discursos. A ultra direita –incluindo setores militares – segue com o discurso dos militares no momento do golpe - reproduzido naquela época por todos os que os apoiavam – mídia, partidos de direita, igreja, empresários, etc., etc . – de que se tratava de um golpe preventivo, que buscava evitar um golpe da esquerda (?), que levaria o Brasil a ser um país comunista, como Cuba, China e a URSS (sic).
Teriam atuado então na defesa da democracia, literalmente diziam que era um movimento de defesa da democracia, contra o totalitarismo comunista. É o discurso que mantem a ultra direita, cívica e militar. Teria se dado uma “guerra” entre duas partes, uma defendendo a democracia, outra querendo implantar o “totalitarismo comunista”, triunfou uma delas, que deveria ser reconhecida pela nação como sua salvadora.
Desconsideram que tudo aconteceu porque eles violaram a democracia e impuseram a ditadura, eles destruíram o Estado de direito, prenderam arbitrariamente, torturaram, fuzilaram, desapareceram pessoas e seus corpos. Destruíram a democracia que o Brasil vinha construindo e impuseram um regime de terror, valendo-se do aparato de Estado, construído com os impostos da cidadania, para controlar e atacar o Estado de direito.
Por isso, eles têm medo da Comissão da Verdade, têm medo da democracia, têm medo da apuração do realmente aconteceu. Dizem que haverá “revanchismo”. Só se for a revanche da verdade sobre a mentira. (Como disse Dilma, na ditadura não há verdade, só mentira.) Da Justiça sobre o regime de terror. Da democracia sobre a ditadura. Quem não deve, não teme, não tem medo da verdade.
Outra versão - proveniente dos que defenderam essa primeira versão no seu momento, mas que pretenderam estar reciclados para a democracia - é a chamada “teoria dos dois demônios”, segundo a qual a democracia teria sido assaltada por duas forças antidemocráticas, que se equivalem, ambas totalitárias. Dizem isso, embora eles mesmos tivessem estado firmemente de um dos lados – o da ditadura.
Agora, reclicados como liberais, pretendem equidistância dos enfrentamentos entre duas propostas supostamente “totalitárias”, felizmente derrotadas pelo advento da democracia liberal. Não consideram que, quem assaltou a democracia – com o seu apoio –, foram os golpistas, que os da resistência a defenderam, usando do direito à rebelião, consagrado como direito universal.
Precisam esquecer 1964, daí que encaram a história brasileira depois do fim da ditadura. A direita brasileira não pode falar de 1964, do seu papel de promover as mobilizações e as articulações golpistas, do bloco que articularam, para promover a ditadura militar. Não pode fazer sua história. A ultra direita é mais sincera, mas é inaceitável pelos consenso liberais predominantes hoje, então fica isolada, como primo renegado da direita oficial de hoje.
A Comissão da Verdade é um momento que a direita, nas suas distintas versões, tem medo, porque tem medo da verdade. http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=913
A direita brasileira tem no seu DNA o golpe de 1964 e a ditadura militar. No momento mais decisivo da história brasileira até aqui, quando se jogava o futuro do país, no choque entre democracia e ditadura, a direita – em todas as suas vertentes, partidárias, intelectuais, midiáticas, empresariais, religiosas – ficou com a ditadura.
A boa pergunta a cada homem público, a cada instituição, a cada força política, a cada jornalista, a cada intelectual, a cada brasileiro, a cada cidadão, é saber onde estava naquele momento crucial: defendendo a democracia ou apoiando o golpe e a ditadura militar?
Por isso os constrangimentos desses setores todos para se referir àquele período da nossa história. Tratam de esconder sua postura na ruptura da democracia, para deslocar tudo para os momentos em que foram vítimas do próprio monstro que ajudaram a criar como, por exemplo, na censura a órgãos de imprensa. Querem deixar de passar como verdugos para aparecerem como vítimas da ditadura cuja instalação eles apoiaram. Ou para anularem o papel de verdugos e vítimas, igualando e anulando aos dois.
Como a direita se refere agora à ditadura? Há vários discursos. A ultra direita –incluindo setores militares – segue com o discurso dos militares no momento do golpe - reproduzido naquela época por todos os que os apoiavam – mídia, partidos de direita, igreja, empresários, etc., etc . – de que se tratava de um golpe preventivo, que buscava evitar um golpe da esquerda (?), que levaria o Brasil a ser um país comunista, como Cuba, China e a URSS (sic).
Teriam atuado então na defesa da democracia, literalmente diziam que era um movimento de defesa da democracia, contra o totalitarismo comunista. É o discurso que mantem a ultra direita, cívica e militar. Teria se dado uma “guerra” entre duas partes, uma defendendo a democracia, outra querendo implantar o “totalitarismo comunista”, triunfou uma delas, que deveria ser reconhecida pela nação como sua salvadora.
Desconsideram que tudo aconteceu porque eles violaram a democracia e impuseram a ditadura, eles destruíram o Estado de direito, prenderam arbitrariamente, torturaram, fuzilaram, desapareceram pessoas e seus corpos. Destruíram a democracia que o Brasil vinha construindo e impuseram um regime de terror, valendo-se do aparato de Estado, construído com os impostos da cidadania, para controlar e atacar o Estado de direito.
Por isso, eles têm medo da Comissão da Verdade, têm medo da democracia, têm medo da apuração do realmente aconteceu. Dizem que haverá “revanchismo”. Só se for a revanche da verdade sobre a mentira. (Como disse Dilma, na ditadura não há verdade, só mentira.) Da Justiça sobre o regime de terror. Da democracia sobre a ditadura. Quem não deve, não teme, não tem medo da verdade.
Outra versão - proveniente dos que defenderam essa primeira versão no seu momento, mas que pretenderam estar reciclados para a democracia - é a chamada “teoria dos dois demônios”, segundo a qual a democracia teria sido assaltada por duas forças antidemocráticas, que se equivalem, ambas totalitárias. Dizem isso, embora eles mesmos tivessem estado firmemente de um dos lados – o da ditadura.
Agora, reclicados como liberais, pretendem equidistância dos enfrentamentos entre duas propostas supostamente “totalitárias”, felizmente derrotadas pelo advento da democracia liberal. Não consideram que, quem assaltou a democracia – com o seu apoio –, foram os golpistas, que os da resistência a defenderam, usando do direito à rebelião, consagrado como direito universal.
Precisam esquecer 1964, daí que encaram a história brasileira depois do fim da ditadura. A direita brasileira não pode falar de 1964, do seu papel de promover as mobilizações e as articulações golpistas, do bloco que articularam, para promover a ditadura militar. Não pode fazer sua história. A ultra direita é mais sincera, mas é inaceitável pelos consenso liberais predominantes hoje, então fica isolada, como primo renegado da direita oficial de hoje.
A Comissão da Verdade é um momento que a direita, nas suas distintas versões, tem medo, porque tem medo da verdade. http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=913
Relator da ONU critica Lei da Anistia brasileira
quinta-feira, 8 de março de 2012 12:00
Em um dos ataques mais duros da ONU ao modelo de transição política no Brasil, o relator da entidade contra a tortura, Juan Mendez, acusa a Lei da Anistia brasileira de ter tido seu objetivo original "travestido" e de ter sido usada como "desculpa para proteger militares e policiais."
A declaração do relator apela ainda para que a sociedade "não se deixe chantagear" pelo argumento de setores que insistem na ideia de que não seria conveniente reabrir o passado.
Em entrevista coletiva na sede da ONU, Mendez foi questionado pela imprensa estrangeira sobre o fato de o Brasil ainda ser um dos poucos países na América do Sul a não investigar seu passado. "No Brasil, na transição, houve um movimento para se ter uma lei de anistia, porque políticos perseguidos precisavam voltar e participar da vida política do País. Houve um movimento para se ter uma anistia. Era uma forma de abertura para a democracia. Mas, lamentavelmente, a lei foi aplicada para proteger os militares e a polícia de processos", declarou Mendez.
Para ele, o objetivo original da anistia foi "travestido". Segundo ele, isso significa que a lei foi criada com um propósito, mas foi aplicada em outro sentido. "Houve uma mudança de rumo na justiça, justamente no sentido contrário ao que ela originalmente estabelecia", disse Mendez. "A lei foi estabelecida para tentar criar um espaço político, mas foi usada como argumento para impunidade."
Essa distorção da lei também ocorreu em outros países sul-americanos, mas, de acordo com o relator, esses países latino-americanos já conseguiram superar os limites de suas leis de anistia. "Mas, lamentavelmente, o Brasil manteve a anistia para militares e policiais responsáveis por crimes sérios."
Limitações
Para o relator, a Comissão da Verdade não irá superar, sozinha, as limitações da Lei da Anistia brasileira. "No entanto, se a comissão for conduzida de forma séria, abrirá possibilidades para processos em um segundo estágio", declarou. "Se isso vai ocorrer eu não sei. Mas o direito internacional aponta nessa direção", insistiu.
O relator elogiou o governo da presidente Dilma Rousseff na tentativa de reconduzir o assunto no Brasil. "Há, pelo menos, uma chance de olhar o passado. O governo mostra que está pronto para rever o passado, pelo menos dizendo a verdade agora."
Na avaliação do relator, cabe também à sociedade tomar a decisão de olhar para o passado. "A experiência latino-americana mostra que não se pode deixar chantagear por aqueles aliados civis dos militares que dizem que é melhor não tocar no passado por conta das repercussões que isso pode ter. Essa chantagem não pode ser aceita", concluiu Mendez. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
http://www.dgabc.com.br/News/5945900/relator-da-onu-critica-lei-da-anistia-brasileira.aspx
Em um dos ataques mais duros da ONU ao modelo de transição política no Brasil, o relator da entidade contra a tortura, Juan Mendez, acusa a Lei da Anistia brasileira de ter tido seu objetivo original "travestido" e de ter sido usada como "desculpa para proteger militares e policiais."
A declaração do relator apela ainda para que a sociedade "não se deixe chantagear" pelo argumento de setores que insistem na ideia de que não seria conveniente reabrir o passado.
Em entrevista coletiva na sede da ONU, Mendez foi questionado pela imprensa estrangeira sobre o fato de o Brasil ainda ser um dos poucos países na América do Sul a não investigar seu passado. "No Brasil, na transição, houve um movimento para se ter uma lei de anistia, porque políticos perseguidos precisavam voltar e participar da vida política do País. Houve um movimento para se ter uma anistia. Era uma forma de abertura para a democracia. Mas, lamentavelmente, a lei foi aplicada para proteger os militares e a polícia de processos", declarou Mendez.
Para ele, o objetivo original da anistia foi "travestido". Segundo ele, isso significa que a lei foi criada com um propósito, mas foi aplicada em outro sentido. "Houve uma mudança de rumo na justiça, justamente no sentido contrário ao que ela originalmente estabelecia", disse Mendez. "A lei foi estabelecida para tentar criar um espaço político, mas foi usada como argumento para impunidade."
Essa distorção da lei também ocorreu em outros países sul-americanos, mas, de acordo com o relator, esses países latino-americanos já conseguiram superar os limites de suas leis de anistia. "Mas, lamentavelmente, o Brasil manteve a anistia para militares e policiais responsáveis por crimes sérios."
Limitações
Para o relator, a Comissão da Verdade não irá superar, sozinha, as limitações da Lei da Anistia brasileira. "No entanto, se a comissão for conduzida de forma séria, abrirá possibilidades para processos em um segundo estágio", declarou. "Se isso vai ocorrer eu não sei. Mas o direito internacional aponta nessa direção", insistiu.
O relator elogiou o governo da presidente Dilma Rousseff na tentativa de reconduzir o assunto no Brasil. "Há, pelo menos, uma chance de olhar o passado. O governo mostra que está pronto para rever o passado, pelo menos dizendo a verdade agora."
Na avaliação do relator, cabe também à sociedade tomar a decisão de olhar para o passado. "A experiência latino-americana mostra que não se pode deixar chantagear por aqueles aliados civis dos militares que dizem que é melhor não tocar no passado por conta das repercussões que isso pode ter. Essa chantagem não pode ser aceita", concluiu Mendez. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
http://www.dgabc.com.br/News/5945900/relator-da-onu-critica-lei-da-anistia-brasileira.aspx
General que escreveu manifesto não teme ser punido por Amorim
Por Thiago Herdy (thiago.herdy@sp.oglobo.com.br) | Agência O Globo – 12 horas atrás (09.03.2012)
SÃO PAULO - Autor do manifesto que inflamou a relação entre militares, Ministério da Defesa e a presidente Dilma Rousseff, o general Marco Antonio Felicio diz não temer ser punido pelo que escreveu, por entender que não haveria base legal para tal. Ele evoca lei aprovada pelo ex-presidente José Sarney que garantiria aos militares da reserva o direito de se expressar sem que fossem punidos. Ex-analista do Centro de Informações do Exército (CIE), Felicio receia que agentes do Estado sejam execrados pela Comissão da Verdade e ainda duvida ter havido tortura ou execução de presos políticos, apesar de admitir ter havido excessos "em ambos os lados combatentes" na guerra contra atos da "subversão marxista-leninista". Ele aceitou dar entrevista ao GLOBO desde que ela fosse por e-mail. Perguntou ao repórter se ele era patriota. Ao ser questionado se respeitava a autoridade do ministro da Defesa Celso Amorim e da presidente Dilma, respondeu: "Tanto quanto eles respeitam a minha".
O GLOBO: A presidente Dilma Rousseff ameaçou prender pelo menos um militar da reserva como reação ao manifesto com críticas ao ministro Celso Amorim e à Comissão da Verdade. Como autor do documento redigido, o senhor temeu que fosse o senhor?
GENERAL MARCO FELICIO: Não temi e não temo, pois usei do direito que a lei me faculta: a liberdade de expressão com responsabilidade. A verdade e somente a verdade.
O senhor já foi informado oficialmente sobre alguma punição ao senhor ou a colega militar em função do manifesto?
FELICIO: Não, pois creio firmemente que não haja base legal para tal.
O manifesto menciona o ministro Celso Amorim como alguém sem autoridade ou legitimidade para pedir a retirada de outra nota do site do Clube Militar, com críticas a Dilma e duas ministras. O que o senhor quis dizer com isso?
FELICIO: Reafirmo o que escrevi. O Clube Militar é uma associação de caráter civil e pela lei em vigor não é passível de qualquer tipo de ingerência por parte do Ministro da Defesa. Isto significa não ter ele autoridade ou legitimidade para tal. Qualquer um que leu o documento compreenderá o sentido do que lá está escrito.
No texto, há a seguinte frase: "O manifesto supracitado reconhece na aprovação da "Comissão da Verdade" ato inconsequente de revanchismo explícito e de afronta à lei da Anistia com o beneplácito, inaceitável, do atual governo". A Comissão da Verdade não tem poder de punir judicialmente qualquer militar. Por qual motivo, então, os senhores a consideram uma afronta à Lei da Anistia?
FELICIO: Não é esta a motivação expressa quase que diariamente por pessoas do governo e a ele ligadas. Querem a partir da Comissão da Verdade encontrar caminhos para a punição dos agentes de Estado. E o que fazer com os agentes da subversão marxista que mataram, roubaram, assaltaram, sequestraram e justiçaram os próprios companheiros além de lutarem pela implantação de uma ditadura comunista no Brasil? Porque execrar somente os agentes de Estado que exerciam ações legais?
Hoje o governo federal reconhece casos em que presos políticos foram submetidos a tortura por agentes de Estado. Alguns deles estão até hoje desaparecidos e provavelmente foram mortos. O senhor considera estes episódios específicos como "ações legais"?
FELICIO: Quem comprova tais denúncias? Mário Lago já orientava, em seu tempo, que todos os presos saíssem da prisão afirmando que tinham sido torturados barbaramente, mesmo que tivessem sido bem tratados. De quando em quando aparece um "desaparecido". Logicamente que uma guerra não se faz com flores e em ambos os lados combatentes há sempre excessos. Por qual razão, aqui, apurar-se tais ditos excessos somente cometidos por um lado? Não tenho conhecimento de torturas. Tenho conhecimento de operações de combate, cumprindo-se ordens superiores e dentro da lei então vigente.
O senhor pede que sejam apurados excessos cometidos por combatentes. Mas não foi justamente isso que ocorreu durante o governo militar, quando militantes de esquerda foram presos e condenados à prisão?
FELICIO: E quantos outros não o foram? Qual a razão de não serem apurados os fatos correlacionados com estes?
Os excessos cometidos por agentes de Estado tiveram como consequência o desaparecimento e provável morte de presos políticos. Não seria razoável que hoje representantes das Forças Armadas ajudassem o governo federal a encontrar esses corpos? Mesmo nas guerras, não é direito de um povo enterrar seus mortos?
FELICIO: Sem dúvida, todos querem enterrar seus mortos. Muitos anos se passaram, o que torna a tarefa muito difícil. Já foram realizadas buscas orientadas pelo Ministério da Defesa, inclusive com o auxilio de militares, e nada foi encontrado.
Para o ministro Celso Amorim, os signatários do documento não respeitam a "autoridade civil". O senhor concorda com o que disse o ministro?
FELICIO: Gostaria de saber de que argumentos concretos o ministro se vale para tal afirmação. Ele deve saber que o autor, e não autores dos documentos, é profissional com mais de 45 anos de bons serviços prestados à nação, tendo frequentado todos os cursos do exército e alguns civis, conforme atesta a sua folha de alterações onde estão os depoimentos de seus ex-comandantes e as ações que desempenhou no combate aos atos violentos da subversão marxista-leninista.
O senhor poderia detalhar exatamente que ações desempenhou? Por quais órgãos o senhor passou, qual era a sua função neles e quais são os feitos que, ainda hoje, são motivo de orgulho para o senhor?
FELICIO: Fui oficial de informações de unidade e trabalhei como analista do Centro de Informações do Exército (CIE). Orgulho-me de ter contribuído com o meu trabalho, que julgo dedicado e eficiente, na erradicação da subversão marxista-leninista e das violentas ações da guerrilha urbana e rural, causadoras de ações terroristas e das mortes de tantos inocentes, evitando que o povo brasileiro fosse privado de sua liberdade.
Como militar da reserva, o senhor respeita a autoridade do ministro da defesa Celso Amorim e da presidente Dilma Rousseff?
FELICIO: Tanto quanto eles respeitam a minha. Na vida militar o respeito é recíproco.
Não há militares da ativa entre os signatários do documento. Eles temem sofrer algum tipo de punição caso assinem o documento?
FELICIO: Não, eles cumprem apenas a lei, como é da formação dos mesmos. Os militares da reserva e reformados tem livre manifestação de suas opiniões, incluso as de caráter político. Isso não ocorre com os oficiais da ativa.
O senhor acredita que, se pudessem, os militares da ativa assinariam o documento?
FELICIO: Creio que sim, pois, o exército de hoje, quanto aos seus valores, não é diferente do exército de ontem.
Quais são os valores do exército de ontem que permanecem no exército de hoje?
FELÍCIO: As manifestações essenciais dos valores militares são: patriotismo, civismo, fé na missão do exército, amor à profissão, espírito de corpo e o aprimoramento técnico-profissional. Por tal razão estamos coesos e unidos para acorrermos a qualquer chamamento da nação. E isto está presente na história pátria em todos os momentos de gravidade e de inflexão da mesma. Não será diferente no presente e no futuro.
O que o governo deveria ter feito para evitar este desentendimento com os militares da reserva?
FELÍCIO: Não governar pelo retrovisor, respeitar a dignidade dos militares e dar o devido valor às suas Forças Armadas.
Na nossa conversa pelo telefone, o senhor me perguntou se eu era um jornalista patriota. Para o senhor, o que é ser patriota?
FELÍCIO: Há coisas na vida que foram feitas mais para serem mais sentidas do que explicadas ou entendidas. Assim também é ser patriota. É um sentimento de amor e orgulho pela nossa pátria. É servir e defender o nosso povo, o nosso território, mesmo que se tivermos de dar a nossa vida para isso.
O "homem novo" aos olhos de Clara Charf
Publicado em 07-Mar-2012
Quem diria que a linda aeromoça alagoana Clara Charf viria, um dia, a se casar com um dos homens mais procurados por mais de uma ditadura deste país, o guerrilheiro baiano Carlos Marighella, fundador da Ação Libertadora Nacional (ALN), uma das dissidências do Partido Comunista Brasileiro!
Foi o que aconteceu e sua vida nada teve de comum. Companheira de um dos mais emblemáticos líderes da esquerda brasileira, Clara viveu as agruras da clandestinidade, viu o sol nascer por trás das grades e foi obrigada a se exilar. Mas quem a vê, hoje, nos seus 86 anos, não enxerga nesta simpática senhora uma gota de rancor em relação às durezas pelas quais passou. Aliás, se surpreenderá com o bom humor e o brilho nos olhos desta sra., uma testemunha ímpar da história deste país.
Mais do que apenas mulher de Marighella, Clara se provou, ela própria, uma ativa militante. Atuante defensora da causa da mulher, faz sua voz ser ouvida seja no PT, seja no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, da Secretaria Especial de Política para as Mulheres da Presidência da República, seja na Associação Mulheres pela Paz ao Redor do Mundo, ou na Comissão de Mortos e Desaparecidos.
Neste 8 de março em que comemoramos o Dia Internacional da Mulher, entrevistamos Clara. Uma prazerosa tarefa, aliás. E quem ler a entrevista abaixo, notará que, além de dar respostas, ela inverte o jogo, é adepta a perguntas e a questionamentos. Como não respondê-los? Confira, a seguir, uma deliciosa conversa com esta grande companheira.
[José Dirceu] Você diria que o Brasil é um país machista?
[ Clara Charf ] Não conheço nenhum país que não seja. Agora, isso não quer dizer que todas as pessoas neste ou naquele país sejam machistas. Essa é uma questão de indivíduos. Muitas pessoas nem sabem o que significa ser machista. Quando eu comecei a militar, machista era um adjetivo que eu nunca tinha ouvido. Existia apenas a noção do “homem mandão”, lá no Nordeste, quando comecei a despertar para algumas coisas.
Lembro que havia uma vizinha nossa, portuguesa, que tinha um marido que era um malandro. Ela ficava o dia todo lavando o terno dele, lavando e passando roupa, cuidando das filhas, fazendo de tudo... Ele saía, belo e formoso, ela só conversava com a minha mãe, por cima do muro. Nunca ia a lugar algum.
Eu ia a pé para o trabalho - era bancária naquela época - e um dia, de repente, olho e lá estava o marido da dona Helena, de terno passado, com chapéu, agarrando uma mulher, em público, ao meio dia. Fiquei possessa! Ao voltar à noite, eu soltei: “Mamãe, eu não vou me casar nunca”.
[Dirceu] Como o machismo se manifestava na sua juventude?
[Clara] Eu achava que havia alguma coisa errada, mas não existia para mim essa palavra “machista”. Eu a aprendi depois, no processo político. Eu achava que não dava para ser daquele jeito. Hoje tem meio de comunicação, há muita discussão. Mas, naquele tempo, era o homem que mandava em casa e a mulher se submetia, inclusive, à situação de o homem ter mais de uma mulher. E desde aquela época, eu comecei a lutar contra as injustiças. Eu achava que todos deveriam ser iguais. Também conheci a irmã da Clarice Lispector (Tânia) e outras mulheres independentes, mas os homens sempre davam as regras.
[Dirceu] Mas o Brasil mudou. Hoje nós temos uma mulher presidenta, com várias ministras, deputadas.
[Clara] Mudou tudo, a maneira de viver. Veja, no Brasil hoje, a quantidade de mulheres que ocupam cargos públicos, o papel que elas têm em casa, na educação. Eu tenho 86 anos e quanta coisa eu já vi! Agora, tem o machismo escondido em cada homem. Eu, por exemplo, lido com essas moças cuidadoras que vão, em casa, ajudar. Uma delas tem um marido que é trabalhador da construção. Pelo que ela conta, esse homem é o companheiro mais maravilhoso que ela poderia ter. Trabalha a semana inteira na construção, ela cuida das pessoas e depois eles se encontram. Ele faz tudo em casa junto com ela. É um operário, com pouca instrução, mas no dia a dia dele, o seu comportamento em casa é de uma pessoa não machista.
[Dirceu] Há diferença entre os homens da militância e os demais?
[Clara] As organizações, em geral, refletem a sociedade. Já conversei muito, por exemplo, com as mulheres do Movimento dos Sem Terra (MST) e algumas contavam que seus companheiros as ajudavam, outras que não... Claro que há pessoas que avançaram politicamente. Então, essas não podem ter o comportamento igual ao de uma pessoa que nunca militou, ou que nunca se dispôs a defender uma causa por alguém. Pode-se dizer que quem tem mais cultura é menos machista? Não. De forma alguma. Até hoje existem homens que, mesmo ocupando cargos públicos, mesmo sendo formados em universidades, permanecem machistas.
[Dirceu] Fale um pouco do “caso Dilma”, a ascesão da 1ª mulher à Presidência da República no Brasil. Como o vê?
[Clara] Já é muito grande o sentimento de que a mulher precisa e tem condições de ocupar cargos públicos. Ela é tão ou mais competente que o homem para isso. Mas ainda há muitos homens que ficam danados da vida ao verem uma mulher sendo nomeada. E aí, surpresa!, dá certo. Foi o caso da Dilma. No começo houve quem achasse que ela não iria dar conta. Aí, começaram as histórias do período da prisão, de luta e de coragem… Eu vejo a quantidade de homens que mudaram de posição a respeito dela. A prática faz cair muitos slogans e ditos. Há coisas que só a vida prova.
Será o mesmo com a Eleonora Menicucci (ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres). Ela não tem papas na língua. Teve muita coragem ao assumir publicamente que sua filha é gay. É algo muito corajoso. Esse tipo de exemplo ajuda a muitas mulheres - que têm acanhamento de se pronunciar - a se manifestarem.
Machismo: algumas coisas mudaram, outras não
[Dirceu] Há muitas profissões em que já há mais mulheres do que homens. Fui recentemente a um hospital e, lá, para cada médico havia uma médica. Mas, do seu ponto de vista, no cotidiano das pessoas, em casa, no trabalho, na rua, o que mudou para as mulheres?
[Clara] Algumas coisas mudaram e outras não. O que tem de novo é a discussão que se faz hoje sobre o papel da mulher na sociedade. Nas universidades, em alguns programas de TV, em debates em algumas escolas. Mas ainda é muito pouco. Por outro lado, veja quantas mulheres trabalham fora de casa, ou estão dentro de casa trabalhando, produzindo, escrevendo, compondo… O problema é que a mulher que sai de casa de madrugada, toma ônibus, trem, metrô, vai para o trabalho, volta tarde e, ao chegar em casa, tem muitas coisas para arrumar. Outras chegam e o marido já fez a janta e já arrumou a casa. Essas são novidades que no meu tempo não tinha. Eu nunca vi um homem ajudar em casa quando menina. Não me lembro dessa cena.
[Dirceu] Você já viveu em Cuba, uma sociedade socialista. Como era essa questão por lá?
[Clara] Cuba, a primeira sociedade socialista da América… Eu já era viúva e trabalhava com tradução ao lado de pessoas que eram casadas. Pelo que as cubanas contavam, os maridos dividiam as tarefas domésticas com elas. Ao ponto de, um dia, um rapaz ter chegado atrasado, dizendo que havia tido problemas em casa. Sua criança estava doente e tal. Mas o problema não era esse. Ele havia se atrasado por que teve de fazer as coisas que normalmente fazia e porque a mulher havia se recusado a ajudá-lo. A diferença em Cuba é que essas coisas eram discutidas ali, no trabalho.
[Dirceu] Quais bandeiras fundamentais na sua visão devem ser empunhadas para as mulheres hoje?
[Clara]A igualdade, a justiça, o respeito à figura da mulher, a igualdade no trato com os filhos, a divisão do trabalho também dentro de casa. Na prática, é muito difícil os homens se disporem a ajudar em casa. Pelo menos os que eu conheço. Zé, você cozinha?
[Dirceu] (risos) Cozinho.
[Clara]Cozinha bem?
[Dirceu] Faz tempo que não cozinho, mas quando eu morava em Cuba, aprendi a cozinhar. Quando preciso, eu faço de tudo. Mas estou mal acostumado… E você, Clara? Como era a divisão das tarefas na sua casa?
Marighella, exemplo do homem novo
[Clara] O Jô Soares uma vez me perguntou como era viver na clandestinidade. Marighella me propôs uma vez que passaria o escovão no chão, pois não havia enceradeira naquele tempo. Mas não era só. Um dia, quando eu passava roupa ele me olhou e disse: “Não passe a roupa quando eu não estiver em casa. Quero ler em voz alta para você quando estiver passando roupa”. Esse era o Marighella. Você acredita nisso? Nas casas em que ele morou clandestino, as companheiras não queriam que ele fosse embora. Ele inventava brinquedo para as crianças, para aliviar a companheira que tinha as tarefas da casa. Esse era o exemplo do homem novo. O comportamento do Marighella era esse, com todo mundo e em todos os lugares em que ele viveu.
[Dirceu] Ele dava o exemplo...
[Clara] Fazíamos muitas reuniões na clandestinidade, preocupados com a vizinhança, porque ninguém podia desconfiar o que se passava. E tínhamos de deixar tudo arrumado nas casas usadas… Certa vez, em uma reunião com a juventude, o Marighella pegou os meninos que comiam banana e deixavam a casca por ali e disse: “Olha, isso não pode ficar aqui. Primeiro, por respeito às pessoas que emprestaram a casa. Segundo, porque é muito folgado vocês comerem, deixarem aqui para a pessoa que chegar do trabalho limpar”. Todo o pessoal da juventude ficava admirado.
[Dirceu] Clara, o povo brasileiro e a juventude têm a dimensão da coragem e de quem foi Carlos Marighella?
[Clara] O povo brasileiro, 200 milhões de habitantes, é muita gente… A maioria da população não tem essa dimensão, não. Mas, já cresceu muito o conhecimento sobre a luta de Marighella. Vimos isso, agora, no centenário. A quantidade de gente impressionadíssima com a história dele. Chegaram a me levar lá na Bahia para dar uma entrevista a um programa de rádio para falar sobre ele. E isso teve uma repercussão enorme. Também todas as emissoras deram os acontecimentos do centenário, saíram artigos, o próprio filme (“Marighella”, da diretora Isa Grinspum Ferraz). Essa exposição toda pegou um público que não estava acostumado a ter informações sobre ele. Isso, sem falar das atividades do Museu da Resistência. Desde que fizemos a primeira exposição sobre ele lá, muita gente de classe média o conheceu, e muitas escolas levaram estudantes. Mas, a grande maioria do povo não sabe nada sobre ele.
Ainda assim, uma das cuidadoras que trabalha em casa disse que estava sentada com o marido vendo TV e, de repente, houve um comentário sobre Marighella. Como já havia ouvido esse nome lá em casa, ela resolveu prestar atenção. O marido, então, comentou: “Nossa senhora! Mas esse homem que é o marido da dona Clara?” Ele levou o maior susto e achou o máximo. Ela também viu aquela novela “Amor e Revolução”, no SBT. Essa teve uma repercussão ainda maior.
[Dirceu] A mídia trabalhou contra a novela.
[Clara] Mas muita gente passou a comentar. Apesar do horário da novela que era péssimo - onze da noite é muito tarde. Marighella era de uma capacidade criativa impressionante. A juventude o adorava por causa das coisas que ele fazia. Jamais foi bruto com as pessoas, pelo contrário. Claro que não era santo, mas era muito boa gente, tinha uma capacidade de comunicação muito grande. Agora, uma novela de costumes ou política como aquela não entra na Globo.
[Dirceu] A Globo até fez uma sobre Juscelino. Se pegar umas 100 novelas e mini-séries da Globo, há apenas umas 20 em que ela abordou fatos históricos e não os deturpou tanto. Aquela sobre a Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi boa, por exemplo. E temos os filmes brasileiros. O problema é que apenas 50 mil, 100 mil pessoas os assistem. E, às vezes, são filmes espetaculares.
[Clara] Há um trabalho muito legal que está sendo feito no Museu da Resistência. Os professores estão levando seus alunos para ver como era o lugar e onde o pessoal era torturado. Os alunos ficam horrorizados, impactados. O Museu está representando um papel muito importante neste sentido. Só que é insuficiente para resgatar a história. Nós militantes e o partido temos que fazer um investimento nos cursos de História, ter um trabalho dirigido aos professores.
Mas, me diga você, Zé. Você acha que o PT é um partido machista?
[Dirceu] Mudou bastante com os anos. Independente de se havia ou não machismo, já na fundação do PT as mulheres ocupavam um papel importante no partido. E, agora com os 50% obrigatórios nas direções e nas chapas… A lei vai impor uma mudança. Falta uma presidenta do PT, uma mulher, já que elas já estão nas secretarias. Mas já contamos com mulheres na liderança da Câmara e do Senado e há as ministras no governo…
[Clara] Agora, ainda é muito difícil no dia a dia, na relação do partido. A pessoa, às vezes, se sente tolhida.
[Dirceu] Eu comecei ao lado de muita liderança mulher no movimento estudantil. As presidentas do Centros Acadêmico da Filosofia da Universidade de São Paulo. Tínhamos a Iara Iavelberg, a Helenira Resende de Souza Nazareth e muitas outras. O ano de 68 foi a favor da liderança das mulheres e isso coincidiu também com a pílula, a independência das mulheres que passaram a estudar e a trabalhar fora de casa. Mas, voltando à luta das mulheres. Como você acha que devemos avançar mais nesta questão?
[Clara] Precisamos de outras formas de atuação. Por exemplo: uma organização não governamental (ONG) da Suíça entrou em contato com a Associação de Mulheres pela Paz dizendo que queria fazer uma proposta para que o prêmio Nobel fosse concedido a mil mulheres de diferentes países. E nos pediu que indicássemos quais brasileiras concorreriam a um Prêmio Nobel da Paz em conjunto. E nós desenvolvemos um trabalho que surgiu da discussão sobre como seria a mulher que deveria ganhar o prêmio. Mesmo que esse modelo não existisse no código do Prêmio Nobel, nós resolvemos tentar… Primeiro, debatemos o que é a luta pela paz, para podermos propor que mulheres deveriam concorrer a esse prêmio. Para mim, a luta pela paz é a luta diária, a luta no dia-a-dia, no miúdo, que faz o bem à humanidade. Nós, então, formamos um grupo, uma comissão composta de várias mulheres, com dois homens - Leonardo Boff e Inácio de Araújo.
[Dirceu] E no que deu essa iniciativa?
[Clara] Selecionamos os nomes enviados pelas organizações aqui do Brasil. Chegaram as propostas, uma mais interessante do que a outra. Como, por exemplo, uma mulher no interior de Goiás, (a quilombola descendente de Kalungas, Mãe Procópia) lá dos canfudós, negra, semi-analfabeta, que, morando ali, resolveu, no meio de uma pobreza total, que todo mundo da sua região deveria aprender a ler. Mas, ela própria não sabia ler. E batalhou até conseguir uma pessoa que soubesse ler e escrever e levou essa pessoa para ensinar na região. A história é linda. Essa mulher foi uma das indicadas na nossa lista. Tinha cada história impressionante. E em todas havia a participação do marido, do filho, de companheiros que têm um comportamento a favor das mulheres e cujas histórias não saem na televisão.
Nosso país pré-selecionou 230 mulheres e, como a proposta era de elegermos mil em todo o mundo, a cota para o Brasil era de 53 mulheres. Entre elas teve a cientista Mariana Katz, a médica portuguesa de São Paulo, Albertina Duarte... Teve mulher negra, mulher formada, de um tudo. E foi feito um livro com as mil mulheres indicadas ao Prêmio Nobel da Paz. Mas o comitê do Prêmio Nobel não aceitou a sugestão de um prêmio conjunto. Seus organizadores ficaram muito admirados com a proposta, mas não deram o prêmio às mil. Queriam que fossem indicadas apenas uma ou duas pessoas por país.
[Clara] Fazíamos muitas reuniões na clandestinidade, preocupados com a vizinhança, porque ninguém podia desconfiar o que se passava. E tínhamos de deixar tudo arrumado nas casas usadas… Certa vez, em uma reunião com a juventude, o Marighella pegou os meninos que comiam banana e deixavam a casca por ali e disse: “Olha, isso não pode ficar aqui. Primeiro, por respeito às pessoas que emprestaram a casa. Segundo, porque é muito folgado vocês comerem, deixarem aqui para a pessoa que chegar do trabalho limpar”. Todo o pessoal da juventude ficava admirado.
[Dirceu] Clara, o povo brasileiro e a juventude têm a dimensão da coragem e de quem foi Carlos Marighella?
[Clara] O povo brasileiro, 200 milhões de habitantes, é muita gente… A maioria da população não tem essa dimensão, não. Mas, já cresceu muito o conhecimento sobre a luta de Marighella. Vimos isso, agora, no centenário. A quantidade de gente impressionadíssima com a história dele. Chegaram a me levar lá na Bahia para dar uma entrevista a um programa de rádio para falar sobre ele. E isso teve uma repercussão enorme. Também todas as emissoras deram os acontecimentos do centenário, saíram artigos, o próprio filme (“Marighella”, da diretora Isa Grinspum Ferraz). Essa exposição toda pegou um público que não estava acostumado a ter informações sobre ele. Isso, sem falar das atividades do Museu da Resistência. Desde que fizemos a primeira exposição sobre ele lá, muita gente de classe média o conheceu, e muitas escolas levaram estudantes. Mas, a grande maioria do povo não sabe nada sobre ele.
Ainda assim, uma das cuidadoras que trabalha em casa disse que estava sentada com o marido vendo TV e, de repente, houve um comentário sobre Marighella. Como já havia ouvido esse nome lá em casa, ela resolveu prestar atenção. O marido, então, comentou: “Nossa senhora! Mas esse homem que é o marido da dona Clara?” Ele levou o maior susto e achou o máximo. Ela também viu aquela novela “Amor e Revolução”, no SBT. Essa teve uma repercussão ainda maior.
[Dirceu] A mídia trabalhou contra a novela.
[Clara] Mas muita gente passou a comentar. Apesar do horário da novela que era péssimo - onze da noite é muito tarde. Marighella era de uma capacidade criativa impressionante. A juventude o adorava por causa das coisas que ele fazia. Jamais foi bruto com as pessoas, pelo contrário. Claro que não era santo, mas era muito boa gente, tinha uma capacidade de comunicação muito grande. Agora, uma novela de costumes ou política como aquela não entra na Globo.
[Dirceu] A Globo até fez uma sobre Juscelino. Se pegar umas 100 novelas e mini-séries da Globo, há apenas umas 20 em que ela abordou fatos históricos e não os deturpou tanto. Aquela sobre a Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi boa, por exemplo. E temos os filmes brasileiros. O problema é que apenas 50 mil, 100 mil pessoas os assistem. E, às vezes, são filmes espetaculares.
[Clara] Há um trabalho muito legal que está sendo feito no Museu da Resistência. Os professores estão levando seus alunos para ver como era o lugar e onde o pessoal era torturado. Os alunos ficam horrorizados, impactados. O Museu está representando um papel muito importante neste sentido. Só que é insuficiente para resgatar a história. Nós militantes e o partido temos que fazer um investimento nos cursos de História, ter um trabalho dirigido aos professores.
Mas, me diga você, Zé. Você acha que o PT é um partido machista?
[Dirceu] Mudou bastante com os anos. Independente de se havia ou não machismo, já na fundação do PT as mulheres ocupavam um papel importante no partido. E, agora com os 50% obrigatórios nas direções e nas chapas… A lei vai impor uma mudança. Falta uma presidenta do PT, uma mulher, já que elas já estão nas secretarias. Mas já contamos com mulheres na liderança da Câmara e do Senado e há as ministras no governo…
[Clara] Agora, ainda é muito difícil no dia a dia, na relação do partido. A pessoa, às vezes, se sente tolhida.
[Dirceu] Eu comecei ao lado de muita liderança mulher no movimento estudantil. As presidentas do Centros Acadêmico da Filosofia da Universidade de São Paulo. Tínhamos a Iara Iavelberg, a Helenira Resende de Souza Nazareth e muitas outras. O ano de 68 foi a favor da liderança das mulheres e isso coincidiu também com a pílula, a independência das mulheres que passaram a estudar e a trabalhar fora de casa. Mas, voltando à luta das mulheres. Como você acha que devemos avançar mais nesta questão?
[Clara] Precisamos de outras formas de atuação. Por exemplo: uma organização não governamental (ONG) da Suíça entrou em contato com a Associação de Mulheres pela Paz dizendo que queria fazer uma proposta para que o prêmio Nobel fosse concedido a mil mulheres de diferentes países. E nos pediu que indicássemos quais brasileiras concorreriam a um Prêmio Nobel da Paz em conjunto. E nós desenvolvemos um trabalho que surgiu da discussão sobre como seria a mulher que deveria ganhar o prêmio. Mesmo que esse modelo não existisse no código do Prêmio Nobel, nós resolvemos tentar… Primeiro, debatemos o que é a luta pela paz, para podermos propor que mulheres deveriam concorrer a esse prêmio. Para mim, a luta pela paz é a luta diária, a luta no dia-a-dia, no miúdo, que faz o bem à humanidade. Nós, então, formamos um grupo, uma comissão composta de várias mulheres, com dois homens - Leonardo Boff e Inácio de Araújo.
[Dirceu] E no que deu essa iniciativa?
[Clara] Selecionamos os nomes enviados pelas organizações aqui do Brasil. Chegaram as propostas, uma mais interessante do que a outra. Como, por exemplo, uma mulher no interior de Goiás, (a quilombola descendente de Kalungas, Mãe Procópia) lá dos canfudós, negra, semi-analfabeta, que, morando ali, resolveu, no meio de uma pobreza total, que todo mundo da sua região deveria aprender a ler. Mas, ela própria não sabia ler. E batalhou até conseguir uma pessoa que soubesse ler e escrever e levou essa pessoa para ensinar na região. A história é linda. Essa mulher foi uma das indicadas na nossa lista. Tinha cada história impressionante. E em todas havia a participação do marido, do filho, de companheiros que têm um comportamento a favor das mulheres e cujas histórias não saem na televisão.
Nosso país pré-selecionou 230 mulheres e, como a proposta era de elegermos mil em todo o mundo, a cota para o Brasil era de 53 mulheres. Entre elas teve a cientista Mariana Katz, a médica portuguesa de São Paulo, Albertina Duarte... Teve mulher negra, mulher formada, de um tudo. E foi feito um livro com as mil mulheres indicadas ao Prêmio Nobel da Paz. Mas o comitê do Prêmio Nobel não aceitou a sugestão de um prêmio conjunto. Seus organizadores ficaram muito admirados com a proposta, mas não deram o prêmio às mil. Queriam que fossem indicadas apenas uma ou duas pessoas por país.
Comissão da Verdade é uma vitória
[Dirceu] Clara: você, que viveu na clandestinidade e testemunhou a trágica trajetória de tantos companheiros durante os anos da ditadura militar, que opinião você tem sobre a Comissão da Verdade? Como ela pode contribuir e no que deve avançar?
[Clara] A primeira coisa a dizer sobre a Comissão da Verdade é que, finalmente, ela está constituída. É o primeiro passo. Acho isso ótimo. Ela já foi formalmente aprovada. O problema é que ainda não sabemos os nomes que a comporão. Essa é a polêmica do momento.
[Dirceu] Com a volta do Congresso isso deverá ser encaminhado...
[Clara] Para mim, a Comissão da Verdade já é uma vitória. Na medida do possível, eu vou às reuniões de Comitê da Anistia no Museu da Resistência. E há uma discussão se ela deve apenas apontar os casos (de repressão e crimes durante a ditadura) ou se ela deve punir (os responsáveis). É só dizer que o cara matou, esfolou, fez isso ou aquilo? Ou vai condenar, ou localizar as pessoas?
[Dirceu] Qual é a sua posição a respeito?
[Clara] O papel da Comissão não é de punição. Isso é algo muito difícil dela cumprir. Seu papel será mexer em tudo o que for necessário até chegar lá no fundo, fazer aflorar a verdade. As punições têm de ser feitas por outro caminho. Não sei se pela própria Justiça. Agora, só o fato de localizarmos as pessoas (envolvidas nos episódios de crimes e da repressão) já é importantíssimo. Você viu o caso do fotógrafo do Vladimir Herzog? (Silvaldo Leung Vieira, do Instituto de Criminalística que registrou a cena montada do suposto suicídio de Herzog no DOI-CODI, no antigo 2º Exército em São Paulo). É importantíssimo ele ter feito mais esta denúncia. Se você pega pessoas como ele que têm esses segredos…
[Dirceu] Devem aparecer centenas e milhares…
[Clara] Acho que o papel da Comissão da Verdade, primeiro, é o de localizar, fazer aflorar, estimular a descoberta da verdade. Isso dá fazer e será bom, porque muita gente que está acuada,vai poder falar se esse caminho foi aberto. Ela tem de abrir o espaço para que as pessoas tenham a coragem de dizer, de contar. Dizer essas coisas não é uma vergonha, é coragem. Esse fotógrafo foi corajoso.
[Dirceu] Tem, ainda, os documentos históricos para analisar sobre o período da ditadura. São milhões e milhões e muita coisa será encontrada nesses documentos... Mas queria, agora, tratar de outro assunto. Como você descreve o que é liberdade a um jovem que nasceu sob o regime democrático?
[Clara] Muitos jovens têm na cabeça que liberdade é a liberdade sexual. A maneira como os meios de comunicação trabalham o conceito atrapalha os jovens a compreendê-lo. É preciso entender a liberdade em todos os seus aspectos. Liberdade para trabalhar, para estudar. Liberdade para viver, amar, morar. É você ser livre para se mover, para criar o modo de vida que você concorda. É ter liberdade de expressão... É poder dar a sua opinião, intervir na vida, se juntar com outros jovens e realizar coisas em benefício - não só da vida do seu grupo, do lugar em que você mora - mas da sociedade em geral. Isso dá muita alegria e tudo isso é liberdade. No tempo em que você fez, Zé, todas aquelas coisas na universidade, na luta estudantil, você estava realizado. Eu achava tudo aquilo o máximo.
[Dirceu] E era mesmo...
[Clara] A primeira coisa a dizer sobre a Comissão da Verdade é que, finalmente, ela está constituída. É o primeiro passo. Acho isso ótimo. Ela já foi formalmente aprovada. O problema é que ainda não sabemos os nomes que a comporão. Essa é a polêmica do momento.
[Dirceu] Com a volta do Congresso isso deverá ser encaminhado...
[Clara] Para mim, a Comissão da Verdade já é uma vitória. Na medida do possível, eu vou às reuniões de Comitê da Anistia no Museu da Resistência. E há uma discussão se ela deve apenas apontar os casos (de repressão e crimes durante a ditadura) ou se ela deve punir (os responsáveis). É só dizer que o cara matou, esfolou, fez isso ou aquilo? Ou vai condenar, ou localizar as pessoas?
[Dirceu] Qual é a sua posição a respeito?
[Clara] O papel da Comissão não é de punição. Isso é algo muito difícil dela cumprir. Seu papel será mexer em tudo o que for necessário até chegar lá no fundo, fazer aflorar a verdade. As punições têm de ser feitas por outro caminho. Não sei se pela própria Justiça. Agora, só o fato de localizarmos as pessoas (envolvidas nos episódios de crimes e da repressão) já é importantíssimo. Você viu o caso do fotógrafo do Vladimir Herzog? (Silvaldo Leung Vieira, do Instituto de Criminalística que registrou a cena montada do suposto suicídio de Herzog no DOI-CODI, no antigo 2º Exército em São Paulo). É importantíssimo ele ter feito mais esta denúncia. Se você pega pessoas como ele que têm esses segredos…
[Dirceu] Devem aparecer centenas e milhares…
[Clara] Acho que o papel da Comissão da Verdade, primeiro, é o de localizar, fazer aflorar, estimular a descoberta da verdade. Isso dá fazer e será bom, porque muita gente que está acuada,vai poder falar se esse caminho foi aberto. Ela tem de abrir o espaço para que as pessoas tenham a coragem de dizer, de contar. Dizer essas coisas não é uma vergonha, é coragem. Esse fotógrafo foi corajoso.
[Dirceu] Tem, ainda, os documentos históricos para analisar sobre o período da ditadura. São milhões e milhões e muita coisa será encontrada nesses documentos... Mas queria, agora, tratar de outro assunto. Como você descreve o que é liberdade a um jovem que nasceu sob o regime democrático?
[Clara] Muitos jovens têm na cabeça que liberdade é a liberdade sexual. A maneira como os meios de comunicação trabalham o conceito atrapalha os jovens a compreendê-lo. É preciso entender a liberdade em todos os seus aspectos. Liberdade para trabalhar, para estudar. Liberdade para viver, amar, morar. É você ser livre para se mover, para criar o modo de vida que você concorda. É ter liberdade de expressão... É poder dar a sua opinião, intervir na vida, se juntar com outros jovens e realizar coisas em benefício - não só da vida do seu grupo, do lugar em que você mora - mas da sociedade em geral. Isso dá muita alegria e tudo isso é liberdade. No tempo em que você fez, Zé, todas aquelas coisas na universidade, na luta estudantil, você estava realizado. Eu achava tudo aquilo o máximo.
[Dirceu] E era mesmo...
Juventude hoje: há um individualismo maior
[Clara] Eu converso muito com os jovens. E fico observando com eles se comportam. Todos decidem por conta própria o que querem fazer. Mas há um individualismo maior. Ao discutirem a liberdade, não o fazem com o viés do trabalho coletivo. Basta ver os partidos políticos de hoje. Eu não acho que eles estimulem o trabalho coletivo...
[Dirceu] No Brasil, tem partido e Partido. O PSDB, por exemplo, recontando as suas filiações, apertando, apertando, descobriu que não tem muitos nomes. Os partidos com mais vida como o PC do B, o PT, o PDT, o PSB acordaram, agora, para essa questão da juventude. No caso do PT isso se deu principalmente nos últimos 3, 4 anos.
[Clara] Eu não tenho filhos jovens em casa. O Carlinhos já passou dos sessenta. (risos) Mas eu converso muito com as pessoas para conhecer mais essa juventude. E fico admirada como esses garotos decidem tudo. Um dia, o filho da Isinha (Isa Grinspum Ferraz, cineasta, sobrinha do Marighella) chegou em casa e disse “estou trabalhando no jornal”. Ele leu que estavam procurando gente, foi lá, fez um teste e passou. A decisão nem foi discutida em casa. O rapaz formou uma banda com um grupo de pessoas e toca.
Já o filho do meu sobrinho, Jorge, virou cineasta, dirige filmes e trabalhou no filme Marighella. Foi uma das pessoas que participou da direção do filme. Eles se juntam, arranjam espaço para tocar seus projetos e escolhem suas carreiras. Esses são os filhos de classe média que estudaram. Já, os jovens operários, eu acompanho pelos relatos das meninas que trabalham comigo. Um filho de uma delas trabalha na construção e estuda de noite. O outro, mais jovem, dorme até mais tarde e desperta quando todo mundo vai dormir. Fica vendo TV, faz coisas na internet, e depois volta para a cama.
Os meninos da classe média são livres para sair, dançar até sabe lá que horas. E o jovem mais pobre vai ao boteco, à escola de samba. Estão fazendo coisas lindas nas escolas de samba. O que me preocupa é como a sociedade e a política do PT dirigida à juventude podem dar uma perspectiva de estudo e de trabalho para esse jovem. Como se faz isso?
[Dirceu] Dando oportunidade para imensa maioria por meio do estudo. E ele tem melhorado muito nos últimos anos. Hoje até tem oferta de trabalho. Agora, o impeditivo para o jovem trabalhar é muito mais a falta de qualificação do que a vaga de emprego.
[Clara] Muito do que a juventude quer, ela não tem acesso por falta de recursos.
[Dirceu] O transporte já consome o salário do jovem. Comida, material para estudar, só nesses três itens já vai todo o dinheiro. E a diversão e o lazer não são gratuitos… O Ministério da Cultura deveria ter um orçamento três vezes maior, porque faz parte da política de bem estar social.
[Clara] Eu não parei ainda para pensar quais formas o PT deveria adotar para estimular o trabalho cultural…
[Dirceu] Este é um problema sério. Sedes de partidos deveriam ser sedes culturais e sociais. Foi assim que os centros acadêmicos começaram durante a ditadura. Iniciaram sua ação pela promoção da cultura. Logo o regime proibiu cineclube, feira de livros... Eles perceberam que ali estava o "ovo da serpente". Acho, por exemplo, que PT deveria ter feito atividades dos cem anos de Apolônio de Carvalho em todo o Brasil.
[Clara] Apolônio sempre gostou de conversar muito com os jovens. Era uma figura simpática, amoroso com as pessoas, nunca foi pedante. A Renée (de Carvalho, sua mulher), inclusive, está admirada porque, onde quer que ela vá, as pessoas têm demonstrado um carinho enorme por ele.
[Dirceu] Voltando ao Marighella... Ele disse que para ser livre é preciso ter a coragem de dizer. O que falta ser dito hoje no Brasil, Clara? O que Marighella diria hoje?
[Clara] Na época em que ele disse isso os Estados Unidos exerciam um papel dominador sobre o Brasil. Era um tempo de perseguição e repressão. Acho que, hoje, ele se dirigiria fundamentalmente à juventude. O Marighella era uma pessoa muito sensível ao contato com os jovens. Ele fazia versos, desenhava para eles. E há muitas histórias dele com a juventude. Como aquela de como o comunismo chegou na Bahia.
[Dirceu] No Brasil, tem partido e Partido. O PSDB, por exemplo, recontando as suas filiações, apertando, apertando, descobriu que não tem muitos nomes. Os partidos com mais vida como o PC do B, o PT, o PDT, o PSB acordaram, agora, para essa questão da juventude. No caso do PT isso se deu principalmente nos últimos 3, 4 anos.
[Clara] Eu não tenho filhos jovens em casa. O Carlinhos já passou dos sessenta. (risos) Mas eu converso muito com as pessoas para conhecer mais essa juventude. E fico admirada como esses garotos decidem tudo. Um dia, o filho da Isinha (Isa Grinspum Ferraz, cineasta, sobrinha do Marighella) chegou em casa e disse “estou trabalhando no jornal”. Ele leu que estavam procurando gente, foi lá, fez um teste e passou. A decisão nem foi discutida em casa. O rapaz formou uma banda com um grupo de pessoas e toca.
Já o filho do meu sobrinho, Jorge, virou cineasta, dirige filmes e trabalhou no filme Marighella. Foi uma das pessoas que participou da direção do filme. Eles se juntam, arranjam espaço para tocar seus projetos e escolhem suas carreiras. Esses são os filhos de classe média que estudaram. Já, os jovens operários, eu acompanho pelos relatos das meninas que trabalham comigo. Um filho de uma delas trabalha na construção e estuda de noite. O outro, mais jovem, dorme até mais tarde e desperta quando todo mundo vai dormir. Fica vendo TV, faz coisas na internet, e depois volta para a cama.
Os meninos da classe média são livres para sair, dançar até sabe lá que horas. E o jovem mais pobre vai ao boteco, à escola de samba. Estão fazendo coisas lindas nas escolas de samba. O que me preocupa é como a sociedade e a política do PT dirigida à juventude podem dar uma perspectiva de estudo e de trabalho para esse jovem. Como se faz isso?
[Dirceu] Dando oportunidade para imensa maioria por meio do estudo. E ele tem melhorado muito nos últimos anos. Hoje até tem oferta de trabalho. Agora, o impeditivo para o jovem trabalhar é muito mais a falta de qualificação do que a vaga de emprego.
[Clara] Muito do que a juventude quer, ela não tem acesso por falta de recursos.
[Dirceu] O transporte já consome o salário do jovem. Comida, material para estudar, só nesses três itens já vai todo o dinheiro. E a diversão e o lazer não são gratuitos… O Ministério da Cultura deveria ter um orçamento três vezes maior, porque faz parte da política de bem estar social.
[Clara] Eu não parei ainda para pensar quais formas o PT deveria adotar para estimular o trabalho cultural…
[Dirceu] Este é um problema sério. Sedes de partidos deveriam ser sedes culturais e sociais. Foi assim que os centros acadêmicos começaram durante a ditadura. Iniciaram sua ação pela promoção da cultura. Logo o regime proibiu cineclube, feira de livros... Eles perceberam que ali estava o "ovo da serpente". Acho, por exemplo, que PT deveria ter feito atividades dos cem anos de Apolônio de Carvalho em todo o Brasil.
[Clara] Apolônio sempre gostou de conversar muito com os jovens. Era uma figura simpática, amoroso com as pessoas, nunca foi pedante. A Renée (de Carvalho, sua mulher), inclusive, está admirada porque, onde quer que ela vá, as pessoas têm demonstrado um carinho enorme por ele.
[Dirceu] Voltando ao Marighella... Ele disse que para ser livre é preciso ter a coragem de dizer. O que falta ser dito hoje no Brasil, Clara? O que Marighella diria hoje?
[Clara] Na época em que ele disse isso os Estados Unidos exerciam um papel dominador sobre o Brasil. Era um tempo de perseguição e repressão. Acho que, hoje, ele se dirigiria fundamentalmente à juventude. O Marighella era uma pessoa muito sensível ao contato com os jovens. Ele fazia versos, desenhava para eles. E há muitas histórias dele com a juventude. Como aquela de como o comunismo chegou na Bahia.
"O comunismo chegou à Bahia"
[Dirceu] Essa eu não conheço...
[Clara] Na época do Integralismo (1935-37), Marighella e alguns jovens compraram cartolina e desenharam a foice e o martelo. De noite, quando todo mundo dormia, eles subiram nos postes e colaram os cartazes por toda Salvador. No dia seguinte, quando veio a claridade, todo mundo viu os postes com a foice e martelo. E os meios de comunicação deram as manchetes: “o comunismo chegou à Bahia”. Marighella, apenas com cartazes, levou toda Salvador a discutir o comunismo.
[Dirceu] Que maravilha...
[Clara] Ele tinha um dom muito grande. Uma capacidade incrível de criar as coisas e de se comunicar por todos os meios. Até em outras línguas. Certa vez, a direção do partido disse que ele teria de viajar para o exterior. Ele não sabia falar inglês e não poderia dizer para mim onde iria, mas me pediu para treinar o inglês com ele. Ele não poderia falar a esse respeito naquele tempo de clandestinidade. Perguntei quanto tempo ele teria para treinar. Era apenas um mês. A partir daquele momento, só nos falamos em inglês. E ele era um horror… Eu dizia "hat" (chapéu), ele repetia "let" (deixar). Eu dizia "land" (terra) ele repetia "hand" (mão). Suei frio para ele treinar esse ingles.
Quando ele voltou da viagem, eu havia sido presa em Campinas, por causa de uns livros. Finalmente, quando eu fui solta, a gente se encontrou e ele me contou que tinha ido para a China. Quis saber como ele tinha se saído com seu inglês. E ele respondeu: “foi ótimo, os chineses também não acertavam. Eu não sabia dizer hand e eles também não”, disse ele rindo.
[Clara] Na época do Integralismo (1935-37), Marighella e alguns jovens compraram cartolina e desenharam a foice e o martelo. De noite, quando todo mundo dormia, eles subiram nos postes e colaram os cartazes por toda Salvador. No dia seguinte, quando veio a claridade, todo mundo viu os postes com a foice e martelo. E os meios de comunicação deram as manchetes: “o comunismo chegou à Bahia”. Marighella, apenas com cartazes, levou toda Salvador a discutir o comunismo.
[Dirceu] Que maravilha...
[Clara] Ele tinha um dom muito grande. Uma capacidade incrível de criar as coisas e de se comunicar por todos os meios. Até em outras línguas. Certa vez, a direção do partido disse que ele teria de viajar para o exterior. Ele não sabia falar inglês e não poderia dizer para mim onde iria, mas me pediu para treinar o inglês com ele. Ele não poderia falar a esse respeito naquele tempo de clandestinidade. Perguntei quanto tempo ele teria para treinar. Era apenas um mês. A partir daquele momento, só nos falamos em inglês. E ele era um horror… Eu dizia "hat" (chapéu), ele repetia "let" (deixar). Eu dizia "land" (terra) ele repetia "hand" (mão). Suei frio para ele treinar esse ingles.
Quando ele voltou da viagem, eu havia sido presa em Campinas, por causa de uns livros. Finalmente, quando eu fui solta, a gente se encontrou e ele me contou que tinha ido para a China. Quis saber como ele tinha se saído com seu inglês. E ele respondeu: “foi ótimo, os chineses também não acertavam. Eu não sabia dizer hand e eles também não”, disse ele rindo.
[Dirceu] Por fim, nos conte como foi que você despertou para a esquerda sete décadas atrás?
[Clara] Quando eu era adolescente, no Recife, o tio daquele fotógrafo Bob [Roberto] Wolfenson, o Jacó, era um grande revolucionário. E eu ouvi meu pai falando à minha mãe que o Jacó estava preso. Passou um tempo, meu pai contou que ele havia sido solto e que o seu pai, Davi, havia nos chamado para tomar um chá. Então eu perguntei ao Jacó, “vem cá, por que você esteve preso?” Não podia falar a respeito naquela hora [da festa]. Passaram-se alguns dias e ele foi lá em casa me contar que havia sido preso porque era comunista. Eu nem sabia o que era isso. E ele me disse: “Vai chegar o dia em que todos terão aquilo que precisam: roupa, estudo, casa... Terão tudo o que a pessoa necessitar. Ninguém vai ser perseguido, nem vai roubar do outro”.
Ele me explicou que comunismo era uma sociedade onde todos são iguais, mas, como todo mundo não poderia ter a mesma coisa, as pessoas fazem troca. “Por exemplo, você tem um livro e eu não tenho, eu troco com você o livro por outra coisa, uma blusa, uma camisa…” Eu virei comunista naquele dia. Eu não podia falar isso para os meus pais, que eram muito simples, mas me formei assim. E isso marcou a minha vida.
[Clara] Quando eu era adolescente, no Recife, o tio daquele fotógrafo Bob [Roberto] Wolfenson, o Jacó, era um grande revolucionário. E eu ouvi meu pai falando à minha mãe que o Jacó estava preso. Passou um tempo, meu pai contou que ele havia sido solto e que o seu pai, Davi, havia nos chamado para tomar um chá. Então eu perguntei ao Jacó, “vem cá, por que você esteve preso?” Não podia falar a respeito naquela hora [da festa]. Passaram-se alguns dias e ele foi lá em casa me contar que havia sido preso porque era comunista. Eu nem sabia o que era isso. E ele me disse: “Vai chegar o dia em que todos terão aquilo que precisam: roupa, estudo, casa... Terão tudo o que a pessoa necessitar. Ninguém vai ser perseguido, nem vai roubar do outro”.
Ele me explicou que comunismo era uma sociedade onde todos são iguais, mas, como todo mundo não poderia ter a mesma coisa, as pessoas fazem troca. “Por exemplo, você tem um livro e eu não tenho, eu troco com você o livro por outra coisa, uma blusa, uma camisa…” Eu virei comunista naquele dia. Eu não podia falar isso para os meus pais, que eram muito simples, mas me formei assim. E isso marcou a minha vida.
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