quarta-feira, 30 de maio de 2012

Avenida Elis Regina

ANO 117 Nº 111 - PORTO ALEGRE, QUINTA-FEIRA, 19 DE JANEIRO DE 2012

Hoje faz 30 anos da morte da gaúcha Elis Regina. Ela e Gal Costa são as maiores cantoras da era moderna da música brasileira, a era inaugurada pela revolução da Bossa-Nova. Há gaúchos conservadores que não gostam da Elis afirmando que ela cheirava cocaína. Outros, bairristas, queixam-se de que ela não dava bola para o Rio Grande do Sul. Eu trocaria o nome da avenida ditador Castelo Branco para Elis Regina. Acho que ficaria, talvez, melhor do que Avenida da Legalidade. Briga boa. De quebra, trocaria o nome oficial da praça Senador Florêncio, a nossa Praça da Alfândega, para Lupicínio Rodrigues. Sou a favor da troca de nomes sempre que o conhecimento sobre o homenageado desaparecer, salvo em casos em que mais importante seja resgatar o saber sobre o homenageado. O senador Florêncio não vale um Lupicínio.

Eu não engoli a decisão da nossa conservadora Câmara de Vereadores, que confirmou a homenagem ao ditador Castelo Branco. Enquanto a Argentina põe ex-ditadores na cadeia, nós atualizamos honrarias aos nossos, com apoio de partidos como o PMDB, que se vangloria de ter resistido ao arbítrio. O argumento mais pífio que já ouvi foi o de que não se pode apagar a história. Imagino que os defensores desse sofisma tenham sido contra a derrubada de estátuas de Lênin, Saddam, Kadhafi, e contra a eliminação de homenagens a ditadores como Franco, Pinochet, Salazar e outros que marcaram época. Há quem argumente que Castelo não foi tão ditador assim. Ditador é quem derruba um presidente legalmente eleito, sem que isso constitua um direito provado de insurreição, cassa parlamentares, extingue partidos e impõe sua lei com base numa suposta ameaça maior. O crime de João Goulart é conhecido: reformas que contrariavam os donos do Brasil.

Getúlio Vargas também foi ditador. Óbvio. Mas comparar Getúlio com Castelo é como comparar Einstein, acusado de bater na mulher, com Pinochet. Toda ditadura é condenável. O Estado Novo não merece privilégios. Mas Getúlio fez tanto que transcendeu a sua ditadura. Castelo Branco, na história do Brasil, exceto por seu golpe de Estado, não passa de uma nota de rodapé. Getúlio é protagonista. Ninguém o homenageia pela ditadura. Acontece que ele é tão complexo que foi, em todos os sentidos, muito além dela. O caso da avenida ditador Castelo Branco é sintomático: o Brasil não quer ver a sua história recente passada a limpo, ainda que organismos internacionais exijam que nos mexamos. Podíamos começar com a questão do nome da avenida de entrada na capital gaúcha. Não me parece que na entrada de Buenos Aires exista uma avenida Jorge Videla. Ignoro se na entrada de Santiago do Chile há uma avenida Augusto Pinochet. Terá?

Será que se sai de Madri pela avenida Francisco Franco? O debate continua. Tema requentado? Ou polêmica adiada? Os 30 anos da morte de Elis me parecem um bom mote para a retomada da discussão. Elis foi extraordinariamente talentosa. Uma gigante. Os gaúchos precisam eliminar qualquer ressentimento, qualquer bairrismo mesquinho e prestar-lhe grandes homenagens.
http://www.correiodopovo.com.br/Impresso/?Ano=117&Numero=111&Caderno=0&Editoria=120&Noticia=382846

Nenhum comentário:

Postar um comentário