domingo, 2 de novembro de 2014

Paradoxos e contradições do pensamento político brasileiro: o antipetismo

Luiz Etevaldo da Silva – Mestre em Educação.

Dom, 26 de outubro de 2014

O Brasil em nível federal foi governado por chefes de executivos do campo popular/progressista/esquerda por 12 anos. Nesse período inúmeras políticas públicas foram empreendidas, cujos beneficiários eram, sobretudo, as camadas populares (PROUNI, Minha Casa Minha Vida, programas de microcrédito, Bolsa Família), que, por sinal, com o auxílio do Estado tiveram significativas melhorias nas condições de vida.

A partir do exposto acima, perguntas relativas a isso estão nas rodas de conversa: por que o governo do campo popular/progressista/esquerda que tanto ajudou os que mais necessitam do Estado (governo) e este governo esteve sob o comando do PT (Partido dos Trabalhadores) hoje é tanto rejeitado, ou seja, aumenta o sentimento de antipetismo?

Então, reflexões: os partidos do campo popular, progressista ou de esquerda ao ganharem a eleição somente tomam o comando do governo, porém não em sua totalidade, visto que tem coligações com partidos da direita, mas vamos supor que isso aconteceu. Contudo, o poder político continuou com a direita, na medida em que os aparelhos ideológicos do Estado permaneceram com ela. Visto que, as redes de televisão, os jornais, as revistas, as rádios, predominantemente expressam o pensamento político conservador.

E como a mídia tem sido ao longo da história a grande formadora ideológica, assim as opiniões da direita se disseminam pelo tecido social brasileiro. A esquerda tem conseguido, no máximo, o comando do Executivo ou do governo, mas o pensamento dominante continua sendo o de direita.

Pela minha leitura, não existe um simples antipetismo, o que existe é um pensamento político conservador, sendo assim, qualquer partido que represente o campo popular, progressista ou de esquerda tem sido repelido por percentual significativo da população. Isto acontece pela maior parte da classe média, classe alta e, também, por uma parcela da classe baixa manipulada pelos grupos dominantes. 

Sendo assim, o processo de criação de opiniões continua com os grupos dominantes do País. Eles, por meio da mídia, sobretudo, permanentemente manipulam mentes de indigentes políticos (Leonardo Boff) e analfabetos políticos (Bertold Brech), indivíduos que não conseguem compreender os projetos de sociedade, de governo, ou seja, o papel do Estado.

Mas, então, como Lula e Dilma do PT venceram por duas vezes, cada um, o governo Federal? É que isto está em processo de mudança, quando as pessoas percebem que sua vida melhorou com ajuda do Estado/governo, as consciências também vão mudando. As políticas públicas dos últimos 12 anos se constituíram em fator decisivo na compreensão de que nem todos são iguais em termos de política, que há projetos diferentes. É cerca de 52% dos eleitores que, em tese, já entenderam.

Claro, ainda falta muito para se atingir um nível de politização satisfatório, são apenas 52% dos eleitores, tendo a eleição como referência. Grande parcela da população ainda não tem em mente um projeto social de acordo com sua classe social, neste caso o pensamento dominante se encarrega de adestrá-los ao projeto de Estado que interessa às classes sociais privilegiadas, no ponto de vista econômico, social, cultural e político.

Nos processos eletivos isto fica evidente quando se percebe trabalhador assalariado, diaristas, autônomos, aposentado de salário mínimo, ambos com baixa renda, votando e, às vezes, militando em partidos de direita, no total é cerca de 48% dos eleitores do País. Neste conjunto estão indivíduos das camadas privilegiadas e os que são usados pelas elites para se perpetuarem no poder.

No entanto, já avançamos no Brasil, talvez com a elevação da escolaridade, trabalhadores chegando às universidades, o Estado beneficiando as camadas populares, não obstante, ainda estamos longe de ter uma consciência política capaz de promover uma mudança mais ampla a partir do campo popular, progressista e de esquerda, que luta pela justiça e o desenvolvimento social e cultural de todos.

O projeto emancipatório, de uma sociedade mais justa e favorável aos trabalhadores, de gente que sobrevive do labor diário, é muito mais amplo que o projeto de se ganhar uma eleição. É importante, não resta dúvida, ter-se o Estado governado por quem tem compromisso com o campo popular. Mas a luta pelo projeto continua nos movimentos sociais, via educação, nas entidades de classe, sindicatos, a utopia permanece viva.

Em nível federal já se conseguiu criar processos e estruturas capazes de conquistar a maior parte da população e se ter ao lado do campo popular, progressista e de esquerda, apoiando mudanças no modelo de governar. Então, nas unidades da federação (estados) ainda é preciso se esperar mais tempo. Em vários estados, cujo PT e seus aliados fizeram administrações empoderadoras, no entanto a população beneficiada não entendeu que fosse importante continuar, como caso do Estado do RS, por exemplo.

Temos avanços na totalidade das políticas públicas no Brasil, mas ainda se precisa avançar nas partes (estados). As mudanças de fato, no sentido amplo, conforme a visão dialética, devem ser consideradas a partir da perspectiva totalidade-partes, de maneira relacional, trabalhando com as contradições para criar condições para novas relações sociais.

O que está em curso no Brasil é um projeto amplo de sociedade, cujos sinais de mudanças começam a surgir, não obstante, temos que ter em mente que está apenas começando o processo de mudanças. Sendo assim, está posto o desafio, então, de ampliar a luta de ideias e empreender ações empoderadoras.

O novo Brasil está em processo de formação, nele a luta tenaz pela justiça social, solidariedade e disposição de esforços pela humanização das relações sociais. Neste sentido, cria-se, assim, condições para o desenvolvimento social e cultural da população, com um todo.
http://www.ijui.com/blogs/blog-do-luiz-etevaldo-da-silva/68779-paradoxos-e-contradicoes-do-pensamento-politico-brasileiro-o-antipetismo.html

Olívio: “A esquerda precisa compreender seu papel em vez de se estilhaçar a cada eleição”

Ana Ávila* - 8/out/2014, 18h00min

Não é de hoje que Olívio Dutra instiga a criação de um ambiente favorável ao debate aprofundado sobre os papéis do PT e da esquerda. Aos 73 anos, Olívio Dutra, ex-governador, ex-deputado federal constituinte e ex-prefeito concorria a uma vaga no Senado, depois de oito anos fora de disputas eleitorais. Acabou derrotado por Lasier Martins, em uma votação apertada: 37,42% a 35,31%.

Sem mandato para o próximo ano, ele retorna à militância, pela qual tem tanto apreço, disposto a trabalhar pela reeleição de Tarso Genro e Dilma Rousseff. Diz que não pensa em voltar a se candidatar. Prefere pensar sobre troca de experiências e sobre como criar ambientes e situações capazes de melhorar a vida de todos, com ou sem mandato.

“Perdi a eleição, mas ganhei um livro”, brincou, durante entrevista ao Sul21, no apartamento onde mora, na zona norte da capital, exibindo um exemplar de El hombre que amaba a los perros, do escritor cubano Leonardo Padura. A obra de 600 páginas foi a mais recente leitura do ex-candidato e sua companheira, Judite Dutra, durante a campanha eleitoral. Na sala de paredes cobertas por livros, ele falou sobre o papel da esquerda, a interferência da religião na política e os desafios para os próximos capítulos das disputas eleitorais. Lamenta, sobretudo, a impossibilidade de ler tudo o que gostaria e conta um sonho: que os livros estivessem na cesta básica dos brasileiros.

Sul21 – O senhor poderia fazer uma avaliação do resultado da eleição para o Senado?

Olívio Dutra –
A eleição para o Senado está inserida na eleição para o governo Federal e estadual, a reeleição da Dilma, a reeleição do Tarso. A conquista daquela cadeira no Senado era para dar força ao projeto e reforçar o trabalho do (Paulo) Paim, que está lá, mas acrescentar o debate sobre as grandes reformas que o Brasil precisa que aconteçam para ele se tornar uma nação. A reforma política, a reforma agrária, a reforma urbana, a reforma tributária. O quadro politico que temos é um quadro em que há um desgaste do nosso projeto do campo democrático popular, que não se articula nunca o suficiente, que não define seus contornos. Com isso está sempre com a guarda aberta para o avanço da centro-direita.

Eu acho que foi uma disputa que demarcou um campo de ideias. Assumi ser candidato por conta disso. Evidentemente, não ganhamos a cadeira e isso não é pouca coisa. Ela vai ser assumida por alguém que não tem um projeto nacional, tanto que nem candidatura à presidência da República teve, e travestido de trabalhista, que nunca foi, mas está decidido pelo voto da maioria da população. Pelo jeito que se desenvolveu a campanha, o vitorioso vinha de mais de 30 anos de palanque montado pela empresa do monopólio regional da mídia aqui, em que ele falava praticamente sozinho, era um defensor dos interesses privados, particulares, dos seus grandes anunciantes e patrocinadores, e se travestiu de trabalhismo.

Acho que o PDT em crise viu nele a oportunidade de ter alguma expressão e está dado o quadro. Isso não quer dizer que nós tenhamos abrandados as nossas convicções, a defesa de um projeto coletivo, solidário, que está fazendo bem para o Brasil e para o Rio Grande, mas que tem problemas e precisa ser revigorado, aperfeiçoado e eu continuo na luta. Temos um desdobre dessa luta agora no segundo turno, para a presidência da República e para o governo do Estado.

Sul21 – O senhor acredita que se o seu nome tivesse sido definido antes para a disputa, o resultado poderia ter sido ser diferente?

Olívio Dutra –
Não. Eu nunca postulei, não queria ser, nem achava que deveria ser, mas uma vez decidido pelo conjunto de forças que constituíram a Unidade Popular pelo Rio Grande, nas condições em que isso foi colocado para mim, eu não abdiquei e nem entrei forçado como gato em canoa ou como pau de arrasto.

Eu fui com convicção, com coração, com consciência. Faz parte da luta você enfrentar as forças que enfrentamos, não conquistar aquilo que era o objetivo eleitoral, mas afirmar um ideário, articular relações com o que se está fazendo em nível federal e estadual, inclusão social e protagonismo político e com um projeto estratégico para o país. Acho que não é porque entrou depois ou entrou antes ou entrou naquele momento.

Tem um quadro que exige reflexão do campo democrático popular da esquerda brasileira e evidentemente o PT tem que saber trabalhar isso, ter instâncias e espaços próprios para fazer essa discussão, que o revigore, que não o faça um partido de governo, um partido conformado, um partido domesticado, um partido gerente do capitalismo, que não resolve os graves problemas do ser humano.

Sul21 – Sobre essa reflexão sobre o PT que o senhor menciona, como ela deveria acontecer?

Olívio Dutra –
Isso não é novidade. Eu sou crítico de atitudes que o partido já tomou coletivamente e outras que pessoas, grupos, áreas do partido têm tomado e que merecem uma apreciação. Eu não sou o sal da terra, eu também tenho as minhas limitações, certamente um monte de equívocos. Estamos sempre fazendo alianças muito em cima de episódios eleitorais, com um quadro de partidos que estão esgotados ou esgotando-se ou existem por conta de uma oportunidade por interesses pessoais ou grupais. Nós precisamos de uma reforma política verdadeira, essa que a presidente Dilma propôs no ano passado conquistada através de uma assembleia nacional constituinte. Isso é uma luta que tem que ser travada de baixo para cima na sociedade brasileira, no agito, na provocação cidadã, nas grandes mobilizações que envolvam muitos sujeitos sociais coletivos e movimentos das entidades nesse sentido. Acho que temos problemas, não exclusivamente o PT, mas a esquerda. A esquerda deve para o país um projeto estratégico de como transformar o país democraticamente, de resolver os problemas da democracia com mais democracia, radicalizar um processo de mudança na sociedade e no Estado brasileiro com o povo sendo protagonista. Nós não fizemos isso como esquerda, nem sequer definimos quais são os reais contornos de uma esquerda popular, democrática, socialista, humanista. Aí nós vamos para episódios eleitorais disputando entre nós mesmos, às vezes, quem é mais palatável para a direita e para a centro-direita. Isso é um problema não exclusivo do PT, mas o PT tem muito a ver com isso, afinal de contas é o maior partido da esquerda. É evidente que tem partidos à esquerda do PT, mas sem viabilidade de poder. Acho que ter viabilidade política não pode significar um pragmatismo ou um esboroamento de princípios e conteúdos. Como resolver isso é uma questão de um bom e profundo debate e não episódico, ocasional. Nós temos questões sérias, estratégicas para pensar uma ação continuada na execução de um projeto de transformação para o país levado pelas forças do campo popular democrático se alternando na execução desse projeto, mas comprometidas com o programa. Não fizemos ainda isso e não sei se não está passando o tempo por demais para que a esquerda brasileira, na sua pluralidade, compreenda o seu papel e não fique se estilhaçando a cada episódio eleitoral e a centro-direita ganhando, inclusive, culturalmente na sociedade brasileira.

Sul21 – O senhor acredita que a esquerda tenha condições de, a curto ou médio prazo, se articular para desenvolver esse projeto de governo?

Olívio Dutra –
A curto prazo, não tem. Nem estou propondo articulação a curto prazo. São 500 e tantos anos que o Estado é uma cidadela dos grandes interesses, das grandes corporações, das famílias da aristocracia, dos metidos a sabidos, dos entendidos e o povo mais objeto do que sujeito da política. Não é uma coisa para ser resolvida a curto prazo, ou por um partido, ou por uma messiânica figura ou meia dúzia delas. Isso é um processo, demanda tempo, mas precisa ter iniciativas coletivas de desenvolver um processo de debate aprofundado que tenha a ideia de um aprendizado permanente e também da transmissão das experiências que o campo desenvolveu, não só aqui, mas na Latino-América, no mundo.

É como enfrentar novos desafios. A ciência e a tecnologia nos trazem novos desafios. Nós temos que lutar, por exemplo, pela redução da jornada de trabalho sem redução de salário. O que isso significa culturalmente? A ciência e a tecnologia, para que servem? Para aumentar o lucro, a produção em grande quantidade, em menor espaço, para acumular para alguns? Não. A ciência e a tecnologia têm que servir para a humanidade, para a vida ser mais prazerosa, mais prolongada, mas vivida prazerosamente, fruída no cotidiano, na solidariedade, no intercâmbio das coisas culturais, das coisas que não são vendidas na prateleira do mercado, mas são substanciais para o ser humano ser dignificado na sua plenitude. Isso é sonho, é utopia? Bueno, tu abdicou disso por conta de ter que administrar uma máquina do Estado que só administrando não se transforma, não desenvolve.

Isso é uma questão séria. Eu não tenho nenhuma formulazinha mágica e nem digo que isso é uma solução de curto prazo, imediata. Acho que assim como está, no entanto, não pode. Um partido como o PT, que não surgiu de cima para baixo, nem dos gabinetes executivos e legislativos, estar numa conformação, numa acomodação, num grau de pragmatismo como está não é bom, não reacende esperança, não reilumina o caminho da utopia, de um mundo de justiça, igualdade e fraternidade. Um partido como o nosso tem que ser um provocador permanente do protagonismo, da criatividade, da criação, da indignação, da juventude na sua rebeldia, e tendo causas para levar essa rebeldia às consequências, às transformações.

Sul21- Qual será o seu papel no segundo turno?

Olívio Dutra –
O de um militante político que defende uma causa, um projeto que está fazendo bem para o Brasil e para o Rio Grande, pelo menos para a maioria da população. Evidente que estamos contrariando interesses, tinha que contrariar mais interesses dos que estão aí se banqueteando. Nenhum rico neste país deixou de ser mais rico. Ao contrário, acumularam mais riquezas, mais expressão, mais capacidade de influir, de impor políticas, de abocanhar recursos do Estado. Mas nós incluímos mais de 40 milhões de pessoas num padrão de vida digna – isso não é pouca coisa – sem fazer uma revolução social sangrenta. Falamos de políticas públicas no espaço democrático de grande protagonismo, pensando num plano nacional de participação social, com os conselhos, as conferências, o Orçamento Participativo.

Acho que temos uma eleição importante para ser ganha, porque pode possibilitar um avanço maior de conquistas. Ou significar que: “não, agora o que o povo conquistou já é suficiente, o Estado tem que funcionar mais como empresa, com os grandes interesses ainda com mais força do que hoje, na definição de linhas políticas para dentro, para fora, as relações internacionais do país”.

Então, está em jogo uma visão de projetos que têm conteúdos bem diferenciados. O projeto de Lula, da Dilma já deixou marcas significativas de transformação da realidade do Brasil para melhor. O país saiu do mapa da fome da ONU porque garantiu no mínimo três refeições diárias para milhões de pessoas que não tinham esse direito há séculos. E temos acesso a emprego formal, geração de empregos numa época de crise mundial, a menor taxa de desemprego, distribuição de renda e redução das desigualdades. O Brasil nunca esteve em condições tão favoráveis, sendo respeitado internacionalmente, não por um rompante dos governantes, mas porque o povo brasileiro ascendeu como sujeito social. O projeto vem sendo vitorioso, pode fazer mais, corrigir-se inclusive, qualificar-se, ser radicalmente democrático, mais do que tem sido. Temos problemas de corrupção não só no PT, mas a corrupção espraiada, enraizada na sociedade, no empresariado, na comunicação, na estrutura de diferentes ramos. É um processo que está no DNA (dizem), coisa nenhuma. Tem que ter instrumentos sociais, públicos para garantir transparência, eficiência do funcionamento da máquina.

Sul21- Instrumentos para conter a corrupção?

Olívio Dutra –
O estado democrático de direito está em pleno funcionamento para julgar, prender. Acho que tem que ir mais longe. A corrupção tem que ser atacada embaixo. Por isso, o Orçamento Participativo, além de garantir o conhecimento do funcionamento da máquina pública, também coloca o cidadão lá na origem do levantamento das receitas e da aplicação dos recursos. Que interesses se atendem com a política de investimentos, por que a estrutura tributária está montada assim, por que tem uma enorme renúncia tributária? Os favores tributários, a progressividade de tributos sobre as grandes fortunas e heranças, o capital especulativo – isso tem que ser discutido no OP, não só a aplicação dos recursos que sobram. Já se estaria eliminando o fio da corrupção.

Estou lendo um livro do senador Daniel Krieger, político da minha região das Missões, presidente da Arena, foi conspirador no golpe, depois líder de Castelo Branco. Ele conta sobre um episódio de1966, em que se prometia eleição, mas se atravessou Costa e Silva para ser o sucessor. Castelo, para garantir a sucessão tranquila, precisava cassar três senadores. Estava fazendo uma seleção e consultou Daniel Krieger. Citou José Ermírio de Moraes, apanhado com um saco de dinheiro comprando votos. “Presidente, o senhor tem que levar em conta que é um grande empresário e ele tem facilitado coisas no Congresso. E, depois, esse negócio de corrupção vem de muito tempo…” E ele não foi cassado. Daniel Krieger, representante da moralidade, da revolução, conta isso com a maior naturalidade.

Esse troço de corrupção… Figuras do PT jamais deviam ter cometido o que cometeram. Gente dentro e fora do governo, historicamente. É um tema tomado como principalidade, para desviar a atenção de um projeto efetivo para o país, que mexa com nas estruturas econômicas, que coloque o Estado sob o controle público efetivo. A corrupção é uma luta de bugio (quando lançam excrementos uns nos outros). Esta não resolve o problema sério das raízes da corrupção, as quais estão lá embaixo, além da falta de cidadania lá na origem. Como é o sujeito não ter que pagar imposto, ter privilégio? A fonte não é o deputado ou senador, que fazem parte, mas a corrupção que está dentro das empresas, no jogo de interesses dos caciques políticos. Então, acabar com a corrupção é ampliar o controle público sobre o Estado. Aí é uma luta política. Dilma propôs o sistema nacional de participação social. O projeto adversário impediu, quer uma democracia sem povo. Acham que o povo está se metendo demais, acham que estamos entregando o Estado para essa turma…. Como aquele deputado, que falou dos índios, quilombolas, homossexuais, “tudo o que não presta”. Esta elite que não tem nada a nos ensinar. É uma luta que vale a pena porque não é pequena.

Sul21- A que atribui esta onda de conservadorismo observando-se os novos eleitos?

Olívio Dutra –
Não é caso isolado. Internacionalmente se vê este ressurgimento do pensamento de direita, especialmente na Europa. Falso moralismo, frieza na concepção materialista da vida no sentido pior, consumismo, comunicação instantânea, em que se diz o que bem entende sem se responsabilizar. Aliás, Dilma estabeleceu medidas de controle na internet para todos. Sobre o Conselho Nacional de Comunicação, os grandes grupos empresariais de comunicação se levantam, alegando que é uma tentativa de controle e censura. Aquele parlamentar que falou “tudo de ruim aqui no Rio Grande” teve uma das maiores votações para a bancada de centro-direita. Isso ocorreu em outras regiões, com a eleição de representantes do pensamento homofóbico, repressivo, que prega a redução da maioridade penal. Reconheço que temos problemas de segurança, acho que a polícia tem que ter qualificação permanente. Sou favorável à desmilitarização da polícia. Os problemas da democracia têm que ser resolvidos com mais democracia, não é estreitando espaços. Há um ressurgimento dessa coisa messiânica, uma coisa religiosa estreita. Temos que garantir a pluralidade. Mas a visão conservadora das bancadas religiosas, fazer da religião um comércio religioso, vira tudo uma picaretagem.

Além do pensamento reacionário, não só aqui como na Europa, há uma crise de valores. Existem interesses concretos em vários setores, não só da indústria armamentista, mas de medicamentos, laboratórios estão fazendo experiências com ser humano.

É preciso elaborar uma síntese nova. Eu gostaria que fossem as dores do parto, significa que está nascendo uma coisa nova e boa. Não tenho certeza com essas contorções, com guerras localizadas religiosas, miséria, fome, homofobia, erupções de violência. Pensamos no famoso e sonhado ser humano novo.

Sul21 – Critica essas alianças com representantes religiosos?

Olívio Dutra –
A democracia precisa de partidos; partido quer púlpito? A pregação religiosa não cabe em um estado democrático laico. Os partidos, em geral, no Brasil, estão desgastados por conta das articulações que fazem sem compromissos estratégicos – são compromissos imediatistas e passageiros. Ou porque assim como está, está interessando a grupos bem localizados para fazer mais dinheiro.

Sul21 – O senhor acha que a posição vai bater na tecla do antipetismo no segundo turno?

Olívio Dutra –
É, e isso vem de longe em outras regiões do mundo. Tem a demonização da política e a tentativa de colocar na testa de alguém a minimalização, que identifica: isto aqui é o culpado, é o grupo dele, ou o pai dele, ou o avô dele. Essa lógica é uma lógica do absurdo, do autoritarismo, da verdade única, do retrocesso. Pensamos nas universidades: qual o papel delas neste mundo globalizado da comunicação ampla e imediata? Qual o papel das instituições mais duradouras? Estamos repensando isto? Acredito que tem fontes de geração de conhecimento e de reflexão que não são de internet, tão massificadora. Acredito num pensamento que, longe de ser conservador, reflete sobre heranças e possibilidades ainda mais novas, de criar relações humanas mais ricas.

Sul21 – A votação do candidato José Ivo Sartori lhe surpreendeu?

Olívio Dutra –
Não, nada me surpreende nesse jogo, na forma como se dão as eleições, as meias verdades, as aparências, a superficialidade, onde a verdade nunca aflora, a capacidade de dizer a verdade pela metade e que dá uma vantagem a mais ou a menos sobre o adversário. Não trouxe nenhuma novidade, um pensamento novo: “que bom, a gente ser desafiado, que nos instiga a ver o que estamos fazendo, para fazer mais e melhor”. Não tem novidade nisso. Se não provoca uma meditação, apenas cria o ambiente do jogo da esperteza, do faz de conta. Midiaticamente tem vantagem. Não me espanta.

Sul21 – No primeiro turno, o candidato do PMDB usou a questão do não partidarismo, do “meu partido é o Rio Grande”.

Olívio Dutra –
Isso é uma bobagem, dizer que os outros partidos são estreitos e ele faz parte de uma visão aberta… Ele é um partido como qualquer outro, o PMDB, cheio de interesses pessoais, grupais. Então, é desconversar, é uma esperteza, uma simbologia que não diz bem a realidade. “O Rio Grande para mim não é um partido, é uma paixão”. Acho uma pobreza essa figura por parte de seus autores e usuários. É o mesmo que dizer que “Deus é fiel”, estão reduzindo Deus a um torcedor do Corinthians. É um reducionismo. A mesma coisa com “meu partido é o Rio Grande”. A gente é candidato de um partido, são facetas, estilhaços que se articulam. É uma pobreza, mas uma esperteza. Nem literariamente é algo que pode merecer atenção.

Sul21 – Antes dessa, o senhor disputou a última eleição em 2006?

Olívio Dutra –
Nem me lembro. Nunca participei de eleição por desejar, mas precisava ser candidato por defender o projeto coletivo de muita gente. Acho que o partido tem que ter mais capacidade, ser mais instigador. Podia contribuir bem mais no contexto com os demais partidos, para demarcar um programa transformador. O PT se transformou, reduzindo a sua potencialidade inicial. Mas não perdeu o seu cerne. É um projeto que não se esgotou, está passando por uma crise que merece atenção de todos os seus militantes e do pensamento progressista. Não pode ser um partido que vá se adaptando tão fácil à engrenagem. Não sendo o partido da transformação, mas da acomodação. Evidente que tem que ter capacidade de governar, de administrar, não ser elefante numa loja de louças, mas ser elemento fermentador da mudança permanente, ser uma escola de formação política. Os movimentos sociais já tomaram iniciativas muito importantes na história do Brasil. Política como construção do bem comum. Tenho afinidade com essa ideia. Mas não prego solução mágica. Muitas verdades precisam ser ditas cruzarem-se entre si para formar uma verdade síntese.

Sul21 – Se o partido precisar, o senhor concorreria de novo?

Olívio Dutra –
Não cogito. Não sou candidato, nunca fui, não quero ser.

Sul21 – E agora, qual o projeto?

Olívio Dutra –
Acho verdadeira a frase clássica do latim cogito ergo sum (penso, logo existo). Não penso ser candidato a isto ou aquilo, mas penso na questão política, na cidadania, na comunidade, no país que temos. Pretendo organizar as leituras, tenho déficit de leitura histórico. Se eu puder, fico um ano só lendo. Percebi que o pessoal preso na repressão não perdeu tempo, fez leitura. Eles leram. Acho que fez um bem enorme para a maioria deles, o livro deveria estar na cesta básica do brasileiro.
*Colaborou Lorena Paim
http://www.sul21.com.br/jornal/olivio-esquerda-precisa-compreender-seu-papel-em-vez-de-se-estilhacar-a-cada-eleicao/

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Congresso eleito é o mais conservador desde 1964, afirma Diap

06/10/2014 23:01 - Atualizado em 06/10/2014 23:12

Segundo organização, resultado das urnas foi contrário as reinvindicações populares de junho do ano passado.

Apesar das manifestações de junho de 2013 - carregadas com o simbolismo de um movimento popular por renovação política e avanço nos direitos sociais - o resultado das urnas revelou uma guinada em outra direção. Parlamentares conservadores se consolidaram como maioria na eleição da Câmara, de acordo com levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap).

O aumento de militares, religiosos, ruralistas e outros segmentos mais identificados com o conservadorismo refletem, segundo o diretor do Diap, Antônio Augusto Queiroz, esse novo status. "O novo Congresso é, seguramente, o mais conservador do período pós-1964", afirma. "As pessoas não sabem o que fazem as instituições e se você não tem esse domínio, é trágico", avalia.

Ele acredita que a tensão criada pelo debate de pautas como a legalização do casamento gay e a descriminalização do aborto deve se acirrar no Congresso, agora com menos influência de mediadores tradicionais, que não conseguiram de reeleger. 

"No caso da Câmara, muitos dos parlamentares que cuidavam da articulação (para evitar tensões) não estarão na próxima legislatura. Algo como 40% da 'elite' do Congresso não estará na próxima legislatura, seja porque não conseguiu se reeleger ou disputou outros cargos. Houve uma guinada muito grande na direção do conservadorismo", diz.

O levantamento do Diap mostra que o número de deputados ligados a causas sociais caiu, drasticamente, embora os números totais ainda estejam sendo calculados. A proporção da frente sindical também foi reduzida quase à metade: de 83 para 46 parlamentares.

Junto com a redução desses grupos, o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a descriminalização das drogas - temas que permearam os debates no primeiro turno da disputa presidencial - têm poucas chances de serem abordados pelo Congresso eleito, que tomará posse em fevereiro de 2015. 

"Posso afirmar com segurança que houve retrocesso em relação a essas pautas. Se no atual Congresso houve dificuldade para que elas prosperassem, no próximo isso será muito mais ampliado. Houve uma redução de quem defendia essa pauta no Parlamento e praticamente dobrou (o número de) quem é contra", diz.

Parte consistente do conservadorismo, segundo Queiroz, virá da bancada evangélica. Ele estima que o número de religiosos desta corrente deve crescer em relação aos 70 deputados eleitos em 2010. "A bancada evangélica vai ficar um pouquinho maior, mas com uma diferença: nomes de maior peso dentro das igrejas para melhor coordenar e articular os interesses desse segmento junto ao Congresso Nacional", diz. Entre essas lideranças, o Diap já identificou 40 bispos e pastores.

Militares

O Diap também estima um aumento consistente de policiais e militares eleitos. Queiroz prevê que o aumento de parlamentares com este perfil deve chegar a 30%. "Esse grupo, necessariamente, vai fazer parte da 'bancada da bala', porque defende a defesa individual", diz, referindo-se ao lobby da indústria armamentista. 

A ampliação desse grupo é uma onda que veio na contramão das manifestações populares de 2013. "Isso é produto da alienação. Quem foi para rua, em grande medida, foi pedindo mudanças. Mas sem ter uma liderança capaz direcionar e coordenar (o movimento)”.

Era 'contra tudo o que está aí', observa. Queiroz considera que, caso o candidato do PSDB, Aécio Neves, seja eleito, temas como a redução da maioridade penal, considerada uma proposta conservadora, avancem facilmente no Congresso. "O PSDB perdeu em quantidade (reduziu de 12 para dez o número de senadores), mas é uma bancada que se renova do ponto de vista qualitativo. Só que com viés conservador", diz.
http://www2.correiodopovo.com.br/Noticias/?Noticia=537613

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

COIMBRA: MÍDIA EXERCE PAPEL DE “OPOSIÇÃO DE FATO”

Segundo o presidente do Instituto Vox Populi, colunista Marcos Coimbra, como resultado da atuação da vanguarda midiática oposicionista, estamos há três anos imersos na eleição de 2014: “A derrota de Dilma é buscada de todas as formas”; segundo ele, a influência dessas empresas ultrapassa o noticiário: “elas contratam as pesquisas eleitorais que desejam e as divulgam quando e como querem.”


19 DE AGOSTO DE 2014 ÀS 09:12

247 – Para o colunista Marcos Coimbra, presidente do Instituto Vox Populi, estamos há três anos imersos na eleição de 2014 sob o comando de uma imprensa oposicionista que busca a derrota de Dilma Rousseff de todas as formas.

Segundo ele, a influência dessas empresas ultrapassa o noticiário: “elas contratam as pesquisas eleitorais que desejam e as divulgam quando e como querem”. Leia:


Na próxima terça 19, com o início da propaganda eleitoral na televisão e no rádio, entraremos na etapa final da mais longa eleição de nossa história. Começou em 2011 e nossa vida política gira em torno dela desde então.

A batalha da sucessão de Dilma Rousseff foi iniciada quando cessou o curto período de lua de mel com as oposições, no primeiro ano de governo. Talvez em razão do vexame protagonizado por José Serra na campanha, o antipetismo andava em baixa.

Durou pouco. Na entrada de 2012, o clima político deteriorou-se. As oposições perceberam que, se não fizessem nada, marchariam para nova derrota na eleição deste ano. Ao analisar as pesquisas de avaliação do governo e notar que Dilma batia recordes de popularidade a cada mês, notaram ser elevadas as possibilidades de o PT chegar aos 16 anos no poder. E particularmente odiosa.

Serem derrotadas outra vez por Dilma doía mais do que perder para Lula.

Ela era “apenas” uma gestora petista, sem a aura mitológica do ex-presidente. Sua primeira eleição podia ser creditada, quase integralmente, à força do mito. Mas a segunda, se viesse, seria a vitória de uma candidatura “normal”. Quantas outras poderiam se seguir?

A perspectiva era inaceitável para os adversários do PT. Na sociedade, no sistema político e no empresariado, seus expoentes arregaçaram as mangas para evitá-la. A ponta de lança da reação foi a mídia hegemônica, em especial a Rede Globo.

Recordar é viver. Muitos se esqueceram, outros nem souberam, mas a realidade é que a “grande imprensa” formulou com clareza um projeto de intervenção na vida política nacional.

Não é teoria conspiratória. Quem disse que os “meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste País, já que a oposição está profundamente fragilizada”, foi a Associação Nacional de Jornais, por meio de sua presidenta, uma das principais executivas do Grupo Folha. Enunciada em 2010, a frase nunca foi tão verdadeira quanto de 2012 para cá.

Como resultado da atuação da vanguarda midiática oposicionista, estamos há três anos imersos na eleição de 2014. A derrota de Dilma é buscada de todas as formas. O “mensalão”? Joaquim Barbosa? A “festa cívica” do “povo nas ruas”? O “vexame” da Copa do Mundo? A “compra da refinaria”? O “fim do Plano Real”? A “volta da inflação”? O “apagão” na energia? A “crise na economia”? A “desindustrialização”? O “desemprego”?

Nada disso nunca teve verdadeira importância. Tudo foi e continua a ser parte do esforço para diminuir a chance de reeleição da presidenta.

Ou alguém acha que os analistas e comentaristas dessa mídia acreditam, de fato, na cantilena que apregoam quando se vestem de verde-amarelo e se dizem preocupados com a moral pública, os empregos dos trabalhadores ou a renda dos pobres? Ou que queiram fazer “bom jornalismo”?

Temos agora uma ferramenta para elucidar o papel da mídia na eleição. Por iniciativa do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, está no ar o manchetômetro (http://www.manchetometro.com.br), um site que acompanha a cobertura diária da eleição na “grande imprensa”: os jornais Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo, além do Jornal Nacional da Globo (como se percebe, os organizadores do projeto julgaram desnecessário analisar o “jornalismo” do Grupo Abril).

Lá, vê-se que os três principais candidatos a presidente foram objeto, nesses veículos, de 275 reportagens de capa desde o início de 2014. Aécio Neves, de 38, com 19 favoráveis e 19 desfavoráveis. Tamanha neutralidade equidistante cessa com Dilma: ela foi tratada em 210 textos de capa. Do total, 15 são favoráveis e 195 desfavoráveis. Em outras palavras: 93% de abordagens negativas.

É assim que a população brasileira tem sido servida de informações desde quando começou o ano eleitoral. É isso que faz a mídia para exercer o papel autoassumido de ser a “oposição de fato”.

O pior é que a influência dessas empresas ultrapassa o noticiário. Elas contratam as pesquisas eleitorais que desejam e as divulgam quando e como querem. E organizam os debates entre candidatos.

Está mais que na hora de discutir a interferência dessa mídia no processo eleitoral e, por extensão, na democracia brasileira.

http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/150561/Coimbra-m%C3%ADdia-exerce-papel-de-%E2%80%9Coposi%C3%A7%C3%A3o-de-fato%E2%80%9D.htm

SADER: RESTA À DIREITA DA AL SE REFUGIAR NA MÍDIA

Segundo sociólogo Emir Sader, na falta de projetos, direita latino-americana se refugia em setores da mídia para formar cadeias que resistem a transformações democráticas;


18 DE AGOSTO DE 2014 ÀS 07:09

Emir Sader, publicado na Rede Brasil Atual

A direita latino-americana já teve várias fisionomias: economias primário-exportadoras e regimes políticos oligárquicos, ditaduras e governos neoliberais. Nenhuma parece suficientemente atraente para fazê-la voltar ao governo onde deixou de sê-lo. O modelo primário exportador sofreu golpe mortal com a crise de 1929. As ditaduras serviram para brecar avanços políticos das esquerdas surgidas ou fortalecidas na reação àquela crise.

O projeto neoliberal parecia ser a boia de salvação das forças mais retrógradas das sociedades latino-americanas, permitindo que a direita trocasse de roupa, aparecendo como força “modernizadora”. Contra um Estado qualificado como parasitário, pela livre circulação dos capitais que supostamente permitiria reativar economias e promover o mercado e o grande empresariado como os agentes mais dinâmicos da sociedade, surgia uma “nova direita”.

Essa fisionomia foi ajudada pela adesão de forças antes próximas ao campo popular. Partidos de origem nacionalista como o PRI mexicano e o peronismo, social-democratas como a Ação Democrática da Venezuela, o Partido Socialista do Chile, o PSDB no Brasil, entre outros, seguiram a trilha dos partidos socialista da França e da Espanha, pioneiros a “aderir”. O historiador Perry Anderson constatou em seu texto Balanço do Neoliberalismo que não tinha havido um modelo tão abrangente como o neoliberal. Se ainda no começo dos anos 1970 um conservador como Richard Nixon tinha afirmado “somos todos keynesianos” – confessando a hegemonia do modelo conhecido pelo Estado indutor do desenvolvimento e do bem-estar social –, não muito tempo depois até a social-democracia internacional dizia o oposto: “Somos todos neoliberais”.

A esquerda histórica era desqualificada como superada, marginalizada dos grandes movimentos da globalização. Políticos oligárquicos eram reciclados para o liberalismo de mercado. Projetava-se o século¬ 21 como o século da nova direita.

O modelo, pujante no seu início, revelou no entanto seus limites. As crises financeiras se multiplicaram – do México à Coreia do Sul, do Brasil à Rússia, da Argentina à Grécia.Depois de ter sido o continente que teve mais governos neoliberais e nas suas modalidades mais radicais – com os de Pinochet no Chile (1973-1990) e Menem na Argentina (1990-2000) –, a América Latina viu florescer governos antineoliberais. Esses governos ocuparam lugares amplos no campo político, deslocando a direita tradicional, agora associada à nova direita. Diante do pacto político na região de não aceitar governos que se estabelecessem pela força, como tentou-se, sem sucesso, na Venezuela, esse segmento teve de buscar outras vias e espaços.

Novos governos – Venezuela, Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia, Equador – se consolidaram por atuar nos pontos mais frágeis do neoliberalismo: promovendo a centralidade das políticas sociais no lugar da dos ajustes fiscais. Recuperando o papel do Estado como indutor de crescimento e de direitos sociais, no lugar da centralidade do mercado. Priorizando diálogo regional em vez de tratados com os Estados Unidos.

A direita teve de se refugiar onde mantém espaços de poder privilegiados – os meios de comunicação. Em situação monopolista, pelo poder do dinheiro e pela articulação com lobbies internacionais, se criam cadeias de formação antidemocrática da opinião pública, com poder de pressão sobre governos. A direita consegue desgastá-los, mas não vencê-los eleitoralmente, pois faltam-lhe plataforma, capacidade de projetar líderes e de conquistar bases de apoio além de decadentes setores das classes médias.

Resta à direita latino-americana promover formas de desestabilização, combinando campanhas terroristas na mídia, mobilizações de setores que resistem às transformações democráticas e apoio internacional, buscar brecar os impulsos desses governos e, eventualmente, ganhar eleições. Essas formas de ação, já derrotadas em várias ocasiões na Bolívia, Equador e Brasil, se concentram agora especialmente na Venezuela e na Argentina. Aí jogam todas suas cartas.

Vítimas da mídia

Não se dizia mídia, mas imprensa. A televisão estava engatinhando. Os jornais impressos formavam a opinião dos que sabiam ler e escrever. O rádio atingia e tentava manipular os milhões de analfabetos. Esse era o Brasil de 1954. Nessa época, a mídia, sob a batuta de Carlos Lacerda, criou uma campanha original: “Nunca houve tanta corrupção neste país”. E perseguiu Getúlio Vargas sem parar. Só não contava com o elevado código de honra do gaúcho, que se matou para não ser humilhado. Carlos Lacerda e a imprensa mataram Getúlio. Sim, Vargas foi assassinado. Lacerda implantou no Brasil, antes de Joaquim Barbosa, uma espécie de teoria do domínio do fato. Getúlio teria de saber de tudo, até do que não autorizaria, como o amador atentado da rua Tonelero, que feriu no pé seu principal inimigo.

Perguntam-me se o filme de João Jardim sobre Getúlio é bom. Apesar de o diretor ter copiado a estrutura narrativa de meu livro, sem me citar, digo que o filme é bastante bom. Ressalve-se a falta de sotaque gaúcho de Tony Ramos, ou certo sotaque carioca em alguns momentos. O filme toca no essencial: Getúlio foi massacrado pela imprensa golpista. Em 1964, Jango foi a segunda vítima. Lá estavam novamente a mídia, Carlos Lacerda, o conservadorismo, a UDN e o golpismo contra reformadores sociais. Lacerda e a mídia “suicidaram” Getúlio, derrubaram Jango e o levaram a morrer no exílio. Se é que ele não foi mesmo assassinado. Certa vontade de liquidar presidentes com infâmias ainda não acabou. Agora, viceja também na Internet.

Assume formas extraordinárias: a falsa capa da Forbes dando Lula entre os maiores milionários brasileiros. O filho de Lula como sócio da Friboi. Em 1964, para desqualificar um presidente, a mídia o chamava de bêbado, analfabeto e, como Jango tinha todos os dedos das mãos, manco. Era preciso também um defeito físico. Jango tinha um problema na perna esquerda. A retórica não mudou. A mídia sempre adorou praticar bullying. O público-alvo desse tipo de estratégia discursiva era a classe média urbana. Contra o suposto populismo trabalhista, jogava-se a carta do classemedismo udenista. Ficava assim: a direita era honesta; a esquerda, corrupta. Estaria no DNA.

Por que a mídia brasileira sempre foi tão conservadora? Por que é tão conservadora? Porque representa a sua classe. Em geral, nasce, cresce e vive à sombra do poder, fazendo os poderosos e recebendo deles as recompensas. Getúlio e Jango tentaram tocar outra música. No futebol, Dunga tentou limitar os poderes da Rede Globo. Ficou marcado. Para sobreviver, teria de ganhar. Felipão é mais sinuoso. Tem um título mundial no currículo e bajula a Rede Globo. Não será golpeado. Salvo se perder. Jango e Getúlio foram golpeados porque estavam ganhando. Só que pretendiam distribuir o prêmio aos que normalmente não participavam do rateio das conquistas conjuntas.

Os militares, apoiados pela mídia, restabeleceram a “ordem natural” das coisas. Apertaram o cinto da plebe. Propiciaram um rápido milagre econômico para a fiel classe média. Deram aos ricos o que eles julgavam ser deles: todo o poder. A mídia aplaudiu. Uau!

Juremir Machado da Silva, Correio do Povo, 09/06/14.

“Não sei por que se fala do fracasso do socialismo na Europa e não se fala do fracasso do capitalismo no ocidente”, diz Frei Betto em evento na Ufrgs

Data: 25/abr/2014, 13h57min

Frei Betto participou da palestra “O modelo desenvolvimentista brasileiro e seus impactos socioambientais”

Fernanda Morena

O escritor e religioso dominicano Frei Betto esteve em Porto Alegre na noite desta quinta-feira (24) para participar de um evento promovido pelo Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente (MoGDeMa), na palestra intitulada “O modelo desenvolvimentista brasileiro e seus impactos socioambientais”. Em sua fala, o Frei Betto comentou temas ambientais e políticos, fazendo referências não apenas ao Brasil: “Não sei por que se fala do fracasso do socialismo na Europa e não se fala do fracasso do capitalismo no ocidente”.

O escritor foi preso e torturado pela ditadura militar em 1964 e no período entre 1969 e 1973. Publicou mais de 50 livros que exploram a ficção infanto-juvenil, as memórias e ensaios, habitualmente comentando temáticas ambientais, sociais e cristãs.

O Frei Betto iniciou sua fala lendo um trecho de seu livro A arte de semear estrelas, publicado em em 2007. O excerto falava da subjetividade humana e dos encontros e desencontros do homem dentro do seu inconsciente, de sua “ecologia interior”, como disse.

Mudança capitalista

Conforme o escritor, a sociedade atual passa pela maior mudança dos últimos 500 anos. Naquela altura, o mundo passou da época medieval para a modernidade, tempo cujo paradigma central resistia na fé.

Hoje, o mundo passa para a pós-modernidade, um momento confuso que tem um paradigma positivo: a solidariedade. “Os valores modernos entraram em dissociação. Há uma luta do familiar com o consumo gerado pelo capitalismo”, explica. “Esse sistema forma consumidores, não cidadãos.”

Para Frei Betto, o mal de que padece o mundo é o mal da lógica capitalista e do acúmulo de lucro que, obrigatoriamente, gera avanços científico-tecnológicos, mas não dá alento. “A modernidade nos colocou acima da natureza”, afirma. O escritor pondera que a intenção de lucro e o consumo afastou a sociedade até mesmo de suas necessidades mais básicas, como a água. “Hoje ninguém mais quer tomar água da torneira, e vai ao mercado e compra a mesma água com um rótulo. Tem que comprar, consumir, nem pensa que há a água da chuva.”

Com isso, o pensador questiona os avanços concretizados pela ciência, mas que ficam apenas ao alcance daqueles que podem pagar por ele. “O capital é a coisa mais importante. Houve avanço científico, mas quem tem acesso a isso?”, indagou à plateia que lotava o teatro.

O mal estar da pós-modernidade

Se o modelo desenvolvimentista ocidental é focado no acúmulo de capital, ele também oprime o homem, como avalia Frei Betto: “Hoje eu uso a marca da roupa para fora para os outros saberem que eu tenho valor”.

Frei Betto dá como exemplo um menino que sai às ruas para assaltar como um resultado de sua “domesticação pela publicidade do consumo”. “Vivemos num tempo de auto-estima muito baixa, de um sistema de consumidores não-cidadãos, hegemonizado pelo capitalismo e pela ‘globocolonização’”.

Ambientalismo

Vencedor de um prêmio Jabuti, a maior láurea literária do país, Frei Betto diz que tem uma enorme preocupação com a etimologia das palavras. Economia, ele diz, é uma palavra perfeita: eco é casa, e nomia, em grego, significa administração. Ecologia “é uma palavra que nunca vai sair da moda, mas não é bem adequada ao seu propósito: logia é o conhecimento. “Não basta conhecer a casa, é preciso cuidar da casa. Não vai pegar, mas o termo correto deveria ser ‘ecobionomia’: administração da vida na casa”.

Frei Betto aponta a falta de engajamento social e político como um dos obstáculos para o desenvolvimento da ecologia no Brasil e no mundo. Para ele, muitas pessoas falam de ambientalismo, mas não aderem ao movimento, não praticam. “Estamos vivendo um momento de grande contradição, agravado pelo aceleramento da degradação ambiental.”

A falha em políticas públicas também se coloca como um desafio para a sobrevivência humana num planeta que se esvai de recursos naturais. O ambientalista questiona a inexistência de um plano diretor da administração pública que possa, por exemplo, instituir o recolhimento da água da chuva para tarefas domésticas.

Palestra

O tema era desenvolvimento e ecologia, mas a noite foi um grande debate histórico de como a sociedade chegou onde chegou. Além da exposição de Frei Betto, o MoGDeMA aproveitou para prestar uma homenagem surpresa a Antônio Sequim, um dos primeiros ambientalistas gaúchos.

Sequim foi colega de prisão de Frei Betto na ditadura, mas ficou mais conhecido pela sua atuação junto aos catadores de lixo: “Eles são os médicos sanitaristas do planeta”, disse em seu discurso de agradecimento.

Ano Novo e bons propósitos

Por Frei Betto - 02/01/2014

A passagem do ano costuma significar, para muitos de nós, época de bons propósitos. Damos um balanço no ano que findou e, frente ao que se inicia, prometemos a nós mesmos ao menos não repetir os erros cometidos.

Tais propósitos variam muito. Para uns, ficar menos dependentes do celular e da internet e dar um pouco mais de atenção aos familiares. Para outros, evitar a obesidade e o risco de diabetes, fazer exercícios físicos e reduzir a comilança engordativa.

O fato é que cada um de nós sabe exatamente onde dói o calo. Resta ter força de vontade para pisar mais leve no chão da vida e evitar tropeços.

Mudar de ano e mudar de vida é o que muitos de nós gostariam. O que favorece a distância, por vezes enorme, entre os nossos propósitos e a nossa prática? Por que nem sempre somos coerentes com os ideais que abraçamos?

Aprendi com os mestres da mística que, ao fazer propósitos, temos que primeiro nos perguntar: procedo para agradar a mim mesmo ou preferencialmente aos olhos alheios?

Muitas vezes somos movidos a agir contrariando nossa própria vontade, por colocarmos a nossa autoestima na opinião alheia e não na felicidade do nosso coração. É como a mulher que usa salto agulha, embora suportando a dor nos pés e o desconforto da coluna, além do risco de um tombo. Porém, assim ela se considera mais elegante e sedutora aos olhos alheios.

“Onde está o teu tesouro, aí está o teu coração”, disse Jesus (Mateus 6, 21). Se o nosso coração se deixa imantar pela vaidade, pela ambição, pela inveja, é natural que adotemos procedimentos pautados por essa escala de “valores”.

Em uma sociedade tão consumista e competitiva como a nossa, não é fácil sentir-se bem consigo mesmo. A cultura neoliberal impregna o nosso inconsciente de motivações que reduzem o valor que damos a nós mesmos. 

O tempo todo somos bombardeados pela publicidade que alardeia não ser feliz quem não possui tal carro, não mora em tal bairro, não veste tal grife, não faz tal viagem...
Vejam como nas peças publicitárias todos são felizes e saudáveis! Vejam como os ricos e famosos, que têm acesso a todos esses produtos de luxo, são esbeltos e alegres! Como canta Chico Buarque em “Ciranda da bailarina”: Procurando bem ¤ Todo mundo tem pereba  ¤ Marca de bexiga ou vacina ¤ E tem piriri, tem lombriga, tem ameba ¤ Só a bailarina que não tem.

Assim, dançamos conforme a música do consumismo, na esperança de que aquilo que é tido como valor – o carro de luxo, por exemplo – impregne de valor também quem o possui. Sem a posse de produtos de grife e que, supostamente, elevam o nosso status, nos sentimos des-valorizados.

Afinal, vivemos em uma sociedade capitalista na qual ninguém tem valor pelo simples fato de ser uma pessoa.  Vejam os mendigos e moradores de rua. Quem lhes dá valor?

Para a idolatria do mercado o que possui valor é o produto – o fetiche denunciado por Marx. A pessoa só tem valor se ela se apresenta revestida de produtos valorizados pelo mercado. Assim, o sujeito se faz objeto e o objeto, sujeito.

Eis a inversão total que favorece a depressão, o suicídio e a dependência química. Nesse reino do deus mercado, no qual poucos são os escolhidos e muitos os excluídos, a felicidade é um bem escasso e difícil de ser alcançado, até pelo fato de ser não mercantilizável.

Quem no mercado oferece o que mais buscamos, a felicidade? O mercado tenta nos iludir sob a promessa de que a felicidade é o resultado da soma de prazeres.

Quem é feliz sabe muito bem que a felicidade é um estado de espírito, uma sabedoria de vida, uma leveza de coração, uma questão de conteúdo e não de forma, que plenifica, eleva o nosso bem-estar espiritual e faz mergulhar no inefável oceano da amorosidade.

Para alcançá-la é preciso nascer de novo, fazer-se novo no Ano-Novo, e ousar reduzir a distância entre os bons propósitos e a prática cotidiana viciada por fatores que nos afastam dela.

Feliz Ano-Novo meus queridos(as) leitores!

PS: Teremos um novo ano curto para aqueles que iniciam a rotina após o Carnaval. Então, serão normais março, abril e maio. Em junho e julho, a Copa do Mundo. Em agosto, setembro e outubro, as eleições. Em novembro, os enfeites da Natal serão desempacotados e logo serão Natal e Ano-Novo...

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O PIOR ANALFABETO É O MIDIÁTICO

Por Celso Vicenzi, inspirado no "Analfabeto Político" de Brecht.

Ele ouve e assimila sem questionar, fala e repete o que ouviu, não participa dos acontecimentos políticos, aliás, abomina a política, mas usa as redes sociais com ganas e ânsias de quem veio para justiçar o mundo. Prega ideias preconceituosas e discriminatórias, e interpreta os fatos com a ingenuidade de quem não sabe quem o manipula. Nas passeatas e na internet, pede liberdade de expressão, mas censura e ataca quem defende bandeiras políticas. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. E que elas – na era da informação instantânea de massa – são muito influenciadas pela manipulação midiática dos fatos. Não vê a pressão de jornalistas e colunistas na mídia impressa, em emissoras de rádio e tevê – que também estão presentes na internet – a anunciar catástrofes diárias na contramão do que apontam as estatísticas mais confiáveis. Avanços significativos são desprezados e pequenos deslizes são tratados como se fossem enormes escândalos. O objetivo é desestabilizar e impedir que políticas públicas de sucesso possam ameaçar os lucros da iniciativa privada. O mesmo tratamento não se aplica a determinados partidos políticos e a corruptos que ajudam a manter a enorme desigualdade social no país. 

Questões iguais ou semelhantes são tratadas de forma distinta pela mídia. Aula prática: prestar atenção como a mídia conduz o noticiário sobre o escabroso caso que veio à tona com as informações da alemã Siemens. Não houve nenhuma indignação dos principais colunistas, nenhum editorial contundente. A principal emissora de TV do país calou-se por duas semanas após matéria de capa da revista IstoÉ denunciando o esquema de superfaturar trens e metrôs em 30%. 

O analfabeto midiático é tão burro que se orgulha e estufa o peito para dizer que viu/ouviu a informação no Jornal Nacional e leu na Veja, por exemplo. Ele não entende como é produzida cada notícia: como se escolhem as pautas e as fontes, sabendo antecipadamente como cada uma delas vai se pronunciar. Não desconfia que, em muitas tevês, revistas e jornais, a notícia já sai quase pronta da redação, bastando ouvir as pessoas que vão confirmar o que o jornalista, o editor e, principalmente, o “dono da voz” (obrigado, Chico Buarque!) quer como a verdade dos fatos. Para isso as notícias se apoiam, às vezes, em fotos e imagens. Dizem que “uma foto vale mais que mil palavras”. Não é tão simples (Millôr, ironicamente, contra-argumentou: “então diga isto com uma imagem”). Fotos e imagens também são construções, a partir de um determinado olhar. Também as imagens podem ser manipuladas e editadas “ao gosto do freguês”. Há uma infinidade de exemplos. Usaram-se imagens para provar que o Iraque possuía depósitos de armas químicas que nunca foram encontrados. A irresponsabilidade e a falta de independência da mídia norte-americana ajudaram a convencer a opinião pública, e mais uma guerra com milhares de inocentes mortos foi deflagrada. 

O analfabeto midiático não percebe que o enfoque pode ser uma escolha construída para chegar a conclusões que seriam diferentes se outras fontes fossem contatadas ou os jornalistas narrassem os fatos de outro ponto de vista. O analfabeto midiático imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo de esforço intelectual. Não se apoia na filosofia, na sociologia, na história, na antropologia, nas ciências política e econômica – para não estender demais os campos do conhecimento – para compreender minimamente a complexidade dos fatos. Sua mente não absorve tanta informação e ele prefere acreditar em “especialistas” e veículos de comunicação comprometidos com interesses de poderosos grupos políticos e econômicos. Lê pouquíssimo, geralmente “best-sellers” e livros de autoajuda. Tem certeza de que o que lê, ouve e vê é o suficiente, e corresponde à realidade. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e o espoliador das empresas nacionais e multinacionais.” 

O analfabeto midiático gosta de criticar os políticos corruptos e não entende que eles são uma extensão do capital, tão necessários para aumentar fortunas e concentrar a renda. Por isso recebem todo o apoio financeiro para serem eleitos. E, depois, contribuem para drenar o dinheiro do Estado para uma parcela da iniciativa privada e para os bolsos de uma elite que se especializou em roubar o dinheiro público. Assim, por vias tortas, só sabe enxergar o político corrupto sem nunca identificar o empresário corruptor, o detentor do grande capital, que aprisiona os governos, com a enorme contribuição da mídia, para adotar políticas que privilegiam os mais ricos e mantenham à margem as populações mais pobres. Em resumo: destroem a democracia. 

Para o analfabeto midiático, Brecht teria, ainda, uma última observação a fazer: Nada é impossível de mudar. Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual.