segunda-feira, 25 de agosto de 2014

“Não sei por que se fala do fracasso do socialismo na Europa e não se fala do fracasso do capitalismo no ocidente”, diz Frei Betto em evento na Ufrgs

Data: 25/abr/2014, 13h57min

Frei Betto participou da palestra “O modelo desenvolvimentista brasileiro e seus impactos socioambientais”

Fernanda Morena

O escritor e religioso dominicano Frei Betto esteve em Porto Alegre na noite desta quinta-feira (24) para participar de um evento promovido pelo Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente (MoGDeMa), na palestra intitulada “O modelo desenvolvimentista brasileiro e seus impactos socioambientais”. Em sua fala, o Frei Betto comentou temas ambientais e políticos, fazendo referências não apenas ao Brasil: “Não sei por que se fala do fracasso do socialismo na Europa e não se fala do fracasso do capitalismo no ocidente”.

O escritor foi preso e torturado pela ditadura militar em 1964 e no período entre 1969 e 1973. Publicou mais de 50 livros que exploram a ficção infanto-juvenil, as memórias e ensaios, habitualmente comentando temáticas ambientais, sociais e cristãs.

O Frei Betto iniciou sua fala lendo um trecho de seu livro A arte de semear estrelas, publicado em em 2007. O excerto falava da subjetividade humana e dos encontros e desencontros do homem dentro do seu inconsciente, de sua “ecologia interior”, como disse.

Mudança capitalista

Conforme o escritor, a sociedade atual passa pela maior mudança dos últimos 500 anos. Naquela altura, o mundo passou da época medieval para a modernidade, tempo cujo paradigma central resistia na fé.

Hoje, o mundo passa para a pós-modernidade, um momento confuso que tem um paradigma positivo: a solidariedade. “Os valores modernos entraram em dissociação. Há uma luta do familiar com o consumo gerado pelo capitalismo”, explica. “Esse sistema forma consumidores, não cidadãos.”

Para Frei Betto, o mal de que padece o mundo é o mal da lógica capitalista e do acúmulo de lucro que, obrigatoriamente, gera avanços científico-tecnológicos, mas não dá alento. “A modernidade nos colocou acima da natureza”, afirma. O escritor pondera que a intenção de lucro e o consumo afastou a sociedade até mesmo de suas necessidades mais básicas, como a água. “Hoje ninguém mais quer tomar água da torneira, e vai ao mercado e compra a mesma água com um rótulo. Tem que comprar, consumir, nem pensa que há a água da chuva.”

Com isso, o pensador questiona os avanços concretizados pela ciência, mas que ficam apenas ao alcance daqueles que podem pagar por ele. “O capital é a coisa mais importante. Houve avanço científico, mas quem tem acesso a isso?”, indagou à plateia que lotava o teatro.

O mal estar da pós-modernidade

Se o modelo desenvolvimentista ocidental é focado no acúmulo de capital, ele também oprime o homem, como avalia Frei Betto: “Hoje eu uso a marca da roupa para fora para os outros saberem que eu tenho valor”.

Frei Betto dá como exemplo um menino que sai às ruas para assaltar como um resultado de sua “domesticação pela publicidade do consumo”. “Vivemos num tempo de auto-estima muito baixa, de um sistema de consumidores não-cidadãos, hegemonizado pelo capitalismo e pela ‘globocolonização’”.

Ambientalismo

Vencedor de um prêmio Jabuti, a maior láurea literária do país, Frei Betto diz que tem uma enorme preocupação com a etimologia das palavras. Economia, ele diz, é uma palavra perfeita: eco é casa, e nomia, em grego, significa administração. Ecologia “é uma palavra que nunca vai sair da moda, mas não é bem adequada ao seu propósito: logia é o conhecimento. “Não basta conhecer a casa, é preciso cuidar da casa. Não vai pegar, mas o termo correto deveria ser ‘ecobionomia’: administração da vida na casa”.

Frei Betto aponta a falta de engajamento social e político como um dos obstáculos para o desenvolvimento da ecologia no Brasil e no mundo. Para ele, muitas pessoas falam de ambientalismo, mas não aderem ao movimento, não praticam. “Estamos vivendo um momento de grande contradição, agravado pelo aceleramento da degradação ambiental.”

A falha em políticas públicas também se coloca como um desafio para a sobrevivência humana num planeta que se esvai de recursos naturais. O ambientalista questiona a inexistência de um plano diretor da administração pública que possa, por exemplo, instituir o recolhimento da água da chuva para tarefas domésticas.

Palestra

O tema era desenvolvimento e ecologia, mas a noite foi um grande debate histórico de como a sociedade chegou onde chegou. Além da exposição de Frei Betto, o MoGDeMA aproveitou para prestar uma homenagem surpresa a Antônio Sequim, um dos primeiros ambientalistas gaúchos.

Sequim foi colega de prisão de Frei Betto na ditadura, mas ficou mais conhecido pela sua atuação junto aos catadores de lixo: “Eles são os médicos sanitaristas do planeta”, disse em seu discurso de agradecimento.

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