terça-feira, 31 de dezembro de 2013

A GENTE NUNCA PERDE POR SER LEGÍTIMO, MAS QUEM CONTA A HISTÓRIA SÃO OS VENCEDORES. NÃO ESQUEÇAM.

HILDEGARD ANGEL - 28 DE DEZEMBRO DE 2013 ÀS 17:31

O fascismo se expande hoje nas mídias sociais, forte e feioso como um espinheiro contorcido, que vai se estendendo, engrossando o tronco, ampliando os ramos, envolvendo incautos, os jovens principalmente, e sufocando os argumentos que surgem, com seu modo truculento de ser.

Para isso, utiliza-se de falsas informações, distorções de fatos, episódios, números e estatísticas, da História recente e da remota, sem o menor pudor ou comprometimento com a verdade, a não ser com seu compromisso de dar conta de um Projeto.

Sim, um Projeto moldado na mesma forma que produziu 1964, que, os minimamente informados sabem, foi fruto de um bem urdido plano, levando uma fatia da população brasileira, a crédula classe média, a um processo de coletiva histeria, de programado pânico, no receio de que o país fosse invadido por malvados de um fictício Exército Vermelho, que lhes tomaria os bens e as casas, mataria suas criancinhas, lhes tiraria a liberdade de ir, vir e até a de escolher.

Assim, orientada por esse Projeto, a chamada elite, que na época influenciava o pensamento da classe média mais baixa e mantinha um "cabresto de opinião" sobre seus assalariados, foi às ruas com as marchas católicas engrossadas pelos seus serviçais ao lado das madames.

Muitas mais tarde se arrependeram, ao constatar o quanto foram manipuladas e contribuíram para mergulhar o país nos horrores de maldades medievais.

Agora, os mesmos coroados, arquitetos de tudo aquilo, reescrevem aquele conto de horror a seu jeito, fazendo do mocinho bandido e do bandido mocinho, pois a História, meus amores, é contada pelos vencedores. E eles venceram. Eles sempre vencem.

Sim, leitores, compreendo quando me chamam de "esquerdista retardatária" ou coisa parecida. Esse meu impulso, certamente tardio, eu até diria sabiamente tardio, preservou-me a vida para hoje falar, quando tantos agora se calam; para agir e atuar pela campanha de Dilma, nos primórdios do primeiro turno, quando todos se escondiam, desviavam os olhos, eram reticentes, não declaravam votos, não atendiam aos telefonemas, não aceitavam convites.

Essa minha coragem, como alguns denominam, de apoiar José Dirceu, que de fato sequer meu amigo era, e de me aprofundar nos meandros da AP 470, a ponto de concluir que não se trata de "mensalão", conforme a mídia a rotula, mas de "mentirão" – royalties para mim, em pronunciamento na ABI. Eu, a tímida, medrosa, reticente "Hildezinha", ousando pronunciamentos na ABI! O que terá dado nela? O que terá se operado em mim?

Esse extemporâneo destemor teve uma irrefreável motivação: o medo maior do que o meu medo. Medo da Sombra de 64. Pânico superior àquele que me congelou durante uma década ou mais, que paralisou meu pensamento, bloqueou minha percepção, a inteligência até, cegou qualquer possibilidade de reação, em nome talvez de não deixar sequer uma fresta, passagem mínima de oxigênio que fosse à minha consciência, pois me custaria tal dor na alma, tal desespero, tamanhas infelicidade, noção de impotência absoluta e desesperança, ao encarar a face verdadeira da Humanidade, o rosto real daqueles que aprendi a amar, a confiar, que certamente sucumbiria...

Não, eu não suportaria respirar o mesmo ar, este ar não poderia invadir os meus pulmões, bombear o meu coração, chegar ao meu cérebro. Eu não sobreviveria à dor de constatar que não era nada daquilo que sempre me foi dito pelos meus, minha família, que desde sempre me foi ensinado: o princípio e mandamento de que a gente pode, com o bem, neutralizar o mal. Eu acreditava tão intensa e ingenuamente no encanto da bondade, que seguia sobre a nojeira como se flutuasse, sem percebê-la, sem pisar nela, como se caminhasse sobre flores.

As pessoas se admiravam: "Como a Hilde, que tanto sofreu, não guarda rancores e mágoas no seu coração?".

E aí, passadas as tragédias, vividas e sentidas todas elas em nossas carnes, histórias e mentes, porém não esquecidas; viradas as páginas, amenizado o tempo... deu-se então o início daquela operação midiática monumental, desproporcional, como se tanques de guerra, uma infantaria inteira, bateria de canhões, frotas aérea e marítima combatessem um único mortal - José Dirceu – tentando destrui-lo. Foi quando percebi, apreensiva, esgueirar-se sobre a nossa tão suada democracia a Sombra de 64!

Era o início do Projeto tramado para desqualificar a luta heroica daqueles jovens martirizados, trucidados e mortos por Eles, o establishment sem nomes e sem rostos, que lastreou a Ditadura, cuja conta os militares pagaram sozinhos. Mas eles não estiveram sozinhos.

Isso não podia ser, não fazia sentido assistir a esse massacre impassível. Decidi apoiar José Dirceu. Fiz um jantar para ele em casa. Chamei pessoas importantes, algumas que pouco conhecia. Cientistas políticos, jornalistas de Brasília, homens da esquerda, do centro, petistas, companheiros de Stuart do MR8, religiosos, artistas engajados. Muitos vieram, muitos declinaram. Foi uma reunião importante. A primeira em torno dele, uma das raras. Porém não a única. E disso muito me orgulho.

Um colunista amigo, muito importante, estupefato talvez com minha "audácia" (ou, quem sabe, penalizado), teve o cuidado de me telefonar, na véspera, perguntando-me gentilmente se eu não me incomodava de ele publicar no jornal que eu faria o jantar. "Ao contrário – eu disse – faço questão".

Ele sabia que, a partir daquele momento, eu estaria atravessando o meu Rubicão. Teria um preço a pagar por isso.

Lembrei-me de uma frase de minha mãe: "A gente nunca perde por ser legítima". Ela se referia à moda que praticava. Adaptei-a à minha vida.

No início da campanha eleitoral Serra x Dilma, ao ler aqueles sórdidos emails baixaria que invadiam minha caixa, percebi com maior intensidade a Sombra de 64 se adensando sobre nosso país.

Rapidamente a Sombra se alastrou e, com eficiência, ampliou-se nos últimos anos, alcançando seu auge neste 2013, instaurando no país o clima inquisitorial daquela época passada, com jovens e velhos fundamentalistas assombrando o Facebook e o Twitter. Revivals da TFP, inspirando Ku Klux Klan, macartismo e todas as variações de fanatismo de direita.

É o Projeto do Mal de 64 de novo ganhando corpo. O mesmo espinheiro das florestas de rainhas más, que enclausuram príncipes, princesas, duendes, robin hoods, elfos e anõezinhos.

Para alguns, imagens toscas de contos de fadas. Para mim, que vi meu pai americano sustentar orfanato de crianças brasileiras com a produção de anõezinhos de Branca de Neve de jardim, e depois uma Bruxa Má, a Ditadura, vir e levar para sempre o nosso príncipe encantado, torturando-o em espinheiros e jamais devolvendo seu corpo esfolado, abandonado em paradeiro não sabido, trata-se de um conto trágico, eternamente real.

Conforme disse minha mãe, e escreveu a lápis na margem da carta que entregou a Chico Buarque, denunciando que seria assassinada: "Estejam certos de que não estou vendo fantasmas".

Feliz Ano Novo.

Inclusive para aqueles injustamente enclausurados, cujas penas não estão sendo cumpridas de acordo com as sentenças.

É o que desejo do fundo de meu coração.

http://www.brasil247.com/pt/247/artigos/125297/A-gente-nunca-perde-por-ser-leg%C3%ADtimo-mas-quem-conta-a-hist%C3%B3ria-s%C3%A3o-os-vencedores-N%C3%A3o-esque%C3%A7am.htm

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Da Leitura do Mundo À Leitura da Palavra

"Ivo viu a uva", ensinavam os manuais de alfabetização. Mas o professor Paulo Freire, com o seu método de alfabetizar conscientizando, fez adultos e crianças, no Brasil e na Guiné-Bissau, na Índia e na Nicarágua, descobrirem que Ivo não viu apenas com os olhos. Viu também com a mente e se perguntou se uva é natureza ou cultura.

Ivo viu que a fruta não resulta do trabalho humano. É Criação, é natureza. Paulo Freire ensinou a Ivo que semear uva é ação humana na e sobre a natureza. É a mão, multi-ferramenta, despertando as potencialidades do fruto. Assim como o próprio ser humano foi semeando pela natureza em anos e anos de evolução do Cosmo.

Colher a uva, esmagá-la e transformá-la em vinho é cultura, assinalou Paulo Freire. O trabalho humaniza a natureza e, ao realizá-lo, o homem e a mulher se humanizam. Trabalho que instaura o nó de relações, a vida social. Graças ao professor, que iniciou sua pedagogia revolucionária com trabalhadores do Sesi de Pernambuco, Ivo viu também que a uva é colhida por bóias frias, que ganham pouco, e comercializada por atravessadores, que ganham melhor.

Ivo aprendeu com Paulo que, mesmo sem ainda saber ler, ele não é uma pessoa ignorante. Antes de aprender as letras, Ivo sabia erguer uma casa, tijolo a tijolo. O médico, o advogado ou o dentista, com todo o seu estudo, não era capaz de construir como Ivo. Paulo Freire ensinou a Ivo que não existe ninguém mais culto que o outro, existem culturas paralelas, distintas, que se complementam na vida social.

Ivo viu a uva e Paulo Freire mostrou-lhe os cachos, a parreira, a plantação inteira. Ensinou a Ivo que a leitura de um texto é tanto melhor compreendida quanto mais se insere o texto no contexto do autor e do leitor. É dessa relação dialógica entre texto e contexto que Ivo extrai o pretexto para agir. No início e no fim do aprendizado é a práxis do Ivo que importa. Práxis-teoria-práxis, num processo indutivo que torna o educando sujeito histórico.

Ivo viu a uva e não viu a ave que, de cima, enxerga a parreira e não vê a uva. O que Ivo vê é diferente do que vê a ave. Assim, Paulo Freire ensinou a Ivo um princípio fundamental da epistemologia: a cabeça pensa onde os pés pisam. O mundo desigual pode ser lido da ótica do opressor ou pela ótica do oprimido. Resulta uma leitura tão diferente uma da outra como entre a visão de Ptolomeu, ao observar o sistema solar com os pés na Terra, e a de Copérnico, ao imaginar-se com os pés no Sol.

Agora Ivo vê a uva, a parreira e todas as relações sociais que fazem do fruto festa no cálice de vinho, mas já não vê Paulo Freire, que mergulhou no Amor na manhã de 2 de maio. Deixa-nos uma obra inestimável e um testemunho admirável de competência e coerência.

Paulo deveria estar em Cuba, onde receberia o título de Doutor Honoris Causa, da Universidade de Havana. Ao sentir dolorido seu coração que tanto amou, pediu que eu fosse representá-lo. De passagem marcada para Israel, não me foi possível atendê-lo. Contudo, antes de embarcar fui rezar com Nita, sua mulher, e os filhos em torno de seu semblante tranqüilo: Paulo via Deus.


Frei Betto

QUEM É A DIREITA BRASILEIRA?

Por Breno Altman, especial para o 247

O sr. Reinaldo Azevedo, a quem injustamente referiu-se a ombudsman da Folha de S. Paulo como rottweiler do conservadorismo, continua a desmentir sua colega de redação. Qualquer comparação com uma raça canina tão forte e cheia de personalidade é realmente despropositada. Se o nobre animal lesse jornal, provavelmente se sentiria insultado. O colunista, tanto pelas posições que defende quanto por estilo, está mais para cachorrinho de madame.

Deu-nos mais uma prova, no dia 6 de dezembro, em artigo intitulado "Direita já!", de qual é o seu pedigree. A ideia básica é que falta, no Brasil, uma força política que tenha competitividade eleitoral e, abraçando claramente valores de direita, faça oposição ao governo. Ou que acredite na hipótese de se tornar dominante exatamente por defender esses valores. Ainda mais longe vai o santarrão do conservadorismo: o PT provavelmente continuará a governar porque não seria possível "candidatura de oposição sem valores de oposição".

O que Azevedo esconde do leitor, por ignorância ou má fé, são as razões pelas quais a direita brasileira atua disfarçada. Esse campo ideológico, afinal, esteve historicamente comprometido com a quebra da Constituição, o golpismo e a instituição de ditaduras. Seus valores de raiz são o autoritarismo, o racismo de índole escravocrata, o preconceito social, o falso moralismo e a submissão às nações que mandam no mundo. Vamos combinar que não é fácil conquistar apoios com essa carranca.

Não é de hoje que direitistas recorrem a truques de maquiagem para não serem reconhecidos. A mais comum dessas prestidigitações tem sido a de se enrolar em supostas bandeiras democráticas para cometer malfeitos. Exemplo célebre é o golpe militar de 1964, quando bateram nas portas dos quartéis e empurraram o país para uma longa noite de terror, em nome da liberdade e da democracia.

A ditadura dos generais foi o desfecho idealizado pela "direita democrática", depois que se viu sem chances de ganhar pelo voto e tomou o caminho da conspiração. O suicídio de Getúlio Vargas sustou a intentona por dez anos, mas os ídolos de Azevedo estavam à espreita para dar o bote. As provas são abundantes: estão presentes não apenas nos discursos de personalidades da "direita democrática" de antanho, mas também nas páginas dos jornalões da época, que clamavam pela ruptura constitucional e a derrubada do presidente João Goulart.

Algumas dissidências desse setor, a bem da verdade, tentaram se reconciliar com o campo antiditadura, depois de largados na estrada pelos generais ou frustrados com sua truculência. A maioria dos azevedinhos daquele período histórico, no entanto, seguiu de braços dados com a tortura e a repressão. Eram ativistas ou simpatizantes do partido da morte. Batiam continência como braço civil de um sistema talhado para defender os interesses das grandes corporações, impedindo a organização dos trabalhadores e massacrando os partidos de esquerda.

O ocaso do regime militar trouxe-lhes isolamento e desgaste. A direita pró-golpe, mesmo transmutada em partidos que juravam compromisso com a democracia reestabelecida, não teve forças para forjar uma candidatura orgânica nas eleições presidenciais de 1989. Acabaram apoiando Fernando Collor, um aventureiro de viés bonapartista, para enfrentar o risco representado por Lula ou Brizola. O resto da história é conhecido.

Depois deste novo fracasso, as forças reacionárias ficaram desmoralizadas e sem chão. Trataram, em desabalada carreira, de aderir a algum pastiche que lhes permitisse sobrevida, afastando-se o quanto podiam da herança ditatorial que lhes marcava a carne. Viram-se forçadas a buscar, entre as correntes de trajetória democrática, uma costela a partir da qual pudessem se reinventar. Encontraram no PSDB, capturado pela burguesia rentista, o instrumento de sua modernização e o novo organizador do bloco conservador.

A mágica acabou, porém, quando o PT chegou ao Planalto, deslocando para a esquerda boa parte do eleitorado que antes era seduzido pelo conservadorismo. Esse foi o resultado da adoção de reformas que modificaram e universalizaram providências antes circunscritas a tímidas medidas compensatórias, como parte de um projeto que permitiu a ascensão econômico-social da maioria pobre do país. Tais conquistas tingiram de cores fúnebres, na memória popular, o modelo privatista e excludente sustentado pelo tucanato.

Enquanto a direita republicana tratava desesperadamente de estabelecer vínculos entre o sucesso do governo petista e eventuais políticas do período administrativo anterior, evitando reivindicar seu próprio programa, outro setor deu-se conta que, sem diferenciação clara de projetos, seria muito difícil reconquistar maioria na sociedade e romper a dinâmica estabelecida pela vitória de Lula em 2002.

Não haveria saída, contra o petismo, sem promover a mobilização político-ideológica das camadas médias a partir de seus ímpetos mais entranhadamente individualistas, preconceituosos e antipopulares. Ao contrário de uma tática que encurtasse espaços entre os dois polos que definem a disputa nacional, o correto seria clarificar e radicalizar o confronto.

As legendas eleitorais do conservadorismo titubeiam a fazer dessa fórmula seu modus operandi, mas os meios tradicionais de comunicação passaram a estar infestados por gente como Azevedo e outros profetas do passado. A matilha não tem votos para bancar nas urnas uma alternativa à sua imagem e semelhança, é verdade. Seria um erro, no entanto, subestimar-lhe a audiência e o papel de vanguarda do atraso que atualmente exerce nas fileiras oposicionistas.

Até porque conta com uma fragilidade da própria estratégia petista, de melhorar a vida do povo através da ampliação de direitos e do consumo, mas atenuando ao máximo o enfrentamento de valores e o esforço para modificar as estruturas político-ideológicas construídas pela oligarquia, especialmente os meios massivos de comunicação. O PT logrou formar maioria eleitoral a partir dos avanços concretos, mas não impulsionou qualquer iniciativa mais ampla para estabelecer hegemonia cultural e ideológica.

Seria persistir neste equívoco não dar o devido combate ao conteúdo programático do discurso azevedista. Sob o rótulo de "direita democrática", o que respira é uma concepção liberal-fascista, forjada na comunhão das ditaduras chilena e argentina com a escola de Chicago e os seguidores do economista austríaco Ludwig Von Mises.

O velho fascismo, que trazia para dentro do Estado as operações dos conglomerados capitalistas, tornando-os parasitas econômicos da centralização política, efetivamente caducou como resposta aos próprios interesses grão-burgueses. Entre outros motivos, porque retinha parte ponderável da taxa de lucro para o financiamento do aparato governamental.

A combinação entre ultra-liberalismo e autoritarismo converteu-se em um modelo mais palatável entre as elites. O Estado assumia as tarefas de repressão e criminalização das lutas sociais, na sua forma mais perversa e violenta, soltando as amarras legais e sociais que regulavam o desenvolvimento dos negócios em âmbito privado. Não eram à toa os laços afetuosos que uniam Margaret Thatcher e Ronald Reagan ao fascista Pinochet. O neoconservadorismo se trata, afinal, do liberal-fascismo sem musculatura ou necessidade de realizar seu projeto histórico até o talo.

Claro que o ladrar de Azevedo e seus parceiros não é capaz, nos dias que correm, de ameaçar a estrutura democrática do país. Mas choca o ovo da serpente pelas ideias e valores que representa. A melhor vacina para a defesa da democracia, contudo, como dizem os gaúchos, é manter a canalha segura pelo gasganete. Os latidos dos cachorrinhos de madame devem ser repelidos, antes que se sintam à vontade para morder.

Breno Altman é jornalista, diretor editorial do site Opera Mundi e da revista Samuel.

http://www.brasil247.com/pt/247/poder/124607/Quem-%C3%A9-a-direita-brasileira.htm

Martinha: “Ainda não vivemos uma democracia plena”

16/dez/2013, 8:11h - Lorena Paim e Nubia Silveira

Ignez Maria tinha apenas 11 anos quando começou a falar sobre política com o tio comunista, ambos moradores de Uruguaiana, na fronteira do Brasil com a Argentina. O sonho da menina, baixinha e magrinha, era estudar na então União Soviética. Veio golpe de 1964, o tio precisou se exilar no Uruguai e ela, em vez de partir para Moscou, passou a visitar o tio em Rivera, na fronteira uruguaia. Aos 15 anos, sem que ninguém soubesse, fazia as vezes de pombo-correio entre o tio, no interior do Uruguai, e seus companheiros comunistas em Porto Alegre. Começava aí sua preparação como um quadro do PCB. Até hoje, ela lembra dos conselhos do tio, seu grande ídolo: “Não entra no movimento estudantil. Tu vais ser um quadro do Partidão”.

O conselho foi seguido até ela entrar na Universidade. Oriunda de família ruralista, Ignez escolheu a veterinária para tratar dos bichos com os quais convive desde criança. Continuava baixinha e magrinha. Ninguém a imaginaria pegando em armas. Mas, foi o que fez ao entrar para a resistência contra a ditadura, com o codinome Marta, homenagem a uma empregada doméstica, conhecida na infância. Foi a única gaúcha a participar da expropriação de um banco. Presa em casa, quando tentava explicar à mãe a sua posição e a necessidade de entrar para a clandestinidade, foi levada diretamente para o DOPS, em Porto Alegre. Ali sofreu todo tipo de tortura.

Os carcereiros lhe aplicaram choques, deram socos, colocaram–na no pau de arara e a estupraram. Ficou um ano na prisão e dois em liberdade vigiada. Hoje, Ignez Maria Serpa Ramminger, 65 anos, segue sendo chamada de Martinha. Isso não a incomoda? “Não – responde ela – Ignez e Martinha são a mesma pessoa”.

Ao Sul21, em sua casa, rodeada de cinco cachorros e três gatos, Ignez-Martinha lembrou o terror da prisão e da tortura e revelou que ainda teme um retrocesso político. Para ela, ainda “não estamos em democracia plena. Temos apenas uma democracia eleitoral, não uma democracia social e/ou econômica ”.

Sul21- Qual a sua atividade atualmente? Tem militância política?

Ignez Maria Serpa Ramminger (Martinha) - Sou uma médica veterinária atípica, fiz faculdade na Ufrgs e trabalhei com pequenas propriedades, depois através de concurso público ingressei na Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre, no Centro de Controle de Zoonoses, posteriormente fiz mestrado em planejamento e gestão de sistemas e serviços de saúde, o que me propiciou atuar em outros setores da secretaria. Hoje coordeno a política de atenção à saúde dos povos indígenas. Tenho militância no PT.

Sul21 – O que a levou a entrar na resistência à ditadura?

Martinha – Iniciei a militância política muito cedo. Minha família é de latifundiários de Uruguaiana (nasci por acaso em Porto Alegre), totalmente tradicional. Meus familiares eram do antigo PL, Partido Libertador. Digo que sou descendente da aristocracia rural decadente. Não por acaso sou veterinária, cresci adorando terra, no meio dos animais. Minha influência grande foi do tio Ulisses Câmara Villar, que era dirigente estadual do Partido Comunista, casado com tia Nazy, irmã da minha mãe. Ele era o único adulto que tinha paciência de conversar comigo. Eu ia indagando e ele me dava respostas. Aos 13 anos, o tio me perguntou se eu topava ir para a União Soviética terminar o colégio lá. Iria com bolsa de estudos, já estudava russo. Na verdade, eu ia me preparar para ser quadro político do PC. Aí veio o golpe de 64 e meu sonho foi por água abaixo.

Sul21 - O que aconteceu a seguir?

Martinha – Meu tio foi para o exílio no Uruguai, pois era dirigente do PCB. Um irmão do meu pai, Hicrólio, deu fuga para ele, na madrugada de primeiro de abril de 1964, levando-o de barco pelo Rio Uruguai. Meu pai, no outro dia de manhã, invadiu a casa da tia Nazy, com soldados, para prender meu tio, a quem o irmão dele tinha dado fuga. Para ver a discrepância na própria família…

Adolescente, com 15 anos, fiquei como pombo-correio, ia encontrar o tio Ulisses no Uruguai e trazia material – correspondência, livros – para os contatos em Porto Alegre. Ninguém iria desconfiar de mim, com cara de menina, pequena e magrinha. Trazia o material num saco de viagem e, por cima, colocava bolachas. E não deixava ninguém me ajudar a carregar o “saco de bolachas”.

Sul – Você já atuava no PC?

Martinha - Comecei no Partido com tarefas. O PC não aceitava filiação dos muito jovens. O tio me dizia para não me meter em movimento estudantil, pois iria dar muita visibilidade e eu era um quadro em preparação do Partido. Dizia que eu tinha que estudar, me preparar, pois a luta iria longe. Aí fui fazer esporte, fui paraquedista, o que dava uma sensação de liberdade, de ruptura com o comportamento tradicional, o que eu fazia nas roupas, com as minissaias, nas maquiagens, na música. Meus pais estavam separados há muito tempo e não sabiam da minha militância. Eu já tinha a visão do risco, queria proteger meu tio e a mim. Tinha consciência de estar fazendo algo que me colocava em risco de prisão. Era muito disciplinada.

Sul21 - O que aconteceu com seu tio?

Martinha – Muito doente, negociou a volta ao Brasil e se entregou. Um genro dele era militar e estava como comandante do QG de Uruguaiana, onde tio Ulisses acabou ficando preso. Coisas de família… Mais tarde, ao visitar o tio no quartel, ele me alertou sobre minha militância dizendo: com o Partido Comunista não dá nada, mas os outros eles estão matando.

Sul21 – Você contou ao seu tio que estava no movimento estudantil?

Martinha – Nunca tive coragem. Tinha muita admiração e respeito por ele.

Sul21 - A entrada na faculdade mudou alguma coisa?

Martinha – Quando, em 1968, entrei na Veterinária da Ufrgs, era o auge do movimento estudantil e não teve como não entrar no movimento estudantil. Comecei a atuar no POC- Partido Operário Comunista e, através deste, no MUC – Movimento Universidade Crítica. Concorrendo no DCE Livre (na época o costume era a indicação pela reitoria), nossa chapa ganhou, o presidente era o Raul Pont (atual deputado pelo PT) e eu era um dos quatro vices. Outro vice era Jorge Mattoso, que foi presidente da Caixa Econômica Federal. Tínhamos aula de formação política, Marco Aurélio Garcia dava aula de materialismo histórico. Outro companheiro era Flavio Koutzi (ex-deputado) e mais alguns que foram depois dirigentes do PT. Fazíamos discussões sobre autores e sobre o que acontecia no mundo. Passeatas aconteciam e as coisas iam se radicalizando, com repressão violenta ao movimento estudantil. Naquela época, para ser preso, bastava chegar perto de uma delegacia e escrever a palavra “liberdade”. Nem precisava terminar a palavra e tu já estavas presa. Mais de três pessoas em reunião já eram suspeitas de subversão.

Sul21 - Como decidiu entrar em uma organização de resistência?

Martinha – Para mim, a gota d´água foram os tiros que nos deram, em 1969, durante uma dessas passeatas, que terminavam na frente da Prefeitura de Porto Alegre. Corremos para um prédio de escritórios da Rua Uruguai, nas proximidades, com a polícia de choque atrás. Subimos s escadas, entramos numa sala, em busca de saída e vimos que ao lado havia um prédio menor. Na sala, havia uma escada de pintor, que usamos para passar para o teto do prédio menor. Ficamos ali deitados, para que não nos vissem. Começaram a atirar contra nós, as balas passavam zunindo pelas nossas cabeças. Decidi então entrar na VAR Palmares, primeiro porque era marxista-leninista e porque tinha uma organização de centralismo democrático, contra o personalismo. Era um coletivo que não tinha um líder, ao passo que a VPR era Lamarca, a ALN era Marighella. E trazia a proposta de formar quadros políticos, de uma luta a longo prazo, junto aos movimentos estudantil e operário. Via nela mais profundidade. Eu já possuía formação política, não procurava apenas ativismo. Mas por um período ainda fiquei no POC.

Sul21 - Qual a sua função na VAR Palmares?

Martinha – Estávamos começando a montar um comando operário. Mas, a mando do comando nacional, deveríamos organizar o comando de operações. E me convidaram para fazer parte do comando de operações. No Rio Grande do Sul fui a única mulher que participou de fato de ação armada. Fazíamos treinamento na Lagoa dos Patos, íamos de lancha e acampávamos, pois era uma região de caça que não chamava a atenção. Treinava com um revólver 38 e uma metralhadora pequena INA.

Sul21 - Você pode falar sobre alguma ação armada de que participou?

Martinha – Participei de uma expropriação no Banco do Brasil em Viamão. Eu era a única mulher. Foi, na verdade, um treinamento, o qual pedimos a Edmur Péricles Camargo, do grupo M3G. Fizemos reuniões com ele, depois o levantamento do banco. Na ação, fui disfarçada, com peruca loira, comprida, e óculos, enquanto o companheiro Gustavo Buarque Schuller usava uniforme de sargento da Brigada Militar. Ele foi até a frente do banco. Eu cheguei e lhe perguntei algo. Ele disse que não sabia e se virou para o guarda que estava ali. Chegou e lhe apresentou um papel, em que estava escrito: “isto é um assalto”. Foi o elemento surpresa. Estávamos com as armas disfarçadas. Um carro na frente do prédio fazia a cobertura. Os outros eram Edmur, Francisco Martinez, Paulo Telles Frank e João Batista Rita. Não conseguimos muito dinheiro, pois o gerente tinha levado a chave do cofre ao sair para o almoço. Gustavo e eu ficamos de vigias do entorno. Vi que um menino espiava por uma janela do lado de fora. Ninguém tinha visto, mas eu insisti com o Edmur para sairmos logo. Ele queria ir até a casa do gerente buscar as chaves. Desconfiava da minha informação, pois fui a única a ver o menino. No final aceitou. Se não fosse isso, seríamos, provavelmente, mortos, pois o guri foi avisar a polícia, que chegou logo.

Sul21 - Qual a sensação de estar numa ação para matar ou morrer?

Martinha – Nunca me passou pela cabeça matar, não está na minha índole matar nem um animal. Ser morta poderia ser. Poderia atirar para ferir, para isso fiz treinamento de tiro. Quando um policial atira e mata o ladrão, ou é muito ruim ou é muito bom de pontaria, pois ele sabe que atirou para matar. Medo eu não tinha, o medo paralisa. Eu cumpria uma missão. Tinha – e tenho – uma disciplina política bem forte.

Sul21 – Como e quando ocorreu sua prisão?

Martinha – Em abril de 1970. Cometemos vários erros, por inexperiência. No momento em que não segui uma disciplina militante, eu me dei mal. O primeiro erro foi comprar um carro com meu nome legal e usá-lo na ação em Viamão. Era para dar sumiço no carro, um Corcel branco, mas não fizeram isso. Nesse meio tempo nosso companheiro Gustavo foi preso. Demoliram ele. E ele falou onde morava. O local estava vazio, mas esqueceram o lixo, onde foi achada uma nota de garagem com números de uma placa. Quando Paulo Telles Frank foi buscar o carro, acabou preso. E o carro estava no meu nome…

Sul21 - Como chegaram a você?

Martinha – Fui pega por ter ido em casa falar com minha mãe, eu já sabia do risco de ser presa. Meu dirigente dizia para eu não voltar em casa, iam me dar identidade falsa para sair da cidade. Mas eu não quis sair sem explicar para ela. A mãe entrou em desespero, fizeram reunião de família e a coisa se alongou por bastante tempo. Aí bateu o DOPS e me levaram. E junto minha mãe, meus três irmãos menores de idade e um amigo deles, que foram fichados e depois liberados. Eu fiquei presa, por dois meses, depois levada ao presídio feminino Madre Pelletier, também em Porto Alegre. E aconteceu comigo o que não acontecia com os demais: iam me buscar na prisão para continuar me torturando no DOPS, pois cada um que caía falava alguma coisa. Eu e minhas companheiras pegamos fobia pelo som de Kombi. Quando aparecia uma, eu tremia, pois poderia ser tanto o veículo das freiras ou o que vinham buscar a gente. Eu entreguei dois “aparelhos”, achando que não havia ninguém dentro, pois a regra era que ninguém voltasse a um lugar já usado. Mas, num deles, para surpresa minha, tinha gente. Ali foi preso o comando de imprensa da VAR, ao qual pertencia Rui Falcão, atual presidente PT.

Sul21 - Você sofreu tortura na prisão. Pode falar sobre ela?

Martinha – A primeira pessoa a me interrogar no DOPS foi o delegado Pedro Seelig. Trouxe meu companheiro Gustavo, arrebentado, para fazer acareação. Torturas eram só de noite. Eu escutava os gritos. Colocavam uma luz muito forte, eu não enxergava as fisionomias. Levava tapas, ouvia xingamentos. Levei choque elétrico em várias partes, nos dedos das mãos, pés, orelhas. O choque dá uma contração violenta como se a gente tivesse cãibra. Desmaiei várias vezes. Um médico vinha ver se a gente estava bem. Fui para o pau de arara, junto com Gustavo e Francisco Martinez. Também fui estuprada. Várias vezes, por vários torturadores ao mesmo tempo. Isso se refletiu depois, quando casei com Erich (hoje sou separada). Ficava nervosa, tensa nas relações sexuais, não conseguia sentir prazer. Agradeço a paciência que ele teve comigo. Graças a isso consegui recuperar minha sexualidade.

Havia também a tortura psicológica, para te rebaixar. Ir ao banheiro para fazer as necessidades, só com um guarda junto. Na hora do banho, ficavam me olhando, então eu não tirava toda a roupa. Não conseguia fazer a higiene correta. Depois disso, preferi não tomar mais banho, fiquei imunda. Isso era feito premeditadamente, para me desmoralizar. Era uma violência tão grande quanto o estupro.

Sul21 - Ficaram sequelas?

Martinha – Passei a falar à noite e tenho bruxismo. Durante muitos anos precisava dormir com alguma penumbra, pois tinha medo noturno, visto que a tortura era à noite. E por alguns anos não conseguia falar sobre este tema.

Sul21 - Como conseguiu superar as sequelas da tortura?

Martinha – O principal aspecto foi ficar voltada mais para a minha família, na época meu marido, minha filha Tatiana e logo após os meus dois filhos – Cristiano e Ulisses. Fomos morar no estado do Rio e isso ajudou a me estabilizar emocionalmente. Também voltei a exercer a veterinária.

Outra coisa que me ajudou foi que nunca parei de militar. Fui morar na cidade do Rio de Janeiro em 1977, entrei em contato com o Comitê Brasileiro da Anistia – CBA, onde fiz todo um trabalho em direitos humanos. Nesse meio tempo, constitui, em parceria com outros companheiros, a Comissão de Recepção aos ex-Presos e Exilados Políticos através da qual construímos uma rede de apoio, tais como moradia, trabalho, escola e acompanhamento psiquiátrico.

Fui fundadora do jornal Em Tempo, participei do processo de fundação do PT no Rio de Janeiro. Fundei o PT de Barra do Piraí. Depois voltei para Porto Alegre, logo que me separei do meu marido Erich. Hoje continuo militando no PT e estou na direção estadual e municipal da Central de Movimentos Populares – CMP.

Sul21 - Você ficou quanto tempo presa?

Martinha – Fiquei presa um ano e um mês até ser solta, e mais dois anos em liberdade vigiada. Uma vez por semana tinha que me apresentar à justiça militar. Estava esperando julgamento, fui condenada a um ano, houve recurso e veio a anistia política.

Sul21 - Não voltou à prisão?

Martinha – Não voltei porque saí da cidade. Fui presa várias vezes para ser interrogada. Me pegavam na rua a qualquer momento. Fiquei muito tempo sozinha no presídio Madre Pelletier, queriam que eu renegasse minha causa. Minha mãe, em desespero, fez o jogo deles. Numa visita, ela insistiu que eu escrevesse uma carta dizendo que estava arrependida. Eu disse “jamais”, pois não poderia nunca mais me olhar no espelho.

Sul21 - Como foi a vida no Madre Pelletier? A convivência com os carcereiros e outras presas?

Martinha – Estava isolada, tinham medo que fosse fazer a cabeça das outras presas. Meu diálogo com os carcereiros foi mostrar para eles que nós não éramos bandidos, havia a preocupação de desfazer a imagem de terroristas que pintavam de nós. Queríamos mostrar que tínhamos objetivos políticos, buscávamos uma sociedade mais justa. Tanto é que preparei um brigadiano e uma agente penitenciária para fazerem vestibular. As presas comuns tinham curiosidade grande de me conhecer, forçavam para ir para o castigo. Elas não entendiam como eu arriscava tudo pelos outros, vinda de uma família que tinha tudo. Tinham respeito por mim. Voltei ao presídio no ano passado, numa comissão visitante, e o lugar onde estive presa na solitária ironicamente hoje é um canil. Foi um sentimento estranho ao voltar tantos anos depois, deu certa depressão quando saí de lá.

Sul21 – Você já disse que conheceu o lado perverso dos homens, mas também muita solidariedade.

Martinha - Havia solidariedade entre os companheiros e também entre os brigadianos que me levavam cartas dos companheiros presos na Ilha do Presídio; era uma rede de pombos-correios que a gente conquistou. Pretendo publicar no próximo ano um livro onde colocarei as cartas que escrevi e as que recebi naquele tempo. Pensei no nome “Na guerra com batom”, título de um artigo que escrevi.

Sul21 - Qual seu sentimento em relação aos torturadores?

Martinha – Tinha um ódio tremendo deles, hoje sinto desprezo, pois ódio faz mal para gente. O lema “guerra é guerra” não justifica a forma que eles usavam para tirar informação. E a tortura existe ainda hoje. Há dificuldades, os arquivos da ditadura não são abertos, há resistência a que as coisas avancem, o aparelho repressivo ainda está montado.

Sul21 - Montado para quê?

Martinha – Ainda estamos em processo, não estamos em democracia plena. Ela é, por exemplo, eleitoral. O Judiciário não tem transparência. Existe tortura em presos comuns. Por que não conseguem abrir os arquivos da ditadura? Por que as coisas não avançam nos ministérios? Existe uma resistência muito grande. Achar que o aparelho repressivo acabou é uma ilusão.

Sul21 - Você vê risco de retrocesso?

Martinha – Sim. Luto para que a gente avance na redemocratização. O pessoal hoje não sabe nem o que é o AI- 5. Se a juventude desconhece o passado, o que se espera? Eu acredito na democracia, mas tenho receio.

Sul21 - E a juventude que foi às ruas este ano?

Martinha – Não vi isso como totalmente positivo. Muita gente foi manobrada por grupos de direita, fazendo um protesto difuso, sem foco. Não acredito em movimento espontâneo. Expulsar os partidos e os movimentos sociais? Se não tiver estrutura partidária, as coisas não avançam.

Sul21 - O que falta para uma democracia plena?

Martinha – Se a gente tivesse investido mais numa democracia social, iríamos conseguir avançar. Precisamos de canais de participação que sejam efetivos. Por exemplo, os conselhos são manipulados pelos gestores. O Conselho Municipal de Saúde de Porto Alegre é uma exceção positiva. Mas o Orçamento Participativo hoje não é mais como era. As instituições governamentais foram constituídas para defender os interesses da classe dominante. Enquanto isso persistir os avanços democráticos serão lentos.

Sul21 - Fazendo um balanço, voltaria a ter a mesma atuação?

Martinha – Não me arrependo de nada, era um momento histórico que nossa geração viveu. No futuro, não sei o que faria. Quero mostrar aos jovens os erros – logísticos– que cometemos, não sou contra pegar em armas quando for necessário. Não tínhamos condições de ganhar, por uma correlação de forças, mas acho que de certa forma fomos vitoriosos porque a ditadura acabou. Hoje luto pelo fortalecimento de nossa democracia.
http://www.sul21.com.br/jornal/areazero/martinha-ainda-nao-vivemos-uma-democracia-plena/

sábado, 14 de dezembro de 2013

MIB (Música Imbecil Brasileira): o sertanejo universitário na era da imbecilidade monossilábica

Um movimento circular, no qual aquele que nada tem a oferecer intelectualmente alimenta com sua arte quem já se encontra morrendo de inanição cerebral

Há uma tendência idiomática, estudada pelos gramáticos e linguistas, e mesmo constatável empiricamente, que consiste na ação do falante de abreviar as palavras. Assim, palavras longas são reduzidas ao longo do tempo. Exemplo clássico encontra-se no pronome “vocês”. Esta forma, tal como se encontra hoje registrada nos léxicos, nem sempre se pôde considerar “correta”. Em Portugal, a nação europeia da qual o Brasil herdou seu idioma oficial, houve um tempo em que o pronome de tratamento real era “vossa mercê”. Expressão longa, a passagem dos séculos tratou de vulgarizá-lo, abreviando-o. Hoje o escrevemos apenas como “vo­cê” — considerando-o plenamente aceitável nos rígidos quadrantes da gramática normativa culta.

Talvez a necessidade de fluidez nos diálogos possa explicar, ao menos em parte, esse movimento de “encurtamento” das palavras numa língua. O interlocutor apressado deseja exprimir suas ideias e sentimentos com rapidez. Logo, usa de vocabulário que lhe proporcione a celeridade almejada. E é aí que a abreviação encontra campo fértil para desenvolver-se, porquanto parece ser de fácil compreensão que palavras curtas propiciam agilidade a uma conversa. Nos tempos presentes, na afamada “era digital”, esse mo­­vimento, outrora secular, acelerou-se. Hoje é possível notar sem dificuldades o re­crudescimento do processo de abreviação das palavras de um dado idioma.

Para citar novamente o caso do “você”, nas redes sociais e nos programas de comunicação instantânea via internet, aquele pronome, cuja forma culta na atualidade já é uma redução da original, foi novamente “mutilado”, tornando-se um singelo “vc”. Idêntico fenômeno se observa no verbo “teclar”: quando usado na denotação de “acionar por meio de teclas”, o usuário da internet tem preferido um simples “tc”.

Essas transformações linguísticas, se de um lado operam-se nos rastros das consequências sociais da globalização — aquilo que o sociólogo Zygmunt Bauman chamou de “modernidade líquida” —, de outro decorrem de uma tentativa de estabelecimento de um signo linguístico capaz de comportar uma sociedade acelerada e sem freio. Eis o “idioma da velocidade”.

O “idioma da velocidade”, dessa maneira, pode-se considerar como sendo o sistema de comunicação mediante o qual o interlocutor prioriza a ligeireza da interlocução: o diálogo deve ser rápido, fluido, “líquido”, mesmo que, para tal fim, seja preciso sacrificar regras comezinhas de sintaxe ou abreviar impiedosamente as palavras.

Um conceito obscuro no cancioneiro nacional

A ideia de “idioma da velocidade”, que ora estou a propor, encontrou terreno fecundo na música comercial brasileira. Especifi­camente, refiro-me ao gênero que se convencionou chamar de “sertanejo universitário” — atualmente dominante em todas as rádios do País.

O conceito de “sertanejo universitário” é dos mais obscuros do cancioneiro nacional. Trata-se de uma aparente “contradictio in terminis”, afinal, “sertanejo” remete à ideia de “sertão”, área agreste, rústica, visto que distanciada dos grandes centros urbanos. Já “universitário” é adjetivo que se liga incontinenti à “universidade”, isto é, espaços de difusão dos saberes científico e filosófico e que, o mais das vezes, situam-se justamente em áreas de intensa urbanização. Por isso, já houve quem quisesse definir “sertanejo universitário” como sendo o “caipira que passou no vestibular” ou “o cidadão urbano com origens no sertão”. Nenhum desses conceitos, é claro, corresponde à realidade. De “sertanejo” esse universitário não tem absolutamente nada. Cuida-se, sim, da juventude da cidade que decidiu colocar um chapéu de cowboy e “cair na balada”.

Do ponto de vista musical, o sertanejo universitário hoje é um gênero musical utilizado comumente para designar a fórmula da “música dançante feita para gente descerebrada”. É o correspondente hodierno, do século 21, ao que foi a axé music no fim do século 20, mais precisamente na década de 1990: a demonstração cabal de que o físico alemão Albert Einstein estava certo quando afirmou: “Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, quanto ao universo, ainda não estou completamente certo disso”.

A década perdida da música brasileira

Recordando os tristes anos de 1990, a década perdida da música brasileira, o império da axé music na indústria fonográfica nacional proporcionou algumas das mais constrangedoras composições que alguém, su­postamente um ser racional, já foi capaz de escrever. Naqueles idos, expressões do quilate de “vai dançando gostoso, balançando a bundinha” tornaram-se símbolos de uma geração destruída pelo assédio constante da lógica hedonista do “prazer carnavalesco ininterrupto, curtição acéfala e exibicionismo de corpos plasticamente esculpidos na academia”. Era o princípio de uma tendência irrefreável, que só se acentuaria ao longo dos anos na música brasileira: a substituição do cérebro pelas nádegas. Era o começo da MIB: Música Imbecil Brasileira. O acrônimo de uma geração de jovens destruída pela estultice.

O grau de estupidez a que os ouvidos humanos foram submetidos nessa “idade das trevas” das rádios do País pode ser muito bem representado num dos hits do mais emblemático dos grupos surgidos no período. Refiro-me ao É o Tchan e a sua antológica “Na boquinha da garrafa”, sucesso radiofônico absoluto, cujas coreografias foram repetidas incessantemente em programas de auditório dominicais, com suas dançarinas calipígias “engatando” bem-sucedidas carreiras nas capas de revistas masculinas e no mundo das sub-celebrity. Vejamos: “No samba ela gosta do rala, rala. Me trocou pela garrafa. Não aguentou e foi ralar. Vai ralando na boquinha da garrafa. É na boca da garrafa. Vai descendo na boquinha da garrafa. É na boca da garrafa”.

A letra dispensa comentários e, por si só, revela a mais absoluta falta de respeito próprio, menos de quem compôs e produziu o grupo — um empresário na tarefa de lucrar na indústria do kitsch —, mais da parte de quem anotou na sua biografia momentos de supremo constrangimento “ralando na boquinha da garrafa”.

Quanto ao exibicionismo a que me refiro como caracterizador do período, este se notava na quantidade imensa de pessoas que passaram a trajar abadás multicoloridos qual uniformes denotativos de um suposto status citadino jovem, com os símbolos do “carnaval fora de época”. Havia mesmo uma hierarquia curiosa nas vestimentas: dependendo da cor do abadá, o sujeito era “playboy/patricinha” ou “pobre/povão”, pois já se sabia antecipadamente o preço elevado que se pagava para estar no bloco da “cervejada” ou dos “chicleteiros”, relegando o setor da “pipoca” para o vulgacho empobrecido. Foi também uma época de criatividade única no desenvolvimento de coreografias para as muitas “danças” que surgiam: do vampiro, da manivela, da tartaruga, do tamanduá, do morcego. Quase toda a fauna brasileira foi vilipendiada, digo, homenageada nessas composições.

Ivete Sangalo merece uma atenção especial. Originalmente vocalista da Banda Eva, seguiu o caminho para o qual todo “artista” de axé está direcionado: a carreira solo. Sangalo soube aproveitar como ninguém a catapulta. Carismática e muito bem assessorada, ela sabia que seu repertório grotesco não a sustentaria mais do que alguns verões fora de Salvador. Assim, tratou de cultivar uma imagem que a projetasse como cantora para além da axé music, que principiava a agonizar nas vendas das gravadoras. Hoje, contando com o apoio de quase toda a mass media brasileira, que a tem por “grande cantora”, é empurrada “goela abaixo” do público pela televisão, que lhe dá um espaço imenso nos principais canais abertos, sem contar os sucessivos apelos propagandísticos. Mas nem toda a máquina publicitária pode esconder a péssima qualidade do seu repertório, que não resiste a um exame qualitativo mais minucioso. “Carro velho”, sucesso comercial na sua voz, revela bem o quão criativa é a leitura de mundo da cantora: “Cheiro de pneu queimado. Carburador furado. Coração dilacerado. Quero meu negão do lado. Cabelo penteado. No meu carro envenenado. Eu vou, eu vou, então venha. Pois eu sei. Que amar a pé, amor. É lenha”.

Nos anos 2000, no entanto, a axé music entrou em colapso no mercado. Os carnavais fora de época (micaretas) foram aos poucos desaparecendo pela perda crescente de público. Os grupos “clássicos” do período deixaram de existir não por brigas de seus integrantes, mas pela simples falta de shows. O mercado usou e abusou da axé music enquanto era lucrativa. Quando deixou de sê-lo, descartou-a, substituída que foi, nas rádios comerciais, pelo forró universitário e pelo funk carioca (cuja nomenclatura correta é “batidão”). Nem mesmo o movimento da “suingueira”, capitaneado por “pérolas” do nível de “Re­bolation”, associado a um amplo apelo midiático que tem por diretriz espicaçar os “sucessos do carnaval”, conseguiu ressuscitar o declínio inexorável daquele gênero musical moribundo.

O jovem hedonista do século 21 no Brasil

Entretanto, o mercado, no capitalismo, nunca pode parar na sua incessante busca pela rentabilidade. Ele precisa encontrar novos meios de entretenimento que gerem lucros vultosos. A fórmula mais fácil disso é, indiscutivelmente, estimular a imbecilidade da juventude. Sem escrúpulos.

Os meios de comunicação de massa cumprem, então, o seu papel: associam a ideia de “ser jovem” com a de “ser um imbecil”, aqui entendido como um irresponsável, que não se importa com nada que não seja o próprio prazer, imediato, rápido, fluido, como deve ser a linguagem nos tempos da globalização digital.

O sertanejo universitário surge nesse contexto. Ele vem ocupar o espaço dos ritmos que se prestam a proporcionar “diversão sem compromisso”, expressão que não quer outra coisa senão mascarar a baixíssima qualidade da música produzida, além de servir como sentença de absolvição da mediocridade humana de quem ouve esse estilo. Entender o estereótipo do sertanejo universitário, dessa ma­nei­ra, afigura-se como sendo da mais alta relevância para a compreensão da ideia corrente do que é ser um jovem hedonista no século 21. É o desafio a que me proponho a partir de agora.

O perfil estereotípico do sertanejo universitário

Naturalmente, numa empresa dessa envergadura, precisarei recorrer às letras de algumas das composições mais re­presentativas do estilo. Cuida-se de analisar como pensam os grandes artistas do gênero para, ao final, ro­bustecer um juízo estético-sociológico sobre este conceito indecifrável do “sertanejo universitário”.

Nesse sentido, creio que uma das suas primeiras características é o desapego aos estudos. O sertanejo universitário é um hedonista por excelência. Seu adágio popular dileto, alçado à condição de mote da própria vida, é o clichê: “Pra que estudar se o futuro é a morte?”.

Desse modo, pode ser concebido como um jovem, de péssima formação intelectual e que, a despeito de cursar uma faculdade, não está nem um pouco preocupado com os estudos. Para ele, só existe a balada (o prazer imediato). É o que notamos na composição “Bolo doido”, da dupla “Guilherme e Santiago”: “Ai ai ai sexta-feira chegou! quem não guenta bebe leite e quem guenta vem comigo. Na sexta-feira o bar virou uma micareta. Mulherada foi solteira e os meus amigos loucos pra beber. Da faculdade eu fui pra festa tomar todas com a galera. E fiz amor até amanhecer. Toquei direto, fui à praia com as gatinhas na gandaia. Minha galera bota é pra ferver. Segunda de madrugada, travado, cheguei em casa. Sete horas acordei com uma ressaca, tinha prova pra fazer”.

Mas o sertanejo universitário, para levar uma vida de “baladeiro”, necessita de dinheiro, pois o vil metal tem o condão de, simultaneamente, torná-lo cliente especial da sociedade de consumo e despertar o interesse das garotas mais lindas da balada — verdadeiras empreendedoras no varejo dos relacionamentos humanos. Ele é, assim, um sujeito endinheirado. É o que se observa na composição “Ca­maro amarelo”, da dupla Mu­nhoz e Mariano: “Quando eu passava por você. Na minha CG você nem me olhava. Fazia de tudo pra me ver, pra me perceber. Mas nem me olhava. Aí veio a herança do meu ‘véio’. E resolveu os meus problemas, minha situação. E do dia pra noite fiquei rico. ‘To’ na grife, ‘to’ bonito, ‘to’ andando igual patrão. Agora eu fiquei doce igual caramelo. ‘To’ tirando onda de Camaro amarelo. E agora você diz: vem cá que eu te quero. Quando eu passo no Camaro amarelo”.

Já sabemos, portanto, que o sertanejo, do tipo universitário, é jovem, de posses, sai da faculdade com seu Camaro amarelo direto para a balada e “bota a galera pra ferver”. Há quem lhe custeie os estudos. E, ainda que ao final de quatro ou cinco anos saia da faculdade no nível de um analfabeto funcional, seus genitores são suficientemente influentes para arranjar-lhe uma boa posição na iniciativa privada ou mesmo no serviço público.

O sertanejo universitário é sujeito destemido, porém sensível. Tem o dom da poesia in­crustado nas suas veias. Na balada, este santuário da “pegação da mulherada”, sente a verve aflorar com facilidade, produzindo versos riquíssimos, como os que se notam na composição “Ai se eu te Pego”, do cantor Michel Teló: “Sábado na balada. A galera começou a dançar. E passou a menina mais linda. Tomei coragem e comecei a falar. Nossa, nossa. Assim você me mata. Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego”.

De fato, é preciso ser muito perspicaz para rimar “dançar” com “falar”. Sobretudo, me impressiona a profundidade dos versos: quando passa a menina mais linda, ele toma coragem e fala. É um movimento controlado, premeditado. O eu lírico “toma coragem” e “parte para a caça” na balada. Inspirado pela beleza da garota, ele se aproxima e a corteja de uma maneira que qualquer mulher, de Carla Perez a Susan Sontag, sentir-se-ia enamorada: “Ai se eu te pego”, “ai se eu te pego”, ele repete à exaustão o verso aos ouvidos da “garota mais gostosa”.

Contudo, talvez a característica mais significativa desta personagem — o sertanejo universitário — seja mesmo a preferência pelo “idioma da velocidade”. Sertanejo que é sertanejo universitário evita a prolixidade; é sucinto, direto, objetivo. Sua linguagem despreza floreios verbais, construções frasais longas, vocábulos de difícil entendimento. Dado o portento de seu talento poético, ele acentua a desnecessidade do vocabulário complexo, adepto que é da lógica do “dizer muito com muito pouco” ou do “falar fácil é que é difícil”. Conhecedor profundo da fonologia da gramática da língua portuguesa, ele lança mão do rico alfabeto fonético do idioma românico-galego e, conjugando-o com seu ideal filosófico de concisão e com as técnicas redacionais modernas que enaltecem o “texto enxuto”, passa a compor valorizando a mínima emissão de voz na entonação dos seus versos, economizando em palavras o que pode expressar, em seu entender, perfeitamente com vocábulos monossílabos. É daí que nasce a tendência manifesta das composições do estilo em priorizar a vocalização de uma única sílaba. Exemplificativamente, temos: “Eu quero tchu, eu quero tcha”, de João Lucas e Marcelo: “Eu quero tchu, eu quero tchã. Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tchã. Tchu tcha tcha tchu tchu tchã”.

“Eu quero tchu, eu quero tcha” é, sem dúvida, um dos mais formidáveis exemplos de como se pode economizar palavras, de como se pode fundir o dígrafo consonantal “ch” com o “t” e uma vogal (“a” ou “u”) e criar um hit nacional. O significado poético-filosófico do “tchu” e do “tcha” na composição também merece registro: o eu lírico cria um jogo de contrastes, antitético como as leis da dialética, onde o “tchu” só existe para o “tcha”, de modo que não pode haver “tcha” sem “tchu” nem “tchu” sem “tcha”. Daí o porquê de invocar-se as expressões alternadamente, silabando-as na velocidade da luz: “Tchu tcha tcha tchu tchu tchã”.

Na mesma linha vem a composição “Tchá tchá tchá”, cantada por Thaeme e Thiago: “Ai que vontade, ai que vontade que me dá. De te colocar no colo e fazer o tchá tchá tchã. Tchá tchá tchá, Tchá tchá tchã. Tchá tchá tchá, Tchá tchá tchã. De beijar na sua boca fazer o tchá tchá tchã. Tchá tchá tchá, Tchá tchá tchã. Tchá tchá tchá, Tchá tchá tchã. De beijar na sua boca e fazer o tchá tchá tchã”.

Outro exemplo notável do uso de monossílabos é observável em “Lê lê lê”, de João Neto e Fre­derico. Vejamos: “Sou simples. Mas eu te garanto. Eu sei fazer o Lê lê lê. Lê lê lê. Lê lê lê. Se eu te pegar você vai ver. Lê lê lê. Lê lê lê”.

Mais uma vez temos o eu lírico usando de monossílabos, economizando em palavras, porque riqueza vocabular tornou-se algo desprezível. Sendo possível conotar com um mero “lê”, por que falar mais? O “lê, lê, lê”, no entanto, guarda uma mensagem subliminar perigosa: se tomado isoladamente na segunda pessoa do imperativo afirmativo, pode vir a constituir-se em ordem para leitura. Nada mais distante do que pretende o compositor e a “filosofia de vida” que a­nima o sertanejo que frequenta a universidade. Logo, é preciso apreender o “lê lê lê” de maneira contextualizada, ou seja, como registro onomatopaico que emula o sentimento de auto compensação libidinosa do eu lírico diante da vergonha que é, numa sociedade de consumo, ter uma condição financeira oprobriosa.

A era da imbecilidade monossilábica

A partir das breves linhas expostas acima, penso que o leitor já se encontra habilitado a conceituar este personagem enigmático do cancioneiro nacional: o sertanejo universitário. Trata-se de um modelo hedônico de uma sociedade capitalista hedonista, marcadamente voltado ao consumo, onde ser um “idiota”, um “imbecil completo”, não só não é motivo de desonra — própria e familiar — como se consubstancia num status socialmente tolerado (diria mesmo instigado). É o estereótipo desejável da sociedade globalizada por relações líquidas sob o elo do idioma da velocidade: no falar, no vestir, no relacionar-se, tudo que se refere ao gênero humano passa numa piscadela. Na música, não é diferente. Predomina o sertanejo universitário como o modelo supremo da juventude irresponsável, mediocrizada, de baixíssimo nível cultural. As composições são cunhadas no esteio da pobreza vocabular de quem as escreve, mas também de quem as canta — em ambos os casos denunciando a mais absoluta falta de leitura. É um autêntico movimento circular, no qual aquele que nada tem a oferecer intelectualmente alimenta com sua arte quem já se encontra morrendo de inanição cerebral.

Por essas razões é que me sinto autorizado a declarar que, depois da hecatombe cerebral que a axé mu­sic proporcionou na década de 1990, contribuindo decisivamente na deseducação do povo brasileiro com seus versos de “balançando a bundinha” e “boquinha da garrafa”, o sertanejo universitário, gestado pela indústria fonográfica em crise, desponta como o meio mais fácil de lucrar em cima do desejo hedonístico, cotidianamente instigado pelos meios de comunicação, que impele o jovem a aproveitar a vida a qualquer preço, de qualquer maneira, custe o que custar — incluindo o próprio senso do ridículo daqueles aos quais falta massa encefálica para perceber o quão patético é idolatrar “artistas” incapazes de compor com vocábulos polissílabos. É quando aos olhos de uma garota, na balada, torna-se “bonito” ser um completo idiota. Com o sertanejo universitário, a MIB entrou definitivamente na “era da imbecilidade monossilábica”.

http://www.revistabula.com/332-mib-musica-imbecil-brasileira-o-sertanejo-universitario-na-era-da-imbecilidade-monossilabica/#sthash.h0zQiADf.dpuf

Congresso Brasileiro de Agroecologia - LEONARDO BOFF: “BIOREGIONALISMO, CONTRAPONTO ECOLÓGICO À GLOBALIZAÇÃO”.

25/11/2013 06:56

Coube a um dos maiores pensadores mundiais da atualidade, Leonardo Boff, a palestra de abertura do VIII Congresso Brasileiro de Agroecologia (Porto Alegre, PUC, de 25 a 28 de novembro). Boff é autor de mais de 60 livros nas áreas de Ecologia, Teologia, Espiritualidade, Filosofia e Antropologia; professor-visitante nas universidades de Lisboa/Portugal, Salamanca/Espanha, Harvard/EUA, Basel/Suíça e Heidelberg/Alemanha, um dos autores mais traduzidos no mundo e, em 2001, foi o ganhador Prêmio Nobel Alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).

Veja algumas das reflexões que Boff compartilhou em Porto Alegre:

“Estamos trabalhando com um conceito de bioregionalismo, que se apresenta como alternativa à globalização homogeneizadora, valorizando os bens e serviços de cada região com sua população e cultura”.

“Já há um consenso de que o ser humano e o planeta terra formam um todo orgânico. Antes, dizia-se que isso era ´coisa de indígenas` mas hoje a ciência reconhece que é assim mesmo”.

“Ainda podemos evitar a tragédia. A agroecologia é um novo começo.”

“A terra está a inspirar cuidados. E não se trata de cobrir o corpo machucado com esparadrapos, mas de curá-lo; porque tudo o que vive, só sobrevive se for permanentemente cuidado. Devemos, então, cuidar da terra de modo a sanar suas feridas e, ao mesmo tempo, impedir que novas feridas se façam”.

“Um dos mais renomados biólogos do mundo, o americano Edward Wilson, tem estudos que apontam para a extinção de 70 a 100 mil espécies de seres vivos por ano no planeta.”

“Meu companheiro de estudos, o físico e escritor austríaco Fritjof Capra diz que o mundo está a exigir escolas de alfabetização ecológica. Não para crianças, mas para empresários, que são os maiores responsáveis pela catástrofe ambiental que vivemos”.

“A terra sempre responde com grande generosidade aos que dela cuidam. Um agricultor me contou que,  em apenas dois hectares, conseguiu gerar 40 produtos e obter uma renda de 900 salários mínimos por ano numa propriedade agroecológica.”

“A responsabilidade pelo futuro é coletiva. A política e a economia devem estar a serviço do ´sistema vida`.”

http://www.bohngass.com.br/bohngass/noticias/item?item_id=1162676