HILDEGARD ANGEL - 28
DE DEZEMBRO DE 2013 ÀS 17:31
O
fascismo se expande hoje nas mídias sociais, forte e feioso como um espinheiro
contorcido, que vai se estendendo, engrossando o tronco, ampliando os ramos,
envolvendo incautos, os jovens principalmente, e sufocando os argumentos que
surgem, com seu modo truculento de ser.
Para
isso, utiliza-se de falsas informações, distorções de fatos, episódios, números
e estatísticas, da História recente e da remota, sem o menor pudor ou
comprometimento com a verdade, a não ser com seu compromisso de dar conta de um
Projeto.
Sim,
um Projeto moldado na mesma forma que produziu 1964, que, os minimamente
informados sabem, foi fruto de um bem urdido plano, levando uma fatia da
população brasileira, a crédula classe média, a um processo de coletiva
histeria, de programado pânico, no receio de que o país fosse invadido por
malvados de um fictício Exército Vermelho, que lhes tomaria os bens e as casas,
mataria suas criancinhas, lhes tiraria a liberdade de ir, vir e até a de escolher.
Assim,
orientada por esse Projeto, a chamada elite, que na época influenciava o
pensamento da classe média mais baixa e mantinha um "cabresto de
opinião" sobre seus assalariados, foi às ruas com as marchas católicas
engrossadas pelos seus serviçais ao lado das madames.
Muitas
mais tarde se arrependeram, ao constatar o quanto foram manipuladas e
contribuíram para mergulhar o país nos horrores de maldades medievais.
Agora,
os mesmos coroados, arquitetos de tudo aquilo, reescrevem aquele conto de horror
a seu jeito, fazendo do mocinho bandido e do bandido mocinho, pois a História,
meus amores, é contada pelos vencedores. E eles venceram. Eles sempre vencem.
Sim,
leitores, compreendo quando me chamam de "esquerdista retardatária"
ou coisa parecida. Esse meu impulso, certamente tardio, eu até diria sabiamente
tardio, preservou-me a vida para hoje falar, quando tantos agora se calam; para
agir e atuar pela campanha de Dilma, nos primórdios do primeiro turno, quando
todos se escondiam, desviavam os olhos, eram reticentes, não declaravam votos,
não atendiam aos telefonemas, não aceitavam convites.
Essa
minha coragem, como alguns denominam, de apoiar José Dirceu, que de fato sequer
meu amigo era, e de me aprofundar nos meandros da AP 470, a ponto de concluir
que não se trata de "mensalão", conforme a mídia a rotula, mas de
"mentirão" – royalties para mim, em pronunciamento na ABI. Eu, a
tímida, medrosa, reticente "Hildezinha", ousando pronunciamentos na
ABI! O que terá dado nela? O que terá se operado em mim?
Esse
extemporâneo destemor teve uma irrefreável motivação: o medo maior do que o meu
medo. Medo da Sombra de 64. Pânico superior àquele que me congelou durante uma
década ou mais, que paralisou meu pensamento, bloqueou minha percepção, a
inteligência até, cegou qualquer possibilidade de reação, em nome talvez de não
deixar sequer uma fresta, passagem mínima de oxigênio que fosse à minha
consciência, pois me custaria tal dor na alma, tal desespero, tamanhas
infelicidade, noção de impotência absoluta e desesperança, ao encarar a face
verdadeira da Humanidade, o rosto real daqueles que aprendi a amar, a confiar,
que certamente sucumbiria...
Não,
eu não suportaria respirar o mesmo ar, este ar não poderia invadir os meus
pulmões, bombear o meu coração, chegar ao meu cérebro. Eu não sobreviveria à
dor de constatar que não era nada daquilo que sempre me foi dito pelos meus,
minha família, que desde sempre me foi ensinado: o princípio e mandamento de
que a gente pode, com o bem, neutralizar o mal. Eu acreditava tão intensa e
ingenuamente no encanto da bondade, que seguia sobre a nojeira como se
flutuasse, sem percebê-la, sem pisar nela, como se caminhasse sobre flores.
As
pessoas se admiravam: "Como a Hilde, que tanto sofreu, não guarda rancores
e mágoas no seu coração?".
E
aí, passadas as tragédias, vividas e sentidas todas elas em nossas carnes,
histórias e mentes, porém não esquecidas; viradas as páginas, amenizado o
tempo... deu-se então o início daquela operação midiática monumental,
desproporcional, como se tanques de guerra, uma infantaria inteira, bateria de
canhões, frotas aérea e marítima combatessem um único mortal - José Dirceu –
tentando destrui-lo. Foi quando percebi, apreensiva, esgueirar-se sobre a nossa
tão suada democracia a Sombra de 64!
Era
o início do Projeto tramado para desqualificar a luta heroica daqueles jovens
martirizados, trucidados e mortos por Eles, o establishment sem nomes e sem
rostos, que lastreou a Ditadura, cuja conta os militares pagaram sozinhos. Mas
eles não estiveram sozinhos.
Isso
não podia ser, não fazia sentido assistir a esse massacre impassível. Decidi
apoiar José Dirceu. Fiz um jantar para ele em casa. Chamei pessoas importantes,
algumas que pouco conhecia. Cientistas políticos, jornalistas de Brasília,
homens da esquerda, do centro, petistas, companheiros de Stuart do MR8,
religiosos, artistas engajados. Muitos vieram, muitos declinaram. Foi uma
reunião importante. A primeira em torno dele, uma das raras. Porém não a única.
E disso muito me orgulho.
Um
colunista amigo, muito importante, estupefato talvez com minha
"audácia" (ou, quem sabe, penalizado), teve o cuidado de me
telefonar, na véspera, perguntando-me gentilmente se eu não me incomodava de
ele publicar no jornal que eu faria o jantar. "Ao contrário – eu disse –
faço questão".
Ele
sabia que, a partir daquele momento, eu estaria atravessando o meu Rubicão.
Teria um preço a pagar por isso.
Lembrei-me
de uma frase de minha mãe: "A gente nunca perde por ser legítima".
Ela se referia à moda que praticava. Adaptei-a à minha vida.
No
início da campanha eleitoral Serra x Dilma, ao ler aqueles sórdidos emails
baixaria que invadiam minha caixa, percebi com maior intensidade a Sombra de 64
se adensando sobre nosso país.
Rapidamente
a Sombra se alastrou e, com eficiência, ampliou-se nos últimos anos, alcançando
seu auge neste 2013, instaurando no país o clima inquisitorial daquela época
passada, com jovens e velhos fundamentalistas assombrando o Facebook e o
Twitter. Revivals da TFP, inspirando Ku Klux Klan, macartismo e todas as
variações de fanatismo de direita.
É
o Projeto do Mal de 64 de novo ganhando corpo. O mesmo espinheiro das florestas
de rainhas más, que enclausuram príncipes, princesas, duendes, robin hoods,
elfos e anõezinhos.
Para
alguns, imagens toscas de contos de fadas. Para mim, que vi meu pai americano
sustentar orfanato de crianças brasileiras com a produção de anõezinhos de
Branca de Neve de jardim, e depois uma Bruxa Má, a Ditadura, vir e levar para
sempre o nosso príncipe encantado, torturando-o em espinheiros e jamais
devolvendo seu corpo esfolado, abandonado em paradeiro não sabido, trata-se de
um conto trágico, eternamente real.
Conforme
disse minha mãe, e escreveu a lápis na margem da carta que entregou a Chico
Buarque, denunciando que seria assassinada: "Estejam certos de que não
estou vendo fantasmas".
Feliz
Ano Novo.
Inclusive
para aqueles injustamente enclausurados, cujas penas não estão sendo cumpridas
de acordo com as sentenças.
É
o que desejo do fundo de meu coração.
http://www.brasil247.com/pt/247/artigos/125297/A-gente-nunca-perde-por-ser-leg%C3%ADtimo-mas-quem-conta-a-hist%C3%B3ria-s%C3%A3o-os-vencedores-N%C3%A3o-esque%C3%A7am.htm
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