quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Por que a geração atual se nega a debater temas sociais e políticos?

Por Luiz Etevaldo da Silva - Qua, 18 de fevereiro de 2015.

A maior parte das pessoas que trabalham com educação certamente concorda que está sendo cada vez mais difícil conseguir envolver a atual geração nos debates sociais e políticos. Mas, porque este estilo de vida arredio, que não quer saber de discutir temas que diz respeito à vida, a história de um país ou comunidade?

Preparando-me para trabalhar com Filosofia, Sociologia e História neste ano letivo com o Ensino Médio, já vou me articulando psicologicamente para enfrentar a situação que me espera.

Começo analisando um fenômeno político, que repercute no social e cultural de maneira profunda, que é a política neoliberal. Tendo o econômico como centro da proposta, pois representa a fase atual do capitalismo. Contudo, o que vou trazer para reflexão é a cultura que tem criado a política neoliberal, dos últimos 30 anos, aproximadamente.

A cultura neoliberal foi conduzida muito bem por seus teóricos, no sentido de trabalhar a subjetivação dos indivíduos para constituir uma consciência domesticada, que viessem a aceitar passivamente os princípios e concepções modelo de sociedade.

A cultura neoliberal tem o objetivo formar homens e mulheres que não questionem a ordem atual, sejam levados pelo “espírito de rebanho”. Neste processo social, há os que pensam a organização social e os executam as tarefas. As pessoas ao se negarem ou se desinteressarem a discutir temas políticos ou sociais não é algo aleatório, por acaso, mas algo muito bem pensado pelos teóricos neoliberais.

A ressonância da ideologia neoliberal se dá no conteúdo da grande mídia, aqui no Brasil, por exemplo. Algumas pessoas perguntam, às vezes, porque a TV, rádios, jornais, revistas, não ajudam a educar o povo, proporcionando debates para politizar os indivíduos? Isto acontece porque a política neoliberal não tem este objetivo, constituir cidadãos críticos.

A política neoliberal, simplificando para os que não têm leitura aprofundada sobre o assunto, é o nome da ideologia do capitalismo, sua forma de pensar no sentido de possibilitar a continuidade da produção e reprodução do capital. Mas eles também precisam controlar a mente das pessoas para que elas não venham questionar o sistema.

Para o professor doutor em Filosofia pela PUC-SP, Antônio Joaquim Severino, a agenda neoliberal é uma retomada dos princípios do liberalismo clássico, mas com a devida correção de seus desvios humanitários. O que está em pauta é a total liberação das forças do mercado, a quem cabe a efetiva condução da vida das nações e das pessoas.

A política neoliberal opera uma severa crítica ao Estado de Bem Estar Social, propondo-se um estado mínimo, em seu papel e funções (Severino, 2009, p. 73).

Neste sentido, as políticas que seguem a lógica neoliberal não tem preocupação com o social e sim com o capital. A educação nesta lógica visa preparar os indivíduos para servir ao sistema, serem colaboradores com a produção do capital. A estes sujeitos, em síntese, está posto o compromisso de obedecer as ordens dos chefes e não questionar.

Por este viés, o indivíduo precisa aprender a fazer, e não discutir porque está fazendo, ou para quem? O sujeito tem que se preocupar é com o trabalho produtivo e não ficar debatendo questões sociais, relativas às injustiças, exploração, direitos humanos, enfim, qualidade de vida.

Inclusive, segundo Boaventura Sousa Santos, sociólogo português, há uma crescente judicialização das questões trabalhistas, pois ao invés de o trabalhador lutar coletivamente para conquista ou defender direitos, ele contrata um advogado e recorre ao judiciário.

Quando a entidade de classe o convoca para movimentos de trabalhadores, ele não participa, pois espera que a justiça restaure o direito que entende justo. É a lógica do individualismo que prepondera sobre a coletiva, de classe.

A reflexão ético-moral, na atual fase do desenvolvimento do capitalismo, geralmente, é silenciada. Sendo assim, o que está acontecendo no presente momento histórico é algo muito bem pensado pelos teóricos neoliberais, pela pedagogia do capital.

Os professores André S. Martins e Lúcia M. W. Neves, doutores em Educação, definem por pedagogia do capital as estratégias de dominação de classe utilizadas pela burguesia a fim de obter o consentimento do conjunto da população para seu projeto político nas diferentes formações sociais concretas [...] (Dicionário da Educação do Campo, 2012, p. 540).

Segundo os professores Martins e Neves, as estratégias de educação política da pedagogia do capital se denomina pedagógica da hegemonia. Ela é cuidadosamente organizada por intelectuais orgânicos ligados ao projeto de sociedade capitalista, indivíduos que formulam e difundem no conjunto da sociedade as ideias, valores e práticas para criar o consenso e conformação moral e intelectual do conjunto da população a um padrão de sociabilidade.

Quanto mais confinado ao seu espaço privado o indivíduo ficar, melhor será para o sistema. O individualismo é um valor importante na lógica neoliberal. Está em curso uma lógica, que “prevalece u, espírito de niilismo axiológico, de esvaziamento de todos os valores, de fim das utopias e meta narrativas, da esperança de um futuro melhor, de incapacidade de construir projetos. A eficiência e a produtividade são os únicos critérios válidos” (Severino). 

O homem educado pela lógica neoliberal é propenso a ser um sujeito que trabalha para produzir o capital e sobreviver com ele, lutando no dia a dia, vivendo, muitas vezes, em condições precárias, mas sendo um potencial consumidor.

Para Zygmunt Bauman, estamos vivendo em uma sociedade de consumidores – o que é verdadeiro – e todos participam dessa sociedade. E o que é mais notável, na minha opinião, o impacto mais criminoso da cultura consumista é que cada loja, independentemente do que está em suas prateleiras, do que anuncia e dos objetos que vende, todas essas lojas são farmácias.

Segundo ele, elas vendem medicamentos para problemas da vida. E todos os tipos de problemas da vida, todos os caminhos para a felicidade, todos eles passam pelas lojas. O que, naturalmente, leva à desqualificação social dos indivíduos contemporâneos. As pessoas costumavam ter habilidades para lutarem contra os problemas da vida real por conta própria. Bem ou malsucedidas no risco de combater seus problemas, havia um risco e as pessoas desenvolviam as habilidades para enfrentá-lo. Agora, essas habilidades foram substituídas por compras.

O que Baumann descreve acima, talvez, sirva para entender um fenômeno muito comum, pessoas depressivas procuram aliviar as angústias e vazio existencial recorrendo às compras.

A pedagogia do capital educa o sujeito para ser um consumidor voraz, comprar o necessário e o desnecessário. Trocar de produtos de tempo em tempo, na medida em que aparece nova tecnologia, uma novidade.

Os jovens, por exemplo, são educados pela pedagogia do capital para obter prazer por meio do consumo. A jornalista Eliane Brum, escreveu que ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada.

Para ela, preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida.

Assim, segundo Eliane, e por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

O imediatismo é a tendência da cultura atual. Envolver-se em algo que está lá no futuro não é interessante para a atual geração. Muito menos se for relacionado a utopias. Segundo Bauman é um tipo de vida em que se compensa a falta de segurança, ou a falta de perspectivas, pela tentativa de desfrutar o máximo do presente, vivendo para o presente. Sociólogos dão nomes diferentes para esse fenômeno, alguns falam sobre a “tirania do momento”, outros falam sobre uma “cultura agorista”.

Para ele, quando o agora é imediato e “não venha me falar de longo prazo, eu não quero saber o que o ‘longo prazo’ vai trazer”, o agora é que é importante. Antes, era preciso trabalhar muito para adquirir aquilo que se queria.

Era preciso economizar por muitos e muitos anos para se obter algo, sacrificando seu tempo de lazer ou tempo livre para estudar e trabalhar, até conseguir. Agora as pessoas não gostam disso, qualquer que seja o prazer ou experiência possível, nós queremos agora (Baumann).

Mas, voltando à pergunta inicial, por que a geração atual se nega a debater temas sociais e políticos? No Brasil, em especial, temos mais um elemento importante a considerar, pois vivemos mais de 20 anos sob o arbítrio de uma ditadura civil-militar (1964-85), cuja política do silenciamento das pessoas podia ir ao extremo, através da censura.

Neste período poucas pessoas se atreviam ou tinham oportunidade de debater temas políticos ou sociais. A ordem era calar a boca e ficar quieto se não quisessem levar chumbo.

Nos currículos escolares componentes curriculares de Sociologia e Filosofia que podiam contribuir para uma opinião fundamentada sobre a história, o momento social em que viviam, foram banidos.

Assim, quem se viveu e se se educou neste tempo foi preparado para cuidar de sua vida privada e não se envolver em questões coletivas, de interesse popular. Como a maioria dos adolescentes de hoje tem pais que são desta época, então é compreensível que eles não queiram debater temas sociais. É uma questão de cultura.

Mas veio a democracia, e daí a liberdade, a partir de 1985, porque as pessoas continuaram no silencio? Verdade, mas no Brasil foi exatamente nesta fase histórica que chega aqui a política neoliberal. Neste sentido, saiamos da ditadura política e caímos na ditadura do capital, já descrita anteriormente.

Em resumo, quem tem cerca de 50 anos viveu sob as tiranias da ditadura civil-militar e da ditadura do capital, via cultura neoliberal. A geração atual é resultado da história e da cultura que construiu ela. Está aí uma hipótese do porque as pessoas não querem participar de discussões, de participar de movimentos coletivos, em defesa de políticas públicas.

Cada vez está sendo mais difícil mobilizar trabalhadores para reivindicar direitos, para participar de associações de bairros, de coletivos de mulheres, de estudantes, de trabalho coletivo, pois a cultura neoliberal e da ditadura civil-militar trabalhou meio século, aproximadamente, para criar este cenário social.

Luiz Etevaldo da Silva é Mestre em Educação.
http://www.ijui.com/artigos//71572-por-que-a-geracao-atual-se-nega-a-debater-temas-sociais-e-politicos-por-luiz-etevaldo-da-silva.html

De uma guerra fria a outra?

Por Emir Sader em 25/12/2014 às 10:47

“Os últimos soldados da guerra fria” seriam, segundo o título do livro do Fernando Morais, os 5 cubanos que agora se reuniram em Cuba, depois da espetacular operação diplomática de normalização das relações com os EUA. Teria sido virada a última página da guerra fria.

Uma guerra fria (ou paz armada, especialmente de armamentos nucleares, o que explicava o equilíbrio relativo entre os dois campos e a impossibilidade de uma outra guerra aberta) que teve seu auge em todo o período do segundo pós-guerra até o fim da URSS. A queda do Muro de Berlim desarmou o símbolo maior da guerra fria, que seguiu tendo em Cuba sua sobrevivência, até os acordos recentes.

Vitoriosos na guerra fria, os EUA acreditavam que se imporiam solitários no novo mundo globalizado. Chegaram até em pensar no bombardeio da Síria e, por extensão, do Irã. Ate que o Obama se deu conta que, nas suas próprias palavras, não conseguiu apoio para bombardear a Siria, nem sequer na sua própria família. E recordou-se que se pode fazer tudo com uma baioneta, menos sentar-se encima delas.

E teve que aceitar a proposta russa de negociação com a Síria e, por extensão, com o Irã, na metade de 2013. Instalava-se um clima de relativa distensão nas relações entre os EUA e a Rússia.

Até que o assanhamento da UE e dos próprios EUA com a Ucrânia levaram à derrubada do governo e a excitação pela adesão do pais à UE e até à Otan. Se esqueceram que nos acordos de capitulação do Gorbachev diante de Ronald Reagan havia uma única ressalva: que avançassem sobre o espólio do ex-campo socialista, mas preservassem as fronteiras com a Rússia.

A reação russa não se fez esperar: com o apoio total da população local, reincorporou a Crimeia a seu território e colocou os limites para os avanços das potências ocidentais. Não demorou para a população das regiões próximas revelasse sua vontade de desmembrar-se da Ucrânia e seguir caminho similar ao da Crimeia.

As medidas de represália econômica à Russia tiveram respostas inesperadas para o Ocidente, que levava em consideração apenas o fornecimento de gás para a Europa como arma russa. Mas Putin suspendeu compras de produtos agrícolas da Europa e do EUA, passando a comprar de países latino-americanos, levando a que países europeus jogassem fora alimentos produzidos e sem possibilidade de comercializá-los.

A imprensa ocidental entoou gritos de guerra, chamando Obama de covarde, o próprio governo da Ucrânia diz não reconhecer a adesão da Crimeia à Rússia. Mas o que faz da nova situação uma nova guerra fria é exatamente a colocação de limites à ação dos EUA, incapazes de intervir militarmente na Ucrânia, pelas fronteiras com a Rússia recuperada em termos políticos e militares como potência.

Não se pode falar de uma nova guerra mundial, pelas mesmas razões daquela guerra fria: todos seriam aniquilados. Mas não bastam as declarações de que não seria uma nova guerra fria, porque se trata disso: da nova delimitação de dois campos internacionais de enfrentamento.

O estreitamento das alianças da Rússia com a China, do ponto de vista econômico e militar, assim como os acordos do Brics, contribuíram para configurar esse novo desenho geopolítico do mundo no século XXI. Já havia uma multipolaridade econômica no mundo, que fez com que países do Sul não fossem arrastados pela recessão no centro do capitalismo, mas revelassem capacidade de resistência, graças aos intercâmbios Sul-Sul. Agora essa resistência se transfere para o campo geopolítico, levando o mundo a um novo clima de guerra fria.
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