Publicado em 31-Mai-2012
Leonardo Boff
O vazio básico do documento da ONU para a Rio+20 reside numa completa ausência de uma nova narrativa ou de uma nova cosmologia que poderia garantir a esperança de um “futuro que queremos” lema do grande encontro. Assim como está, nega qualquer futuro promissor.
Para seus formuladores, o futuro depende da economia, pouco importa o adjetivo que se lhe agregue: sustentável ou verde. Especialmente a economia verde opera o grande assalto ao último reduto da natureza: transformar em mercadoria e colocar preço àquilo que é comum, natural, vital e insubstituível para a vida como a água, solos, fertilidade, florestas, genes etc. O que pertence à vida é sagrado e não pode ir para o mercado dos negócios. Mas está indo, sob o imperativo categórico: apropia-te de tudo, faça comércio com tudo, especialmente com a natureza e com seus bens e serviços.
Eis aqui o supremo egocentrismo e a arrogância dos seres humanos, chamado também de antropocentrismo. Estes veem a Terra como um armazém de recursos só para eles, sem se dar conta de que não somos os únicos a habitar a Terra nem somos seus proprietários; não nos sentimos parte da natureza, mas fora e acima dela como seus “mestres e donos”. Esquecemos, entretanto, que existe toda a comunidade de vida visível (5% da biosfera) e os quintilhões de quintilhões de microrganismos invisíveis (95%) que garantem a vitalidade e fecundidade da Terra. Todos estes pertencem ao condomínio Terra e têm direito de viver e conviver conosco. Sem as relações de interdependência com eles, sequer poderíamos existir. O documento desconsidera tudo isso. Podemos então dizer: Com ele não há salvação. Ele abre o caminho para o abismo. Enquanto tivermos tempo, urge evitá-lo.
Tal vazio se deriva da velha narrativa ou cosmologia. Por narrativa ou cosmologia entendemos a visão do mundo que subjaz às idéias, às práticas, aos hábitos e aos sonhos de uma sociedade. Por ela se procura explicar a origem, a evolução e o propósito do universo, da história e o lugar do ser humano.
A nossa atual é a narrativa ou a cosmologia da conquista do mundo em vista do progresso e do crescimento ilimitado. Caracteriza-se por ser mecanicista, determinística, atomística e reducionista. Por força desta narrativa 20% da população mundial controla e consome 80% de todos os recursos naturais; metade das grandes florestas foram destruídas, 65% das terras agricultáveis, perdidas, cerca de 27 a cem mil espécies de seres vivos desaparecem por ano (Wilson) e mais de mil agentes químicos sintéticos, a maioria tóxicos, são lançados na natureza. Construímos armas de destruição em massa, capazes de eliminar toda vida humana. O efeito final é o desequilíbrio do sistema-Terra que se expressa pelo aquecimento global. Com os gases já acumulados, até 2035 fatalmente se chegará a 3-4 graus Celsius, o que tornará a vida, assim como a conhecemos praticamente impossível.
A atual crise econômico-financeira que mergulha nações inteiras na miséria nos fazem perder a percepção do risco e conspiram contra qualquer mudança necessária de rumo.
Em contraposição, surge a narrativa ou a cosmologia do cuidado e da responsabilidade universal, potencialmente salvadora. Ela ganhou sua melhor expressão na Carta da Terra. Situa nossa realidade dentro da cosmogênese, aquele imenso processo de evolução que se iniciou há 13,7 bilhões de anos. O universo está continuamente se expandindo, se auto-organizando e se autocriando. Nele tudo é relação em redes e nada existe fora desta relação. Por isso todos os seres são interdependentes e colaboram entre si para garantirem o equilíbrio de todos os fatores. Missão humana reside em cuidar e manter essa harmonia sinfônica. Precisamos produzir, não para a acumulação e enriquecimento privado mas para o suficiente e decente para todos, respeitando os limites e ciclos da natureza.
Por detrás de todos os seres atua a Energia de fundo que deu origem e sustenta o universo permitindo emergências novas. A mais espetacular delas é a Terra viva e os humanos como a porção consciente dela, com a missão de cuidá-la e de responsabilizar-se por ela.
Esta nova narrativa garante “o futuro que queremos”. Do contrário seremos empurrados fatalmente ao caos coletivo com consequências funestas. Ela se revela inspiradora. Ao invés de fazer negócios com a natureza, nos colocamos no seio dela em profunda sintonia e sinergia, respeitando seus limites e buscando o "bem viver" que é a harmonia entre todos e com a mãe Terra. Característica desta nova cosmologia é o cuidado no lugar da dominação, o reconhecimento do valor intrínseco de cada ser e não sua mera utilização humana, o respeito por toda a vida e dos direitos da natureza e não sua exploração e a articulação da justiça ecológica com a social.
Esta narrativa está mais de acordo com as reais necessidades humanas e com a lógica do próprio universo. Se o documento Rio+20 a adotasse, como pano de fundo, criar-se-ia a oportunidade de uma civilização planetária na qual o cuidado, a cooperação, o amor, o respeito, a alegria e espiritualidade ganhariam centralidade. Tal opção apontaria, não para o abismo, mas para o “o futuro que queremos”: uma biocivilização da boa esperança.
Leonardo Boff é autor com Mark Hathaway de O Tao da Libertação: a ecologia da transformação, Vozes 2012.
http://www.zedirceu.com.br/index.php?option=com_content&task=blogcategory&id=30&Itemid=87
“A Constituição Federal, nos artigos 5°, incisos IV e IX, e 220, garante o direito individual e coletivo à manifestação do pensamento, à expressão e à informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, independentemente de licença e a salvo de toda restrição ou censura.”
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Caridade, Verdades e História
* Juarez Braga Zamberlan
A comunidade trespassense e regional assiste surpresa as denúncias e investigações de supostos crimes no Hospital de Caridade, envolvendo administradores e correlatos. O Ministério Público atua com firmeza. Em breve a sociedade terá informações oficiais sobre o caso. De repente, conclui-se que a corrupção – essa praga que assola o país, não existe somente “lá em cima, em Brasília.” Ao contrário, ela nos rodeia. Faltam-nos olhos e vontade para enxergá-la. Às vezes está bem mais perto do que se imagina.
A propósito, foi instalada recentemente pelo Governo Federal, a Comissão da Verdade, com a finalidade de trazer a público, fatos históricos envolvendo crimes de Estado praticados no período da ditadura militar, ainda não apurados com o devido rigor, em função da lei de autoanistia aprovada em 1979. Os militares e amigos saudosos daqueles tempos babam de raiva. Os familiares de torturados, mortos e desaparecidos torcem para que a Comissão traga luz aos acontecimentos recentes da nossa República, a exemplo do que fazem nossos vizinhos e outros países que, infelizmente, também sofreram com regimes ditatoriais, de esquerda ou de direita.
Desconhecem os mais jovens que o mesmo prédio do Hospital de Caridade, onde nos últimos cinco anos teriam sido praticados atos de desvios de recursos públicos do SUS, também foi palco de ações militares que interessam à Comissão da Verdade, ou seja, violência e tortura.
Em maio de 1970, as acomodações que hoje buscam recuperar a saúde dos doentes, eram ocupadas por diversos presos políticos ligados à Vanguarda Popular Revolucionária – VPR, que lutava contra a ditadura, a exemplo de outros movimentos de esquerda. A base do grupo era em Barra do Turvo, onde foi instalada, como fachada, uma empresa pesqueira. Tudo financiado com o dinheiro encontrado no cofre da amante carioca do ex-governador Adhemar de Barros, praticante da teoria “rouba, mas faz”.
Foram presos Reneu Geraldino Mertz e José Bueno Trindade, a época vereadores de oposição em Três Passos, além do italiano líder do grupo, Roberto de Fortini. O jovem estudante Antonio Alberi Maffi, posteriormente eleito prefeito em dois mandatos em Braga também integrava o grupo. Lembro dele pilotando a F4000 furgão da Pesqueira.
O jornal O Observador, edição de 16/05/1970, relaciona os nomes dos que foram presos e liberados após depoimento: Pedro Castilhos da Luz, Seno Pedro Franzenkrever, Tamarino de Oliveira Santa Helena, Albano Arno Stumpf, Teresio Goi, Brasil Oliveira, Agenor Rodrigues, Ervino Reinhardt Fitz, Helio Teodoreto Machado, Pedro Rodrigues do Nascimento e Antonio Alcides Nardão.
A notícia informava a prisão de Roberto de Fortini, Luiz Carlos Silveira, Sergio Guimarães, João Batista Maria, Bruno Piola, Jaime da Silva Ramos e Belmar Carlos Palma, de Passo Fundo; Romeu Nortzold e Paulo Stradtmann, de Irai; Antonio Alberi Maffi, de Braga e Dolantina Nunes Monteiro, Dorival Mertz, Azildo Schuster, João Goi, José Bueno Trindade e Reneu Geraldino Mertz, de Três Passos.
Agentes do DOPS vieram a Três Passos para “auxiliarem nas investigações”. Parece uma informação sem maiores conseqüências. O que é contado pelos presos da época é que “o pau comeu”. A Maricota, maquineta de eletrochoques, funcionava todas as noites. Fortini conta que a noite em que todos os presos foram torturados, foi chamada de “a noite de São Bartolomeu”, em alusão ao massacre de protestantes ocorridos na França, em 1572.
Enfim, é tempo de apurar as verdades. Muitos que viveram a difícil experiência da tortura estão vivos por aí, próximos de nós.
É o momento de ouvi-los.
Maio/2012.
(*) Sindicalista, graduado em Direito e estudante de Jornalismo-UFSM
A comunidade trespassense e regional assiste surpresa as denúncias e investigações de supostos crimes no Hospital de Caridade, envolvendo administradores e correlatos. O Ministério Público atua com firmeza. Em breve a sociedade terá informações oficiais sobre o caso. De repente, conclui-se que a corrupção – essa praga que assola o país, não existe somente “lá em cima, em Brasília.” Ao contrário, ela nos rodeia. Faltam-nos olhos e vontade para enxergá-la. Às vezes está bem mais perto do que se imagina.
A propósito, foi instalada recentemente pelo Governo Federal, a Comissão da Verdade, com a finalidade de trazer a público, fatos históricos envolvendo crimes de Estado praticados no período da ditadura militar, ainda não apurados com o devido rigor, em função da lei de autoanistia aprovada em 1979. Os militares e amigos saudosos daqueles tempos babam de raiva. Os familiares de torturados, mortos e desaparecidos torcem para que a Comissão traga luz aos acontecimentos recentes da nossa República, a exemplo do que fazem nossos vizinhos e outros países que, infelizmente, também sofreram com regimes ditatoriais, de esquerda ou de direita.
Desconhecem os mais jovens que o mesmo prédio do Hospital de Caridade, onde nos últimos cinco anos teriam sido praticados atos de desvios de recursos públicos do SUS, também foi palco de ações militares que interessam à Comissão da Verdade, ou seja, violência e tortura.
Em maio de 1970, as acomodações que hoje buscam recuperar a saúde dos doentes, eram ocupadas por diversos presos políticos ligados à Vanguarda Popular Revolucionária – VPR, que lutava contra a ditadura, a exemplo de outros movimentos de esquerda. A base do grupo era em Barra do Turvo, onde foi instalada, como fachada, uma empresa pesqueira. Tudo financiado com o dinheiro encontrado no cofre da amante carioca do ex-governador Adhemar de Barros, praticante da teoria “rouba, mas faz”.
Foram presos Reneu Geraldino Mertz e José Bueno Trindade, a época vereadores de oposição em Três Passos, além do italiano líder do grupo, Roberto de Fortini. O jovem estudante Antonio Alberi Maffi, posteriormente eleito prefeito em dois mandatos em Braga também integrava o grupo. Lembro dele pilotando a F4000 furgão da Pesqueira.
O jornal O Observador, edição de 16/05/1970, relaciona os nomes dos que foram presos e liberados após depoimento: Pedro Castilhos da Luz, Seno Pedro Franzenkrever, Tamarino de Oliveira Santa Helena, Albano Arno Stumpf, Teresio Goi, Brasil Oliveira, Agenor Rodrigues, Ervino Reinhardt Fitz, Helio Teodoreto Machado, Pedro Rodrigues do Nascimento e Antonio Alcides Nardão.
A notícia informava a prisão de Roberto de Fortini, Luiz Carlos Silveira, Sergio Guimarães, João Batista Maria, Bruno Piola, Jaime da Silva Ramos e Belmar Carlos Palma, de Passo Fundo; Romeu Nortzold e Paulo Stradtmann, de Irai; Antonio Alberi Maffi, de Braga e Dolantina Nunes Monteiro, Dorival Mertz, Azildo Schuster, João Goi, José Bueno Trindade e Reneu Geraldino Mertz, de Três Passos.
Agentes do DOPS vieram a Três Passos para “auxiliarem nas investigações”. Parece uma informação sem maiores conseqüências. O que é contado pelos presos da época é que “o pau comeu”. A Maricota, maquineta de eletrochoques, funcionava todas as noites. Fortini conta que a noite em que todos os presos foram torturados, foi chamada de “a noite de São Bartolomeu”, em alusão ao massacre de protestantes ocorridos na França, em 1572.
Enfim, é tempo de apurar as verdades. Muitos que viveram a difícil experiência da tortura estão vivos por aí, próximos de nós.
É o momento de ouvi-los.
Maio/2012.
(*) Sindicalista, graduado em Direito e estudante de Jornalismo-UFSM
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