* Juarez Braga Zamberlan
A comunidade trespassense e regional assiste surpresa as denúncias e investigações de supostos crimes no Hospital de Caridade, envolvendo administradores e correlatos. O Ministério Público atua com firmeza. Em breve a sociedade terá informações oficiais sobre o caso. De repente, conclui-se que a corrupção – essa praga que assola o país, não existe somente “lá em cima, em Brasília.” Ao contrário, ela nos rodeia. Faltam-nos olhos e vontade para enxergá-la. Às vezes está bem mais perto do que se imagina.
A propósito, foi instalada recentemente pelo Governo Federal, a Comissão da Verdade, com a finalidade de trazer a público, fatos históricos envolvendo crimes de Estado praticados no período da ditadura militar, ainda não apurados com o devido rigor, em função da lei de autoanistia aprovada em 1979. Os militares e amigos saudosos daqueles tempos babam de raiva. Os familiares de torturados, mortos e desaparecidos torcem para que a Comissão traga luz aos acontecimentos recentes da nossa República, a exemplo do que fazem nossos vizinhos e outros países que, infelizmente, também sofreram com regimes ditatoriais, de esquerda ou de direita.
Desconhecem os mais jovens que o mesmo prédio do Hospital de Caridade, onde nos últimos cinco anos teriam sido praticados atos de desvios de recursos públicos do SUS, também foi palco de ações militares que interessam à Comissão da Verdade, ou seja, violência e tortura.
Em maio de 1970, as acomodações que hoje buscam recuperar a saúde dos doentes, eram ocupadas por diversos presos políticos ligados à Vanguarda Popular Revolucionária – VPR, que lutava contra a ditadura, a exemplo de outros movimentos de esquerda. A base do grupo era em Barra do Turvo, onde foi instalada, como fachada, uma empresa pesqueira. Tudo financiado com o dinheiro encontrado no cofre da amante carioca do ex-governador Adhemar de Barros, praticante da teoria “rouba, mas faz”.
Foram presos Reneu Geraldino Mertz e José Bueno Trindade, a época vereadores de oposição em Três Passos, além do italiano líder do grupo, Roberto de Fortini. O jovem estudante Antonio Alberi Maffi, posteriormente eleito prefeito em dois mandatos em Braga também integrava o grupo. Lembro dele pilotando a F4000 furgão da Pesqueira.
O jornal O Observador, edição de 16/05/1970, relaciona os nomes dos que foram presos e liberados após depoimento: Pedro Castilhos da Luz, Seno Pedro Franzenkrever, Tamarino de Oliveira Santa Helena, Albano Arno Stumpf, Teresio Goi, Brasil Oliveira, Agenor Rodrigues, Ervino Reinhardt Fitz, Helio Teodoreto Machado, Pedro Rodrigues do Nascimento e Antonio Alcides Nardão.
A notícia informava a prisão de Roberto de Fortini, Luiz Carlos Silveira, Sergio Guimarães, João Batista Maria, Bruno Piola, Jaime da Silva Ramos e Belmar Carlos Palma, de Passo Fundo; Romeu Nortzold e Paulo Stradtmann, de Irai; Antonio Alberi Maffi, de Braga e Dolantina Nunes Monteiro, Dorival Mertz, Azildo Schuster, João Goi, José Bueno Trindade e Reneu Geraldino Mertz, de Três Passos.
Agentes do DOPS vieram a Três Passos para “auxiliarem nas investigações”. Parece uma informação sem maiores conseqüências. O que é contado pelos presos da época é que “o pau comeu”. A Maricota, maquineta de eletrochoques, funcionava todas as noites. Fortini conta que a noite em que todos os presos foram torturados, foi chamada de “a noite de São Bartolomeu”, em alusão ao massacre de protestantes ocorridos na França, em 1572.
Enfim, é tempo de apurar as verdades. Muitos que viveram a difícil experiência da tortura estão vivos por aí, próximos de nós.
É o momento de ouvi-los.
Maio/2012.
(*) Sindicalista, graduado em Direito e estudante de Jornalismo-UFSM
Nenhum comentário:
Postar um comentário