segunda-feira, 25 de agosto de 2014

COIMBRA: MÍDIA EXERCE PAPEL DE “OPOSIÇÃO DE FATO”

Segundo o presidente do Instituto Vox Populi, colunista Marcos Coimbra, como resultado da atuação da vanguarda midiática oposicionista, estamos há três anos imersos na eleição de 2014: “A derrota de Dilma é buscada de todas as formas”; segundo ele, a influência dessas empresas ultrapassa o noticiário: “elas contratam as pesquisas eleitorais que desejam e as divulgam quando e como querem.”


19 DE AGOSTO DE 2014 ÀS 09:12

247 – Para o colunista Marcos Coimbra, presidente do Instituto Vox Populi, estamos há três anos imersos na eleição de 2014 sob o comando de uma imprensa oposicionista que busca a derrota de Dilma Rousseff de todas as formas.

Segundo ele, a influência dessas empresas ultrapassa o noticiário: “elas contratam as pesquisas eleitorais que desejam e as divulgam quando e como querem”. Leia:


Na próxima terça 19, com o início da propaganda eleitoral na televisão e no rádio, entraremos na etapa final da mais longa eleição de nossa história. Começou em 2011 e nossa vida política gira em torno dela desde então.

A batalha da sucessão de Dilma Rousseff foi iniciada quando cessou o curto período de lua de mel com as oposições, no primeiro ano de governo. Talvez em razão do vexame protagonizado por José Serra na campanha, o antipetismo andava em baixa.

Durou pouco. Na entrada de 2012, o clima político deteriorou-se. As oposições perceberam que, se não fizessem nada, marchariam para nova derrota na eleição deste ano. Ao analisar as pesquisas de avaliação do governo e notar que Dilma batia recordes de popularidade a cada mês, notaram ser elevadas as possibilidades de o PT chegar aos 16 anos no poder. E particularmente odiosa.

Serem derrotadas outra vez por Dilma doía mais do que perder para Lula.

Ela era “apenas” uma gestora petista, sem a aura mitológica do ex-presidente. Sua primeira eleição podia ser creditada, quase integralmente, à força do mito. Mas a segunda, se viesse, seria a vitória de uma candidatura “normal”. Quantas outras poderiam se seguir?

A perspectiva era inaceitável para os adversários do PT. Na sociedade, no sistema político e no empresariado, seus expoentes arregaçaram as mangas para evitá-la. A ponta de lança da reação foi a mídia hegemônica, em especial a Rede Globo.

Recordar é viver. Muitos se esqueceram, outros nem souberam, mas a realidade é que a “grande imprensa” formulou com clareza um projeto de intervenção na vida política nacional.

Não é teoria conspiratória. Quem disse que os “meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste País, já que a oposição está profundamente fragilizada”, foi a Associação Nacional de Jornais, por meio de sua presidenta, uma das principais executivas do Grupo Folha. Enunciada em 2010, a frase nunca foi tão verdadeira quanto de 2012 para cá.

Como resultado da atuação da vanguarda midiática oposicionista, estamos há três anos imersos na eleição de 2014. A derrota de Dilma é buscada de todas as formas. O “mensalão”? Joaquim Barbosa? A “festa cívica” do “povo nas ruas”? O “vexame” da Copa do Mundo? A “compra da refinaria”? O “fim do Plano Real”? A “volta da inflação”? O “apagão” na energia? A “crise na economia”? A “desindustrialização”? O “desemprego”?

Nada disso nunca teve verdadeira importância. Tudo foi e continua a ser parte do esforço para diminuir a chance de reeleição da presidenta.

Ou alguém acha que os analistas e comentaristas dessa mídia acreditam, de fato, na cantilena que apregoam quando se vestem de verde-amarelo e se dizem preocupados com a moral pública, os empregos dos trabalhadores ou a renda dos pobres? Ou que queiram fazer “bom jornalismo”?

Temos agora uma ferramenta para elucidar o papel da mídia na eleição. Por iniciativa do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, está no ar o manchetômetro (http://www.manchetometro.com.br), um site que acompanha a cobertura diária da eleição na “grande imprensa”: os jornais Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo, além do Jornal Nacional da Globo (como se percebe, os organizadores do projeto julgaram desnecessário analisar o “jornalismo” do Grupo Abril).

Lá, vê-se que os três principais candidatos a presidente foram objeto, nesses veículos, de 275 reportagens de capa desde o início de 2014. Aécio Neves, de 38, com 19 favoráveis e 19 desfavoráveis. Tamanha neutralidade equidistante cessa com Dilma: ela foi tratada em 210 textos de capa. Do total, 15 são favoráveis e 195 desfavoráveis. Em outras palavras: 93% de abordagens negativas.

É assim que a população brasileira tem sido servida de informações desde quando começou o ano eleitoral. É isso que faz a mídia para exercer o papel autoassumido de ser a “oposição de fato”.

O pior é que a influência dessas empresas ultrapassa o noticiário. Elas contratam as pesquisas eleitorais que desejam e as divulgam quando e como querem. E organizam os debates entre candidatos.

Está mais que na hora de discutir a interferência dessa mídia no processo eleitoral e, por extensão, na democracia brasileira.

http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/150561/Coimbra-m%C3%ADdia-exerce-papel-de-%E2%80%9Coposi%C3%A7%C3%A3o-de-fato%E2%80%9D.htm

SADER: RESTA À DIREITA DA AL SE REFUGIAR NA MÍDIA

Segundo sociólogo Emir Sader, na falta de projetos, direita latino-americana se refugia em setores da mídia para formar cadeias que resistem a transformações democráticas;


18 DE AGOSTO DE 2014 ÀS 07:09

Emir Sader, publicado na Rede Brasil Atual

A direita latino-americana já teve várias fisionomias: economias primário-exportadoras e regimes políticos oligárquicos, ditaduras e governos neoliberais. Nenhuma parece suficientemente atraente para fazê-la voltar ao governo onde deixou de sê-lo. O modelo primário exportador sofreu golpe mortal com a crise de 1929. As ditaduras serviram para brecar avanços políticos das esquerdas surgidas ou fortalecidas na reação àquela crise.

O projeto neoliberal parecia ser a boia de salvação das forças mais retrógradas das sociedades latino-americanas, permitindo que a direita trocasse de roupa, aparecendo como força “modernizadora”. Contra um Estado qualificado como parasitário, pela livre circulação dos capitais que supostamente permitiria reativar economias e promover o mercado e o grande empresariado como os agentes mais dinâmicos da sociedade, surgia uma “nova direita”.

Essa fisionomia foi ajudada pela adesão de forças antes próximas ao campo popular. Partidos de origem nacionalista como o PRI mexicano e o peronismo, social-democratas como a Ação Democrática da Venezuela, o Partido Socialista do Chile, o PSDB no Brasil, entre outros, seguiram a trilha dos partidos socialista da França e da Espanha, pioneiros a “aderir”. O historiador Perry Anderson constatou em seu texto Balanço do Neoliberalismo que não tinha havido um modelo tão abrangente como o neoliberal. Se ainda no começo dos anos 1970 um conservador como Richard Nixon tinha afirmado “somos todos keynesianos” – confessando a hegemonia do modelo conhecido pelo Estado indutor do desenvolvimento e do bem-estar social –, não muito tempo depois até a social-democracia internacional dizia o oposto: “Somos todos neoliberais”.

A esquerda histórica era desqualificada como superada, marginalizada dos grandes movimentos da globalização. Políticos oligárquicos eram reciclados para o liberalismo de mercado. Projetava-se o século¬ 21 como o século da nova direita.

O modelo, pujante no seu início, revelou no entanto seus limites. As crises financeiras se multiplicaram – do México à Coreia do Sul, do Brasil à Rússia, da Argentina à Grécia.Depois de ter sido o continente que teve mais governos neoliberais e nas suas modalidades mais radicais – com os de Pinochet no Chile (1973-1990) e Menem na Argentina (1990-2000) –, a América Latina viu florescer governos antineoliberais. Esses governos ocuparam lugares amplos no campo político, deslocando a direita tradicional, agora associada à nova direita. Diante do pacto político na região de não aceitar governos que se estabelecessem pela força, como tentou-se, sem sucesso, na Venezuela, esse segmento teve de buscar outras vias e espaços.

Novos governos – Venezuela, Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia, Equador – se consolidaram por atuar nos pontos mais frágeis do neoliberalismo: promovendo a centralidade das políticas sociais no lugar da dos ajustes fiscais. Recuperando o papel do Estado como indutor de crescimento e de direitos sociais, no lugar da centralidade do mercado. Priorizando diálogo regional em vez de tratados com os Estados Unidos.

A direita teve de se refugiar onde mantém espaços de poder privilegiados – os meios de comunicação. Em situação monopolista, pelo poder do dinheiro e pela articulação com lobbies internacionais, se criam cadeias de formação antidemocrática da opinião pública, com poder de pressão sobre governos. A direita consegue desgastá-los, mas não vencê-los eleitoralmente, pois faltam-lhe plataforma, capacidade de projetar líderes e de conquistar bases de apoio além de decadentes setores das classes médias.

Resta à direita latino-americana promover formas de desestabilização, combinando campanhas terroristas na mídia, mobilizações de setores que resistem às transformações democráticas e apoio internacional, buscar brecar os impulsos desses governos e, eventualmente, ganhar eleições. Essas formas de ação, já derrotadas em várias ocasiões na Bolívia, Equador e Brasil, se concentram agora especialmente na Venezuela e na Argentina. Aí jogam todas suas cartas.

Vítimas da mídia

Não se dizia mídia, mas imprensa. A televisão estava engatinhando. Os jornais impressos formavam a opinião dos que sabiam ler e escrever. O rádio atingia e tentava manipular os milhões de analfabetos. Esse era o Brasil de 1954. Nessa época, a mídia, sob a batuta de Carlos Lacerda, criou uma campanha original: “Nunca houve tanta corrupção neste país”. E perseguiu Getúlio Vargas sem parar. Só não contava com o elevado código de honra do gaúcho, que se matou para não ser humilhado. Carlos Lacerda e a imprensa mataram Getúlio. Sim, Vargas foi assassinado. Lacerda implantou no Brasil, antes de Joaquim Barbosa, uma espécie de teoria do domínio do fato. Getúlio teria de saber de tudo, até do que não autorizaria, como o amador atentado da rua Tonelero, que feriu no pé seu principal inimigo.

Perguntam-me se o filme de João Jardim sobre Getúlio é bom. Apesar de o diretor ter copiado a estrutura narrativa de meu livro, sem me citar, digo que o filme é bastante bom. Ressalve-se a falta de sotaque gaúcho de Tony Ramos, ou certo sotaque carioca em alguns momentos. O filme toca no essencial: Getúlio foi massacrado pela imprensa golpista. Em 1964, Jango foi a segunda vítima. Lá estavam novamente a mídia, Carlos Lacerda, o conservadorismo, a UDN e o golpismo contra reformadores sociais. Lacerda e a mídia “suicidaram” Getúlio, derrubaram Jango e o levaram a morrer no exílio. Se é que ele não foi mesmo assassinado. Certa vontade de liquidar presidentes com infâmias ainda não acabou. Agora, viceja também na Internet.

Assume formas extraordinárias: a falsa capa da Forbes dando Lula entre os maiores milionários brasileiros. O filho de Lula como sócio da Friboi. Em 1964, para desqualificar um presidente, a mídia o chamava de bêbado, analfabeto e, como Jango tinha todos os dedos das mãos, manco. Era preciso também um defeito físico. Jango tinha um problema na perna esquerda. A retórica não mudou. A mídia sempre adorou praticar bullying. O público-alvo desse tipo de estratégia discursiva era a classe média urbana. Contra o suposto populismo trabalhista, jogava-se a carta do classemedismo udenista. Ficava assim: a direita era honesta; a esquerda, corrupta. Estaria no DNA.

Por que a mídia brasileira sempre foi tão conservadora? Por que é tão conservadora? Porque representa a sua classe. Em geral, nasce, cresce e vive à sombra do poder, fazendo os poderosos e recebendo deles as recompensas. Getúlio e Jango tentaram tocar outra música. No futebol, Dunga tentou limitar os poderes da Rede Globo. Ficou marcado. Para sobreviver, teria de ganhar. Felipão é mais sinuoso. Tem um título mundial no currículo e bajula a Rede Globo. Não será golpeado. Salvo se perder. Jango e Getúlio foram golpeados porque estavam ganhando. Só que pretendiam distribuir o prêmio aos que normalmente não participavam do rateio das conquistas conjuntas.

Os militares, apoiados pela mídia, restabeleceram a “ordem natural” das coisas. Apertaram o cinto da plebe. Propiciaram um rápido milagre econômico para a fiel classe média. Deram aos ricos o que eles julgavam ser deles: todo o poder. A mídia aplaudiu. Uau!

Juremir Machado da Silva, Correio do Povo, 09/06/14.

“Não sei por que se fala do fracasso do socialismo na Europa e não se fala do fracasso do capitalismo no ocidente”, diz Frei Betto em evento na Ufrgs

Data: 25/abr/2014, 13h57min

Frei Betto participou da palestra “O modelo desenvolvimentista brasileiro e seus impactos socioambientais”

Fernanda Morena

O escritor e religioso dominicano Frei Betto esteve em Porto Alegre na noite desta quinta-feira (24) para participar de um evento promovido pelo Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente (MoGDeMa), na palestra intitulada “O modelo desenvolvimentista brasileiro e seus impactos socioambientais”. Em sua fala, o Frei Betto comentou temas ambientais e políticos, fazendo referências não apenas ao Brasil: “Não sei por que se fala do fracasso do socialismo na Europa e não se fala do fracasso do capitalismo no ocidente”.

O escritor foi preso e torturado pela ditadura militar em 1964 e no período entre 1969 e 1973. Publicou mais de 50 livros que exploram a ficção infanto-juvenil, as memórias e ensaios, habitualmente comentando temáticas ambientais, sociais e cristãs.

O Frei Betto iniciou sua fala lendo um trecho de seu livro A arte de semear estrelas, publicado em em 2007. O excerto falava da subjetividade humana e dos encontros e desencontros do homem dentro do seu inconsciente, de sua “ecologia interior”, como disse.

Mudança capitalista

Conforme o escritor, a sociedade atual passa pela maior mudança dos últimos 500 anos. Naquela altura, o mundo passou da época medieval para a modernidade, tempo cujo paradigma central resistia na fé.

Hoje, o mundo passa para a pós-modernidade, um momento confuso que tem um paradigma positivo: a solidariedade. “Os valores modernos entraram em dissociação. Há uma luta do familiar com o consumo gerado pelo capitalismo”, explica. “Esse sistema forma consumidores, não cidadãos.”

Para Frei Betto, o mal de que padece o mundo é o mal da lógica capitalista e do acúmulo de lucro que, obrigatoriamente, gera avanços científico-tecnológicos, mas não dá alento. “A modernidade nos colocou acima da natureza”, afirma. O escritor pondera que a intenção de lucro e o consumo afastou a sociedade até mesmo de suas necessidades mais básicas, como a água. “Hoje ninguém mais quer tomar água da torneira, e vai ao mercado e compra a mesma água com um rótulo. Tem que comprar, consumir, nem pensa que há a água da chuva.”

Com isso, o pensador questiona os avanços concretizados pela ciência, mas que ficam apenas ao alcance daqueles que podem pagar por ele. “O capital é a coisa mais importante. Houve avanço científico, mas quem tem acesso a isso?”, indagou à plateia que lotava o teatro.

O mal estar da pós-modernidade

Se o modelo desenvolvimentista ocidental é focado no acúmulo de capital, ele também oprime o homem, como avalia Frei Betto: “Hoje eu uso a marca da roupa para fora para os outros saberem que eu tenho valor”.

Frei Betto dá como exemplo um menino que sai às ruas para assaltar como um resultado de sua “domesticação pela publicidade do consumo”. “Vivemos num tempo de auto-estima muito baixa, de um sistema de consumidores não-cidadãos, hegemonizado pelo capitalismo e pela ‘globocolonização’”.

Ambientalismo

Vencedor de um prêmio Jabuti, a maior láurea literária do país, Frei Betto diz que tem uma enorme preocupação com a etimologia das palavras. Economia, ele diz, é uma palavra perfeita: eco é casa, e nomia, em grego, significa administração. Ecologia “é uma palavra que nunca vai sair da moda, mas não é bem adequada ao seu propósito: logia é o conhecimento. “Não basta conhecer a casa, é preciso cuidar da casa. Não vai pegar, mas o termo correto deveria ser ‘ecobionomia’: administração da vida na casa”.

Frei Betto aponta a falta de engajamento social e político como um dos obstáculos para o desenvolvimento da ecologia no Brasil e no mundo. Para ele, muitas pessoas falam de ambientalismo, mas não aderem ao movimento, não praticam. “Estamos vivendo um momento de grande contradição, agravado pelo aceleramento da degradação ambiental.”

A falha em políticas públicas também se coloca como um desafio para a sobrevivência humana num planeta que se esvai de recursos naturais. O ambientalista questiona a inexistência de um plano diretor da administração pública que possa, por exemplo, instituir o recolhimento da água da chuva para tarefas domésticas.

Palestra

O tema era desenvolvimento e ecologia, mas a noite foi um grande debate histórico de como a sociedade chegou onde chegou. Além da exposição de Frei Betto, o MoGDeMA aproveitou para prestar uma homenagem surpresa a Antônio Sequim, um dos primeiros ambientalistas gaúchos.

Sequim foi colega de prisão de Frei Betto na ditadura, mas ficou mais conhecido pela sua atuação junto aos catadores de lixo: “Eles são os médicos sanitaristas do planeta”, disse em seu discurso de agradecimento.

Ano Novo e bons propósitos

Por Frei Betto - 02/01/2014

A passagem do ano costuma significar, para muitos de nós, época de bons propósitos. Damos um balanço no ano que findou e, frente ao que se inicia, prometemos a nós mesmos ao menos não repetir os erros cometidos.

Tais propósitos variam muito. Para uns, ficar menos dependentes do celular e da internet e dar um pouco mais de atenção aos familiares. Para outros, evitar a obesidade e o risco de diabetes, fazer exercícios físicos e reduzir a comilança engordativa.

O fato é que cada um de nós sabe exatamente onde dói o calo. Resta ter força de vontade para pisar mais leve no chão da vida e evitar tropeços.

Mudar de ano e mudar de vida é o que muitos de nós gostariam. O que favorece a distância, por vezes enorme, entre os nossos propósitos e a nossa prática? Por que nem sempre somos coerentes com os ideais que abraçamos?

Aprendi com os mestres da mística que, ao fazer propósitos, temos que primeiro nos perguntar: procedo para agradar a mim mesmo ou preferencialmente aos olhos alheios?

Muitas vezes somos movidos a agir contrariando nossa própria vontade, por colocarmos a nossa autoestima na opinião alheia e não na felicidade do nosso coração. É como a mulher que usa salto agulha, embora suportando a dor nos pés e o desconforto da coluna, além do risco de um tombo. Porém, assim ela se considera mais elegante e sedutora aos olhos alheios.

“Onde está o teu tesouro, aí está o teu coração”, disse Jesus (Mateus 6, 21). Se o nosso coração se deixa imantar pela vaidade, pela ambição, pela inveja, é natural que adotemos procedimentos pautados por essa escala de “valores”.

Em uma sociedade tão consumista e competitiva como a nossa, não é fácil sentir-se bem consigo mesmo. A cultura neoliberal impregna o nosso inconsciente de motivações que reduzem o valor que damos a nós mesmos. 

O tempo todo somos bombardeados pela publicidade que alardeia não ser feliz quem não possui tal carro, não mora em tal bairro, não veste tal grife, não faz tal viagem...
Vejam como nas peças publicitárias todos são felizes e saudáveis! Vejam como os ricos e famosos, que têm acesso a todos esses produtos de luxo, são esbeltos e alegres! Como canta Chico Buarque em “Ciranda da bailarina”: Procurando bem ¤ Todo mundo tem pereba  ¤ Marca de bexiga ou vacina ¤ E tem piriri, tem lombriga, tem ameba ¤ Só a bailarina que não tem.

Assim, dançamos conforme a música do consumismo, na esperança de que aquilo que é tido como valor – o carro de luxo, por exemplo – impregne de valor também quem o possui. Sem a posse de produtos de grife e que, supostamente, elevam o nosso status, nos sentimos des-valorizados.

Afinal, vivemos em uma sociedade capitalista na qual ninguém tem valor pelo simples fato de ser uma pessoa.  Vejam os mendigos e moradores de rua. Quem lhes dá valor?

Para a idolatria do mercado o que possui valor é o produto – o fetiche denunciado por Marx. A pessoa só tem valor se ela se apresenta revestida de produtos valorizados pelo mercado. Assim, o sujeito se faz objeto e o objeto, sujeito.

Eis a inversão total que favorece a depressão, o suicídio e a dependência química. Nesse reino do deus mercado, no qual poucos são os escolhidos e muitos os excluídos, a felicidade é um bem escasso e difícil de ser alcançado, até pelo fato de ser não mercantilizável.

Quem no mercado oferece o que mais buscamos, a felicidade? O mercado tenta nos iludir sob a promessa de que a felicidade é o resultado da soma de prazeres.

Quem é feliz sabe muito bem que a felicidade é um estado de espírito, uma sabedoria de vida, uma leveza de coração, uma questão de conteúdo e não de forma, que plenifica, eleva o nosso bem-estar espiritual e faz mergulhar no inefável oceano da amorosidade.

Para alcançá-la é preciso nascer de novo, fazer-se novo no Ano-Novo, e ousar reduzir a distância entre os bons propósitos e a prática cotidiana viciada por fatores que nos afastam dela.

Feliz Ano-Novo meus queridos(as) leitores!

PS: Teremos um novo ano curto para aqueles que iniciam a rotina após o Carnaval. Então, serão normais março, abril e maio. Em junho e julho, a Copa do Mundo. Em agosto, setembro e outubro, as eleições. Em novembro, os enfeites da Natal serão desempacotados e logo serão Natal e Ano-Novo...