Segundo sociólogo Emir Sader, na falta de projetos, direita latino-americana se refugia em setores da mídia para formar cadeias que resistem a transformações democráticas;
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DE AGOSTO DE 2014 ÀS 07:09
Emir Sader, publicado na Rede
Brasil Atual
A direita latino-americana já
teve várias fisionomias: economias primário-exportadoras e regimes políticos
oligárquicos, ditaduras e governos neoliberais. Nenhuma parece suficientemente
atraente para fazê-la voltar ao governo onde deixou de sê-lo. O modelo primário
exportador sofreu golpe mortal com a crise de 1929. As ditaduras serviram para
brecar avanços políticos das esquerdas surgidas ou fortalecidas na reação
àquela crise.
O projeto neoliberal parecia
ser a boia de salvação das forças mais retrógradas das sociedades
latino-americanas, permitindo que a direita trocasse de roupa, aparecendo como
força “modernizadora”. Contra um Estado qualificado como parasitário, pela
livre circulação dos capitais que supostamente permitiria reativar economias e
promover o mercado e o grande empresariado como os agentes mais dinâmicos da
sociedade, surgia uma “nova direita”.
Essa fisionomia foi ajudada
pela adesão de forças antes próximas ao campo popular. Partidos de origem
nacionalista como o PRI mexicano e o peronismo, social-democratas como a Ação
Democrática da Venezuela, o Partido Socialista do Chile, o PSDB no Brasil,
entre outros, seguiram a trilha dos partidos socialista da França e da Espanha,
pioneiros a “aderir”. O historiador Perry Anderson constatou em seu texto
Balanço do Neoliberalismo que não tinha havido um modelo tão abrangente como o
neoliberal. Se ainda no começo dos anos 1970 um conservador como Richard Nixon
tinha afirmado “somos todos keynesianos” – confessando a hegemonia do modelo
conhecido pelo Estado indutor do desenvolvimento e do bem-estar social –, não
muito tempo depois até a social-democracia internacional dizia o oposto: “Somos
todos neoliberais”.
A esquerda histórica era
desqualificada como superada, marginalizada dos grandes movimentos da
globalização. Políticos oligárquicos eram reciclados para o liberalismo de
mercado. Projetava-se o século¬ 21 como o século da nova direita.
O modelo, pujante no seu
início, revelou no entanto seus limites. As crises financeiras se multiplicaram
– do México à Coreia do Sul, do Brasil à Rússia, da Argentina à Grécia.Depois
de ter sido o continente que teve mais governos neoliberais e nas suas
modalidades mais radicais – com os de Pinochet no Chile (1973-1990) e Menem na
Argentina (1990-2000) –, a América Latina viu florescer governos
antineoliberais. Esses governos ocuparam lugares amplos no campo político,
deslocando a direita tradicional, agora associada à nova direita. Diante do
pacto político na região de não aceitar governos que se estabelecessem pela
força, como tentou-se, sem sucesso, na Venezuela, esse segmento teve de buscar
outras vias e espaços.
Novos governos – Venezuela,
Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia, Equador – se consolidaram por atuar nos
pontos mais frágeis do neoliberalismo: promovendo a centralidade das políticas
sociais no lugar da dos ajustes fiscais. Recuperando o papel do Estado como
indutor de crescimento e de direitos sociais, no lugar da centralidade do
mercado. Priorizando diálogo regional em vez de tratados com os Estados Unidos.
A direita teve de se refugiar
onde mantém espaços de poder privilegiados – os meios de comunicação. Em
situação monopolista, pelo poder do dinheiro e pela articulação com lobbies
internacionais, se criam cadeias de formação antidemocrática da opinião
pública, com poder de pressão sobre governos. A direita consegue desgastá-los,
mas não vencê-los eleitoralmente, pois faltam-lhe plataforma, capacidade de
projetar líderes e de conquistar bases de apoio além de decadentes setores das
classes médias.
Resta à direita
latino-americana promover formas de desestabilização, combinando campanhas
terroristas na mídia, mobilizações de setores que resistem às transformações
democráticas e apoio internacional, buscar brecar os impulsos desses governos
e, eventualmente, ganhar eleições. Essas formas de ação, já derrotadas em
várias ocasiões na Bolívia, Equador e Brasil, se concentram agora especialmente
na Venezuela e na Argentina. Aí jogam todas suas cartas.
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