quarta-feira, 24 de julho de 2013

Paranoias democráticas

Miguel do Rosário, 24/07/2013 - 11:19am

Meu livro de cabeceira tem sido “A democracia e seus críticos”, obra-prima de Robert A. Dahl, talvez o maior cientista político vivo no mundo, ao menos nos estudos sobre democracia. A leitura de Dahl, e o alívio que ela me proporciona, me deu a ideia de defender o ensino de ciência política para crianças e adolescentes. Urgentemente.

Os brasileiros estão amadurecendo sem conhecer o seu sistema político. A ideia que têm da política vem exclusivamente da televisão e das redes sociais; cada vez mais destas últimas, onde a fonte primária da informação são os grandes portais pertencentes aos principais grupos de mídia.

Filosofia, sociologia, tudo isso é importante ensinar ao jovem. Mas ainda mais importante é fazer com que crianças e o adolescentes tenham noções básicas de como funciona o nosso sistema político. Eleições proporcionais, câmara de vereadores, função do Ministério Público. Nem eu, que leio todos os jornais diariamente, e estudo ciência política há anos, sei direito, imagina os adolescelentes?

E os jovens, com sua extraordinária capacidade para apreender o novo, seriam os professores de seus pais, avós e conhecidos.

As manifestações juvenis que assistimos no país sugerem que temos um enorme segmento da sociedade aspirando ser politizado e participar mais ativamente da vida política. Mas demonstraram igualmente que são portadores de todos os preconceitos vulgares que a mídia lhes incute diariamente.

Antes que apareçam reaças apavorados me acusando de pregar o ensino do comunismo no colégio, reitero que a minha ideia não é embutir na grade escolar qualquer tipo de proselitismo ideológico ou partidário, e sim ensinar como é, concretamente, o sistema político brasileiro. E ensinar o que é democracia, e porque vivemos num regime democrático.

Os jovens também deveriam ter aulas de mídia. A mídia hoje é importante demais na vida social para não ser objeto de estudo nas escolas.  Visto que a maior parte das informações nos chegam via mídia, aí incluindo as redes sociais, as crianças devem ser preparadas para serem críticas e desenvolverem um pensamento independente.

A leitura de Dahl tem me auxiliado, além disso, a consolidar a convicção de que a suposta crise da democracia representativa deriva, em boa parte, do abismo crescente entre um regime político democrático e o sistema corporativo de mídia vigente em todo mundo ocidental.

Talvez a democracia precise sofrer algum tipo de reformulação. Isso é normal, e se analisarmos a história das democracias, veremos que ela está constantemente se aprimorando. O processo de inclusão de enormes contigentes aos sistema de sufrágio, por exemplo, consolidou-se apenas nas últimas décadas, e em grande parte do mundo, a leniência com regimes totalitários só acabou há pouco tempo. Na América Latina, a democracia renasce na segunda metade da década de 80. No Oriente Médio, a ideia democrática ainda é um germe revolucionário, embora a luta por sua implementação tenha sido rapidamente instrumentalizada por interesses imperialistas.

A velha e boa ciência política nos ajuda a entender a recente onda de manifestações no Brasil, e a discuti-las sob o ângulo do princípio democrático. É interessante verificar ainda que em todas as análises esbarramos na questão da mídia. A democratização da mídia não é apenas a “mãe de todas as batalhas” no âmbito da prática política; também no universo exclusivamente acadêmico dos estudos democráticos ela aparece como um elemento cada vez mais central.

Segundo Dahl, a teoria democrática se sustenta em quatro grande eixos, ou critérios:

1) participação efetiva:
“Ao longo de todo o processo de tomada de decisões vinculativas, os cidadãos devem ter uma oportunidade adequada e igual de expressar suas preferências quanto ao resultado final. Devem ter oportunidades adequadas e iguais de colocar questões na agenda e de expressar seus motivos para endossar um resultado e não outro. Negar a qualquer cidadão as oportunidades adequadas para a participação efetiva significa que, por causa do fato de que suas preferências são desconhecidas ou incorretamente percebidas, elas não podem ser levadas em consideração. Mas não levar em igual consideração as preferências dos cidadãos quanto ao resultado final equivale a rejeitar o Princípio da Igual Consideração dos Interesses”.

2) igualdade de voto no estágio decisivo:
“No estágio decisivo das decisões coletivas, cada cidadão deve ter assegurada uma oportunidade igual de expressar uma escolha que será contada como igual em peso à escolha expressa por qualquer outro cidadão. Na determinação de resultados no estágio decisivo, essas escolhas, e somente essas, deverão ser levadas em consideração”.

3) Compreensão esclarecida:
“Este critério implica que procedimentos alternativos para a tomada de decisões devem ser avaliados de acordo com as oportunidades que proporcionam aos cidadãos para a aquisição de uma compreensão dos meios e fins, dos interesses do cidadão e das consequências esperadas das políticas para seus próprios interesses e os de outrem. ”

4) Controle de agenda:
“A fim de entender mais claramente porque um quarto critério é necessário, suponhamos que Felipe da Macedônia, tendo derrotado os atenienses na Queroneia, prive a assembleia ateniense da autoridade de tomar quaisquer decisões quanto às políticas externa e militar (…) O controle não democrático sobre a agenda é, às vezes, bem mais sutil. Em alguns países, por exemplo, os líderes militares estão sob controle nominal dos civis eleitors que, no entanto, sabem que serão removidos do cargo ou submetidos a algo pior se não talharem suas decisões de acordo com os desejos dos militares.”

Em todos os critérios, vê-se o fantasma da mídia corporativa assombrando a democracia, mas sobretudo nos itens 1,3 e 4. Uma mídia não-democrática impede a sociedade de expressar, de forma igualitária, suas preferências (1º critério).  Impede uma compreensão esclarecida acerca dos nossos próprios interesses (3º critério). Encobre o controle da agenda imposto pelo poder econômico sobre o poder político (4º critério).

No caso da mídia brasileira, contudo, além de desempenhar uma função essencialmente não-democrática na atual conjuntura política, ela também protagoniza uma eterna campanha antinacional. Em primeiro lugar, pratica uma constante distorção do noticiário econômico, conferindo-lhe um viés mais negativo do que sugerem os dados. Dou-lhes um exemplo no jornal de hoje. No Globo, vê-se na primeira pagina a seguinte chamada:


Não vou me estender sobre um assunto que já denunciei inúmeras vezes. O título é mentiroso porque o desemprego nunca esteve tão baixo na história do Brasil. A geração líquida de empregos declina, naturalmente, na proporção em que declina também a mão-de-obra ociosa e disponível.

Um caso ainda mais grave, porém, seria uma possível aliança entre a mídia e interesses estrangeiros. Não é apenas uma visão paranóica, visto que o principal conglomerado de mídia do país tornou-se todo poderoso justamente em virtude das ajudas financeiras que recebeu dos Estados Unidos, durante um regime militar que ambos se esforçaram, num trabalho combinado, para implantar. A Globo tem dívida eterna com os EUA. Se há interesse dos EUA, portanto, de pintar negativamente o Brasil para que os fluxos de investimento que estão vindo para cá voltem a se deslocar para a terra dos “homens bravos”, o Globo estaria a nosso lado ou do lado dos americanos?

Espero que tolerem minha visão paranóica tendo em vista o meu amor por estatísticas, documentos, teorias clássicas, e tudo que pode ancorar um pensamento no chão, mas o momento nos pede um pouco mais de ousadia também nesse terreno. Eu tenho me perguntado a quem interessaria mostrar um país tomado quase que por uma guerra civil, com cenas de depredações generalizadas, bombas explodindo nas ruas, e um ódio sectário e descontrolado a governantes eleitos por enorme maioria da população?

Sei que a culpa não é dos manifestantes legítimos, da juventude que aspira por um país melhor. Tenho conversado com muita gente que apoia os protestos de rua, e entendo que a maioria da juventude tem uma pauta progressista. Mas há manipulação e há incentivo ao sectarismo. Além disso, a história nos mostra que ser progressista ou de esquerda não tem relação, necessariamente, com a defesa da democracia. Isso também me preocupa: a criação de uma aliança oculta entre uma direita astuta e endinheirada, cheia de conexões internacionais, e uma juventude progressista, inchada de aspirações utópicas e testosterona, mas ingênua, tendo como base comum posturas essencialmente antidemocráticas, voluntaristas e sectárias. As consequências dessa aliança é o que começa a ser mostrado nas CNNs do mundo: um país paralisado, com jovens – infiltrados ou não – lançando bombas na polícia, com polícia fazendo prisões arbitrárias, e uma quantidade crescente de pessoas nas redes sociais defendendo a violência indiscriminada como estratégia aceitável para “mudar o Brasil”.

Por isso, este blogueiro alerta a todo o Brasil, aos manifestantes, aos jovens, ao governo, e aos setores não-entreguistas da oposição: cuidado com quem andas! As chamadas para as manifestações do 7 de setembro, por exemplo, nos sites dos “anonymous”, estão repletas de fascistas, golpistas e reacionários, interessados exclusivamente na desestabilização do país. Temos que reagir!

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O que não se deve falar para as crianças

Pediatra lista situações que podem interferir na formação da personalidade

Seg, 22 de julho de 2013

Os pais são os exemplos dos filhos e suas atitudes podem ter um impacto positivo ou negativo naformação da personalidade e identidade social da criança.

Por isso, de acordo com o pediatra Marcelo Reibscheid, do Hospital e Maternidade São Luiz, em São Paulo, existem algumas coisas que jamais devem ser ditas às crianças ou faladas na frente delas. Veja quais são:  

1 – Não rotule seu filho de pestinha, chato, lerdo ou outro adjetivo agressivo, mesmo que de brincadeira. Isso fará com que ele se torne realmente isso.

2 – Não diga apenas sim. Os nãos e porquês fazem parte da relação de amizade que os pais querem construir com os filhos.

3 – Não pergunte à criança se ela quer fazer uma atividade obrigatória ou ir a um evento indispensável. Diga apenas que agora é a hora de fazer.

4 – Não mande a criança parar de chorar. Se for o caso, pergunte o motivo do choro ou apenas peça que mantenha a calma, ensinando assim a lidar com suas emoções.

5 – Não diga que a injeção não vai doer, porque você sabe que vai doer. A menos que seja gotinha, diga que será rápido ou apenas uma picadinha, mas não engane.

6 – Não diga palavrões. Seu filho vai repetir as palavras de baixo calão que ouvir.

7 – Não ria do erro da criança. Fazer piada com mau comportamento ou erros na troca de letras pode inibir o desenvolvimento saudável.

8 – Não diga mentiras. Todos os comportamentos dos pais são aprendidos pelos filhos e servem de espelho.

9 – Não diga que foi apenas um pesadelo e mande voltar para a cama. As crianças têm dificuldade de separar o mundo real do imaginário. Quando acontecer um sonho ruim, acalme seu filho e leve-o para a cama, fazendo companhia até dormir.

10 – Nunca diga que vai embora se não for obedecido. Ameaças e chantagens nunca são saudáveis.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

A mensagem da juventude brasileira

By LUIZ INÁCIO LULA da SILVA
Published: July 16, 2013 - The New York Times

Os jovens, dedos rápidos em seus celulares, tomaram as ruas ao redor do mundo.

Parece mais fácil explicar esses protestos quando ocorrem em países não democráticos, como no Egito e na Tunísia, em 2011, ou em países onde a crise econômica aumentou o número de jovens desempregados para marcas assustadoras, como na Espanha e na Grécia, do que quando eles surgem em países com governos democráticos populares - como o Brasil, onde atualmente gozamos das menores taxas de desemprego da nossa história e de uma expansão sem precedentes dos direitos econômicos e sociais.

Muitos analistas atribuem os recentes protestos a uma rejeição da política. Eu acho que é precisamente o oposto: eles refletem um esforço para aumentar o alcance da democracia, para incentivar as pessoas a participar mais plenamente.

Eu só posso falar com autoridade sobre o meu país, o Brasil, onde acho que as manifestações são em grande parte o resultado de sucessos sociais, econômicos e políticos. Na última década, o Brasil dobrou o número de estudantes universitários, muitos de famílias pobres. Nós reduzimos drasticamente a pobreza e a desigualdade. Estas são conquistas importantes, mas é completamente natural que os jovens, especialmente aqueles que estão obtendo coisas que seus pais nunca tiveram, desejem mais.

Esses jovens não viveram a repressão da ditadura militar nas décadas de 1960 e 1970. Eles não conviveram com a inflação dos anos 1980, quando a primeira coisa que fazíamos quando recebíamos nossos salários era correr para o supermercado e comprar tudo o possível antes de os preços subirem novamente no dia seguinte. Lembram-se muito pouco da década de 1990, quando a estagnação e o desemprego deprimiram nosso país. Eles querem mais.

É compreensível que assim seja. Eles querem que a qualidade dos serviços públicos melhore. Milhões de brasileiros, incluindo os da classe média emergente, compraram seus primeiros carros e começaram a viajar de avião. Agora, o transporte público deve ser eficiente, tornando a vida nas grandes cidades menos difícil.

As preocupações dos jovens não são apenas materiais. Eles querem maior acesso ao lazer e a atividades culturais. Mas, acima de tudo, eles exigem instituições políticas que mais limpas e mais transparentes, sem as distorções do sistema político e eleitoral anacrônico do Brasil, que recentemente se mostraram incapazes de gerir a reforma. A legitimidade dessas demandas não pode ser negada, mesmo que seja impossível atendê-las rapidamente. É preciso primeiro encontrar recursos, estabelecer metas e definir prazos.

A democracia não é um compromisso de silêncio. Uma sociedade democrática é sempre em fluxo, debater e definir as suas prioridades e desafios, em constante desejo por novas conquistas. Apenas em uma democracia um índio pode ser eleito presidente da Bolívia, e um afro-americano pode ser eleito presidente dos Estados Unidos. Apenas em uma democracia poderia, primeiro, um metalúrgico e depois uma mulher serem eleitos presidentes do Brasil.

A história mostra que, quando os partidos políticos são silenciados e as soluções são procuradas pela força, os resultados são desastrosos: guerras, ditaduras e perseguição das minorias. Sem partidos políticos não pode haver uma verdadeira democracia. Mas as pessoas simplesmente não querem votar a cada quatro anos. Eles querem interação diária com os governos locais e nacionais, e querem participar da definição de políticas públicas, oferecendo opiniões sobre as decisões que os afetam a cada dia.

Em suma, eles querem ser ouvidos. Isso cria um enorme desafio para os líderes políticos. Exige as melhores formas de engajamento, através da mídia social, nos espaços de trabalho e nos campi, reforçando a interação com grupos de trabalhadores e líderes da comunidade, mas também com os chamados setores desorganizados, cujos desejos e necessidades não devem ser menos respeitados por falta de organização.

Tem-se dito, e com razão, que enquanto a sociedade entrou na era digital, a política permaneceu analógica. Se as instituições democráticas utilizassem as novas tecnologias de comunicação como instrumentos de diálogo, e não para mera propaganda, eles iriam respirar ar fresco em suas operações. E seria mais eficaz trazê-los em sintonia com todas as partes da sociedade.

Mesmo o Partido dos Trabalhadores, que ajudei a fundar e que tem contribuído muito para modernizar e democratizar a política no Brasil, precisa de profunda renovação. É preciso recuperar suas ligações diárias com os movimentos sociais e oferecer novas soluções para novos problemas, e fazer as duas coisas sem tratar os jovens de forma paternalista.

A boa notícia é que os jovens não estão conformistas, apáticos ou indiferentes à vida pública. Mesmo aqueles que pensam que odeiam a política estão começando a participar. Quando eu tinha a idade deles, nunca imaginei que me tornaria um militante político. No entanto, acabamos criando um partido político quando descobrimos que o Congresso Nacional praticamente não tinha representantes da classe trabalhadora. Através da política conseguimos restaurar a democracia, consolidar a estabilidade econômica e criar milhões de empregos.

É evidente que ainda há muito a fazer. É uma boa notícia que os nossos jovens querem lutar para garantir que a mudança social continue em um ritmo mais intenso.

A outra boa notícia é que a presidente Dilma Rousseff propôs um plebiscito para realizar as reformas políticas que são tão necessárias. Ela também propôs um compromisso nacional para a educação, saúde e transporte público, em que o governo federal iria fornecer apoio técnico e financeiro substancial para estados e municípios.

Ao conversar com jovens líderes no Brasil e em outros lugares, eu gostaria de dizer-lhes o seguinte: mesmo quando você está desanimado com tudo e com todos, não desista da política. Participe! Se você não encontrar em outros o político que você procura, você pode achá-la em si mesmo.

Luiz Inácio Lula da Silva é ex-presidente do Brasil, que agora trabalha em iniciativas globais com o Instituto Lula.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Movimentos sociais, política partidária e identidades

UFSM > Entrevista – 12/07/2013 – 09:07

A marcante onda de manifestações, que ocorreu em junho e julho no país e virou pauta principal entre a população e os veículos da grande mídia, trouxe mudanças e questionamentos sobre o funcionamento dos sistemas político e social no Brasil. Em entrevista, o professor do Departamento de Filosofia, Ronai Pires da Rocha, faz uma reflexão sobre os desdobramentos das manifestações no país.

Guilherme Gabbi - Como você vê essa onda de manifestações no país?

Ronai Pires da Rocha - O grande ponto de partida é considerar que tudo isso é muito complexo. Não há como descrever tudo em duas ou três frases. Em algumas das minhas aulas, faço uma análise: existe um grupo de brasileiros que está sendo incorporado num processo de vida e consumo, classes médias e medianas, C e D. E, nós teríamos que compreender o que está havendo nesse segmento que tem ligação com as manifestações. Hoje, temos de 40 a 60 milhões de pessoas nessa classe, que tem expectativas de qualidade de vida, que foram prometidas pelo tipo de governo que tivemos nos últimos 15 anos. Essas pessoas percebem que as coisas não estão caminhando na velocidade que eles acham que seria a adequada. São coisas sutis: existem escolas com bastantes vagas, mas a qualidade de ensino é ruim e não há condição para matricular um filho em uma escola particular, por exemplo. Qualidade de vida e transporte também se aderem a isso. Uma coisa que estava acomodada no país mexeu-se nos últimos 10, 15 anos. Juntamente a isso, tem-se a ideia de que a qualidade da representação política deixa a desejar cada vez mais. A sensação de impunidade, presença de corrupção e os escândalos incitam indignação e certa vergonha na forma da representação. Vejo uma espécie de convergência de fatores, que geram toda a indignação.

Para tanto, tem-se que ter cuidado para fazer uma analise sociológica e econômica sobre isso, sobre as gerações que estão chegando e querem participar de todo esse movimento. A análise sociológica tem complemento de dimensão em natureza política, quando se pergunta o que se fazer com a indignação. Todos os processos têm ligação com aspectos psicossociais, envolvendo a forma como agimos com os sentimentos em relação a ações políticas. Até então, tudo parecia ir muito bem, pois alguns partidos se apropriam da ideia de representação. Isso tudo começa a entrar em crise desde que mudanças políticas seguidas por propostas começam a surgir.

Existe outro fenômeno que analisa como esses grupos novos se ligam. Em filosofia política, costuma-se ter uma análise muito limitada que se resume em: uma sociedade com indivíduos, esses se relacionam entre si, como átomos sociais, fazendo pactos. E assim, surge uma sociedade política. Hoje, essa concepção não dá conta da complexidade na sociedade e nas relações. Essa análise mecanicista acaba por ser superficial. As pessoas são complexas, elas “estão sendo” algo, não “são” algo fixo. Hoje não se tem o jovem minuciosamente esculpido e definido em maioria, há o processo de “estar sendo”. Estamos passando por um momento que um movimento com certa espontaneidade está surgindo. Uma imensa quantidade de estudantes de ensino médio, por exemplo, estão nas manifestações porque ninguém aguenta ser estúpido ou idiota sempre. Eles são acusados disso, mas eles não são alienados, não são idiotas, são pessoas cuja disposição para sair à rua e fazer algo opera em uma faixa delicada e sensível. Uma bandeira de partido não fará com que eles saiam, eles sabem que daí vem palavras de ordem, e isso repudia eles de certa forma.

Outro ponto importante é a relação existente entre o consumo e a cidadania de cada um. Para isso aconselho um livro muito interessante, chamado “De consumidor a cidadão”, de Alberto O. Hirschman. Nele, o autor traça o paralelo entre o individual consumo e a presença da prática de cidadania. Com base em seu estudo, é errado analisar e chegar a conclusão de que consumo e consumismo são sinônimos. Oscilamos entre dois polos: individual e coletivo. Consumo e cidadão político. Dentro do processo de consumo tem-se o estímulo pela cidadania. Por exemplo, compra-se algo e esse está com algum defeito ou problema. O consumidor irá reclamar e pedir algum tipo de conserto. É o que ocorre com os grandes serviços públicos, dos quais compramos, mas não estamos satisfeitos, como é o caso do SUS ou da educação pública.

Combine tudo isso com uma gurizada que tem acesso à rede, possui smartphones, que tem relacionamento horizontal e não vertical baseado em sistemas de partidos, que presencia uma presidente mais retraída midiaticamente, e você tem as condições para os estopins, como o da passagem, os que estão relacionados ao mensalão, por exemplo. Não se pede uma constituinte para uma reforma política, isso é a solução que o governo achou. O furo de tudo é mais profundo, a crítica principal está relacionada aos grandes sistemas de serviço público e em relação aos partidos. Esse apartidarismo não representa alienação nem pensamento facista, mas sim uma crítica contra o movimento partidário ineficiente.

G. G. - Então a questão do apartidarismo é uma crítica ao sistema de partidos no país?

R. R. - Exatamente. Na percepção dessas pessoas os partidos sofrem de uma série de males. Um deles é que “eles já sabem de tudo”, mas as bandeiras que têm não contemplam o pensamento de todos. Não vejo que a mensagem é acabar com os partidos. Cria-se o momento do apelo para que, por um momento, sejamos uma nação, um povo. O que gera o pensamento de facismo. Mas não é isso, o apelo que se tem é uma crítica ao todo. A bandeira nacional é aquilo que parece nos unir como um só, que liga partes comuns para o movimento. Até a mais fantástica esquerda que se possa imaginar é conservadora. Eles parecem saber de tudo.

G. G. - Qual a leitura que você faz em relação aos movimentos sociais dentro dessa onda de manifestações?

R. R. - Diria o seguinte: os movimentos formam um amplo leque, desde a Marcha das Vadias aqui na cidade até as bandeiras que tratam do assunto da cura gay. Questionaria sobre a movimentação dos movimentos sociais. À medida que os movimentos se movimentam e o ponto de partida não é a clareza evidente e brutal sobre o futuro, mas sim de uma clareza evidente e brutal de que oportunidades de crescimento, acesso, participação são restritas e não têm a plenitude que deveriam ter. Aí, estamos falando e um movimento social com o mínimo de capacidade de interação com o futuro, com alternativas viáveis. Não se tem o modelo pronto de bolso, que caracteriza um movimento social que tende a sofrer mais nesse momento. Hoje, as coisas têm que ter certa capacidade de aceitação das pessoas ao teu lado em função da conquista de um ou outro patamar de visibilidade para as demandas sociais. Os movimentos sociais que têm a capacidade de entender que estar ao lado de um empresário, por exemplo, é, nesse momento, algo que faz parte do jogo para que se chegue a outro patamar de exigências de comportamentos daquilo que se entende por um sistema democrático, de transparência, combate a corrupção, que são coisas importantes para todo mundo, acabam se saindo bem. Outro lado é estar num movimento social de espinha dura, que não se flexibiliza e não aprende nada com o que está acontecendo. O tipo de bandeira geral (nação como todo) já impõe certo acordo em determinado momento.

Devem-se pensar como essas diversas pressões espontâneas vão se comportar. Os movimentos sociais devem pensar em como se comportarão. Aí que eu penso que o próximo lance é saber em que medida os partidos políticos declarados de esquerda vão aprender algo com tudo isso? Um processo que acho ser muito difícil. Enfim, acho bem complicado, quando se trata de movimentos sociais. Uma análise deveria se orientar por uma descrição adequada para essa diversidade de movimentos sociais, pois cada um tem características bem especiais.

G. G. - Uma suposta falta de liderança pode ser notada em momentos das manifestações. Como você acha que isso configura ou interfere nos diversos pedidos presentes nas ondas de manifestações?

R. R. - Isso é o grande diferencial em relação aos grandes movimentos que levaram muitas pessoas as ruas. Como no “Fora Collor”, nas “Diretas Já”. Esse movimento atual, no começo, não pode ser citado com falta de liderança. As mobilizações de Porto Alegre eram muito fortes no sentido das passagens e tinham presente liderança. O que provavelmente aconteceu é que começa a surgir um clima que propicia uma prática de cidadania, em que cada um tem a sua bandeirinha e quer exercer essa prática. Nenhum de nós abre mão de certa lealdade de sermos do mesmo país, mas de que forma vou me manifestar? Do meu modo. Por isso, essa espécie de salada, onde cada um pede algo, numa espécie de grande celebração cívica.

Por exemplo, o conceito grego de vida privada é uma vida idiota, uma vida que tu fazes a partir de tuas pequenas percepções, e ninguém vive muito tempo sem se incomodar com isso. A dúvida do que fazer pelos outros se evidencia uma hora ou outra. Então, subitamente, tu faz esse exercício. Daí, a partir de coisas que tinham objetivos definidos (início dos movimentos), tem-se uma agregada geral de pedidos, onde está presente um certo aproveitamento e impulso para ir à rua, afinal, o fato de ir à rua é algo de tremendo valor simbólico.

Surge com isso a seguinte questão: como que isso vai se encaminhando? Eu imagino que tudo é um grande jogo que vai depender dos próximos lances e atitudes governamentais. Dependendo do que acontecer, novas ondas de protestos surgirão.

G. G. – Você acha que tudo isso caracteriza que as massas ascenderam ou acha que tudo ainda é um processo?

R. R. - Acredito que seja um processo ainda. Esse conceito “massas” é algo que eu gostaria de discutir, pensar mais sobre. O que quer me dizer com massa?  A noção de massa pode ser dada para um esquema de massa com algo relacionado a um processo revolucionário, e quando usa-se a palavra revolucionário, o que quer dizer com isso? Especialmente, se estiver imaginando algum tipo de processo que leva a algum tipo de ruptura mais ou menos significativa. Uma das minhas broncas com quem faz análise política de esquerda é a ideia de que a gente está muito marcado por modelos de análise em que se sonha em modelos de ruptura relativamente assinalados. Movimentos sociais do século XVIII, por exemplo, tinham alvo preciso, que era a questão de direitos civis, igualdade como seres humanos. A seguir, se todos somos cidadãos, surge outro tipo de demanda, que é a de ter direitos políticos, que também tem alvo preciso. Atualmente, tem-se uma terceira onda de direitos, que visa direitos sociais. Não está em discussão reconquistar direitos civis, políticos. O que está em discussão é como construir direitos sociais de forma segura, expansiva, incorporador em um país onde a classe política é ineficiente e atrasada.

Nesse sentido, eu tenho certa resistência na ideia de “estamos tendo crise na representação política”. A crise de representação política surge no dia em que o voto é implantado e tem o mesmo peso. Para cada trabalhador engajado, tem-se um trabalhador alienado que acaba amenizando a insatisfação de quem se engaja. No voto, tem-se a amenização da representação, pois o sistema de representação do voto não dá conta disso. Por isso, a presença de muitos movimentos para potencialização da voz. Surge a dúvida de “quem está conseguindo potencializar a minha voz?”. O que se discute é que nesse processo de terceira onda de direitos (sociais), têm-se grupos que brigam por direitos sociais interessantes, por valores ambientais e afins que não tem sua voz devidamente amplificada.

G. G. - Como você vê a questão de nós como um todo e nós como “um individual”? Por exemplo, da amplificação das vozes individuais e a representação disso como um todo.

R. R. - Então, para dar conta disso, vemos a bandeira brasileira, povo, falamos a mesma língua, temos tradição em comum. Tem-se o refúgio nisso, como um fundo de reserva para que haja essa identidade comum. Em contraponto a isso, identidade como indivíduo não consegue se formar. Nós precisamos do que os sociólogos chamam de processo de pertencimento. Esse processo totalmente genérico de nação brasileira não resolve. Como se dá o processo de pertencimento para que haja visão da sua identidade? Como se resolve a questão de identidade? É aí que temos que pensar.

Repórter: Guilherme Gabbi – Acadêmico de Jornalismo.
Edição: Lucas Durr Missau.
Notícia elaborada pela Coordenadoria de Comunicação Social (http://www.ufsm.br/)

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Chegou a hora de contribuir proporcionalmente

No Brasil, os pobres pagam mais impostos que os ricos. Os 10% mais pobres do país comprometem 32% de sua renda em tributos, enquanto os 10% mais ricos pagam 21%. Esse dado alarmante já seria justificativa suficiente para a aprovação da Contribuição Social sobre Grandes Fortunas, pautada no Congresso Nacional há mais de 20 anos. Previsto no artigo 153 da Constituição Federal, o imposto é o único dos sete tributos federais que ainda não foi regulamentado.

O assunto é uma prioridade da bancada petista na Câmara, e está presente no projeto de lei da reforma tributária, que tem como ideia central aumentar a tributação sobre a riqueza e a propriedade, e diminuir a taxação sobre a produção, o consumo e os salários. O projeto, que está pronto para entrar na pauta de votação da Câmara, prevê a criação de nove faixas de contribuição baseadas em acúmulo de patrimônio, sendo a última acima de R$ 150 milhões. Pelos dados da Receita Federal, há no Brasil apenas 56 mil pessoas habilitadas nas faixas patrimoniais acima do piso.

Fui prefeito de Cruzeiro do Oeste por dois mandatos, e nas mais de 400 assembleias e audiências públicas que realizamos a população elegeu a saúde como prioridade número um. O mesmo desejo encontro no povo do Paraná em todas as regiões, nas minhas andanças como deputado federal. Está claro que precisamos urgentemente de uma nova fonte de financiamento para a área da saúde.

Defendo que 100% dos recursos obtidos com o Imposto sobre Grandes Fortunas sejam destinados para a saúde, conforme previsto no PLP. Isso significaria um aporte adicional de pelo menos R$ 14 bilhões para a área. Recursos que viriam, em grande parte, de apenas 907 contribuintes com patrimônio superior a R$ 150 milhões.

Em um país em que apenas 10% da população concentra 75% das riquezas, é mais que justo que menos de mil pessoas possam contribuir para que milhões tenham acesso às merecidas melhorias na estrutura do sistema público de saúde, como novos hospitais, Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e unidades básicas de saúde, ou mesmo melhorias no financiamento das entidades filantrópicas e a contratação de médicos para atender a população do interior e das periferias das grandes cidades.

Vivemos um tempo de grandes transformações, o que torna o ambiente totalmente favorável à aprovação do projeto. O momento é de agir com rapidez e de imediato, taxando a riqueza, a renda, o patrimônio, a propriedade, as heranças, doações e fortunas, e diminuindo a pressão sobre a classe média e trabalhadora, a exemplo de países como os Estados Unidos e a França. O povo já contribuiu ao longo de vários anos para o financiamento da saúde. Em nome do bom senso e do sentimento de justiça, chegou a hora de os ricos financiarem o SUS, na proporção de seu patrimônio


Zeca Dirceu, deputado federal pelo Paraná, é vice-líder do PT na Câmara.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Documento aprovado pelos membros da CEN durante reunião realizada nesta quinta-feira (4), em Brasília

A Comissão Executiva Nacional do PT, reunida em 4 de julho de 2013 em Brasília/DF, para avaliar a situação política nacional e o resultado das manifestações populares e da juventude que ainda estão em curso em todo o país.
 

SAÚDA

·    o caráter progressista que se consolidou no rumo das manifestações em curso, com suas reivindicações políticas, econômicas e sociais profundamente identificadas com a trajetória e programa do Partido dos Trabalhadores e das forças que se uniram para governar o Brasil sob a condução da Presidenta Dilma

·    a pronta disposição democrática da Presidenta Dilma, líder de uma das maiores democracias do planeta e a única, entre tantos Chefes de Estado que tiveram suas ruas tomadas por manifestantes populares e da juventude, a abrir o diálogo com estes e a responder de forma concreta aos seus justos clamores pelo aprofundamento das mudanças que o País vive nos últimos dez anos

·    a iniciativa política do Governo de construir, com os movimentos sociais, o Congresso Nacional, o Poder Judiciário e as forças políticas democráticas uma agenda de alto nível sobre o presente e o futuro do Brasil, consubstanciada nos Pactos anunciados pela Presidenta Dilma e numa agenda legislativa há muito reclamada pela Nação

·    a tramitação de importantes legislações constantes desta agenda nacional, entre elas a PEC do Trabalho Escravo, a destinação de recursos dos royalties do petróleo e do Fundo do Pré-Sal para a educação e a saúde, a criação do REITUP para baratear os custos das tarifas de transporte coletivo, entre outras, e a retirada de cena de projetos reclamados pela população, como a chamada “cura gay”.

·    a entrada em debate de importantes matérias como o Estatuto da Juventude, o PL 4.471 (autos de resistência) e a criminalização dos corruptores em projeto de lei apresentado pelo Presidente Lula, bem como a adoção de medidas que visam ressarcir os cofres públicos dos prejuízos por estes causados à sociedade, que esperamos sejam aprovados no curto prazo. O PT se posiciona ainda contra a PEC 215, que visa transferir do Executivo para o Legislativo a demarcação de terras indígenas.

·    a construção de crescente unidade na esquerda política, partidária e social da necessidade urgente de aprovação de uma verdadeira Reforma Política com Participação Popular e de um Plebiscito Nacional sobre os eixos fundamentais dessa reforma, pela qual há anos o PT e os movimentos sociais lutam no Congresso Nacional.

MANIFESTA

·    o compromisso com a agenda de reformas democráticas e populares que podem dar sustentação política, econômica e social às respostas que vêm sendo dadas aos justos reclamos da população no que diz respeito à qualidade dos serviços públicos e consolidação da inclusão social de amplas maiorias.

·    entre estas, o compromisso com uma Reforma Tributária que busque nas grandes fortunas e rendas de uma minoria os recursos que permitam a diminuição da carga tributária sobre a produção, a renda e o trabalho das amplas maiorias do pais.

·    a convicção de que os mecanismos constitucionais e legais existentes para uma Reforma Urbana podem e devem ser utilizados para que as atuais políticas públicas de moradia, saneamento básico e mobilidade urbana estejam integradas com a sustentabilidade e a melhoria da qualidade de vida das nossas cidades

·    o chamamento à imediata aprovação do marco civil da Internet pelo Congresso, garantindo os direitos de 80 milhões de internautas brasileiros e ampliando as potencialidades de toda comunicação em rede, tão utilizadas nas recentes manifestações em todo o país.

·    a luta pela regulamentação dos dispositivos constitucionais que normatizam as comunicações do Brasil, tal como proposto pelo Fórum Nacional da Democratização da Comunicação, cujo abaixo-assinado assumimos em fevereiro.

·    a defesa da imediata Reforma Política, com efeitos imediatos já para as eleições de 2014 e com resultados duradouros e estruturais definidos em uma Assembléia Constituinte Exclusiva sobre o tema da Reforma Política cuja convocação propomos seja submetida à consulta popular em Plebiscito.

ORIENTA

·    as bancadas do PT na Câmara e no Senado a trabalharem pela coesão da base aliada da Presidenta Dilma no Congresso para a convocação no mais curto prazo do Plebiscito Nacional pela Reforma Política, priorizando entre os quesitos a serem incluídos na consulta popular os eixos de nosso Projeto de Lei de Iniciativa Popular: financiamento público exclusivo de campanhas; sistema proporcional com voto em lista partidária pré-ordenada e paridade de gênero; a ampliação da participação popular e dos mecanismos de democracia participativa já existentes; e a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte exclusiva para a Reforma Política.

CONCLAMA

·    a militância do PT a continuar colhendo assinaturas para o nosso projeto de iniciativa popular, ombro a ombro com outras iniciativas da sociedade civil que caminham no mesmo sentido (como a Plataforma dos Movimentos Sociais para a Reforma Política, o MCCE, a OAB, a CNBB, entre outras valorosas instituições), intensificando o ritmo da coleta de assinaturas para que incidam positivamente no debate no Congresso Nacional sobre o tema.

·    a militância petista nos movimentos sociais a que assumam decididamente a participação nas manifestações de rua em todo o país, em particular no Dia Nacional de Luta com Greves e Mobilizações convocada por ampla coalizão de centrais sindicais e movimentos populares para o próximo dia 11 de julho, em defesa da pauta da classe trabalhadora para o país e da Reforma Política com Participação Popular.

·    os partidos democráticos e populares, centrais sindicais e movimentos sociais que vêm se articulando de forma importante ao longo das últimas semanas para colocar na rua a pauta das transformações sociais do país que sempre nos unificou a debater a reconstituição do Fórum Nacional de Lutas como espaço de diálogo permanente, construção de unidade e articulação de lutas sociais e institucionais.

·    os filiados e filiadas ao Partido dos Trabalhadores em todo o Brasil para que intensifiquem os preparativos para um grande Processo de Eleições Diretas (PED) a ser realizado entre os meses de julho e novembro, com ampla mobilização e empenho no debate político dos temas de nosso V Congresso do PT, de modo a demonstrar a toda a sociedade brasileira que nossas bandeiras de democratização e participação popular em nosso projeto de Reforma podem e serão vividas nas relações internas do PT, construindo e fortalecendo nossa unidade de ação.

e CONVOCA

- Reunião do Diretório Nacional do PT para o dia 20 de Julho.

- Reforma Política com Participação Popular

- Plebiscito Já

- Eleições de 2014 regidas pelas novas regras da Reforma Política

- Todo apoio ao Dia Nacional de Luta com Greves e Mobilizações de 11 de Julho

Brasília, 04 de julho de 2013.
Comissão Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores

Recado das ruas

Frei Betto - 03/07/2013

As manifestações de rua no Brasil fundem a cuca de analistas e cientistas políticos. Dirigentes partidários e lideranças políticas se perguntam perplexos: quem lidera, se não estamos lá?

Recordo quando deixei a prisão, em fins de 1973. Ao entrar, quatro anos antes, predominava o movimento estudantil na contestação à ditadura. Ao sair, encontrei um movimento social – Comunidades Eclesiais de Base, oposição sindical, grupos de mães, luta contra a carestia – que me surpreendeu. Do alto de meu vanguardismo elitista fiz a pergunta: como é possível se nós, os líderes, estávamos na cadeia?

Como essa mesma perplexidade Marx encarou a Comuna de Paris, em 1871; a esquerda francesa, o Maio de 1968; e a esquerda mundial, a queda do Muro de Berlim e o esfacelamento da União Soviética, em 1989.

“A vida extrapola o conceito”, já dizia meu confrade Santo Tomás de Aquino, no século 13. Agora, aqui no Brasil, todas as lideranças políticas encaram confusas e despeitadas as recentes manifestações de rua. Com a mesma interrogação invejosa que a esquerda histórica do Brasil mirou o surgimento do PT em 1980: que história é essa de, agora, os proletários quererem ser a vanguarda do proletariado?

Historicamente eram os líderes da esquerda brasileira homens oriundos da classe média (Astrogildo Pereira, Mário Alves e João Amazonas), dos círculos militares (Prestes, Gregório Bezerra, Apolônio de Carvalho) e da intelectualidade (Gorender e Caio Prado Júnior). Marighella foi das raras lideranças provenientes das classes populares.

O recado das ruas é simples: nossos governos se descolaram da base social. Para usar uma categoria marxista, a sociedade política se divorciou da sociedade civil, risco que previ e analisei no livro “A mosca azul – reflexão sobre o poder” (Rocco, 2005).

A sociedade política – executivo, legislativo e judiciário – se convenceu de que representava de fato o povo brasileiro, e mantinha sob seu controle os movimentos de representação da sociedade civil, como ocorre, hoje, com a UNE e a CUT.

Nem só de pão vive o homem, alertou Jesus. Embora 10 anos de governo petista tenham melhorado as condições sociais e econômicas do Brasil, o povo não viu saciada sua fome de beleza – educação, cultura e participação política.

O governo petista optou por uma governabilidade assegurada pelo Congresso Nacional – onde ainda perduram os “300 picaretas” denunciados por Lula. Desprezou a governabilidade apoiada nos movimentos sociais, como fez Evo Morales, com êxito, na Bolívia.

Assim, nosso governo aos poucos perdeu os anéis para conservar os dedos. Acreditou que tudo permaneceria como dantes no quartel de Abrantes. Seja porque a oposição anda enfraquecida por suas próprias disputas internas, seja porque considera Eduardo Campos e Marina Silva meros balões de ensaio.

O que nem a Abin (olhos e ouvidos secretos do governo) previu foi o súbito tsunami popular invadindo as ruas do Brasil em pleno período da Copa das Confederações – quando se esperava que todos estivessem com a atenção concentrada nos jogos.

Agora o governo inventa o discurso de que sem partidos não há política nem democracia. Ora, basta uma aula de história de ensino médio para aprender que a democracia nasceu na Grécia muitos séculos antes da era cristã, e mais ainda do aparecimento de partidos políticos.

Hoje, a maioria dos partidos nega a democracia ao impedir um governo do povo com o povo. Não basta pretender governar para o povo e, assim, considerar-se democrata. O povo nas ruas exige novos mecanismos de participação democrática, enquanto manifesta sua descrença nos partidos. Estes são intimados a renovar seus métodos políticos ou serão atropelados pela sociedade civil.

Eis o recado das ruas: democracia participativa, não apenas delegativa, ou seja, governo do povo, com o povo e para o povo. Isso não é utopia, desde que não se considere modelo perpétuo o pluripartidarismo e se admita que o regime democrático pode e deve ganhar novos desenhos de participação popular nas esferas de poder.

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.

“Passei anos desmilitarizando a polícia”, lembra José Paulo Bisol

Samir Oliveira e Rachel Duarte, 24/jun/2013, 0h31min

Ex-secretário de Segurança Pública do governo Olívio Dutra (PT), José Paulo Bisol afirma que passou sua gestão inteira tentando desmilitarizar a Brigada Militar. “Eles são submetidos a uma educação militar antidemocrática”, considera.

Aos 85 anos, José Paulo Bisol recebeu a equipe do Sul21 em sua casa, no município de Osório, para falar sobre segurança pública e policiamento. Ex-candidato a vice de Lula em 1989, quando ainda era filiado ao PSB, Bisol ainda mantém uma filiação formal ao PT – apenas por não ter se dado ao trabalho de cancelar -, mas assegura que não possui mais identificação com o partido. “O PT não existe mais”, entende.

Nesta entrevista, Bisol comenta também sobre as manifestações que vêm ocorrendo no país. Ele se mostra entusiasmado com o movimento, mas lamenta que as causas defendidas, na sua avaliação, sejam “muito pobres”.

Sul21 – Como o senhor avalia estes protestos que vêm ocorrendo no país inteiro?
Bisol – Eu, pela própria condição da minha vida, sou um espectador, olho de longe. Isso já lamento. É um lamento de velho, pois eu gosto é de participar. Sou solidário com eles. O fato de haver violência é inerente a estes movimentos. O ser humano tem tendência para a violência e se a circunstância o envolve… Por melhor que eu seja, se eu me envolvo num movimento, se eu tenho paixões – e se eu não tenho paixões, não sou bem um ser humano -, essas paixões se manifestam e se põem para fora. A violência tem esse aspecto, ela é nossa. Não é dos outros.

Sul21 – A ação dos manifestantes pode ser uma resposta à violência da polícia?
Bisol – A polícia de hoje é bem melhor estruturada do que a de 20 anos atrás. A função policial é a mais difícil que existe e escolhemos os mais pobres para realizá-la. Eles são submetidos a uma educação militar antidemocrática. A polícia, hoje, até a militar, é bem desmilitarizada. Eu passei anos na Secretaria (de Segurança Pública) desmilitarizando a polícia, dando cursos de procedimentos não militares. A Brigada é militar em sua organização corporativa, mas é razoavelmente desmilitarizada, no sentido de que a função policial é diferente da função militar.

Sul21 – Em diversos protestos, houve confrontos entre as policias militares e os manifestantes.
Bisol - Também é preciso ter um pouco de amor por esses policiais. Eles participam dessa sociedade dura em que vivemos e exercem uma função muito difícil. Eu defendo muito esses policiais e acho que a Brigada, dentro das condições atuais, é uma boa polícia. Excessos sempre ocorrem. Existe um estudante, como o Pierre, que sai do formato e dos limites do movimento e quebra as vidraças. Existem quantos Pierres? Cada um carrega uma consciência de si e um inconsciente.

Sul21 – E o que o senhor pensa sobre as causas que eles defendem?
Bisol – Eu fico impressionado com esse movimento do qual sou solidário, quero que eles tenham condições de continuar para ver se produzem as modificações que querem. Só que essas modificações são muito pobres. Mudar preço de passagem de ônibus e por no meio coisas sem nenhuma viabilidade de realização, como suspender a corrupção… Se nos reunirmos para debater como acabar com a corrupção, certamente chegaremos até o Congresso. Porque o setor de onde emerge mais corrupção no Brasil é o Congresso. Eu participei desse Congresso. É preciso amadurecer e saber o que se quer. Se querem ir contra a Corrupção, como vão inventar um novo Congresso?

Sul21 – Faltariam propostas mais concretas, na sua avaliação?
Bisol – Um movimento desses é uma oportunidade sagrada. Hegel dizia que a razão humana é astuta: fazemos uma coisa e a razão produz outra. A tua e a minha razão seriam capazes de ser mais do que a razão é em nós dois, porque produziria um resultado imprevisto por nós. Eu tenho esperança que esse movimento ganhe forças. Eu sou homem de esquerda e acho que a esquerda está morta. Se vocês me disserem que Lula é de esquerda eu desmaio. É meu amigo, tenho admiração por ele. Mas não é de esquerda, é um capitalista tremendo. Eu gostaria que esse movimento adquirisse uma força transformadora, aí vale a pena. As circunstâncias são favoráveis a isso, no sentido de que há movimentos no mundo inteiro. Mas percebo que ninguém se arrisca a dizer qual é o sentido deste movimento.

Sul21 – Quais propostas teriam que ser defendidas, na sua opinião?
Bisol - Existe vulgarização nas redes sociais e tenho medo que ela atinja os agentes do movimento. As causas são muito pequenas. Para um país que tem o problema de identidade que nós temos… Diminuir preços não é bem o nosso problema. Nosso problema é: quem somos nós? Até onde temos qualidades para perceber a realidade e pensar sobre ela? O século XX foi o século das grandes narrativas, que eram filosofias políticas. Esse século deu o nazismo, o fascismo, o comunismo, que é uma coisa de louco. O fascismo era o mais vulgar. O nazismo teve essa loucura assassina de colocar judeus como símbolo do mal. Não havia movimento que não tivesse uma teoria por detrás. E, às vezes, teorias espetaculares. Marx não é brincadeira. A teoria do fetiche da mercadoria é válida até hoje. Vocês devem estudá-la. Na adolescência, eu ficava impressionado com os guris comunistas, que sabiam muito mais do que eu. Eu tinha aprendido a viver longe das teorias. Eu tinha vivido na alienação histórica mais profunda da humanidade, que é a religião. Você tem direito de acreditar em Deus, mas não tem o direito de exigir que o outro acredite. E você não tem o direito de transformar seus princípios religiosos em lei. E você não tem o direito de não ser suficientemente lúcido para perceber que, se Deus existe, ele é inacessível. Tua razão não alcança. Como se prova isso? Deus sempre é representado por uma figura humana ou animal. Não temos como pensá-lo.

Sul21 – A interferência religiosa na política é um tema bastante atual.
Bisol – O que os evangélicos estão fazendo é uma fundamentalização da religião. E eu não sei qual será o futuro dos Estados Unidos, onde as pequenas religiões crescem. São, inclusive, soluções econômicas. Às vezes, perdemos este sentido. A droga é uma solução econômica. Já imaginou o que eles fazem de dinheiro? Se eu fosse muito pobre, não sei se não iria vender droga.

Sul21 – Voltando ao assunto das manifestações, há uma insatisfação em boa parte das pessoas com relação aos partidos políticos.
Bisol – Quando tu quiseres lidar contra a corrupção no Brasil, tem que começar pelo Congresso e pelos partidos. Os partidos políticos brasileiros são uma vergonha. Havia um com alguma estruturação de povo e com uma substância um pouco camponesa e religiosa: o PT. Mas esse PT não existe mais. O que temos são partidos cínicos, que não possuem sequer um programa. Estão pensando cada dia como vão aprimorar seu interesse eleitoral e quanto dinheiro é preciso para isso. Se o sistema continuar assim, quem tiver mais dinheiro ganha a eleição. Eu gostei de ver os guris quebrarem a bandeira de um partido em São Paulo. Há uma rejeição bonita e verdadeira aos partidos. Há uma relação bem clara entre causa e efeito. Não dá mais para aguentar os partidos. Mas na hora de votar, quem vota são os interessados no que está aí.

Sul21 – O senhor disse que a esquerda está morta. Quando ela começou a morrer?
Bisol – Acompanhei a esquerda e tive participação política. Não gosto nem de lembrar disso, porque sofri muito. Eu era um ingênuo. A minha esquerda, o meu modo de viver a esquerda, era muito romântico, não tinha efetividade nenhuma. Chegou um ponto em que a esquerda não tinha mais caminhos para mim. Eu continuo à esquerda. Mas é preciso dizer com simplicidade: esquerda não tem mais profundidade nenhuma. É apenas uma expressão para dizer que eu não estou do lado dos conservadores. O meu princípio é de que tudo está sempre mudando. Em polícia e em democracia, não penso somente como Marx, penso como Jefferson, da revolução americana, que quando venceu disse: “de 20 em 20 anos temos que renovar”.

Sul21 – É preciso renovar a democracia brasileira?
Bisol - Todo sistema, depois de um certo tempo, não tem mais coincidência com o povo, que se renovou e tem outros sonhos. Temos que estar sempre mudando. O Brasil precisa mudar sua estrutura de governo. Não é passar para as estruturas que existiram no passado, mas é inventar um novo Congresso. Esse Congresso é insuportável. É tão insuportável estar lá dentro como tê-lo ao lado. Lá dentro tem gente muito boa. Mas o sistema é poderoso e aí vem novamente Hegel: há uma força que não é de ninguém, mas que já se consolidou como uma espécie complexa de hábitos mentais que não se muda mais. Isso que consolida os absurdos. O Congresso Nacional é um absurdo descarado, eles não têm nem vergonha. Eu estive lá dentro e vi pessoas maravilhosas, como Darcy Ribeiro, um grande espírito de nação e de solidariedade humana. Então é isso, estou de acordo com este movimento. Mas, sem estar definitivamente fechando o assunto, porque tudo ainda está em andamento, digo que há muita superficialidade nas causas. Não se faz transformação só com isso.

Sul21 – Uma reforma política profunda seria a saída?
Bisol – Temos que começar mudando nós mesmos. Não posso me considerar pessoalmente. Tenho que considerar as pessoas que estão em torno de mim. Em Osório, por exemplo, uma eleição é antiquada, com churrascos, festinhas. Acho interessante que esses guris têm a coragem de pretender obstruir um pouco as partidas de futebol. É uma coragem de adolescente. Há um contrato internacional. Não existe presidente nem nada: a polícia tem que ir e impedir. É um risco para os guris.

Sul21 – Como o senhor avalia o governo Dilma?
Bisol – Acho a Dilma uma pessoa com uma estrutura política pessoal fantástica. Ela é muito equilibrada e com uma consciência de si bastante amadurecida, sem se pretender a uma transcendência. Só que ela tem que governar ao contrário do que ela pensa. Quantas pessoas ela tem, verdadeiramente, do lado dela? Está todo mundo ao lado dela para que ela governe exatamente como está governando, não como gostaria. Esse é o problema dela, a meu ver, sem pretensão nenhuma de não errar.

Sul21 – E o governo Tarso?
Bisol – Tarso é uma bela pessoa. Gosto muito dele, é meu amigo. Isso é preciso ser dito, pelo que vou dizer agora. O Tarso é o Lula do Rio Grande. Não tem nada de revolucionário. É um capitalista contra o capitalismo selvagem. As soluções dele são capitalistas. O PT não existe mais. Estou dizendo isso literalmente. É igual ao PMDB e a qualquer outro partido.

Sul21 – O PT existia no final dos anos 1980, na época do Olívio?
Bisol – Opa! Olívio é do PT camponês. Não é religioso, mas é da esquerda religiosa. Do ponto de vista dos intelectuais, naquela época ainda existia no mundo a esquerda lacaniana, que é sensacional. Teoricamente, é, hoje, a mais atual. Mas Tarso e a maioria do PT são como o Lula. Eles estão dentro do sistema e de acordo com o sistema. Querem mudar algumas coisinhas, no sentido de que “se eu faço, eu sou”. O fazer precisa aparecer. Politicamente, não existe outro caminho. Sem aparecer, não existem votos. E aí já existe uma tremenda contradição na política, porque o sujeito está sendo político e está pensando em se reeleger. Um dos males da política mundial é que política não pode ser profissão.

Sul21 – O senhor foi Secretário de Segurança. Na sua avaliação, os governos estaduais possuem controle sobre a Brigada Militar?
Bisol – É um controle conflitivo e dialético. Eles têm o sentido de corporação. A Brigada é uma corporação. Como corporação, supõe uma certa independência. Eles têm muita tradição no sentido de respeitar a figura do governador. O secretário representa o governador. Eu nunca tive grandes dificuldades. Tive outro tipo de dificuldades e posso contar. Quando assumi, um ex-secretário de Justiça, que era primo de uma pessoa que era muito minha amiga, se reunia com os velhos coronéis da Brigada e velhos delegados de polícia para preparar um jeito de impedir o Olívio de governar. Governamos com muita dificuldade. Houve resistências obscuras, não no debate público. Pelo contrário, o debate era tudo que eu pedia e eles nunca quiseram.

Sul21 – Que mudanças o senhor tentou impor na sua época?
Bisol – Eu queria, por exemplo, separar os bombeiros. É uma função muito positiva, generosa, sacrificial e sem violência. Acho que se deve separar. Isso era a parte externa. O que eu queria mesmo era uma desmilitarização espiritual. O tipo de formação militar, se for bem humanizada, é boa, disciplinarmente.

Sul21 – O senhor é a favor do fim da polícia militar, como sugere a ONU?
Bisol – Aí é outra ideia. Polícia tem que ser una. Se tu crias polícias muito diferentes, elas disputam privilégios entre si e não transferem informações. Estão agora com a PEC 37 e essa é uma intuição muito boa do movimento. É um horror essa PEC. Ela transforma a polícia brasileira na maior corporação do país. Vão abafar tudo o que quiserem. Nunca se deve concentrar competências. O que deve se concentrar é a unidade das polícias. Elas devem funcionar complementarmente e isso não existe no Brasil.

Sul21 – Como o senhor trabalhava diante de casos de abusos cometidos por policiais?
Bisol – Isso é um tema mundial. É o tema do código vermelho. Quando a corporação policial tem interesse, ela resolve seus problemas, independentemente de outras instituições. Quando eu assumi a secretaria, os códigos de honra eram fortíssimos na Polícia Civil e na Brigada Militar. Eles, inclusive, tinham pacto com bandidos. Das investigações que fiz, registro diversos encontros neste sentido.

Sul21 – Que investigações o senhor citaria?
Bisol - O mais importante são alguns inquéritos que fiz na época, contra tudo e contra todos. Encontrei alguns policiais extraordinariamente dignos para fazer esses inquéritos. Um deles, inclusive pedi ao Olívio que colocasse na Justiça Militar, o Brum. Ele fez o inquérito sobre o caso em que a polícia matou dois guris que eram assaltantes de ônibus. Eram dois irmãos. Como esses dois guris, num dos assaltos, mataram uma brigadiana, por um tiro infeliz de um deles, a Brigada inteira se reuniu, por fora da lei. Em um código de honra, foram à casa dos guris e massacraram os dois. Esse inquérito foi muito bem feito. Mas aí chegou uma hora em que a mídia começou a dizer que não era bem assim. Era como eu pensava, sim – muito pior até.

Sul21 – A mídia não concordava com o inquérito?
Bisol - O código de honra funciona de uma maneira em que os jornalistas às vezes cooperam com a polícia para ter as informações necessárias. A mídia tem muita ligação com a polícia. Eu fui funcionário da RBS. A RBS, lá embaixo, é unha e dente com a polícia. Se a polícia resolver não gostar de um secretário, assopra para a RBS e a RBS ajuda. Eu não tenho nada contra a RBS, embora eles tenham ajudado a me desmoralizar. Pelo contrário, trabalhei na RBS sem interesse de salário, por gosto. Depois quis sair, porque queria fazer política. Eles foram muito bacanas comigo, eu estava lá como diretor e não sabia fazer as coisas. Eles deveriam ter me posto na rua, mas foram muito tolerantes. Eu que tive que dizer que eu não sabia fazer, então me colocaram no rádio. Eu sou agradecido a eles. Depois se voltaram contra mim. Isso é outro assunto.

Sul21 – O senhor estudou as cartilhas da ONU para tentar mudar a polícia. Para que a arma fosse utilizada em última instância.
Bisol – Sim. Inclusive fiz dois ou três editais para transformar comportamento tirando princípios da ONU. Quase me mataram. A mídia quase me matou. Me ridicularizaram até na Veja. Eu dizia que a polícia não pode atirar sem dominar a situação. Se pode acertar em outro, não atire. Se está em movimentação, não atire. Tem tanta gente morrendo não de tiro perdido, mas de tiro mal dado. Seja quem for o bandido, se houver risco de se acertar outras pessoas, então que não atirem. Fiz editais neste sentido e fui ridicularizado. A mídia é muito policialesca.

Sul21 – Qual a importância da formação policial para que se tenha uma polícia que respeite os direitos humanos?
Bisol – Nenhum secretário fez muito por isso. O problema é que as polícias conseguiram, com apoio do Congresso, fazer eles mesmos a sua escola, assim como o Exército. A Polícia Civil que faz seu curso em Porto Alegre. Não pode ser assim. Se a polícia mesmo se faz, ela se faz como quiser.

Sul21 – Então secretários não têm poder de modificar a formação?
Bisol – Têm, porque nós fazíamos cursos. É preciso fazer cursos civis para desmilitarizar a polícia. Mas não pense que a Polícia Civil não tem também uma concepção militar. O Brasil como nação possui uma concepção militar. O pensamento de que eles são bandidos e nós representamos os bons, então precisamos acabar com eles. Isso não é polícia. Polícia não tem que acabar com ninguém. Ela tem que exercer proteção. Polícia tem que te dar espaço e tranquilidade. No que diz respeito aos criminosos, tem que buscá-los e prendê-los.

Sul21 – E diante de uma manifestação, como a polícia deve agir?
Bisol – Não há possibilidade nenhuma de se acertar. Sempre vai haver um ponto discutível, porque vai haver violência. Agora, não se pode deixar um movimento chegar a subir em cima do Congresso. Isso é muito bonito, mas tu tens que ir para a capela rezar para que nada aconteça. Se dessa correria lá, teríamos aleijados para tudo que é lado. Não pode deixar se aproximar três metros. O movimento tem que ter espaços livres e tem que ter consciência de que existem lugares onde o acesso não é permitido. É preciso deixar que o movimento tenha flexibilidade. E eles estão bem inteligentes, fazem diversos grupos.

Sul21 – Como o senhor avalia a luta pelos direitos humanos hoje?
Bisol – Fui uma pessoa muito integrada com os direitos humanos, mas hoje sou mais revolucionário. Hoje leio que a revolução sempre fracassa, acaba em terrorismo. Outro dia dei uma palestra aqui na universidade e, depois, fui almoçar com uns amigos e um deles me perguntou: “e se o senhor tivesse que matar pela causa?”. Eu respondi: “se eu tivesse certeza da minha causa, eu mataria”. Mas é difícil ter certeza. A vida de cada um de nós, o que nós pensamos, sentimos e amamos, está dentro de uma verdade que nunca pode ser esquecida: o ser humano se caracteriza pela finitude. Ele nunca alcança o que gostaria de alcançar. Ninguém alcança. A não ser que o objetivo seja diminuir as passagens de ônibus. Isso é algo que a ignorância brasileira nacional não consegue compreender. Somos uma espécie estranha de iluminismo. As pessoas, eu, tu, nós, agimos como se nossas cabeças resolvessem tudo. Como se fôssemos racionais. O que o desejo sexual tem a ver com a razão? E não é normal e natural? E não é estranho? Tu não dominas muito. E não seria bonito, se não tivessem todos esses desvios morais que colocam em cima? A relação seria muito mais transcendente se não fosse o moralismo. A verdade é que ela não é racional, é animal. Pode até existir uma substância espiritual, mas o desejo, seja de quem for, é sexual mesmo. Lacan diz que não se chega nunca à realização sexual, o que é absoluta verdade.

Sul21 – O senhor disse que a esquerda está morta, os partidos são uma vergonha e o Congresso é um absurdo. Como agir diante deste cenário?
Bisol – O que estou dizendo com isso? Estamos precisando de um evento, um fato que mude tudo. É a revolução. Isso pode ocorrer. Há sinais. Há, universalmente, um desencanto com o sistema capitalista. O liberalismo é algo cansado. Mas, como não existe cultura política, ninguém pensa contra. Tanto é que fazem um movimento para mudar preços.

Sul21 – Outros partidos de esquerda que estão na origem destas manifestações atuais não são capazes de produzir uma nova teoria que dê conta dos nossos tempos?
Bisol – Como agentes políticos, esses partidos são interessantes. Mas não têm perspectivas, porque nada se reproduz. Gadamer dizia que compreender é sempre mudar a compreensão. Quando eu compreendo algo, o que mudou foi minha capacidade de compreender. Eles querem refazer uma história que já está feita. Já passou o tempo. É intempestivo. É preciso inventar algo que coincida com essa mentalidade um pouco esvaziada, mas muito produtiva tecnicamente, e que tem riqueza de habilidades e de imaginação nos seus setores.