UFSM > Entrevista – 12/07/2013 – 09:07
A marcante onda de manifestações, que ocorreu em junho
e julho no país e virou pauta principal entre a população e os veículos da
grande mídia, trouxe mudanças e questionamentos sobre o funcionamento dos
sistemas político e social no Brasil. Em entrevista, o professor do
Departamento de Filosofia, Ronai Pires da Rocha, faz uma reflexão sobre os
desdobramentos das manifestações no país.
Guilherme Gabbi - Como você vê essa onda
de manifestações no país?
Ronai Pires da Rocha - O grande ponto de partida é
considerar que tudo isso é muito complexo. Não há como descrever tudo em duas
ou três frases. Em algumas das minhas aulas, faço uma análise: existe um grupo
de brasileiros que está sendo incorporado num processo de vida e consumo,
classes médias e medianas, C e D. E, nós teríamos que compreender o que está
havendo nesse segmento que tem ligação com as manifestações. Hoje, temos de 40
a 60 milhões de pessoas nessa classe, que tem expectativas de qualidade de
vida, que foram prometidas pelo tipo de governo que tivemos nos últimos 15
anos. Essas pessoas percebem que as coisas não estão caminhando na velocidade
que eles acham que seria a adequada. São coisas sutis: existem escolas com
bastantes vagas, mas a qualidade de ensino é ruim e não há condição para
matricular um filho em uma escola particular, por exemplo. Qualidade de vida e
transporte também se aderem a isso. Uma coisa que estava acomodada no país
mexeu-se nos últimos 10, 15 anos. Juntamente a isso, tem-se a ideia de que a
qualidade da representação política deixa a desejar cada vez mais. A sensação
de impunidade, presença de corrupção e os escândalos incitam indignação e certa
vergonha na forma da representação. Vejo uma espécie de convergência de
fatores, que geram toda a indignação.
Para tanto, tem-se que ter cuidado para fazer uma
analise sociológica e econômica sobre isso, sobre as gerações que estão
chegando e querem participar de todo esse movimento. A análise sociológica tem
complemento de dimensão em natureza política, quando se pergunta o que se fazer
com a indignação. Todos os processos têm ligação com aspectos psicossociais, envolvendo
a forma como agimos com os sentimentos em relação a ações políticas. Até então,
tudo parecia ir muito bem, pois alguns partidos se apropriam da ideia de
representação. Isso tudo começa a entrar em crise desde que mudanças políticas
seguidas por propostas começam a surgir.
Existe outro fenômeno que analisa como esses grupos
novos se ligam. Em filosofia política, costuma-se ter uma análise muito
limitada que se resume em: uma sociedade com indivíduos, esses se relacionam
entre si, como átomos sociais, fazendo pactos. E assim, surge uma sociedade
política. Hoje, essa concepção não dá conta da complexidade na sociedade e nas
relações. Essa análise mecanicista acaba por ser superficial. As pessoas são
complexas, elas “estão sendo” algo, não “são” algo fixo. Hoje não se tem o
jovem minuciosamente esculpido e definido em maioria, há o processo de “estar
sendo”. Estamos passando por um momento que um movimento com certa
espontaneidade está surgindo. Uma imensa quantidade de estudantes de ensino
médio, por exemplo, estão nas manifestações porque ninguém aguenta ser estúpido
ou idiota sempre. Eles são acusados disso, mas eles não são alienados, não são
idiotas, são pessoas cuja disposição para sair à rua e fazer algo opera em uma
faixa delicada e sensível. Uma bandeira de partido não fará com que eles saiam,
eles sabem que daí vem palavras de ordem, e isso repudia eles de certa forma.
Outro ponto importante é a relação existente entre o
consumo e a cidadania de cada um. Para isso aconselho um livro muito interessante,
chamado “De consumidor a cidadão”, de Alberto O. Hirschman. Nele, o autor traça
o paralelo entre o individual consumo e a presença da prática de cidadania. Com
base em seu estudo, é errado analisar e chegar a conclusão de que consumo e
consumismo são sinônimos. Oscilamos entre dois polos: individual e coletivo.
Consumo e cidadão político. Dentro do processo de consumo tem-se o estímulo
pela cidadania. Por exemplo, compra-se algo e esse está com algum defeito ou
problema. O consumidor irá reclamar e pedir algum tipo de conserto. É o que
ocorre com os grandes serviços públicos, dos quais compramos, mas não estamos
satisfeitos, como é o caso do SUS ou da educação pública.
Combine tudo isso com uma gurizada que tem acesso à
rede, possui smartphones, que tem relacionamento horizontal e não vertical
baseado em sistemas de partidos, que presencia uma presidente mais retraída
midiaticamente, e você tem as condições para os estopins, como o da passagem,
os que estão relacionados ao mensalão, por exemplo. Não se pede uma
constituinte para uma reforma política, isso é a solução que o governo achou. O
furo de tudo é mais profundo, a crítica principal está relacionada aos grandes
sistemas de serviço público e em relação aos partidos. Esse apartidarismo não
representa alienação nem pensamento facista, mas sim uma crítica contra o
movimento partidário ineficiente.
G. G. - Então a questão do apartidarismo
é uma crítica ao sistema de partidos no país?
R. R. - Exatamente. Na percepção dessas pessoas os
partidos sofrem de uma série de males. Um deles é que “eles já sabem de tudo”,
mas as bandeiras que têm não contemplam o pensamento de todos. Não vejo que a
mensagem é acabar com os partidos. Cria-se o momento do apelo para que, por um
momento, sejamos uma nação, um povo. O que gera o pensamento de facismo. Mas
não é isso, o apelo que se tem é uma crítica ao todo. A bandeira nacional é
aquilo que parece nos unir como um só, que liga partes comuns para o movimento.
Até a mais fantástica esquerda que se possa imaginar é conservadora. Eles
parecem saber de tudo.
G. G. - Qual a leitura que você faz em
relação aos movimentos sociais dentro dessa onda de manifestações?
R. R. - Diria o seguinte: os movimentos formam um
amplo leque, desde a Marcha das Vadias aqui na cidade até as bandeiras que
tratam do assunto da cura gay. Questionaria sobre a movimentação dos movimentos
sociais. À medida que os movimentos se movimentam e o ponto de partida não é a
clareza evidente e brutal sobre o futuro, mas sim de uma clareza evidente e
brutal de que oportunidades de crescimento, acesso, participação são restritas
e não têm a plenitude que deveriam ter. Aí, estamos falando e um movimento
social com o mínimo de capacidade de interação com o futuro, com alternativas
viáveis. Não se tem o modelo pronto de bolso, que caracteriza um movimento
social que tende a sofrer mais nesse momento. Hoje, as coisas têm que ter certa
capacidade de aceitação das pessoas ao teu lado em função da conquista de um ou
outro patamar de visibilidade para as demandas sociais. Os movimentos sociais
que têm a capacidade de entender que estar ao lado de um empresário, por
exemplo, é, nesse momento, algo que faz parte do jogo para que se chegue a
outro patamar de exigências de comportamentos daquilo que se entende por um
sistema democrático, de transparência, combate a corrupção, que são coisas
importantes para todo mundo, acabam se saindo bem. Outro lado é estar num movimento
social de espinha dura, que não se flexibiliza e não aprende nada com o que
está acontecendo. O tipo de bandeira geral (nação como todo) já impõe certo
acordo em determinado momento.
Devem-se pensar como essas diversas pressões
espontâneas vão se comportar. Os movimentos sociais devem pensar em como se
comportarão. Aí que eu penso que o próximo lance é saber em que medida os
partidos políticos declarados de esquerda vão aprender algo com tudo isso? Um
processo que acho ser muito difícil. Enfim, acho bem complicado, quando se
trata de movimentos sociais. Uma análise deveria se orientar por uma descrição
adequada para essa diversidade de movimentos sociais, pois cada um tem
características bem especiais.
G. G. - Uma suposta falta de liderança
pode ser notada em momentos das manifestações. Como você acha que isso
configura ou interfere nos diversos pedidos presentes nas ondas de
manifestações?
R. R. - Isso é o grande diferencial em relação aos
grandes movimentos que levaram muitas pessoas as ruas. Como no “Fora Collor”,
nas “Diretas Já”. Esse movimento atual, no começo, não pode ser citado com
falta de liderança. As mobilizações de Porto Alegre eram muito fortes no
sentido das passagens e tinham presente liderança. O que provavelmente
aconteceu é que começa a surgir um clima que propicia uma prática de cidadania,
em que cada um tem a sua bandeirinha e quer exercer essa prática. Nenhum de nós
abre mão de certa lealdade de sermos do mesmo país, mas de que forma vou me
manifestar? Do meu modo. Por isso, essa espécie de salada, onde cada um pede
algo, numa espécie de grande celebração cívica.
Por exemplo, o conceito grego de vida privada é uma
vida idiota, uma vida que tu fazes a partir de tuas pequenas percepções, e
ninguém vive muito tempo sem se incomodar com isso. A dúvida do que fazer pelos
outros se evidencia uma hora ou outra. Então, subitamente, tu faz esse
exercício. Daí, a partir de coisas que tinham objetivos definidos (início dos
movimentos), tem-se uma agregada geral de pedidos, onde está presente um certo
aproveitamento e impulso para ir à rua, afinal, o fato de ir à rua é algo de
tremendo valor simbólico.
Surge com isso a seguinte questão: como que isso vai
se encaminhando? Eu imagino que tudo é um grande jogo que vai depender dos
próximos lances e atitudes governamentais. Dependendo do que acontecer, novas
ondas de protestos surgirão.
G. G. – Você acha que tudo isso
caracteriza que as massas ascenderam ou acha que tudo ainda é um processo?
R. R. - Acredito que seja um processo ainda. Esse conceito
“massas” é algo que eu gostaria de discutir, pensar mais sobre. O que quer me
dizer com massa? A noção de massa pode ser dada para um esquema de massa
com algo relacionado a um processo revolucionário, e quando usa-se a palavra
revolucionário, o que quer dizer com isso? Especialmente, se estiver imaginando
algum tipo de processo que leva a algum tipo de ruptura mais ou menos
significativa. Uma das minhas broncas com quem faz análise política de esquerda
é a ideia de que a gente está muito marcado por modelos de análise em que se
sonha em modelos de ruptura relativamente assinalados. Movimentos sociais do
século XVIII, por exemplo, tinham alvo preciso, que era a questão de direitos
civis, igualdade como seres humanos. A seguir, se todos somos cidadãos, surge
outro tipo de demanda, que é a de ter direitos políticos, que também tem alvo
preciso. Atualmente, tem-se uma terceira onda de direitos, que visa direitos
sociais. Não está em discussão reconquistar direitos civis, políticos. O que
está em discussão é como construir direitos sociais de forma segura, expansiva,
incorporador em um país onde a classe política é ineficiente e atrasada.
Nesse sentido, eu tenho certa resistência na ideia de
“estamos tendo crise na representação política”. A crise de representação
política surge no dia em que o voto é implantado e tem o mesmo peso. Para cada
trabalhador engajado, tem-se um trabalhador alienado que acaba amenizando a
insatisfação de quem se engaja. No voto, tem-se a amenização da representação,
pois o sistema de representação do voto não dá conta disso. Por isso, a
presença de muitos movimentos para potencialização da voz. Surge a dúvida de
“quem está conseguindo potencializar a minha voz?”. O que se discute é que
nesse processo de terceira onda de direitos (sociais), têm-se grupos que brigam
por direitos sociais interessantes, por valores ambientais e afins que não tem
sua voz devidamente amplificada.
G. G. - Como você vê a questão de nós
como um todo e nós como “um individual”? Por exemplo, da amplificação das vozes
individuais e a representação disso como um todo.
R. R. - Então, para dar conta disso, vemos a bandeira
brasileira, povo, falamos a mesma língua, temos tradição em comum. Tem-se o
refúgio nisso, como um fundo de reserva para que haja essa identidade comum. Em
contraponto a isso, identidade como indivíduo não consegue se formar. Nós
precisamos do que os sociólogos chamam de processo de pertencimento. Esse
processo totalmente genérico de nação brasileira não resolve. Como se dá o
processo de pertencimento para que haja visão da sua identidade? Como se
resolve a questão de identidade? É aí que temos que pensar.
Repórter: Guilherme Gabbi – Acadêmico de Jornalismo.
Edição: Lucas Durr Missau.
Notícia
elaborada pela Coordenadoria de Comunicação Social (http://www.ufsm.br/)
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