Miguel do Rosário, 24/07/2013 - 11:19am
Meu
livro de cabeceira tem sido “A democracia e seus críticos”, obra-prima de
Robert A. Dahl, talvez o maior cientista político vivo no mundo, ao menos nos
estudos sobre democracia. A leitura de Dahl, e o alívio que ela me proporciona,
me deu a ideia de defender o ensino de ciência política para crianças e
adolescentes. Urgentemente.
Os
brasileiros estão amadurecendo sem conhecer o seu sistema político. A ideia que
têm da política vem exclusivamente da televisão e das redes sociais; cada vez
mais destas últimas, onde a fonte primária da informação são os grandes portais
pertencentes aos principais grupos de mídia.
Filosofia,
sociologia, tudo isso é importante ensinar ao jovem. Mas ainda mais importante
é fazer com que crianças e o adolescentes tenham noções básicas de como
funciona o nosso sistema político. Eleições proporcionais, câmara de
vereadores, função do Ministério Público. Nem eu, que leio todos os jornais
diariamente, e estudo ciência política há anos, sei direito, imagina os
adolescelentes?
E
os jovens, com sua extraordinária capacidade para apreender o novo, seriam os
professores de seus pais, avós e conhecidos.
As
manifestações juvenis que assistimos no país sugerem que temos um enorme
segmento da sociedade aspirando ser politizado e participar mais ativamente da
vida política. Mas demonstraram igualmente que são portadores de todos os
preconceitos vulgares que a mídia lhes incute diariamente.
Antes
que apareçam reaças apavorados me acusando de pregar o ensino do comunismo no
colégio, reitero que a minha ideia não é embutir na grade escolar qualquer tipo
de proselitismo ideológico ou partidário, e sim ensinar como é, concretamente,
o sistema político brasileiro. E ensinar o que é democracia, e porque vivemos
num regime democrático.
Os
jovens também deveriam ter aulas de mídia. A mídia hoje é importante demais na
vida social para não ser objeto de estudo nas escolas. Visto que a maior
parte das informações nos chegam via mídia, aí incluindo as redes sociais, as
crianças devem ser preparadas para serem críticas e desenvolverem um pensamento
independente.
A
leitura de Dahl tem me auxiliado, além disso, a consolidar a convicção de que a
suposta crise da democracia representativa deriva, em boa parte, do abismo
crescente entre um regime político democrático e o sistema corporativo de mídia
vigente em todo mundo ocidental.
Talvez
a democracia precise sofrer algum tipo de reformulação. Isso é normal, e se
analisarmos a história das democracias, veremos que ela está constantemente se
aprimorando. O processo de inclusão de enormes contigentes aos sistema de
sufrágio, por exemplo, consolidou-se apenas nas últimas décadas, e em grande
parte do mundo, a leniência com regimes totalitários só acabou há pouco tempo.
Na América Latina, a democracia renasce na segunda metade da década de 80. No
Oriente Médio, a ideia democrática ainda é um germe revolucionário, embora a
luta por sua implementação tenha sido rapidamente instrumentalizada por
interesses imperialistas.
A
velha e boa ciência política nos ajuda a entender a recente onda de
manifestações no Brasil, e a discuti-las sob o ângulo do princípio democrático.
É interessante verificar ainda que em todas as análises esbarramos na questão
da mídia. A democratização da mídia não é apenas a “mãe de todas as batalhas”
no âmbito da prática política; também no universo exclusivamente acadêmico dos
estudos democráticos ela aparece como um elemento cada vez mais central.
Segundo
Dahl, a teoria democrática se sustenta em quatro grande eixos, ou critérios:
1)
participação efetiva:
“Ao
longo de todo o processo de tomada de decisões vinculativas, os cidadãos devem
ter uma oportunidade adequada e igual de expressar suas preferências quanto ao
resultado final. Devem ter oportunidades adequadas e iguais de colocar questões
na agenda e de expressar seus motivos para endossar um resultado e não outro.
Negar a qualquer cidadão as oportunidades adequadas para a participação efetiva
significa que, por causa do fato de que suas preferências são desconhecidas ou
incorretamente percebidas, elas não podem ser levadas em consideração. Mas não
levar em igual consideração as preferências dos cidadãos quanto ao resultado
final equivale a rejeitar o Princípio da Igual Consideração dos Interesses”.
2)
igualdade de voto no estágio decisivo:
“No
estágio decisivo das decisões coletivas, cada cidadão deve ter assegurada uma
oportunidade igual de expressar uma escolha que será contada como igual em peso
à escolha expressa por qualquer outro cidadão. Na determinação de resultados no
estágio decisivo, essas escolhas, e somente essas, deverão ser levadas em consideração”.
3)
Compreensão esclarecida:
“Este
critério implica que procedimentos alternativos para a tomada de decisões devem
ser avaliados de acordo com as oportunidades que proporcionam aos cidadãos para
a aquisição de uma compreensão dos meios e fins, dos interesses do cidadão e
das consequências esperadas das políticas para seus próprios interesses e os de
outrem. ”
4)
Controle de agenda:
“A
fim de entender mais claramente porque um quarto critério é necessário,
suponhamos que Felipe da Macedônia, tendo derrotado os atenienses na Queroneia,
prive a assembleia ateniense da autoridade de tomar quaisquer decisões quanto
às políticas externa e militar (…) O controle não democrático sobre a agenda é,
às vezes, bem mais sutil. Em alguns países, por exemplo, os líderes militares
estão sob controle nominal dos civis eleitors que, no entanto, sabem que serão
removidos do cargo ou submetidos a algo pior se não talharem suas decisões de
acordo com os desejos dos militares.”
Em
todos os critérios, vê-se o fantasma da mídia corporativa assombrando a
democracia, mas sobretudo nos itens 1,3 e 4. Uma mídia não-democrática impede a
sociedade de expressar, de forma igualitária, suas preferências (1º critério).
Impede uma compreensão esclarecida acerca dos nossos próprios interesses
(3º critério). Encobre o controle da agenda imposto pelo poder econômico sobre
o poder político (4º critério).
No
caso da mídia brasileira, contudo, além de desempenhar uma função
essencialmente não-democrática na atual conjuntura política, ela também
protagoniza uma eterna campanha antinacional. Em primeiro lugar, pratica uma
constante distorção do noticiário econômico, conferindo-lhe um viés mais
negativo do que sugerem os dados. Dou-lhes um exemplo no jornal de hoje. No
Globo, vê-se na primeira pagina a seguinte chamada:
Não
vou me estender sobre um assunto que já denunciei inúmeras vezes. O título é
mentiroso porque o desemprego nunca esteve tão baixo na história do Brasil. A
geração líquida de empregos declina, naturalmente, na proporção em que declina
também a mão-de-obra ociosa e disponível.
Um
caso ainda mais grave, porém, seria uma possível aliança entre a mídia e
interesses estrangeiros. Não é apenas uma visão paranóica, visto que o
principal conglomerado de mídia do país tornou-se todo poderoso justamente em
virtude das ajudas financeiras que recebeu dos Estados Unidos, durante um
regime militar que ambos se esforçaram, num trabalho combinado, para implantar.
A Globo tem dívida eterna com os EUA. Se há interesse dos EUA, portanto, de
pintar negativamente o Brasil para que os fluxos de investimento que estão
vindo para cá voltem a se deslocar para a terra dos “homens bravos”, o Globo
estaria a nosso lado ou do lado dos americanos?
Espero
que tolerem minha visão paranóica tendo em vista o meu amor por estatísticas,
documentos, teorias clássicas, e tudo que pode ancorar um pensamento no chão,
mas o momento nos pede um pouco mais de ousadia também nesse terreno. Eu tenho
me perguntado a quem interessaria mostrar um país tomado quase que por uma
guerra civil, com cenas de depredações generalizadas, bombas explodindo nas
ruas, e um ódio sectário e descontrolado a governantes eleitos por enorme
maioria da população?
Sei
que a culpa não é dos manifestantes legítimos, da juventude que aspira por um
país melhor. Tenho conversado com muita gente que apoia os protestos de rua, e
entendo que a maioria da juventude tem uma pauta progressista. Mas há
manipulação e há incentivo ao sectarismo. Além disso, a história nos mostra que
ser progressista ou de esquerda não tem relação, necessariamente, com a defesa
da democracia. Isso também me preocupa: a criação de uma aliança oculta entre
uma direita astuta e endinheirada, cheia de conexões internacionais, e uma
juventude progressista, inchada de aspirações utópicas e testosterona, mas ingênua,
tendo como base comum posturas essencialmente antidemocráticas, voluntaristas e
sectárias. As consequências dessa aliança é o que começa a ser mostrado nas
CNNs do mundo: um país paralisado, com jovens – infiltrados ou não – lançando
bombas na polícia, com polícia fazendo prisões arbitrárias, e uma quantidade
crescente de pessoas nas redes sociais defendendo a violência indiscriminada
como estratégia aceitável para “mudar o Brasil”.
Por
isso, este blogueiro alerta a todo o Brasil, aos manifestantes, aos jovens, ao
governo, e aos setores não-entreguistas da oposição: cuidado com quem andas! As
chamadas para as manifestações do 7 de setembro, por exemplo, nos sites dos
“anonymous”, estão repletas de fascistas, golpistas e reacionários,
interessados exclusivamente na desestabilização do país. Temos que reagir!
http://www.ocafezinho.com/2013/07/24/paranoias-democraticas/#sthash.vOEzS9sB.dpuf

Nenhum comentário:
Postar um comentário