terça-feira, 31 de julho de 2012

Ex-marido de Dilma critica PT e quer voltar para política pelo PDT

31 de julho de 2012 08h44 atualizado às 09h07

Angela Chagas - Direto de Porto Alegre

Doze anos após abandonar a política por causa de uma decepção com líderes do PDT no Rio Grande do Sul, um dos deputados mais votados na década de 1980 pretende retornar ao partido que ajudou a fundar. Ex-marido de Dilma Rousseff, o advogado Carlos Franklin Paixão de Araújo é considerado o maior confidente da presidente da República, a quem ele classifica como uma grande amiga. De prosa simples e com muitas histórias para contar, Carlos Araújo recebeu o Terra em sua casa, na zona sul de Porto Alegre, onde confirmou o desejo de retornar à política.

"Quero me filiar de novo porque tenho muita vontade de fazer política, mas como eu vou fazer é o que eu ainda não sei", disse Araújo. Apesar de não ter planos de disputar um cargo público novamente, o advogado quer ajudar a reerguer o trabalhismo que, segundo ele, perdeu suas raízes nos últimos anos. "O PDT está descaracterizado, mas eu acho que logo vão surgir novas lideranças", afirmou ao criticar o atual presidente da sigla, o ex-ministro do Trabalho Carlos Lupi.

Na casa na beira do Guaíba, Carlos Araújo divide as tarefas da advocacia com as leituras sobre Getúlio Vargas. Orgulhoso do trabalho de Dilma, ele relatou a luta do casal que se conheceu nas reuniões dos grupos de esquerda e que passou a dividir os sonhos de liberdade e os dramas da tortura e da repressão. Sobre a instalação da Comissão da Verdade para elucidar os crimes cometidos na ditadura, Araújo disse que espera que a sociedade cobre a devida punição aos envolvidos. "Eu acho que não cometi crime nenhum durante a ditadura e mesmo assim fui condenado, agora por que esses caras que fizeram horrores, que mataram, torturaram, não podem ser condenados também?", questionou.

Em uma conversa de quase duas horas, o ex-deputado ainda falou sobre o julgamento do mensalão, que começa na próxima semana. "Eu acho tudo isso uma barbaridade, um absurdo. Não tem provas contra ninguém. É um julgamento político incentivado por uma mídia que nós sabemos bem como é", disse, mesmo sem deixar de criticar o partido de Dilma. "Eu sempre tive uma visão muito crítica do PT. Uma coisa é a liderança do Lula, que é incontestável, mas o PT hoje é muito mais uma força eleitoral do que uma força política. Não diria que é uma falsa esquerda, mas as divergências dentro do partido são tão grandes que está virando de tudo um pouco. Eu digo até que virou um PMDB de esquerda, infelizmente".

O Terra inicia hoje uma série de entrevistas com personalidades da política nacional que abandonaram seus partidos depois de terem ocupados cargos públicos de destaque, como governadores, deputados e senadores. A seguir, confira os principais trechos da primeira entrevista:

Terra - Por que após a ditadura o senhor resolveu se filiar ao PDT de Leonel Brizola. O PT não seria o caminho mais natural?
Carlos Araújo - O que eu aprendi depois de estudar muito, principalmente na cadeia, foi que todos os movimentos sociais e revolucionários fortes se constroem em cima de um grande líder. No Brasil foi assim com Getúlio Vargas e Jango. Quando surgiu o Lula, com as greves no ABC Paulista, eu logo procurei ele, sempre achando que deveríamos seguir esse veio da história, do trabalhismo. Mas o PT surgiu com muita pretensão, dizendo que a história começava dali para frente. E eu achei que não era bem assim. Eu não tinha nenhum vínculo com o trabalhismo, mas via que todas as sociedades que haviam prosperado tinham respeitado suas forças sociais, sua história. Por isso fui para o trabalhismo, me aliei ao Brizola porque achava que ele respeitava isso, e ainda tinha forte liderança, poderia levar essa luta adiante.

Terra - O senhor tentou levar o Lula para o partido do Brizola?
Carlos Araújo - Sim. Eu e a Dilma fomos para Lisboa para uma reunião com o Brizola, na época ainda antes de se formar os partidos. Eu fiz uma parada em São Paulo para tentar convencer o Lula a ir junto conversar com o Brizola. Mas ele disse que não iria.

Terra - O senhor acha que o PT é uma falsa esquerda?
Carlos Araújo - Eu sempre tive uma visão muito crítica do PT. Uma coisa é a liderança do Lula, que é incontestável, mas o PT hoje é muito mais uma força eleitoral do que uma força política. Não diria que é uma falsa esquerda, mas as divergências dentro do partido são tão grandes que está virando de tudo um pouco. Eu digo até que virou um PMDB de esquerda, infelizmente. Claro que a gente tem que respeitar, primeiro porque é uma grande força eleitoral, segundo porque lá dentro tem quadros de melhor qualidade. Mas eu acredito que o trabalhismo ainda vai desempenhar um papel forte no futuro.

Terra - Como o senhor avalia o PDT hoje, sob o comando do ex-ministro Carlos Lupi?
Carlos Araújo - É um pavor. Eu acho que o PDT está descaracterizado, sem liderança depois da morte do Brizola, mas logo devem surgir novos líderes que vão recuperar isso.

Terra - Poderia citar quem teria condições de ser um líder no PDT?
Carlos Araújo - Eu acho que vão surgindo lideranças, não posso chegar e dizer vai ser essa, vai ser aquela. Aqui em Porto Alegre, por exemplo, o PDT tem quase mil jovens, é emocionante ver essa gurizada querendo fazer política. E tem os próprios netos do Brizola, que vão acabar desempenhando um papel importante. Um é vereador no Rio de Janeiro, um é ministro e a Juliana é deputada no Rio Grande do Sul. Mas acho que vai ser bom para o País se o PDT retomar a sua tradição, as raízes trabalhistas.

Terra - O senhor teve alguma decepção com o Brizola?
Carlos Araújo - Não, é preciso entender o Brizola. Ele foi um governador tão bom no Rio de Janeiro que foi reeleito. Acho que cometeu alguns erros, alguns equívocos, mas muito por causa dessa disputa com o PT. O que aconteceu é que surgiram duas grandes forças na esquerda, e isso dividiu o movimento. O PDT com o tempo foi perdendo espaço para o PT e não soube superar isso. Faço uma observação, não é crítica, de que quando o Brizola foi para a Europa e se aliou à socialdemocracia, principalmente à alemã, acho que isso fez mal para ele, porque o Brizola perdeu suas características próprias, que o tornavam uma figura rara, e adquiriu essa nova postura. Isso o levou a uma certa hibridez. Mas isso não desmerece o Brizola, ele foi um grande líder, tivemos algumas desavenças, mas ele foi muito importante.

Terra - O Brizola foi contra a sua candidatura à prefeitura de Porto Alegre em 1988?
Carlos Araújo - Sim, no primeiro momento ele foi contra. O Brizola queria uma candidatura mais conservadora, achava que Porto Alegre não era uma cidade preparada para ter uma pessoa de esquerda no comando, preferia que fosse o Carrion, e eu concordei. Mas ele acabou mudando e ideia porque viu a manifestação do partido ao meu favor, viu que não tinha como impor uma candidatura.

Terra - A sua derrota para o petista Olívio Dutra nessa eleição foi culpa do seu companheiro de partido Alceu Collares?
Carlos Araújo - Sim, o Collares era prefeito de Porto Alegre. Eu estava em primeiro lugar nas pesquisas e uma semana antes da eleição estourou uma greve dos lixeiros. A cidade ficou imunda até o dia da eleição e não houve empenho nenhum do prefeito, que era do meu partido, em terminar a greve. Então fui derrotado.

Terra - O senhor saiu do PDT por causa disso?
Carlos Araújo - Eu saí mais tarde, quando o Collares foi candidato a prefeito em 2000. Eu não queria votar nele, por tudo que aconteceu, mas não podia desrespeitar a orientação do meu partido. Então para evitar isso eu saí do PDT.

Terra - O senhor então apoiou o candidato do PT?
Carlos Araújo - Sim, apoiei o Tarso Genro.

Terra - A Dilma já havia deixado o PDT e se filiado ao PT. Por que o senhor optou por ficar sem partido?
Carlos Araújo - Eu não quis me filiar mais a nenhuma partido, primeiro porque estava doente, tive enfisema pulmonar e fiquei com muita dificuldade de fazer trabalho político. Segundo porque eu já tinha uma visão política crítica do PT, de que o caminho brasileiro passa pelo trabalhismo. Quanto mais eu conheço Getúlio Vargas, Jango e Brizola, mais me convenço disso. Getúlio Vargas é o político que mais se escreveu sobre a sua trajetória, mas para mim é o político mais desconhecido, porque quem escreveu sobre ele ou fazia parte de uma esquerda que inventou teses absurdas sobre ele, cheia de preconceito, ou fazia parte de uma direita que o odiava.

Terra - Como o senhor avalia a democracia no Brasil hoje?
Carlos Araújo - Acho que a democracia avançou muito no seu aspecto político, da liberdade de se criar partidos, a liberdade nas eleições, não há discriminação contra ninguém. Também vejo que há uma liberdade social, à medida que as camadas populares estão adquirindo mais conhecimento, estão começando a compreender mais as coisas. E há um avanço também na democracia econômica, superando aquela ideia de esperar o bolo crescer para dividir, mas dividindo enquanto vai crescendo. As pessoas têm um salário real bem melhor do que tinham antigamente.

Terra - O PT foi fundamental para se alcançar esses avanços?
Carlos Araújo - Sim, principalmente por causa da grande força eleitoral do partido, e também pela expressão política de suas lideranças.

Terra - O senhor tem interesse em se filiar novamente a algum partido, fazer política de novo?
Carlos Araújo - Sim, quero me filiar de novo porque tenho muita vontade de fazer política. Como eu vou fazer é o que eu ainda não sei.

Terra - Qual partido o senhor pretende se filiar?
Carlos Araújo - Ao PDT.

Terra - O senhor tem alguma influência no governo da presidente Dilma?
Carlos Araújo - Não, eu não dou nenhum palpite, não tenho nenhuma influência no governo dela. Somos grandes amigos, nada mais. Ela dirige esse País com as ideias dela.

Terra - Foi uma surpresa para o senhor a eleição da Dilma?
Carlos Araújo - Foi uma surpresa para mim, para ela também quando foi decidido que ela seria candidata. Mas eu sabia que ela faria um grande governo, porque ela estava muito preparada. Me sinto muito orgulhoso porque as grandes ações estão começando a acontecer.

Terra - Como o senhor conheceu a presidente Dilma?
Carlos Araújo - Conheci a Dilma na primeira reunião dos grupos de esquerda, ela fazia parte da Colina (Comando de Libertação Nacional) de Minas Gerais. Foi no Rio de Janeiro, em janeiro de 1969. Marcamos uma segunda reunião dos grupos um mês depois. Chegamos lá e houve um envolvimento muito grande entre nós dois. Fomos morar juntos logo em seguida, sentimos essa atração forte e juntamos os trapos.

Terra - Como era a atuação do senhor e da Dilma no movimento contra a ditadura?
Carlos Araújo - Nós fazíamos o trabalho urbano, de organização. Tinha um setor militar que fazia as ações armadas, e nós ficávamos com o trabalho de massa, de organização do movimento.

Terra - Como foi a participação de vocês no assalto ao cofre do governador paulista Adhemar de Barros?
Carlos Araújo - Não tivemos participação física no assalto. A participação minha e da Dilma foi na decisão de fazer a operação. Somos responsáveis, tanto quanto qualquer outro companheiro da direção do movimento, que eram nós e mais três, pela decisão de fazer o assalto. Avaliamos toda a operação, se era viável, mas não participamos do assalto em si porque não era atribuição do nosso setor.

Terra - Como vocês conseguiram trocar o dinheiro do assalto?
Carlos Araújo - Na época era muito dinheiro, quase US$ 2,5 milhões. A gente precisava desse dinheiro, tinha muita gente de outros Estados que foi para o Rio de Janeiro, porque lá era mais fácil para alugar um apartamento, ninguém pedia documento, não queriam saber quem você era. Mas era muita gente, estávamos precisando fazer uma ação em banco por dia praticamente para manter a estrutura do movimento. Por isso que decidimos fazer um assalto grande para não precisar mais das ações nos bancos. Um milhão de dólares nós levamos para a embaixada da Argélia, que ficou responsável por mandar para os companheiros que estavam passando por dificuldades, até passando fome lá fora. A outra parte a gente dividiu por setores e Estados também. Foi até engraçado, porque tínhamos uma mala de dólares, mas não tínhamos dinheiro para fazer nada, nós precisávamos trocar. Foi então que decidimos pegar duas companheiras, que sabiam inglês, e elas foram numa casa de câmbio atrás do Copacabana Palace. Colocaram as melhores roupas que tinham, eram mulheres muito bonitas, e conseguiram trocar um pouco do dinheiro. Outro dia conseguimos trocar um pouco mais. Mas também tínhamos que tomar cuidado, porque já tinha saído no jornal. Foi então que, 72 horas depois do assalto, o Bradesco veio nos procurar porque queria trocar todo o dinheiro, com câmbio superior ao oficial. Resolvemos nos encontrar com eles e trocamos o restante do dinheiro.

Terra - Uma das jovens que trocou o dinheiro do assalto era a Dilma?
Carlos Araújo - Sim, era a Dilma. A outra era a Dodô, a Maria Auxiliadora, uma médica que depois acabou se matando na Alemanha. Eram mulheres muito bonitas, fizeram o papel delas sem problema nenhum.

Terra - Como o senhor reagiu com a prisão da Dilma?
Carlos Araújo - Como não saiu a fusão com a VPR (organização comandada por Carlos Lamarca), o nosso grupo (VAR-PALMARES) precisava de uma força em São Paulo e coube a ela organizar tudo lá. Ficamos separados por um tempo, eu continuei no Rio. Ela foi presa lá, um ano depois de termos nos conhecido. Foi um choque terrível porque eu ficava imaginando o sofrimento que ela estava passando na cadeia.

Terra - Pouco tempo depois o senhor foi preso. O senhor passou por muitas sessões de tortura?
Carlos Araújo - A tortura é a coisa mais terrível que pode acontecer no mundo, você fica a mercê, podem fazer o que quiserem contigo. Me colocaram no pau-de-arara, ficaram dando paulada, choque elétrico. Colocaram fios nas extremidades do corpo para o choque fosse maior, nos órgãos genitais, na língua, nos dedos. Depois eles ligavam a televisão, quando trocavam de canal dava o choque horrível. A pessoa fica vulnerável, ninguém sob tortura quer continuar vivendo, quer morrer logo. Entre a dor continuada e a morte, toda pessoa prefere a morte.

Terra - O senhor pensou em se suicidar?
Carlos Araújo - Naquela época, nenhum de nós estava preparado para ser torturado, na verdade ninguém nunca está preparado para isso. Mas naquela época todos nós achávamos que éramos fortes, que iríamos aguentar. Mas chega lá e não era nada disso. Então ficávamos apavorados. No fim do primeiro dia de tortura eu vi que não iria aguentar mais e decidi que a coisa mais digna a faze era me matar. Menti para eles ao contar que tinha um encontro marcado com o Lamarca no outro dia. Escolhi um lugar fácil de se matar, numa rua por onde passavam muitos caminhões, jamantas, era só jogar o corpo para frente e morrer. Pensei primeiro em me jogar em baixo de um DKV, mas aí veio o instinto de sobrevivência e pensei que era um carro muito pesado. Pensei em me jogar em baixo de um fusca, mas era muito baixo. Então me atirei em uma Kombi, que era mais altinha. Eles me levaram para o hospital e eu me livrei da tortura.

Terra - Tentaram lhe torturar no hospital?
Carlos Araújo - Sim, no Hospital Militar, mas as freiras não deixaram. Elas fizeram um banzé lá dentro e me salvaram. Aí eu consegui o tempo que queria. Quando voltei para a prisão, eu não tinha mais nada para falar porque a aquela altura tudo já tinha se modificado, minhas informações não eram mais importantes para eles. Eu até fui torturado mais algumas vezes, mas pouco.

Terra - O senhor lembra quem foram os torturadores?
Carlos Araújo - Eu não guardei os nomes deles. Às vezes eu vejo na imprensa a fotografa de um, de outro, aí me lembro. Mas o principal torturador da época, esse eu me lembro, era o capitão Albernaz.

Terra - Ele torturou a Dilma também?
Carlos Araújo - Sim, na época era o maior torturador. Fiquei sabendo que ele morreu louco.

Terra - O senhor sente ódio dessas pessoas?
Carlos Araújo - Não, eu não posso pessoalizar. Se não fosse o Pedro, era o João. Tem várias coisas que estão por trás disso, para torturar a pessoa, ou tem um problema mental ou tem que estar drogado. Eles se drogavam violentamente lá dentro.

Terra - O senhor viu os torturadores se drogando?
Carlos Araújo - Sim, eles se drogavam na nossa frente. Usavam cocaína e injetavam na veia também, essas drogas que alucinam. Então eu não tenho como ter um sentimento por essas pessoas, nem mesmo ódio. O que eu condeno é o sistema, que precisou usar desses métodos para permanecer no poder.

Terra - Hoje, com a instalação da Comissão da Verdade, o senhor gostaria que essas pessoas fossem punidas?
Carlos Araújo - Eu fui julgado, fui condenado, e os meus companheiros da esquerda também. Agora por que os torturadores não podem ser julgados? Todos devem ser julgados. Eu acho que não cometi crime nenhum durante a ditadura e mesmo assim fui condenado, agora por que aqueles caras que fizeram horrores, que mataram, torturaram, não podem ser condenados?

Terra - A esquerda armada deveria ser julgada também?
Carlos Araújo - A esquerda já foi julgada. É muito raro encontrar um cara que não tenha sido julgado, condenado, muito pegaram cadeia grande.

Terra - A comissão deveria resultar na revisão da Lei da Anistia?
Carlos Araújo - Ela não tem competência para isso. Eu particularmente acho que mais cedo ou mais tarde a Lei da Anistia vai ser revisada, hoje tem uma jurisprudência internacional que diz que tortura e sequestro não prescrevem nunca, então isso não está prescrito e precisa ser revisto. Mas o processo histórico vai dizer, para mim o fundamental é que tudo venha à tona, pois a sociedade vai reagir e vai cobrar essa punição. O Supremo Tribunal Federal entendeu que estão todos anistiados, que os crimes foram prescritos, então a sociedade precisou procurar alternativas diante disso, principalmente os familiares dos mortos. O que começou a ser feito: ir às casas dos torturadores, denunciar quem torturou. São coisas que não precisavam ser feitas se o Supremo tivesse mandado todo mundo a julgamento. Por causa dessa decisão equivocada, a sociedade precisa tomar as suas medidas. O ideal é que as coisas fossem feitas pelo próprio Estado.

Terra - A presidente Dilma foi corajosa ao instalar a comissão?
Carlos Araújo - Eu acho que ela foi muito corajosa sim, porque um povo que não conhece a sua história não pode planejar o futuro. Não podemos temer a nossa história, e sim conhecer tudo como realmente aconteceu para termos uma prática presente e planejar o futuro. Esse trabalho de colocar tudo em pratos limpos é fundamental.

Terra - Sobre o início do julgamento do mensalão na próxima semana, qual a sua expectativa?
Carlos Araújo - Eu acho tudo isso uma barbaridade, um absurdo. Não tem uma prova contra ninguém. É um julgamento político incentivado por uma mídia que nós sabemos como é, enquanto tem outro mensalão, do PSDB, que eles não falam, estão deixando prescrever. Todo mundo sabe que no Brasil existe uma legislação absurda, que permite a coligação política dos partidos, mas não autoriza a coligação econômica entre eles. Isso todos os partidos tem, o chamado caixa dois, agora não tem nenhuma prova de que tenha dinheiro público, dinheiro do governo envolvido. É uma vergonha.

Município do noroeste gaúcho nunca teve disputa eleitoral para prefeitura

27/07/12 | 11:21

Antes das eleições as lideranças políticas dos quatro partidos existentes na cidade se reúnem e decidem quem vai governar o município.

Com 16 anos de existência, o município de Mato Queimado, no noroeste do Rio Grande do Sul, nunca passou por uma disputa eleitoral para a prefeitura. Desde a primeira eleição municipal, em 2000, nunca houve dois candidatos ao cargo de prefeito, restando ao concorrente único apenas cumprir a formalidade e assumir o comando do município.

A cidade, situada a 480 quilômetros de Porto Alegre, tem apenas 1,8 mil habitantes e se emancipou-se em 1996 de Caibaté. Desde então, adotou um modelo político singular. Segundo o prefeito Orcelei Dalla Barba, antes das eleições as lideranças políticas dos quatro partidos existentes na cidade (PT, PMDB, PTB e PP) se reúnem e decidem quem vai governar o município.

O escolhido é inscrito, então, como candidato único para disputar as eleições municipais. Além disso, nunca houve qualquer candidato de oposição na disputa pelas nove vagas da Câmara Municipal. Os vereadores sempre disputam sob uma coligação única, que envolve os quatro partidos. O prefeito explica que a ideia de se ter um consenso em torno de uma única candidatura vem desde a época em que Mato Queimado buscava a emancipação.

“Tinha-se um histórico do município mãe [Caibaté] e nos municípios da região havia muita disputa política, de muita desavença entre as comunidades em função da disputa política. Queríamos construir algo diferente. Juntamos as lideranças partidárias e entramos em um consenso. E esta já é a quarta eleição na forma consensual, onde não há rivalidade política e onde há respeito mútuo entre os partidos”, explicou Orcelei Dalla Barba.

Segundo ele, o processo de escolha do candidato único está aberto à população e ressaltou que 40% do eleitorado local são filiados a algum partido político. Segundo o Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul (TRE/RS), apenas 8% dos eleitores deixaram de votar nas eleições municipais de 2008 e 10% votaram nulo ou em branco – o que demonstra que 82% dos eleitores compareceram às urnas e apoiaram seu nome, explica. Nas duas eleições anteriores, a maioria da população também havia votado em seu antecessor, Nelson Hentz, que também será seu sucessor, pois é o único a disputar as eleições deste ano.

Para o pesquisador Geraldo Tadeu Monteiro, diretor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), a falta da existência de oposição política em Mato Queimado é realmente um problema para a democracia. “Nos municípios onde há maior competição política, abre-se espaço para que os problemas sejam debatidos de forma mais aberta. Quanto maior a competitividade do sistema, melhor para a população, para que o poder público sofra mais pressão, fiscalização e vigilância. Isso é uma regra geral”, explicou.

Segundo ele, a inexistência de uma oposição na Câmara dos Vereadores torna a situação ainda mais problemática. “A função das oposições nos regimes democráticos é muito de fiscalizar e criticar as ações do governo, exercendo certa função de controle sobre o poder. E se o sistema não permite a existência da oposição, ele continua operando de modo próprio, sem nenhum controle da população, que favorece todo tipo de arranjo.”

Com informações da Agência Brasil

Os Lacerdinhas

quarta-feira, 25 de julho de 2012

A saga dos lacerdinhas e o fim do monopólio do rótulo 
Juremir Machado da Silva 

Durante muito anos, ouvindo rádio, vendo televisão e lendo jornais, eu me espantava com uma unanimidade: todos os dias os mesmos rotulavam as mesmas pessoas.

Todos os dias os mesmos rotulavam pomposamente seus oponentes de:
- Radicais
– Xiitas
– Fundamentalistas
– Ecochatos
– Malas
– Ignorantes
– Retrógrados
– Intransigentes
– Fanáticos
– Raivosos
– Obcecados ideológicos

Faziam isso em vários registros: ataques diretos, tom de ironia, pretenso humor, etc.
Tinham o monopólio do insulto, da rotulação, da etiquetagem. Só eles falavam. Era tanta convicção que não parecia haver espaço para a dúvida ou para o questionamento. Quem ia ver de muito perto o que estava acontecendo, claro, descobria o óbvio:
– Radicais, xiitas, fundamentalistas, malas, ecochatos, ignorantes, retrógrados, intransigentes, raivosos, fanáticos e obcecados ideológicos era todos os que atrapalhavam os interesses daqueles que tinham o monopólio do rótulo na mídia amiga.

Curiosamente quase todos os rótulos aplicados por eles cabiam-lhes perfeitamente. Os lacerdinhas podem ser definidos, caracterizados e explicados aos marcianos como:
– Radicais
– Xiitas
– Fundamentalistas
– Agrochatos
– Malas
– Ignorantes
– Retrógrados
– Intransigentes
– Raivosos
– Fanáticos
– Obcecados ideológicos

Há uma diferença: um lacerdinha é fanático, um obcecado ideológico que se acha neutro, acima das ideologias, objetivo, imparcial, detentor da verdadeira verdade.

Cansei de ver pessoas de diferentes partidos, marxistas ou não, sendo rotulados com a maioria das etiquetas aqui apresentadas como sendo meras constatações.
– Leonel Brizola era radical
– Maria do Rosário era fanática, raivosa, intransigente, etc.
– Luciana Genro idem
– Henrique Fontana também
– Heloísa Helena nem se fala.

Toda a esquerda era fundamentalista, fanática, ideológica, intransigente, etc.

Que estranho, que curioso: Paulo Maluf nunca recebia esses rótulos. Podia ser chamado de ladrão, mas de fanático e obcecado ideológico, pelos rotuladores da mídia, não.

Aprendi que todos os fanáticos e radicais eram bem menos fanáticos e radicais que seus rotuladores, que chegavam, e chegam, a babar de raiva e fanatismo quando os rotulam.

Nos últimos anos, depois da morte do fanático principal da mídia fashion, Paulo Francis, que herdara a verve inescrupulosa de Carlos Lacerda, surgiu uma penca de lacerdas com menos brilho, mas com muita baba ideológica: Olavo de Carvalho, o autodenominado filósofo Pondé, Reinaldo Azevedo, Arnaldo Jabor, Ali Kamel, Demétrio Magnoli e outros lacerdões, campões de mediocridade obscena, que são os ídolos de lacerdinhas regionais e de lacerdinhas sem mídia, numa cadeia ideológica disseminada.

Falo tudo isso pelo seguinte: muitos lacerdinhas estão ofendidos. Não aceitam ser rotulados. Acham que rotulá-los é desqualificação inaceitável, agressiva e injusta.
Não admitem expressões como “cérebro de ervilha”.
Sentem-se saudades do tempo em que só eles podiam rotular.

Dez maneiras de identificar um lacerdinha:
1 – Um sujeito que, em nome da direita, diz que não há mais direita e esquerda, fazendo, em seguida, um discurso furioso, radical e fanático contra a esquerda que não existe.
2 – Um cara que, em defesa da sua ideologia, afirma que não existem mais ideologias e, na sequência, faz um discurso ideológico fanático contra o ideologismo de esquerda.
3 – Um sujeito que treme de fúria ideológica, chamando seus oponentes de burros, atrasados, imbecis, perigosos e radicais, em nome da neutralidade analítica.
4 – Um cara que, ao ouvir uma crítica a um ditador de direita, acha que haverá necessariamente a defesa de um ditador de esquerda.
5 – Uma figura que jamais criticou a Lei do Boi – cotas para filhos de fazendeiros em universidades públicas –, mas é contra cotas raciais e até sociais.
6 – Um tipo que defende a democracia, mas está disposto a apoiar ditaduras de direita se elas lhe trouxeram benefícios econômicos e silenciarem seus oponentes.
7 – Um “ponderado” analista, defensor do Estado mínimo, que exigirá um Estado máximo quando sua empresa estiver falindo ou precisando de um empréstimo a juros baixos.
8 – Um crítico ferrenho de políticas de compensação por falta de oportunidades equivalentes salvo quando, como produtor, exige compensações por se sentir sem condições equivalentes para competir, por exemplo, no mercado internacional.
9 – Um indivíduo que passa a vida classificando as pessoas em nós e eles, fanáticos e razoáveis, estúpidos e racionais, xiitas e ponderados, e, quando classificado de lacerdinha, faz longos discursos contra esse tipo de simplificação classificatória.
10 – O representante de grupos que sempre encontraram maneiras de obter benefícios a partir de casuísmos, leis de exceção, contingências mais ou menos justificadas, contextos sociais e históricos, mas que, quando seus oponentes se organizam para tirar-lhes privilégios ou reparar prejuízos históricos, transformam-se em defensores de princípios pretensamente racionais, abstratos e universais de concorrência.

Há outras maneiras de identificar um lacerdinha, mais práticas:
– Contra o golpismo de Chávez, mas a favor do golpe no Paraguai
– Contra cotas, aquecimento global, áreas de proteção permanente, pagamento de multas por destruição do meio ambiente, código florestal ambientalista, impostos sobre grandes fortunas, bolsa-família, Prouni e outras políticas ditas assistencialista.
– A favor de incentivos fiscais para empresas multinacionais.
– Contra comissão da verdade e qualquer investigação que possa deixar mal os torturadores do regime militar brasileiro implantado em 1964.
– Contra a corrupção, especialmente se envolver políticos de esquerda, sem a mesma verve quando se trata de alguma corrupto de direita.
– Sempre pronto a chamar de petista quem lhe pisar nos calcanhares.
– Estrategicamente convencido de que a corrupção no Brasil foi inventada pela esquerda.
– A favor da universidade pública para os melhores, desde que o sistema não se alterne e os melhores continuem sendo majoritariamente os filhos dos mais ricos e com melhores condições de preparação e de ganhar uma corrida pretensamente objetiva e neutra.
– A favor, quando se fala em cotas, de melhorar o nível do ensino básico e de ampliar as vagas para evitar políticas discriminatórias, esquecendo das tais melhorias assim que o assunto sai da pauta da mídia ou é superado por alguma final de campeonato.
– Defensor da ideia de que, na vida, é cada um por si, salvo se houver quebra de safra, redução nos lucros, crise econômica internacional ou qualquer prejuízo maior. Nesses casos, o Estado deixa de ser tentacular, abstrato e opressor para ser uma associação de pessoas em favor dos interesses da sociedade na sua totalidade.

Faça o teste: quem preencher 60% dessas características é um lacerdinha.

Teste definitivo: lacerdinha é todo cara que se ofende ao ser chamado de lacerdinha.

Marcelo Freixo: "PSOL fará uma campanha republicana no Rio"

Em entrevista à Carta Maior, o candidato do PSOL à prefeitura do Rio de Janeiro, Marcelo Freixo, fala sobre o sentido de sua candidatura e da disputa eleitoral deste ano. "A próxima prefeitura é a prefeitura de um calendário que há muito tempo não se tem na cidade, e de um nível de investimento muito grande mas também de contradições muito fortes. A concepção de cidade, a concepção de poder público que sair vitoriosa nesta eleição vai definir o Rio por muito tempo", defende.

Rodrigo Otávio

Data: 23/07/2012

Rio de Janeiro - Marcelo Freixo é um homem corajoso. Aos 45 anos, o professor de história perdeu a conta de quantas vezes desceu de helicóptero em pátios de presídios em rebelião para, escolhido pelos presos, negociar em frente ao pelotão armado de policiais uma saída para os conflitos nestes 25 anos de militância pelos direitos humanos.

Pelos direitos humanos sempre falou alto na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), primeiro em parceria com o mandato do atual deputado federal Chico Alencar (PSOL). A partir de 2007, em seu próprio mandato, quando propôs e presidiu a CPI das Milícias, que resultou no indiciamento de 225 envolvidos e na apresentação de 58 medidas contra as práticas criminosas, entre elas licitação do transporte alternativo e maior fiscalização da Agência Nacional de Petróleo (ANP) na distribuição de botijões de gás. A CPI ainda serviu de ajuda no roteiro do filme Tropa de Elite 2, que catapultou Freixo para a fama nacional ao inspirar o personagem Diogo Fraga, e ele mesmo aparecer em uma cena, assistindo uma aula de Fraga.

Paga um preço alto por sua coragem. Não tem a suprema liberdade de andar sozinho até a próxima esquina. Mas jamais se queixou ou se fez de vítima pelo aparato de segurança que o cerca desde que convive com as constantes ameaças de morte. Hoje pede votos em todos os bairros da cidade como candidato à prefeitura pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). E aposta em uma campanha ampla, com os diferentes setores da sociedade em suas instituições, nas ruas ou atrás das telas de computador se unindo para levá-lo ao segundo turno e ampliar o debate que ele se propõe a fazer.

Em entrevista exclusiva à Carta Maior ele fala dessa proposta e dos possíveis frutos dela, “do outro lado você tem 18 partidos aliados. Não há pessoa no mundo que consiga me convencer que esses 18 partidos têm um projeto de cidade. Tem projeto de cidade em uma aliança de 18 partidos? Não! Tem projeto de distribuição de cargos, fatiados no poder, e aí reproduz uma lógica de política que a sociedade está negando o tempo inteiro. Então se a gente quer negar, não adianta chegar no poder da mesma maneira. Tem que chegar de outra forma para fazer um governo diferente”, além do uso das redes sociais e do amadurecimento e chances do partido em outras capitais nestas eleições.

Carta Maior – Como está este início de campanha e quais os três principais pontos que o senhor pretende colocar em debate neste período?

Marcelo Freixo – A campanha está bem. É uma campanha militante, que cresce com um fôlego muito grande, que nasce de uma proposta de se repensar a forma de se fazer política no Rio de Janeiro visando um momento muito importante da história do Rio. A próxima prefeitura é a prefeitura de um calendário que há muito tempo não se tem na cidade, e de um nível de investimento muito grande mas também de contradições muito fortes.

Então a concepção de cidade, a concepção de poder público que sair vitoriosa nesta eleição vai definir o Rio por muito tempo. Se o Rio vai ser mais democrático, se vai ser menos democrático, se vai ser mais transparente, se não vai ser transparente. Como o poder público vai se relacionar com transporte, educação, saúde, saneamento... as questões essenciais de qualquer cidade. Tudo isso vai ser definido neste processo eleitoral.

E a gente entende que a nossa campanha coloca outra concepção do papel do poder público, uma outra visão de cidade, debate a cidade. Neste sentido a gente tem uma quantidade muito grande de militantes na rua, uma campanha muito participativa, uma campanha muito ousada, outra lógica política. A gente está querendo uma aliança, por exemplo, com a sociedade civil. As nossas alianças políticas não são através de cúpulas partidárias pensando no tempo de televisão e pensando na distribuição de cargos. Então aparentemente o PSOL é o único partido, mas tem o apoio do PCB, mas tem uma forte aliança com setores da sociedade civil. Intelectuais, artistas, estudantes, jovens, médicos, professores, funcionários públicos, essa sociedade está se organizando em comitês voluntários, em grupos de trabalho, está debatendo a cidade e está fazendo campanha, está indo para as ruas...

CM: Parece um início animador...

MF: Então essa maneira, essa outra pedagogia política que nasce no Rio de Janeiro é muito importante para a cidade, é uma contribuição que a gente está dando. A campanha nasce com esse espírito, inclusive com arrecadação. A gente aproveita o seu veículo de comunicação para fazer propaganda, quem quiser doar para a nossa arrecadação da campanha é muito bem vindo. Pode doar através do site da gente, que tem um mecanismo de doação eletrônica através da internet, que é o mais transparente, é o melhor, e é uma novidade também, isto não faz muito parte da nossa cultura política, essa doação.

CM: E os principais pontos que o senhor quer colocar em debate nesta campanha?

MF: Alguns pontos decisivos que você tem hoje. Hoje se você for pegar um tema fundamental, o que a população mais reclama é a saúde pública. A saúde, de longe, é o tema mais citado pela população como a principal deficiência do setor público.

Você hoje tem uma proposta, da atual gestão, do atual prefeito, que é da privatização da saúde, que é você construir muitos hospitais e muitas clínicas de família. Nós achamos que é importante a existência de clínicas de famílias, mas não do jeito que eles estão fazendo. Não na mão das OSs, não na mão das Organizações Sociais, que são empresas privadas. Constrói o prédio com dinheiro público, equipa com dinheiro público, mas quem administra esse dinheiro é a gestão privada sem a devida precaução com o dinheiro público, sem o devido cuidado, sem a devida legislação. Por exemplo, a lei de Licitação, a 8666, que é uma lei, enfim, que nem é das mais completas, das mais eficientes, mas é uma lei importante quando diz respeito à licitação, não precisa ser cumprida por uma OS, mesmo o dinheiro sendo público. Então você transformou, com isso, a saúde em um grande balcão de negócios, onde você tem muitos hospitais surgindo, mas não tem médico trabalhando.

CM: Por quê?

MF: Porque eles dobraram o orçamento da Saúde, de R$ 2 bilhões para R$ 4 bilhões, mas investiram na construção de hospital, investiram no custeio, no repasse da verba pública para a iniciativa privada, e não investiram nos médicos nem nos enfermeiros. Você hoje não tem profissionais atendendo. Você entra em um hospital, ele está limpo, tem TV de plasma, está bonito, mas não tem médico. Essa contradição da saúde a gente quer resolver.

Saiu um relatório, esse ano, do ministério da Saúde, que faz um ranking das capitais com atendimento ao SUS (Serviço Único de Saúde), atendimento da saúde pública. O Rio de Janeiro ficou em último lugar. Então o Rio está atrás de todas as outras capitais no que diz respeito à qualidade do atendimento à saúde pública. É inadmissível que uma cidade com o orçamento que tem o Rio, que é o segundo orçamento do Brasil, com a importância política que tem o Rio, em pleno século XXI, com o calendário que tem o Rio, fique em último lugar na qualidade do atendimento da saúde pública. É inadmissível.

Isso é porque transformou a saúde pública em um balcão de negócios. Porque a saúde hoje é um lugar para não ter transparência, e para ter muito dinheiro. A gente quer o dinheiro, mas com transparência e eficácia, hoje você não tem. Então a saúde é, sem dúvida alguma no olhar da população, a principal questão a ser resolvida pelo poder público.

CM: E outros problemas?

MF: O Rio hoje é um lugar muito caro para se viver. A gente está pagando muito. Pagando muito para morar, pagando muito para se locomover, para comer, e o resultado disso você não vê em termos de retorno da política pública. Você não tem retorno do estado para o que você está pagando. Nenhum morador do Rio tem.

Outro problema gravíssimo é transporte. Hoje a prefeitura insiste no modelo rodoviário, insiste nas empresas de ônibus. E as empresas de ônibus fazem o que querem. Não há controle sobre os motoristas, porque não se controla as empresas. Há uma diferença brutal entre a forma dos ônibus andarem e agirem no Rio para São Paulo. Você não vê em São Paulo a loucura que os motoristas de ônibus fazem no Rio de Janeiro. E aí não é um problema só com os motoristas, é um problema com as empresas, porque não há multa, não há cobrança, não há postura do poder público defendendo o interesse público.

As passagens aumentam sempre acima da inflação, e não se investe no metrô e nos trens. O BRT (Bus Rapid Transit, corredores exclusivos para ônibus em grandes vias de ligação da cidade, inexplicavelmente batizado em inglês), por que ele não é sobre trilhos? Por que há insistência em modelo rodoviário? Tudo foi feito com o dinheiro público. O BRS (Bus Rapid System), que são aquelas faixas exclusivas nos bairros, se o ônibus está gastando menos naquelas faixas, e gasta muito menos, por que não reduziu o valor da passagem? Por que aumentou acima da inflação este ano? Então não há justificativa para as empresas de ônibus fazerem o que bem entendem. Enfim, esse é um debate que a gente quer travar.

CM: Qual a sua avaliação sobre o metrô?

MF: O metrô é estadual mas cabe ao prefeito debater o metrô, afinal de contas quem usa o metrô é o cidadão do Rio de Janeiro. O metrô serve à cidade do Rio de Janeiro, então o prefeito não pode se omitir deste debate, aliás era uma das promessas do Eduardo (Eduardo Paes, atual prefeito) há quatro anos investir na linha quatro do metrô (projeto de extensão até o bairro da Barra da Tijuca). Não fez, e o governo está fazendo algo contrário, e ele não se manifestou. Então esse é um outro tema decisivo.

CM: E um terceiro ponto importante a ser debatido nesta campanha?

MF: O terceiro tema, você pode escolher entre saneamento, educação, cultura, aí todos são muito importantes, e muito difícil escolher só três. Se você me dissesse só dois, eu não teria dúvidas que saúde e transportes seriam os mais importantes. Três, você tem um leque muito importante de coisas que se relacionam.

Agora, tem um deles que é decisivo. Que diz respeito ao papel do poder público na cidade, fazer nascer de novo a participação política. Estimular que as associações de moradores, que as universidades... nós temos hoje um parque universitário enorme, temos a Universidade Federal Fluminense, que é em outro município (Niterói), temos a Universidade Federal do Rio de Janeiro, temos a Universidade Federal Rural, que é em outro município (Seropédica) mas produz conhecimento sobre a cidade do Rio, você tem a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, tem a Universidade Estadual da Zona Oeste. Tem um parque universitário, mesmo que não estejam todos eles dentro do município, todos se relacionam com o município do Rio.

Por que a prefeitura não tem um diálogo permanente com as universidades para que as universidades pensem a cidade e ofereçam saídas para os problemas? Por exemplo, na área de tecnologia, de produção científica. Por que as universidades não são chamadas a pensar e a viver a cidade.

A cidade precisa de transparência, a cidade precisa de participação. As associações de moradores, que começam a dar sinais de renascimento, que já foram muito fortes na década de 80, são extremamente importantes. Então o terceiro ponto eu escolheria a democracia. A gente precisa de um choque de democracia. Mais do que um choque de ordem, a gente precisa de um choque de participação. A ordem tem que existir em qualquer cidade, mas ela pode ser democrática ou pode ser autoritária. Quando não tem transparência, não tem participação, esse choque de ordem é autoritário. E a gente não precisa de autoritarismo. A gente precisa que as pessoas participem e que tenham canais de decisão sobre o que acontece na cidade. Então é isso que a gente está propondo.

CM: Uma das apostas da sua campanha é o uso das redes sociais. Pode explicar como é esse uso?

MF: A rede social na campanha, e no governo, na campanha e no governo. Essa é a primeira campanha com Facebook. Isso é uma novidade. Por incrível que pareça, há dois anos o Facebook não era uma realidade. Há dois anos você tinha Orkut e Twitter como as grandes novidades da campanha. Você vê como o tempo hoje em dia em dois anos oferece uma mudança muito grande. O tempo histórico muda de velocidade com essa questão da internet.

Nossa campanha é uma campanha de rua e de rede. Uma campanha de militância, de muita gente na rua com ideias, ninguém pago, entrando nos bares, nas igrejas, nas escolas, nas associações de moradores, nas casas, e debatendo a cidade. Quem está vindo para a campanha, veio para fazer a campanha e debater a cidade. Uma campanha de cunho pedagógico muito forte.

E o mais importante. A internet é um instrumento dos mais democráticos. Então a gente consegue hoje ter uma rede de diálogo sobre a cidade através da internet, que é extremamente importante, e é diferente de todas as outras épocas que nós vivemos. Hoje o Facebook é uma ferramenta das mais importantes, então a gente quer que a mobilização também aconteça por ali.

CM: Pode dar um exemplo?

MF: Nós temos um minuto e trinta e três segundos de TV. É desigual se você comparar com outras campanhas, porque aqui, ao contrário de outros países, o tempo de TV não é igual para os candidatos, ele tem relação com o tamanho da bancada de deputados federal. Então evidentemente o nosso ficou pequeno porque nós não apostamos nas alianças que tenham outro perfil que não debater a cidade. Mas nós vamos chamar para a internet. Neste um minuto e trinta e três, a gente tem que dar um recado preciso, curto e chamar para a internet.

Nosso interesse é que todo o dia que tenha programa eleitoral a gente tenha também o Twitcam. Acabou o programa eleitoral eu estou na internet conversando com quem quiser. E aí a gente pode transformar esse um minuto e trinta e três segundos em, de repente, uma hora, com um número muito grande de pessoas.

70% dos eleitores do Rio de Janeiro estão conectados à rede. Isso é surpreendente. Tem as lan-houses. Rocinha tem 130 lan-houses. Então a ideia é que a gente passe um processo de democratização da informação através da internet. Isso no governo também. Eu quero banda larga para a Rocinha, eu quero banda larga para o Complexo do Alemão. Eu quero fazer com que a internet seja um instrumento de democratização da informação nas favelas, que é um lugar fundamental. O poder público tem que investir nisso. Isso pode mudar a realidade dessa juventude. Fazer eles dialogarem com o mundo, eles têm o que dizer para o mundo.

CM: Sua candidatura tem grande apoio da juventude conectada, de artistas e intelectuais. O frequentador de botequim, por necessidade, sem smartphone no bolso, vota em Freixo?

MF: Vamos ver durante a campanha. Mas eu acho que sim. Já votou para deputado, não é? Eu fui o segundo deputado mais votado do estado, e com uma votação muito forte em vários setores populares. Este perfil, os antigos geraldinos (frequentadores da antiga Geral do Maracanã), há há há, que agora são os frequentadores do pay-per-view do botequim.

O debate que a gente faz dos megaeventos atinge essa população. Eles têm que ser chamados para esse debate, não pode ficar restrito ao campo dos formadores de opinião, como se diz. Ele tem que se tornar popular porque essa população vai ser talvez a mais atingida, está fora dos espetáculos. É uma cidade espetáculo e esses espetáculos não convidam a todos. Esse é um desafio pedagógico que a campanha tem.

Mas a gente está indo. Já fui a Rocinha duas vezes, vou ao Alemão. Estamos indo para a Zona Oeste, e está muito boa a receptividade, muito boa, surpreendente para mim, inclusive. São caminhos, construções...

CM: Qual a faixa etária dessa boa receptividade? Além da juventude?

MF: Além da juventude. Que reconhece a questão do trabalho da milícia. A gente tem uma legitimidade para entrar na Zona Oeste, que não precisa absorver um discurso supostamente moral. A gente tem uma imagem construída de vida pública e política. E na Zona Oeste a gente teve um enfrentamento histórico em relação às milícias que a população reconhece.


CM: Como está a questão da milícia na campanha?

MF: Olha, a milícia é um tema forte para o Rio de Janeiro, não para a minha campanha. A milícia é o grande entrave ao estado democrático de direito hoje no Rio de Janeiro. São máfias que dominam territórios e, ao contrário de outros grupos, se transformam em domínio eleitoral. Nem todo grupo que domina território transforma esse domínio territorial em domínio eleitoral, a milícia faz. A milícia tem projeto de poder. Tem que ser vista como problema público, e não privado, não particular, de alguém.

CM: O senhor acha que nessas eleições vai aumentar essa participação política da milícia?

MF: Eles perderam muito, foi onde eles mais perderam. Eles não perderam tanto economicamente, os seus negócios foram mantidos, mas muitos milicianos foram presos, os chefes foram presos, e eles perderam voz eleitoral. Eles perderam a vaga que tinham na Assembleia Legislativa, perderam vereadores, do Rio e de outras cidades; então eles perderam politicamente, eles vão tentar recuperar isso nessa eleição, eles vão tentar eleger gente deles, sem dúvida alguma.

CM: Quais os principais desafios da sua campanha?

MF: O desafio da campanha é falar com os diferentes e indiferentes. É ir para além dos que já estão na militância. Conseguir fazer com que rua e rede estejam mais conectados, fazendo a mesma linguagem. É ampliar o debate sobre a cidade, e aí eu acho que o maior desafio, neste momento, é consolidar a ida para o segundo turno. Esse é o desafio, não a dificuldade, mas desafio. O desafio maior é ir para o segundo turno, o que é bom para a cidade, se a gente for para o segundo turno.

Independente de quem vença a eleição a cidade tem que ganhar, a cidade tem que se beneficiar da eleição, fazendo um bom debate sobre os seus caminhos. E eu acho que essa contribuição é o maior desafio, fazer a gente chegar no segundo turno. (Pesquisa Datafolha divulgada no dia 21 mostra Freixo em segundo lugar na corrida eleitoral, com 10% das intenções de voto, atrás do atual prefeito Eduardo Paes, com 54%, e na frente de Rodrigo Maia (DEM), com 6%)

CM: Por que a sua candidatura é a candidatura de esquerda do Rio?

MF: Aí tem que perguntar aos outros partidos porque eles foram para a direita, não porque a minha se manteve onde está. Na verdade não sou eu que estou no endereço errado, são outros aí. A nossa candidatura é uma candidatura de esquerda, sim, e que dialoga com o campo republicano. Ela não é uma candidatura estreita, para marcar posição. Ela é uma candidatura para ganhar a cidade, para disputar a eleição, de fato.

Nesse sentido ela é uma proposta de esquerda com perfil de debate republicano muito forte. São muitos movimentos sociais que se aproximam mas não necessariamente dividem as mesmas bandeiras do partido, mas dividem outras bandeiras da cidade, e aí estão dentro desse campo.

Eu tenho feito muitos encontros. Todos os dias à noite eu tenho algum encontro, com os públicos mais variados, intelectuais das diversas correntes, artistas das diversas correntes, jovens de diversos lugares, sindicatos de vários espaços e trabalhos. O que tem em comum isso tudo? O desejo de ter uma cidade democrática.

Então é uma candidatura de esquerda mas com um perfil democrático, republicano, muito forte. Não é a toa que militantes do PT não concordam com a decisão da cúpula do PT e caminharam para se aproximar da gente. Militantes do PDT, a mesma coisa. O PCB já veio com a gente.

Do outro lado você tem 18 partidos aliados, que cá entre nós, e a negação do debate da cidade. Não há pessoa no mundo que consiga me convencer que esses 18 partidos têm um projeto de cidade. Talvez não tenham nem 18 projetos. Tem projeto de cidade em uma aliança de 18 partidos? Não! Tem projeto de distribuição de cargos, fatiados no poder, e aí reproduz uma lógica de política que a sociedade está negando o tempo inteiro. Então se a gente quer negar, não adianta chegar no poder da mesma maneira. Tem que chegar de outra forma para fazer um governo diferente, senão você não faz um governo diferente.

CM: Como avalia a recente declaração do sociólogo Francisco de Oliveira, fundador do PT e do PSOL, de que o PSOL não representa uma alternativa ao PT pela esquerda?

MF: O mesmo Chico de Oliveira apoia minha candidatura no Rio. Eu soube dessa declaração dele durante entrevista no programa Roda Viva, e o engraçado é que foi no mesmo dia que eu recebi uma declaração dele apoiando a nossa campanha.

Eu acho ótimo que no PSOL exista possibilidade da dúvida e da crítica. O PSOL é uma construção, é muito recente, ele surge em 2005 e ainda tem muitas limitações. Mas se não fosse o PSOL, hoje não existiria a nossa candidatura. Isso também é bom que se diga. Se o PSOL não existisse, nada disso que está acontecendo hoje no Rio teria chance de acontecer, porque a gente precisa do viés institucional partidário, e o PSOL é aonde, com todas as limitações que têm, que elas existem, isso ainda é possível acontecer. Eu acho que o PSOL não sai dessa eleição do Rio de Janeiro da mesma maneira que ele entrou. Eu acho que ele sai mais fortalecido, com um diálogo maior com a sociedade e certamente vai poder cumprir outro papel depois dessa eleição. É o que eu espero.

O PSOL é uma construção, é uma aposta, ainda é cedo para dizer se ele é ou não alternativa. Eu particularmente não fui para o PSOL para criar uma alternativa ao PT, tanto é que eu não virei um antipetista. Eu fui para o PSOL para criar uma alternativa de esquerda, não ao PT.

E acho que essa alternativa está se construindo, evoluindo. O que fazemos no Rio de Janeiro é claramente um papel importantíssimo, e faz o partido evoluir. O partido hoje ter a grandeza de entender que é uma campanha republicana, que vai dialogar com os amplos setores, é sinal de crescimento... é sinal de crescimento.

CM: E nacionalmente, como vê o partido nestas eleições?

MF: Olha, eu tô animado. O que eu estou sentindo é que o Rio virou meio um carro-chefe, influenciando e estimulando outras militâncias. Para você ter uma ideia, outro dia encontrei com o candidato do PSOL em São Luís do Maranhão, que é uma grande figura, o Haroldo Saboia, foi constituinte, é uma figura importante e está muito animado. Estive com o pessoal de Curitiba, Participei de um twitcam com o candidato nosso em Fortaleza, o Renato Roseno, que é um quadro espetacular e está bem lá. O Robaina (Carlos), no Rio Grande do Sul, eu também já participei com ele de diálogos pela internet.

A campanha mais forte do PSOL hoje se dá no Rio e em Belém, o Edmílson (Rodrigues) está na frente, inclusive com uma chance concreta de vitória. A gente tem uma chance concreta de ir ao segundo turno, então os dois lugares... e Macapá, eu não sei se está em segundo ou por ali, o nosso candidato é o Clésio Luis.

Então é um partido que hoje está mais amadurecido e começa a oferecer alternativas reais. E esse é um passo fundamental que o partido dá. Eu acho que o partido em termos da sua participação legislativa, mesmo sendo quantitativamente pequeno, ele é qualitativamente reconhecido. O Randolfe (Rodrigues (AP)) hoje talvez seja um dos senadores mais conhecidos mesmo o PSOL só tendo um senador. A nossa bancada de deputados federais tem três deputados (Chico Alencar (RJ), Jean Wyllys (RJ) e Ivan Valente (SP)), no último Congresso em Foco, entre os quatro melhores deputados federais do Brasil, os três do Psol estavam. Qualitativamente no parlamento o partido já é reconhecido, como nosso mandato aqui no Rio de Janeiro sempre foi muito reconhecido.

Eu acho que o salto que ele dá agora é a disputa das cidades, então ele dá o salto no momento certo. Acho que temos chance de disputar no Rio, como estamos disputando, tem chance de ganhar em Belém, tem chance de fazer um belo papel, com alguma chance de vitória em Macapá, e Fortaleza eu aposto em uma surpresa.

Tem um PSOL sendo amadurecido. Ainda com muita dificuldade porque a conjuntura do surgimento do PSOL é diferente da conjuntura que surgiu o PT. O PT surge no período do fim da ditadura, em um período de ascensão dos movimentos sociais. O PT surge em um momento de ascensão dos movimentos populares, ascensão dos movimentos operários, Teologia da Libertação, movimento intelectual das universidades fortalecido. Então era uma conjuntura muito favorável à criação de um partido de esquerda.

Nós vivemos a construção de um partido em um refluxo. A gente vive a construção de um partido em um momento onde a igreja que cresce não é a mais progressista, as universidades estão em uma situação muito difícil, os movimentos populares muito fragilizados, perderam território em função inclusive de outros problemas sociais. É uma outra conjuntura, por isso que eu acho que não é bom para o PSOL uma análise comparativa permanente com o PT, por mais que as nossas origens não possam ser negadas, eu acho que o PSOL tem que ter uma história própria.