sábado, 21 de julho de 2012

O jet ski e a morte

ANO 117 Nº 151 - PORTO ALEGRE, TERÇA-FEIRA, 28 DE FEVEREIRO DE 2012

Todos os dias os noticiários nos chocam com acontecimentos que se banalizam. Nada mais parece impossível. O que mais me impressionou nos últimos tempos foi a morte da menina Grazielly, atropelada por um jet ski desgovernado. A morte de uma criança sempre parece ainda mais absurda. Tudo aconteceu, como é bem sabido, porque um guri de 13 anos ligou um jet ski e perdeu o controle do aparelho. A primeira reação de muitas pessoas é aceitável: foi uma fatalidade. A segunda, ou a reação de outros, é de apontar o dedo: é o que dá não ter controle sobre os filhos! Essa atitude ganha força na medida em que a madrinha do menino saiu-se com esta: "Ele é um menino que faz o que quer". Crise de autoridade?

Em se tratando de jet ski, a sensação que passa é de que os seus usuários adultos também fazem o que querem. Aterrorizam banhistas com as suas manobras ousadas. O adolescente não devia ter mexido no troço, mas obviamente não queria matar ninguém. Chama a atenção, no entanto, a estratégia dos seus familiares para tentar eliminar qualquer rastro de responsabilidade. Não levaram o garoto para depor. Apagaram do jet ski, segundo suspeita a Polícia, o nome Augusto - de José Augusto de Souza, padrinho do guri e candidato tucano à Prefeitura de Suzano - e tem feito de tudo para não colaborar com o esclarecimento dos fatos. É sempre assim que acontece, por exemplo, depois que um filhinho de papai provoca um brutal acidente de trânsito com várias mortes. Feito o estrago, o culpado esconde-se e a família trata de protegê-lo. Lógica tribal. Princípio da autoproteção.

O caso dessa menininha de família modesta, que foi conhecer o mar e morreu, sem que o provocador da tragédia prestasse socorro, deve realmente servir de alerta. Há algo de muito errado entre nós. Um jovem de 13 anos sabe perfeitamente o que é certo e o que é errado. Pode ter fugido por medo ou descontrole emocional. A sua família, no entanto, não pode negar-se a encarar a realidade e a assumir as suas responsabilidades. Até agora, grotescamente, o que se tem visto é o velho Brasil dos privilégios tentando encontrar um jeito de livrar a cara dos seus num momento terrível. Falta de ética, de coragem e de senso de decência. Esse talvez seja o grande problema de uma sociedade em que a palavra punição se tornou, praticamente em todas as situações, sinônimo de primarismo. Não que o menino deva ir para a cadeia. É a negligência mortal desses adultos que deve ser punida.

Pelo jeito, porém, Augusto está mais preocupado com as eleições. Se duvidar, a menina e a sua família serão punidas na base do quem mandou deixar a criança exposta ao perigo? Ao Sul do Equador, em português da vida real, sempre que se fala em fatalidade, algum grandão pisou na bola ou está tentando tirar o seu da reta. Estamos cada vez mais cínicos, egoístas e ardilosos. Não será, contudo, o autoritarismo da palmatória que vai nos impor valores como imaginam alguns saudosos de métodos expeditivos. Certo é que os responsáveis pelo guri do jet ski estão dando um lamentável exemplo para todos.

Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br
http://www.correiodopovo.com.br/Impresso/?Ano=117&Numero=151&Caderno=0&Editoria=120&Noticia=397264

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