ANO 117 Nº 236 - PORTO ALEGRE, QUARTA-FEIRA, 23 DE MAIO DE 2012
Está, enfim, instalada a Comissão da Verdade. Ponto para Dilma Rousseff e Maria do Rosário. Já era tempo. Nenhum país sério vira as costas para um passado tenebroso sem tentar iluminá-lo. A polêmica, porém, continua. A direita defende que os militantes de esquerda da época, que chama de terroristas, envolvidos em crimes, também devem ser julgados e punidos. O contra-argumento mais simples consiste em lembrar que eles já foram duramente punidos, quando sobreviveram, com prisão, tortura, exílio. Em seguida, é comum que se recorde algo trivial: estavam em luta contra uma ditadura. Estabelece-se um paradoxo previsto por grandes pensadores: é lícito praticar o "ilícito" em termos normais para derrubar um regime autoritário. É o sagrado direito à insurreição.
A Primavera Árabe é uma prova disso. Nossos terroristas de Estado, porém, ainda não foram julgados nem punidos. Os defensores do regime militar gostam de praticar uma chantagem: se é para punir, que se punam os dois lados, dizem. Não acreditam nisso. Querem apenas tentar evitar que os torturadores sejam punidos, pois legitimam o que eles fizeram, justificam, sacramentam e, em muitos casos, aplaudem e gostam sadicamente de saber que o horror foi praticado. Falam em pacificação e em não reabrir feridas, mas querem mesmo é preservar a integridade dos agentes da barbárie estatal. Em bom português, recorrem a um lance argumentativo falacioso, pusilânime, grotesco, inaceitável em qualquer democracia. Partem de duas premissas falsas: que o golpe de 1964 foi dado para impedir o avanço do comunismo e que a Lei da Anistia (autoanistia) foi negociada. Foi imposta. Afirmam também que a maioria da população apoiou a quartelada. Apesar das multidões das marchas da Família com Deus, articulada pelos americanos e pela mídia conservadora, a maioria dos brasileiros (76%) estava contente com Jango.
Em 1964, não havia guerrilha atuando no Brasil. João Goulart era tão marxista quanto Getúlio Vargas. O avanço do comunismo nunca passou de uma suposição, de um golpe, literalmente, de marketing, uma estratégia insuflada com ajuda dos Estados Unidos para derrubar o presidente João Goulart e acabar com suas reformas de base, altamente necessárias a um país miserável. Jango queria cometer um crime terrível: fazer reforma agrária e levar leis trabalhistas para o campo, onde corria solto o trabalho escravo. A queda de Jango começa a ser decretada em 1962 com um telegrama do embaixador Lincoln Gordon: "Goulart está fomentando um perigoso movimento de esquerda, estimulando o nacionalismo. Duas companhias americanas, a ITT e a Amforp, foram recentemente desapropriadas pelo governador Leonel Brizola. Tais ações representam uma ameaça aos interesses econômicos dos Estados Unidos".
Nossos militares reacionários cometeram crime de lesa-pátria: caíram no colo dos americanos para salvaguardar os interesses deles e dos seus aliados brasileiros. Depois, entornaram o caldo e partiram para o pau. Moral da história imoral: cadeia para torturador.
Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br
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