sexta-feira, 13 de julho de 2012

E EU NÃO SABIA QUE A EMBOSCADA DO ALBERI...

Em julho de 1974, ele atraiu ao Brasil cinco remanescentes da VPR que estavam refugiados m Buenos Aires. Junto, veio o argentino Enrique Ernesto Ruggia, de 18 anos. Todos foram mortos numa emboscada, no Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná. Os corpos desapareceram.

O sargento Alberi transitava pelo Chile e pela Argentina como espião do Centro de Informações do Exército (CIE), tentando captar exilados com falsos planos de reativar a guerrilha no Brasil. O jornalista Aluízio Palmar, 66 anos, investigou que Alberi convenceu o comandante da VPR no exílio, Onofre Pinto, a deixar Buenos Aires naquele inverno de 1974.

Além de Onofre, foram executados os irmãos Daniel e Joel José de Carvalho, José Lavéchia, Víctor Carlos Ramos e o argentino Enrique Ruggia, estudante de veterinária. Onofre era o mais visado pela repressão naquele momento, por ter sido sargento do Exército e um dos fundadores da VPR. Apesar das escavações, os cadáveres não foram encontrados.

– Alberi agiu a sangue frio, cumpriu rigorosamente o papel que lhe coube dentro do planejamento de atrair exilados para o território nacional – disse a ZH Aluízio Palmar, autor do livro Onde Foi que Vocês Enterraram Nossos Mortos?

A descoberta de que o sargento Alberi era agente duplo surpreendeu grupos de esquerda. Nascido em Campo Novo, ao norte do Rio Grande do Sul, ele defendeu a Campanha da Legalidade e foi preso com o golpe de 1964. No ano seguinte, foi o subcomandante da malograda investida guerrilheira do coronel Jefferson Cardim, em Três Passos.

– O Alberi era o mais ativo, ia na carroceria do caminhão, comandando o grupo – lembra um dos integrantes da Coluna Jefferson, Valdetar Antônio Dorneles, 76 anos, advogado em Três Passos.

Valdetar conta que quatro irmãos de Alberi – Erci, Silvano, José e Antônio – participaram da coluna, que tinha apenas 21 homens. Eles assaltaram o quartel e o presídio de Três Passos e invadiram uma emissora de rádio, lançando uma proclamação. O levante foi abafado pelo Exército, no oeste do Paraná.

Definindo-se como revolucionário, e não guerrilheiro, Valdetar não conhece a outra face de Alberi, a de colaborador do CIE. É cauteloso ao opinar: – Ele perdeu dois irmãos (Silvano e José), mortos pela repressão na maior das judiarias. A família dele foi decepada. Se passou para o outro lado, então...

O infiltrado foi assassinado em 1979, aos 42 anos, na região de Foz do Iguaçu. O corpo apareceu crivado de balas, além de mutilado. O rosto estava deformado, o que evidencia uma tentativa de queima de arquivo.

Familiares continuam traumatizados, não gostam de se manifestar, desconhecem as suspeitas que pesam contra Alberi. Um dos irmãos, Aquiles Soares dos Santos, 73 anos, o Kido, nega que ele tenha sido um traidor. Argumenta que Alberi pegou nove anos de prisão e sofreu perseguições. – Não, ele não faria isso. Perdeu, tirou a sentença dele.

Alberi pertence a uma família de brigadianos – três irmãos, o pai e o avô envergaram a farda da corporação. Para Kido, o maior culpado pelo infortúnio do irmão foi Brizola, que incitou a guerrilha de Três Passos mas não se expôs, refugiando-se no Uruguai. – Eram como bois indo para o matadouro – compara.

Já os parentes das vítimas da cilada no Paraná continuam de luto. A argentina Lílian Ruggia, 55 anos, lembra que o irmão, Enrique Ernesto, acompanhou os brasileiros da VPR embalado pelos sonhos de uma América Latina unida. Prometeu voltar a Buenos Aires em 10 dias, mas desapareceu.

Lílian ressalta que a família padece de uma dor recorrente, pois não pôde ao menos sepultar o corpo: – O desaparecimento é algo desesperante. Necessitamos achá-lo. Fiz buscas, viajei a Foz do Iguaçu, mas nada. http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/e-eu-nao-sabia-que-a-emboscada

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