sábado, 21 de julho de 2012

Porque tantos analfabetos mesmo passando pela escola?

Qui, 19 de julho de 2012.

Quando alguém está alfabetizado? O que é ser alfabetizado? Prejuízos do analfabetismo.

Segundo pesquisa 35% das pessoas com Ensino Médio completo podem ser consideradas plenamente alfabetizadas e 38% dos brasileiros com formação Superior têm nível insuficiente em leitura e escrita (Jornal da Manhã, Ijuí, 19/07/12).

Processo de alfabetização é algo não muito simples. Acontece durante todo Ensino Básico. E, também, na universidade. Um dia em uma aula do Mestrado Um Professor Doutor da Unijuí, disse que ali era um “curso de alfabetização avançada”. Ironia ou brincadeira, mas deve ter algum sentido sua expressão.

O Professor queria dizer com aquela afirmação talvez que, sempre, ao fazermos um esforço para compreender o que os outros escrevem ou escrever algo mais complexo é um esforço para superar o analfabetismo. Nós professores que somos profissionais do ensino, também, muitas vezes, manifestamos nosso frágil processo de alfabetização.

A desvalorização da educação em um País como o Brasil, em que professor é mau pago, não há interesse em qualificar de fato a educação pública, pois o conhecimento ainda é usado como instrumento de poder, por uma elite, o analfabetismo funcional de 30% dos universitários não me surpreende.

No Brasil se lê pouco, as principais formas de acesso às informações é a televisão, que apresenta conteúdo simplificado, em geral, sem reflexão, que não tem o objetivo ampliar a capacidade de racionalidade das pessoas. Assim, o analfabetismo encontra um espaço ideal para se hospedar.

Diante desse contexto, a valorização do conhecimento é algo raro, em uma sala de aula de 30 alunos, em geral, talvez 10 estejam de fato envolvidos com a construção do conhecimento. Os demais vão levando, felizes quando conseguem a nota mínima para ser aprovados. Serão esses, em tese, os analfabetos funcionais.

Por analfabetos funcionais se podem entender pessoas que leem e compreendem apenas textos de média extensão, localizam informações somente com pequenas interferências, muitas vezes não leem números na casa dos milhões, e não resolvem problemas envolvendo uma sequência simples de operações e têm pouca noção de proporcionalidade.

Quando se tem dificuldade em escrever é sinal, talvez, que ainda temos certo grau de analfabetismo. Pois ele comporta a leitura e escrita de forma dialética. Sempre que leio invisto na alfabetização. Sempre que escrevo exercito minha alfabetização. Uma ação ajuda a outra.

Quando insisto que a formação continuada dos professores producente é aquela em que os docentes se envolvem como protagonistas no processo de ler, escrever e socializar a produção, estou querendo dizer que necessitamos permanentemente realizar o exercício de alfabetização em nós mesmo.

Um dos responsáveis pelo analfabetismo funcional, talvez, seja a “pedagogia bancária”. Em que alguém detentor de um conjunto considerável de conhecimentos despeja aos alunos, em grande quantidade, de repente, sem contextualização, socialização e dialogicidade.

Como dizia Paulo Freire, a “pedagogia bancária” deposita conhecimentos/conceitos nos alunos, depois exige a retirada, mas, muitas vezes, sem se preocupar com a compreensão e entendimento dos conceitos.

Infelizmente, ainda, hoje, a maior parte das formações continuadas de professores insiste com a “pedagogia bancária”. Isto, talvez, dificulte a qualificação dos professores para atuar como alfabetizadores durante todo Ensino Básico.

Quem não sabe expressar o que pensa por escrito de forma lógica e coerente é sinal que pode ter entraves na alfabetização. Por isto entendo como positivo as escolas estaduais de Ensino Médio adotar a pesquisa como princípio educativo. Contudo acho que ela deve começar já na educação infantil.

A alfabetização não é algo simples, pressupõe apropriação de conceitos, realizar cálculos, aprender a decifrar princípios e concepções. Envolve um esforço para compreender o mundo, a sociedade e o homem, pela lógica das ciências.

Ser alfabetizado não apenas saber o significado de alguns conceitos, de determinadas ciências (Matemática, Biologia, História, Geografia). Alfabetizado é quem tem a competência de dialetizar os conceitos, interligar e incluí-los com sentido em sua comunicação, ou entender o que os outros estão escrevendo ou falando.

Alfabetizar-se é o esforço permanente de humanização, desenvolvimento das habilidades e competências de compreensão e exercício da comunicação.

A lógica da desigualdade social, da concentração de renda e exclusão cultural repercute em várias instâncias da sociedade, inclusive, na universidade, pois a pesquisa mostrou que 38% saem dela, com curso Superior, porém com nível insuficiente em leitura e escrita. O processo de dominação social também se dá, por vezes, por intermédio dos analfabetos funcionais, que, também, talvez, sejam analfabetos políticos.

Para superação do analfabetismo funcional é indispensável investimento em educação, vontade política e compromisso com as transformações dos processos e estruturas sociais.

Luiz Etevaldo da Silva. Professor Licenciado em Estudos Sociais, Graduado em História, Especialista em Humanidades e Mestre em Educação nas Ciências
http://www.ijui.com/blog/blog-do-etevaldo/37319-por-que-tantos-analfabetos-mesmo-passando-pela-escola

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