04/05/2013 - Relatório
da agência aponta ex-governador como um ativo insurgente e fomentador da
guerrilha
Nos primeiros anos
do regime militar (1964-1985), os focos de insurgência armada haviam sido
sufocados e a maioria dos líderes políticos de esquerda estava presa ou vivia
no exílio. Nesse clima de aparente legalidade, a população se inclinava a
apoiar os militares, instigada pelo discurso oficial de combate à ameaça
subversiva. Um nome, contudo, era temido nos bastidores do poder: Leonel de
Moura Brizola.
Enquanto respirava a brisa do Rio da Prata, no Uruguai, Brizola comandava
operações, treinava guerrilheiros e recebia auxílio financeiro de Cuba e de
ultranacionalistas brasileiros com objetivo de derrubar a ditadura. A versão
sobre as atividades do trabalhista e o papel de Cuba no apoio de grupos
extremistas na América Latina está descritos em um calhamaço de papeis da CIA —
a agência de inteligência americana — enviados ao governo brasileiro, ao qual
ZH teve acesso.
Intitulado Intelligence Handbook, o dossiê da agência se detém em descrever em
dezenas de páginas a ação dos grupos contrários ao regime, com foco sobre o
Movimento Nacional Revolucionário (MNR) de Brizola, considerado como o mais
"ativo" grupo de oposição ao regime. A documentação é datada de
fevereiro de 1968.
A teia de relações de Brizola é descrita em minúcias, bem como os homens que
formavam o seu establishment: Paulo Shilling — um dos fundadores do Movimento
dos Agricultores Sem Terra (Master), uma organização precursora do MST —, o
ex-deputado Neiva Moreira e o coronel do Exército Dagoberto Rodrigues,
ex-diretor do Departamento de Correios e Telégrafos no governo João Goulart. Os
tentáculos de Brizola se estenderiam pela Europa, onde seu contato era o
ex-deputado Max da Costa Santos, que se encontrava exilado em Paris. Era ele
quem viajava para Cuba através de uma conexão por Praga em busca de suporte
para ações guerrilheiras. Para a CIA, a indicação mais clara do envolvimento de
Cuba é seu apoio ao grupo de exilados de Leonel Brizola. "Os couriers
(mensageiros) cubanos contataram e financiaram insurgentes brasileiros no
Uruguai e financiaram sua viagem a Cuba para treinamento em campos de
guerrilha", aponta o relatório.
Um estilo centralizador
Ainda segundo os documentos, Brizola arranjou um grau de proteção para ele
próprio e sua organização no Uruguai desenvolvendo relações próximas com vários
políticos e oficiais, bem como com grupos revolucionários daquele país, entre
eles o Movimento Revolucionário Oriental e a Frente de Esquerda de Libertação
(Fidel), ambos ligados ao regime cubano. Àquela altura, Brizola já sofria com
escassez de homens dispostos a "encarar os perigos e dificuldades
encontradas pelas guerrilhas" e os relatos apontam o recrutamento de
possíveis combatentes até no Paraguai. Embora fosse financiado pelos
revolucionários de Sierra Maestra e que membros do MNR eram constantemente
treinados na ilha, Brizola se recusava a aceitar cubanos como integrantes do
seu grupo, segundo a CIA, "provavelmente temendo perder o controle de sua
organização".
— Não resta dúvida que toda a pressão e carga era sobre o Brizola. Ele era o
perigo — atesta Jair Krischke, do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, que
considera fundamental que toda documentação venha à tona, mesmo que sob a ótica
americana dos fatos.
Para a CIA, a "insistência" de Brizola em ser o único comandante de
qualquer operação o teria colocado em desacordo com outros grupos brasileiros e
contribuído para o seu "fracasso" em obter apoio unânime até entre os
exilados no Uruguai. Centralizador, o gaúcho em 1968 estaria cedendo espaço
para outras agremiações guerrilheiras, como a Resistência Armada Nacionalista
(RAN), sob a liderança do ex-almirante Cândido de Assis Aragão e que reunia
antigos oficiais do Exército e da FAB. O grupo contaria, conforme os dados da
CIA, com uma rede de escape e uma base guerrilheira de apoio na Bolívia, onde
foram encontrados contatos e nomes e endereços em Porto Alegre.
Até mesmo o suporte de Cuba Brizola estaria perdendo, em detrimento de outras
lideranças como Carlos Marighella. Diante do suposto isolamento, o
ex-governador estaria buscando outras fontes de financiamento através do
governo da Argélia, onde Miguel Arraes estava exilado. A atuação de Arraes é
tida pela CIA como mais voltada para esfera política, sem ação
"proeminente nos círculos revolucionários". Já Brizola era mais
temido, principalmente por, dois anos antes, ter posicionado um grupo
paramilitar na serra do Caparaó, divisa entre Espírito Santo e Minas Gerais,
naquela que é tida como a primeira guerrilha da ditadura. "O grupo foi
recrutado, organizado, treinado, financiado e dirigido por Leonel
Brizola", enfatiza o relatório da CIA.
— Caparaó era a menina dos olhos do Brizola, mas foi um grande fracasso. Era um
grupo muito bem preparado militarmente, mas que acabou se isolando da população
e ficou sem condições psicológicas de resistir — relata o jornalista Flávio
Tavares, que questiona a maioria dos informes da CIA já que eram baseados em
dados do regime que nem sempre traduziam a verdade.
A documentação, contudo, não surpreende a família de Brizola. O filho João
Otávio, 60 anos, afirma que se soube mais tarde que havia infiltrados da CIA no
Uruguai monitorando seu pai e que foi a partir de 1968 que Brizola parou de
arquitetar contra a ditadura.
— Antes disso, ele era uma máquina de conspirar e não tenho a menor dúvida de
que tinha apoio de Cuba.
Uma descrição dos levantes
Ao longo das dezenas de páginas do relatório elaborado pela CIA há uma
descrição de tentativas de levantes guerrilheiros ocorridos no país e da
capacidade de as Forças Armadas sufocarem qualquer "esforço
insurgente". Existia o temor de novos movimentos em Estados menos
populosos como Mato Grosso, Goiás e Amazonas — o que de fato ocorreu no caso da
Guerrilha do Araguaia. O dossiê destaca, contudo, que o Exército, precavido,
começou a realizar manobras em áreas rurais e inóspitas e que a população
estaria pronta a auxiliar na delação. "O Exército mantém uma boa reputação
entre o povo por meio de programa de ação cívica."
O foco embrionário de guerrilha tinha origem em Leonel Brizola. O mais
sofisticado esforço teria ocorrido em 1966, na Serra do Caparaó, quando um
grupo de cerca de 20 homens apoiados do exílio pelo gaúcho tentou recriar na
região uma insurreição nos moldes cubanos. Sem apoio dos camponeses enquanto
aguardava instruções de Brizola, os guerrilheiros foram capturados no final de
março de 1967. A unidade contava com apoio logístico de Bayard Demaria Boiteux,
ex-presidente do PSB. Junto aos guerrilheiros, a ponte de Boiteux era o
ex-sargento Amadeu Rocha, a quem repassava dinheiro e remédios. "Amadeu
depôs em interrogatório que Brizola gastou US$ 30 mil providenciado por Cuba no
esforço em Caparaó", aponta o dossiê da CIA.
Alguns integrantes dessa insurgência, segundo a CIA, teriam participado em 1965
de um incidente no Rio Grande do Sul em um destacamento militar em Três Passos.
Eles eram liderados por Jefferson Cardim, que fazia parte do grupo de exilados
no Uruguai sob o guarda-chuva de Brizola. O relatório aponta que o levante teve
inspiração brizolista, mas sua influência foi nula.
— Cardim estava brigado na época com Brizola. Ele agiu por conta própria quando
cruzou a fronteira — assegura Jair Krischke, do MJDH.
A documentação também faz menção à prisão de um grupo de terroristas em
Uberlândia (MG), em 1967, com "quantidades de explosivos químicos
incendiários e armas". O interrogatório dos presos incluiu o jornalista
Flávio Tavares.
— O Grupo de Uberlândia nunca chegou a funcionar. Quis implantar um foco de
guerrilha, mas foi infiltrado pela polícia. Se tornou apenas uma isca para
levar à minha prisão — lembra Tavares, que nega que o grupo possuía armamentos.
Segundo o dossiê, Tavares teria sido recrutado por um membro do bando para
contatar Brizola, com quem se encontrou duas vezes em janeiro daquele ano e
teria intermediado para um instrutor de guerrilha viajar a Minas Gerais. O
grupo foi desmantelado em julho.
— Na época, fiz um contato com Brizola, mas desconhecíamos que o grupo tinha se
transformado em uma armadilha. Tudo o que o grupo fazia a polícia tomava
conhecimento. O grupo não tinha relação com o Brizola — afirma o jornalista.
Preocupação com os
"reacionários"
O relatório da CIA também tem um capítulo destinado à linha dura do regime, que
representava uma "potencial ameaça" à estrutura política do país. A
preocupação com esses setores, classificados de "reacionários" pelo
dossiê, envolvia não só oficiais aposentados, mas também militares da ativa — a
maioria majores e coronéis — com ideias reformistas ligados ao ex-presidente
Castelo Branco e que estariam exercendo certa pressão junto ao atual
mandatário, Costa e Silva. O temor se estendia a setores da sociedade como
latifundiários ("abastados plantadores de café") e industrialistas,
que estariam descontentes com a reforma econômica e que, no passado, chegaram a
se unir a nacionalistas em busca de uma legislação protecionista.
Nem mesmo o maior nome conservador da política escapou dos adjetivos da CIA. O
ex-governador da Guanabara Carlos Lacerda é tido como a figura política mais
"perigosa" ao regime: "Ele é um oportunista esperto, com laços
apertados com os conservadores, reacionários e oficiais militares linha dura".
O relatório faz menção à Frente Ampla, movimento liderado por Lacerda e os
ex-presidentes João Goulart e Juscelino Kubitschek contra o regime, que
pleiteava eleições diretas e a recuperação dos direitos cancelados com o golpe.
O documento menciona que Lacerda estaria perdendo apoio entre os setores
conservadores ao "cortejar" forças pré-revolucionárias.
A CIA e os grupos guerrilheiros
Zero Hora teve acesso a documentos da agência de inteligência norte-americana,
a CIA, repassados pela ONG The National Security Archive ao governo brasileiro.
Especializada na liberação de documentos secretos, a National é vinculada à
Universidade George Washington. Ao todo, são 270 paginas, sendo 40 pertencentes
ao "Livro de Inteligência" da CIA, de fevereiro de 1968.
A seguir, um resumo de como a CIA monitorava e analisava possíveis grupos
exilados capazes de criar focos de "insurgência" no Brasil.
Movimento Nacional Revolucionário (MNR)
Grupo que concentrou sua organização no Uruguai após o golpe de 1964, o MNR era
composto por militares contrários ao regime, porém também contava com civis.
Segundo os documentos da CIA, era organizado por Leonel Brizola e recebia
auxílio do governo cubano.
Trecho dos documentos: "Entre os vários grupos opostos ao governo
existente, o MNR de Leonel Brizola é conhecido como o mais ativo".
A Resistência Armada Nacionalista (RAN)
Concentrado em Montevidéu, era dominado por militares excluídos pelo regime,
capitaneados pelo almirante Candido Aragão, mas também trazia antigas
lideranças do Exército e da Força Aérea. O RAN se opunha às decisões do MRN e
não reconhecia Brizola, um civil, como líder.
Trecho dos documentos: "O RAN tem sido mal sucedido em obter apoio
significativo tanto dos comunistas cubanos quanto dos chineses."
O Partido Comunista Brasileiro (PCB)
Fundado em 1922, defendia o marxismo, com forte atuação em sindicatos. Teve um
curto período de legalidade. Luís Carlos Prestes e Carlos Marighella foram
grandes lideranças, sendo que Marighella deixou a sigla. Segundo a CIA, o PCB
recebia auxílio da União Soviética.
Trecho dos documentos: "O PCB segue a linha soviética e é o maior
grupo revolucionário disciplinado no Brasil. Soma cerca de 13,2 mil de acordo
com suas lideranças."
O Partido Comunista do Brasil (CPB)
Articulado por dissidentes do PCB, na década de 1960, o partido vivia na
clandestinidade. Era mais afinado com a doutrina chinesa da esquerda, na defesa
de guerrilhas para insuflar a revolução armada. Por ser mais recente, ainda
sofria com o número escasso de membros.
Trecho dos documentos: "Três ou quatro grupos do CPB receberam de
três a seis meses de treinamento em insurgência urbana e rural na China
comunista."
Ação Popular (AP)
Formada por lideranças estudantis de esquerda, surgiu nos anos 1960, liderada
por membros da Igreja Católica. Mais forte nos centros urbanos, conseguiu
organizar manifestações estudantis e se ramificar pelo país. Conforme a CIA,
teria inclinações pela insurgência armada.
Trecho dos documentos: "Se a AP iniciar a insurgência, ela
provavelmente tomará a forma de terrorismo urbano. Muito sobre esta organização
é especulativo."
Polop
Criado nos anos 1960, congregava lideranças estudantis e de trabalhadores.
Radical, incluindo dissidentes de partidos de esquerda, no futuro deu origem a
outros movimentos que lutaram contra o regime. Em 1968, a CIA não acreditava na
capacidade de insurgência do grupo.
Trecho dos documentos: "Intelectuais marxistas que acreditam que o
Brasil pode ser salvo por uma revolução violenta baseada em uma aliança
estudante-trabalhador."
Grupos Trotskistas
Os movimentos trotskistas seguiam a doutrina do ucraniano Leon Trotsky,
liderança que fez história na União Soviética. Os movimentos tinham diferentes
grupos, como o Partido Operário Revolucionário Trotskista (PORT), envolvido em
paralisações de trabalhadores.
Trecho dos documentos: "Orientado para preparar e liderar revoltas
camponesas, eles têm sido culpados por tentativas de atos isolados de
terrorismo e sabotagem."
ENTREVISTA Peter Kornbluh (Diretor da The
National Security Archive)
"A história dos arquivos brasileiros deve ser revelada."
Pesquisador da ONG The National Security Archive, Peter Kornbluh é um
especialista em obter documentos outrora secretos do governo dos Estados
Unidos. Ele tem auxiliado o Brasil na obtenção destes relatórios, como o acervo
de 270 páginas que Zero Hora teve acesso, informes entregues à Secretaria de
Direitos Humanos da Presidência da República.
Em entrevista concedida por e-mail a ZH, o pesquisador avalia a importância da
abertura de arquivos, o primeiro ano da Lei de Acesso à Informação brasileira e
a influência norte-americana nos regimes militares da América Latina. A seguir,
os principais trechos.
ZH - Qual a importância de abrir arquivos secretos de países?
Peter Kornbluh - A abertura de arquivos governamentais é uma obrigação
para a democracia. É o direito do cidadão saber, em qualquer país, o que seu
governo tem feito em seu nome, mas sem seu conhecimento. Sem acesso à
verdadeira história, pode não haver fundamento histórico para um debate público
integral sobre o futuro. Particularmente, em países como o Brasil, onde existe
um histórico de abusos de direitos humanos e repressão, as evidências nos
arquivos são fundamentais para se chegar a um veredicto social, legal e
histórico sobre o passado.
ZH - Como funciona o processo para abrir documentos secretos nos Estados
Unidos?
Peter - Nos Estados Unidos há uma legislação clara sobre liberdade de
informação, que garante o direito legal de requisitar e obter documentos.
Existe também o sistema da biblioteca presidencial, supervisionado pelo
governo, onde documentos-chave são coletados, revisados e eventualmente
disponibilizados para pesquisas escolares.
ZH - O Brasil criou sua Lei de Acesso à Informação. O senhor a conhece?
Peter - O Brasil é uma das últimas grandes nações a aprovar uma lei de
acesso à informação, algo muito importante. O aniversário da lei está chegando,
e jornalistas e organizações devem avaliar como ela funcionou: quantos pedidos
foram arquivados, quantos documentos foram liberados, quantos documentos foram
retidos, e se a retenção foi legítima ou ilegítima. É indispensável uma
auditoria do primeiro ano para ajudar a melhorar a implementação da lei nos
anos que virão. A documentação brasileira não tem apenas o grande papel de
fortalecer o fluxo de informação para os cidadãos brasileiros, mas também
informar outros países sobre o papel que o Brasil desempenhou no Exterior.
ZH - Qual foi a influência dos Estados Unidos nas ditaduras militares da
América do Sul?
Peter - Os Estados Unidos ajudaram secretamente a criar os mais famosos
regimes militares na região - do sanguinário regime guatemalteco em 1954 às
juntas brasileiras em 1964, até o regime Pinochet em 1973. Nos Estados Unidos e
na América Latina nós sabemos muito sobre a intervenção secreta americana na
região em virtude da nossa capacidade de usar a lei de acesso à informação para
obter documentos com acesso liberado.
ZH - E Cuba financiou grupos armados na América do Sul?
Peter - Como não temos acesso aos arquivos cubanos, não sabemos a história
completa sobre o apoio do país às insurgências latino-americanas. Depois que
Che Guevara foi morto por tropas treinadas pelos americanos na Bolívia, o apoio
cubano para insurgências foi significativamente reduzido até os anos 1980,
quando Cuba apoiou alguns elementos revolucionários na América Central.
ZH - Como o senhor avalia o regime militar no Brasil?
Peter - O Brasil é uma superpotência regional. A ditadura brasileira
possuía uma política exterior muito intervencionista no Conesul - auxiliando na
derrubada de Salvador Allende (Chile), participando no enfraquecimento do
governo da Bolívia, influenciando as eleições no Uruguai etc. A história dos
arquivos brasileiros deve ser revelada para o benefício da região latino-americana,
como também o direito de saber de todos os brasileiros.