segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Um novo partido político no Rio Grande

Marino Boeira - 9/ago/2013, 9h38min

Na história do Rio Grande do Sul sempre houve dois lados disputando o poder político. No passado mais distante, os dois lados representavam a mesma classe social, ainda que eventualmente antagônicos por alguma questão pontual, como no caso dos chimangos e maragatos.

Posteriormente, com a chegada dos colonos europeus e depois com o início do processo de industrialização do Estado, a introdução de uma nova classe social no jogo político, a dos trabalhadores, esta dicotomia foi representada por partidos conservadores, representando os interesses das velhas e novas oligarquias econômicas e os reformistas empunhando bandeiras populares.

A exceção de um breve período no final da segunda guerra mundial, os partidos com algum conteúdo revolucionário, pouca expressão tiveram nesse jogo. Assim, a partir da chamada redemocratização no final da guerra, o confronto se deu entre o PTB e eventuais aliados (do Partido Comunista aos integralistas do PRP de Plínio Salgado e os seguidores de Adhemar de Barros, do PSP) contra a aliança conservadora formada pelo PSD, UDN e PL.

Com o golpe de 64, mudaram os nomes dos participantes do jogo: de um lado, ficaram os velhos reacionários e os oportunistas do momento, apoiando os militares golpistas, abrigados sob a bandeira da Arena, e de outro lado a oposição consentida, o MDB.
Mais tarde, com o retorno da democracia formal, e o ressurgimento dos partidos, o PT passou a ser o representante mais coerente dos interesses populares, ganhando pouco a pouco a liderança entre os partidos que se colocavam a esquerda no espectro político do Estado.

Durante todos estes anos, as disputas eleitorais no Rio Grande do Sul deram mais de uma oportunidade para que os partidos que representavam os interesses populares chegassem ao Governo do Estado, mas suas administrações pouco se diferenciaram daquelas mais ligadas aos interesses conservadores.

Walter Jobim, Ernesto Dorneles, Ildo Meneghetti, Leonel Brizola, Ildo Meneghetti novamente, Peracchi Barcelos, Euclides Triches, Sinval Guazelli, Amaral de Souza (estes quatro últimos eleitos pela Assembléia Legislativa), Jair Soares, Pedro Simon, Alceu Collares, Antônio Brito, Olívio Dutra, Germano Rigotto, Yedas Crusius e Tarso Genro, se sucederam ao longo do tempo, mas apenas em dois momentos, houve algum tipo de ruptura na forma acomodada de governar o Estado.

A primeira e mais impactante foi no governo Brizola, com o enfrentamento das multinacionais de energia e telefonia, o forte investimento na educação pública e no plano político, a resistência ao golpe engendrado contra a posse de João Goulart.
O segundo momento, mais recente, foi na administração de Olívio Dutra, com a introdução do Orçamento Participativo e a defesa dos interesses do Estado no confronto com a Ford.

Fora isso, o que o Rio Grande do Sul assistiu durante estes anos foi uma ação política dos governantes, que ora chegava muito próxima de um entreguismo escancarado, como no governo Britto, ora oscilava para a esquerda, ainda que mais na teoria do que na prática, como nos casos de Collares e Tarso.

Durante estes longos anos, em que os partidos políticos e seus representantes se alternaram no poder, um novo partido foi crescendo no Rio Grande do Sul e ainda que formalmente nunca disputasse um pleito político, está mostrando que é cada vez mais capaz de influenciar no voto de todos os gaúchos.

Falamos da RBS, a poderosa rede de comunicação que através dos seus veículos determina a pauta dos assuntos que lhe interessa que sejam discutidos.

“É sabido que a RBS é, também, além de um grupo midiático, um grupo político-ideológico de comunicação. Não faz, assim, uma cobertura isenta, não só das questões nacionais, como das regionais. Pode-se dizer até que grupos como a RBS e a Rede Globo são, na verdade, um novo tipo de partido político. Eles hierarquizam e organizam a apresentação dos fatos de acordo com a sua visão de mundo.”

Quem disse isso, foi o Governador Tarso Genro, essa semana, em entrevista para o Sul21.

É interessante ver como este grande grupo de mídia, que como a Rede Globo, só cresceu durante o regime militar, intervém permanentemente no dia a dia da vida dos gaúchos, pautando os assuntos a serem discutidos, sempre a partir de uma ótica que defende os interesses privados, apresentados como éticos e progressistas, em detrimento do público, onde sempre grassa a corrupção.

Hoje, com um grau de eficiência muito maior, os veículos aprenderam que dar algum espaço para o contraditório, ajuda a construir a imagem de imparcialidade que seus dirigentes apregoam.

Sábado, por exemplo, no seu caderno cultural, Zero Hora publicou um belo texto do historiador Mário Maestri sobre Jacob Gorender, o mais importante intelectual marxista brasileiro, recentemente falecido e cujo desaparecimento mereceu na ocasião umas poucas linhas do jornal.

No passado, estes veículos eram mais diretos e menos eficientes. No governo Collares, RBS instrumentalizou, por incrível que pareça, o moralismo pequeno burguês do PT na Assembléia, levantando questões ridículas como a reforma do banheiro do Palácio Piratini e a compra de bolachas, que tinham o nome da mulher do governador, para distribuir nas escolas.

Mais adiante, foram os deputados do PDT, com o imenso apoio da mídia da RBS que tentaram desestabilizar o governo de Olívio Dutra com a chamada CPI do Jogo do Bicho.

Hoje, seus veículos se dizem imparciais, embora, como perguntou o Governador Tarso Genro em sua entrevista, “porque, no Governo Britto a RBS “jogava o Estado para cima” e agora faz tudo para “jogar o Estado para baixo?”

Pena que percebendo tudo isso, o Governador autorize a publicação da parcela maior da verba publicitária do Estado em veículos da RBS, como percebeu um leitor do Sul21, que flagrou no mesmo dia da entrevista um anúncio institucional do Governo a cores, ocupando toda uma página de ZH.

Os publicitários costumam dizer que se trata de uma mídia técnica: levam a verba maior os veículos com maior audiência. Só que isso se transforma num círculo vicioso, onde os veículos mais poderosos têm a maior fatia da verba publicitária e porque têm esta fatia maior, continuam sempre mais poderosos.

Marino Boeira é professor universitário

http://www.sul21.com.br/jornal/2013/08/um-novo-partido-politico-no-rio-grande-por-marino-boeira/

Professor Doutor Paulo Afonso Zarth relembrou a história da busca pela universidade pública em Ijuí

Qui, 08 de agosto de 2013

O Portal Ijuhy.com entrevistou nesta quarta-feira, 07, o professor e historiador Paulo Afonso Zarth que relembrou sobre a história da busca da universidade pública em Ijuí.

Ele é professor doutor licenciado pela Unijuí e também foi professor visitante nacional sênior durante dois anos na Universidade Federal Fronteira Sul, através do CAPES.

Segundo o professor, a busca da universidade pública no município iniciou nos anos 80. “Surgiu no interior do Sindicato de Professores de Ijuí, na Associação dos docentes da Unijuí, que existia na época, e no interior da própria reitoria da Unijuí”, disse.

Ele apresentou dois documentos que mostram um pouco da discussão em torno da possibilidade de ter o ensino público no município.
Um dos documentos é de 1989, chamado “Pela estatização da Unijuí”, e foi elaborado por Eliezer Moreira Pacheco, Jaeme Luiz Callai e Teodoro Clebsch.

O outro foi elaborado por uma comissão de estudos organizada pela reitoria da universidade. A comissão era formada por Argemiro Jacob Brum, Otavio A. Maldamer e Luiz A. Herbecher. O documento foi intitulado “Em busca da solidificação do caráter público da Unijuí II”.

“Na época se chegou à uma conclusão de que as universidades comunitárias de modo geral, e aqui de Ijuí, de modo particular, teria grande dificuldade de sobreviver sem o aporte de recursos estatais”, explicou o professor ao falar sobre a possibilidade de estatizar a Unijuí.

Ele ainda destacou que durante a eleição de 1987, os candidatos à direção da universidade apoiaram a transferência da universidade ao poder público.

Mesmo com vários movimentos, não houve resultados. Segundo Zarth, no começo dos anos 90, o país entra em um novo momento, chamado por ele de refluxo.

“Com a eleição do presidente Collor de Mello e depois do Fernando Henrique Cardoso, nós vivemos uma onda do chamado neoliberalismo, que propunha um estado mínimo e tudo indicava a privatização do ensino público”, disse.

Além disso, a região viveu um momento de expansão do ensino superior com a regionalização das universidades, inclusive a Unijuí. Isso também permitiu um período de estabilidade e crescimento.

Outro movimento que ocorreu neste período foi o crescimento de instituições privadas que se expandiram pelo país. Isso também acabou prejudicando as universidades comunitárias, já que as universidades privadas conseguiam oferecer um custo menor.

Com o governo de Olívio Dutra, o debate é novamente estabelecido. O professor explica que neste governo, houve a criação de pequenas unidades da UERGS em vários municípios, e que Ijuí voltou a debater sobre essa possibilidade.

Novamente a proposta não foi efetiva. De acordo com o professor, questões políticas e o custo ao estado fizeram com que a proposta não fosse realizada.

Em 2005, surge um novo movimento. Desta vez é em relação à criação da Universidade Federal Fronteira Sul.

Zarth chama atenção pelo fato deste movimento ser social e agora independente. Ijuí não foi contemplada nesta época, mas recentemente este movimento ressurgiu.

“Esta é uma ruptura do movimento atual com os movimentos antigos”, disse o professor. Segundo ele, agora o movimento busca não uma estatização ou federalização, mas sim, a criação de uma universidade federal independente das instituições já estabelecidas.

Agora, além de um campus da Universidade Federal Fronteira Sul, também há a discussão para trazer um curso de medicina público. Ao mesmo tempo, a Unijuí também trabalha com uma proposta de um curso de medicina.

Para Zarth, o ideal seria que as duas universidades tivessem os cursos, pois ajudariam em mais recursos à disposição a toda a população, como profissionais, além de melhorar a pesquisa. Em relação à pública, o professor chamou à atenção pelo grande investimento que é realizado pela União.

O professor alerta que é necessário um movimento da sociedade para a conquista dos cursos. “Para isso é preciso que a sociedade se organize. Isso é fundamental, quem não se organiza não leva nada”, disse. “É preciso engajamento da comunidade toda para que o curso saia”.
http://www.ijui.com/educacao/51298-prof-dr-paulo-zarth-universidade-publica-em-ijui-e-discutida-desde-os-anos-80.html#sthash.y5GwSxVY.dpuf

Documentos apontam que CIA via em Brizola a principal ameaça à ditadura

04/05/2013 - Relatório da agência aponta ex-governador como um ativo insurgente e fomentador da guerrilha

Nos primeiros anos do regime militar (1964-1985), os focos de insurgência armada haviam sido sufocados e a maioria dos líderes políticos de esquerda estava presa ou vivia no exílio. Nesse clima de aparente legalidade, a população se inclinava a apoiar os militares, instigada pelo discurso oficial de combate à ameaça subversiva. Um nome, contudo, era temido nos bastidores do poder: Leonel de Moura Brizola.

Enquanto respirava a brisa do Rio da Prata, no Uruguai, Brizola comandava operações, treinava guerrilheiros e recebia auxílio financeiro de Cuba e de ultranacionalistas brasileiros com objetivo de derrubar a ditadura. A versão sobre as atividades do trabalhista e o papel de Cuba no apoio de grupos extremistas na América Latina está descritos em um calhamaço de papeis da CIA — a agência de inteligência americana — enviados ao governo brasileiro, ao qual ZH teve acesso.

Intitulado Intelligence Handbook, o dossiê da agência se detém em descrever em dezenas de páginas a ação dos grupos contrários ao regime, com foco sobre o Movimento Nacional Revolucionário (MNR) de Brizola, considerado como o mais "ativo" grupo de oposição ao regime. A documentação é datada de fevereiro de 1968.

A teia de relações de Brizola é descrita em minúcias, bem como os homens que formavam o seu establishment: Paulo Shilling — um dos fundadores do Movimento dos Agricultores Sem Terra (Master), uma organização precursora do MST —, o ex-deputado Neiva Moreira e o coronel do Exército Dagoberto Rodrigues, ex-diretor do Departamento de Correios e Telégrafos no governo João Goulart. Os tentáculos de Brizola se estenderiam pela Europa, onde seu contato era o ex-deputado Max da Costa Santos, que se encontrava exilado em Paris. Era ele quem viajava para Cuba através de uma conexão por Praga em busca de suporte para ações guerrilheiras. Para a CIA, a indicação mais clara do envolvimento de Cuba é seu apoio ao grupo de exilados de Leonel Brizola. "Os couriers (mensageiros) cubanos contataram e financiaram insurgentes brasileiros no Uruguai e financiaram sua viagem a Cuba para treinamento em campos de guerrilha", aponta o relatório.

Um estilo centralizador

Ainda segundo os documentos, Brizola arranjou um grau de proteção para ele próprio e sua organização no Uruguai desenvolvendo relações próximas com vários políticos e oficiais, bem como com grupos revolucionários daquele país, entre eles o Movimento Revolucionário Oriental e a Frente de Esquerda de Libertação (Fidel), ambos ligados ao regime cubano. Àquela altura, Brizola já sofria com escassez de homens dispostos a "encarar os perigos e dificuldades encontradas pelas guerrilhas" e os relatos apontam o recrutamento de possíveis combatentes até no Paraguai. Embora fosse financiado pelos revolucionários de Sierra Maestra e que membros do MNR eram constantemente treinados na ilha, Brizola se recusava a aceitar cubanos como integrantes do seu grupo, segundo a CIA, "provavelmente temendo perder o controle de sua organização".

— Não resta dúvida que toda a pressão e carga era sobre o Brizola. Ele era o perigo — atesta Jair Krischke, do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, que considera fundamental que toda documentação venha à tona, mesmo que sob a ótica americana dos fatos.

Para a CIA, a "insistência" de Brizola em ser o único comandante de qualquer operação o teria colocado em desacordo com outros grupos brasileiros e contribuído para o seu "fracasso" em obter apoio unânime até entre os exilados no Uruguai. Centralizador, o gaúcho em 1968 estaria cedendo espaço para outras agremiações guerrilheiras, como a Resistência Armada Nacionalista (RAN), sob a liderança do ex-almirante Cândido de Assis Aragão e que reunia antigos oficiais do Exército e da FAB. O grupo contaria, conforme os dados da CIA, com uma rede de escape e uma base guerrilheira de apoio na Bolívia, onde foram encontrados contatos e nomes e endereços em Porto Alegre.

Até mesmo o suporte de Cuba Brizola estaria perdendo, em detrimento de outras lideranças como Carlos Marighella. Diante do suposto isolamento, o ex-governador estaria buscando outras fontes de financiamento através do governo da Argélia, onde Miguel Arraes estava exilado. A atuação de Arraes é tida pela CIA como mais voltada para esfera política, sem ação "proeminente nos círculos revolucionários". Já Brizola era mais temido, principalmente por, dois anos antes, ter posicionado um grupo paramilitar na serra do Caparaó, divisa entre Espírito Santo e Minas Gerais, naquela que é tida como a primeira guerrilha da ditadura. "O grupo foi recrutado, organizado, treinado, financiado e dirigido por Leonel Brizola", enfatiza o relatório da CIA.

— Caparaó era a menina dos olhos do Brizola, mas foi um grande fracasso. Era um grupo muito bem preparado militarmente, mas que acabou se isolando da população e ficou sem condições psicológicas de resistir — relata o jornalista Flávio Tavares, que questiona a maioria dos informes da CIA já que eram baseados em dados do regime que nem sempre traduziam a verdade.

A documentação, contudo, não surpreende a família de Brizola. O filho João Otávio, 60 anos, afirma que se soube mais tarde que havia infiltrados da CIA no Uruguai monitorando seu pai e que foi a partir de 1968 que Brizola parou de arquitetar contra a ditadura.

— Antes disso, ele era uma máquina de conspirar e não tenho a menor dúvida de que tinha apoio de Cuba.

Uma descrição dos levantes

Ao longo das dezenas de páginas do relatório elaborado pela CIA há uma descrição de tentativas de levantes guerrilheiros ocorridos no país e da capacidade de as Forças Armadas sufocarem qualquer "esforço insurgente". Existia o temor de novos movimentos em Estados menos populosos como Mato Grosso, Goiás e Amazonas — o que de fato ocorreu no caso da Guerrilha do Araguaia. O dossiê destaca, contudo, que o Exército, precavido, começou a realizar manobras em áreas rurais e inóspitas e que a população estaria pronta a auxiliar na delação. "O Exército mantém uma boa reputação entre o povo por meio de programa de ação cívica."

O foco embrionário de guerrilha tinha origem em Leonel Brizola. O mais sofisticado esforço teria ocorrido em 1966, na Serra do Caparaó, quando um grupo de cerca de 20 homens apoiados do exílio pelo gaúcho tentou recriar na região uma insurreição nos moldes cubanos. Sem apoio dos camponeses enquanto aguardava instruções de Brizola, os guerrilheiros foram capturados no final de março de 1967. A unidade contava com apoio logístico de Bayard Demaria Boiteux, ex-presidente do PSB. Junto aos guerrilheiros, a ponte de Boiteux era o ex-sargento Amadeu Rocha, a quem repassava dinheiro e remédios. "Amadeu depôs em interrogatório que Brizola gastou US$ 30 mil providenciado por Cuba no esforço em Caparaó", aponta o dossiê da CIA.

Alguns integrantes dessa insurgência, segundo a CIA, teriam participado em 1965 de um incidente no Rio Grande do Sul em um destacamento militar em Três Passos. Eles eram liderados por Jefferson Cardim, que fazia parte do grupo de exilados no Uruguai sob o guarda-chuva de Brizola. O relatório aponta que o levante teve inspiração brizolista, mas sua influência foi nula.

— Cardim estava brigado na época com Brizola. Ele agiu por conta própria quando cruzou a fronteira — assegura Jair Krischke, do MJDH.

A documentação também faz menção à prisão de um grupo de terroristas em Uberlândia (MG), em 1967, com "quantidades de explosivos químicos incendiários e armas". O interrogatório dos presos incluiu o jornalista Flávio Tavares.

— O Grupo de Uberlândia nunca chegou a funcionar. Quis implantar um foco de guerrilha, mas foi infiltrado pela polícia. Se tornou apenas uma isca para levar à minha prisão — lembra Tavares, que nega que o grupo possuía armamentos.

Segundo o dossiê, Tavares teria sido recrutado por um membro do bando para contatar Brizola, com quem se encontrou duas vezes em janeiro daquele ano e teria intermediado para um instrutor de guerrilha viajar a Minas Gerais. O grupo foi desmantelado em julho.

— Na época, fiz um contato com Brizola, mas desconhecíamos que o grupo tinha se transformado em uma armadilha. Tudo o que o grupo fazia a polícia tomava conhecimento. O grupo não tinha relação com o Brizola — afirma o jornalista.

Preocupação com os "reacionários"

O relatório da CIA também tem um capítulo destinado à linha dura do regime, que representava uma "potencial ameaça" à estrutura política do país. A preocupação com esses setores, classificados de "reacionários" pelo dossiê, envolvia não só oficiais aposentados, mas também militares da ativa — a maioria majores e coronéis — com ideias reformistas ligados ao ex-presidente Castelo Branco e que estariam exercendo certa pressão junto ao atual mandatário, Costa e Silva. O temor se estendia a setores da sociedade como latifundiários ("abastados plantadores de café") e industrialistas, que estariam descontentes com a reforma econômica e que, no passado, chegaram a se unir a nacionalistas em busca de uma legislação protecionista.

Nem mesmo o maior nome conservador da política escapou dos adjetivos da CIA. O ex-governador da Guanabara Carlos Lacerda é tido como a figura política mais "perigosa" ao regime: "Ele é um oportunista esperto, com laços apertados com os conservadores, reacionários e oficiais militares linha dura". O relatório faz menção à Frente Ampla, movimento liderado por Lacerda e os ex-presidentes João Goulart e Juscelino Kubitschek contra o regime, que pleiteava eleições diretas e a recuperação dos direitos cancelados com o golpe. O documento menciona que Lacerda estaria perdendo apoio entre os setores conservadores ao "cortejar" forças pré-revolucionárias.

A CIA e os grupos guerrilheiros

Zero Hora teve acesso a documentos da agência de inteligência norte-americana, a CIA, repassados pela ONG The National Security Archive ao governo brasileiro. Especializada na liberação de documentos secretos, a National é vinculada à Universidade George Washington. Ao todo, são 270 paginas, sendo 40 pertencentes ao "Livro de Inteligência" da CIA, de fevereiro de 1968.

A seguir, um resumo de como a CIA monitorava e analisava possíveis grupos exilados capazes de criar focos de "insurgência" no Brasil.

Movimento Nacional Revolucionário (MNR)

Grupo que concentrou sua organização no Uruguai após o golpe de 1964, o MNR era composto por militares contrários ao regime, porém também contava com civis. Segundo os documentos da CIA, era organizado por Leonel Brizola e recebia auxílio do governo cubano.

Trecho dos documentos: "Entre os vários grupos opostos ao governo existente, o MNR de Leonel Brizola é conhecido como o mais ativo".

A Resistência Armada Nacionalista (RAN)

Concentrado em Montevidéu, era dominado por militares excluídos pelo regime, capitaneados pelo almirante Candido Aragão, mas também trazia antigas lideranças do Exército e da Força Aérea. O RAN se opunha às decisões do MRN e não reconhecia Brizola, um civil, como líder.

Trecho dos documentos: "O RAN tem sido mal sucedido em obter apoio significativo tanto dos comunistas cubanos quanto dos chineses."

O Partido Comunista Brasileiro (PCB)

Fundado em 1922, defendia o marxismo, com forte atuação em sindicatos. Teve um curto período de legalidade. Luís Carlos Prestes e Carlos Marighella foram grandes lideranças, sendo que Marighella deixou a sigla. Segundo a CIA, o PCB recebia auxílio da União Soviética.

Trecho dos documentos: "O PCB segue a linha soviética e é o maior grupo revolucionário disciplinado no Brasil. Soma cerca de 13,2 mil de acordo com suas lideranças."

O Partido Comunista do Brasil (CPB)

Articulado por dissidentes do PCB, na década de 1960, o partido vivia na clandestinidade. Era mais afinado com a doutrina chinesa da esquerda, na defesa de guerrilhas para insuflar a revolução armada. Por ser mais recente, ainda sofria com o número escasso de membros.

Trecho dos documentos: "Três ou quatro grupos do CPB receberam de três a seis meses de treinamento em insurgência urbana e rural na China comunista."

Ação Popular (AP)

Formada por lideranças estudantis de esquerda, surgiu nos anos 1960, liderada por membros da Igreja Católica. Mais forte nos centros urbanos, conseguiu organizar manifestações estudantis e se ramificar pelo país. Conforme a CIA, teria inclinações pela insurgência armada.

Trecho dos documentos: "Se a AP iniciar a insurgência, ela provavelmente tomará a forma de terrorismo urbano. Muito sobre esta organização é especulativo."

Polop

Criado nos anos 1960, congregava lideranças estudantis e de trabalhadores. Radical, incluindo dissidentes de partidos de esquerda, no futuro deu origem a outros movimentos que lutaram contra o regime. Em 1968, a CIA não acreditava na capacidade de insurgência do grupo.

Trecho dos documentos: "Intelectuais marxistas que acreditam que o Brasil pode ser salvo por uma revolução violenta baseada em uma aliança estudante-trabalhador."

Grupos Trotskistas

Os movimentos trotskistas seguiam a doutrina do ucraniano Leon Trotsky, liderança que fez história na União Soviética. Os movimentos tinham diferentes grupos, como o Partido Operário Revolucionário Trotskista (PORT), envolvido em paralisações de trabalhadores.

Trecho dos documentos: "Orientado para preparar e liderar revoltas camponesas, eles têm sido culpados por tentativas de atos isolados de terrorismo e sabotagem."

ENTREVISTA Peter Kornbluh (Diretor da The National Security Archive)

"A história dos arquivos brasileiros deve ser revelada."

Pesquisador da ONG The National Security Archive, Peter Kornbluh é um especialista em obter documentos outrora secretos do governo dos Estados Unidos. Ele tem auxiliado o Brasil na obtenção destes relatórios, como o acervo de 270 páginas que Zero Hora teve acesso, informes entregues à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

Em entrevista concedida por e-mail a ZH, o pesquisador avalia a importância da abertura de arquivos, o primeiro ano da Lei de Acesso à Informação brasileira e a influência norte-americana nos regimes militares da América Latina. A seguir, os principais trechos.

ZH - Qual a importância de abrir arquivos secretos de países?

Peter Kornbluh - A abertura de arquivos governamentais é uma obrigação para a democracia. É o direito do cidadão saber, em qualquer país, o que seu governo tem feito em seu nome, mas sem seu conhecimento. Sem acesso à verdadeira história, pode não haver fundamento histórico para um debate público integral sobre o futuro. Particularmente, em países como o Brasil, onde existe um histórico de abusos de direitos humanos e repressão, as evidências nos arquivos são fundamentais para se chegar a um veredicto social, legal e histórico sobre o passado.

ZH - Como funciona o processo para abrir documentos secretos nos Estados Unidos?

Peter - Nos Estados Unidos há uma legislação clara sobre liberdade de informação, que garante o direito legal de requisitar e obter documentos. Existe também o sistema da biblioteca presidencial, supervisionado pelo governo, onde documentos-chave são coletados, revisados e eventualmente disponibilizados para pesquisas escolares.

ZH - O Brasil criou sua Lei de Acesso à Informação. O senhor a conhece?

Peter - O Brasil é uma das últimas grandes nações a aprovar uma lei de acesso à informação, algo muito importante. O aniversário da lei está chegando, e jornalistas e organizações devem avaliar como ela funcionou: quantos pedidos foram arquivados, quantos documentos foram liberados, quantos documentos foram retidos, e se a retenção foi legítima ou ilegítima. É indispensável uma auditoria do primeiro ano para ajudar a melhorar a implementação da lei nos anos que virão. A documentação brasileira não tem apenas o grande papel de fortalecer o fluxo de informação para os cidadãos brasileiros, mas também informar outros países sobre o papel que o Brasil desempenhou no Exterior.

ZH - Qual foi a influência dos Estados Unidos nas ditaduras militares da América do Sul?

Peter - Os Estados Unidos ajudaram secretamente a criar os mais famosos regimes militares na região - do sanguinário regime guatemalteco em 1954 às juntas brasileiras em 1964, até o regime Pinochet em 1973. Nos Estados Unidos e na América Latina nós sabemos muito sobre a intervenção secreta americana na região em virtude da nossa capacidade de usar a lei de acesso à informação para obter documentos com acesso liberado.

ZH - E Cuba financiou grupos armados na América do Sul?

Peter - Como não temos acesso aos arquivos cubanos, não sabemos a história completa sobre o apoio do país às insurgências latino-americanas. Depois que Che Guevara foi morto por tropas treinadas pelos americanos na Bolívia, o apoio cubano para insurgências foi significativamente reduzido até os anos 1980, quando Cuba apoiou alguns elementos revolucionários na América Central.

ZH - Como o senhor avalia o regime militar no Brasil?

Peter - O Brasil é uma superpotência regional. A ditadura brasileira possuía uma política exterior muito intervencionista no Conesul - auxiliando na derrubada de Salvador Allende (Chile), participando no enfraquecimento do governo da Bolívia, influenciando as eleições no Uruguai etc. A história dos arquivos brasileiros deve ser revelada para o benefício da região latino-americana, como também o direito de saber de todos os brasileiros.