segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Um novo partido político no Rio Grande

Marino Boeira - 9/ago/2013, 9h38min

Na história do Rio Grande do Sul sempre houve dois lados disputando o poder político. No passado mais distante, os dois lados representavam a mesma classe social, ainda que eventualmente antagônicos por alguma questão pontual, como no caso dos chimangos e maragatos.

Posteriormente, com a chegada dos colonos europeus e depois com o início do processo de industrialização do Estado, a introdução de uma nova classe social no jogo político, a dos trabalhadores, esta dicotomia foi representada por partidos conservadores, representando os interesses das velhas e novas oligarquias econômicas e os reformistas empunhando bandeiras populares.

A exceção de um breve período no final da segunda guerra mundial, os partidos com algum conteúdo revolucionário, pouca expressão tiveram nesse jogo. Assim, a partir da chamada redemocratização no final da guerra, o confronto se deu entre o PTB e eventuais aliados (do Partido Comunista aos integralistas do PRP de Plínio Salgado e os seguidores de Adhemar de Barros, do PSP) contra a aliança conservadora formada pelo PSD, UDN e PL.

Com o golpe de 64, mudaram os nomes dos participantes do jogo: de um lado, ficaram os velhos reacionários e os oportunistas do momento, apoiando os militares golpistas, abrigados sob a bandeira da Arena, e de outro lado a oposição consentida, o MDB.
Mais tarde, com o retorno da democracia formal, e o ressurgimento dos partidos, o PT passou a ser o representante mais coerente dos interesses populares, ganhando pouco a pouco a liderança entre os partidos que se colocavam a esquerda no espectro político do Estado.

Durante todos estes anos, as disputas eleitorais no Rio Grande do Sul deram mais de uma oportunidade para que os partidos que representavam os interesses populares chegassem ao Governo do Estado, mas suas administrações pouco se diferenciaram daquelas mais ligadas aos interesses conservadores.

Walter Jobim, Ernesto Dorneles, Ildo Meneghetti, Leonel Brizola, Ildo Meneghetti novamente, Peracchi Barcelos, Euclides Triches, Sinval Guazelli, Amaral de Souza (estes quatro últimos eleitos pela Assembléia Legislativa), Jair Soares, Pedro Simon, Alceu Collares, Antônio Brito, Olívio Dutra, Germano Rigotto, Yedas Crusius e Tarso Genro, se sucederam ao longo do tempo, mas apenas em dois momentos, houve algum tipo de ruptura na forma acomodada de governar o Estado.

A primeira e mais impactante foi no governo Brizola, com o enfrentamento das multinacionais de energia e telefonia, o forte investimento na educação pública e no plano político, a resistência ao golpe engendrado contra a posse de João Goulart.
O segundo momento, mais recente, foi na administração de Olívio Dutra, com a introdução do Orçamento Participativo e a defesa dos interesses do Estado no confronto com a Ford.

Fora isso, o que o Rio Grande do Sul assistiu durante estes anos foi uma ação política dos governantes, que ora chegava muito próxima de um entreguismo escancarado, como no governo Britto, ora oscilava para a esquerda, ainda que mais na teoria do que na prática, como nos casos de Collares e Tarso.

Durante estes longos anos, em que os partidos políticos e seus representantes se alternaram no poder, um novo partido foi crescendo no Rio Grande do Sul e ainda que formalmente nunca disputasse um pleito político, está mostrando que é cada vez mais capaz de influenciar no voto de todos os gaúchos.

Falamos da RBS, a poderosa rede de comunicação que através dos seus veículos determina a pauta dos assuntos que lhe interessa que sejam discutidos.

“É sabido que a RBS é, também, além de um grupo midiático, um grupo político-ideológico de comunicação. Não faz, assim, uma cobertura isenta, não só das questões nacionais, como das regionais. Pode-se dizer até que grupos como a RBS e a Rede Globo são, na verdade, um novo tipo de partido político. Eles hierarquizam e organizam a apresentação dos fatos de acordo com a sua visão de mundo.”

Quem disse isso, foi o Governador Tarso Genro, essa semana, em entrevista para o Sul21.

É interessante ver como este grande grupo de mídia, que como a Rede Globo, só cresceu durante o regime militar, intervém permanentemente no dia a dia da vida dos gaúchos, pautando os assuntos a serem discutidos, sempre a partir de uma ótica que defende os interesses privados, apresentados como éticos e progressistas, em detrimento do público, onde sempre grassa a corrupção.

Hoje, com um grau de eficiência muito maior, os veículos aprenderam que dar algum espaço para o contraditório, ajuda a construir a imagem de imparcialidade que seus dirigentes apregoam.

Sábado, por exemplo, no seu caderno cultural, Zero Hora publicou um belo texto do historiador Mário Maestri sobre Jacob Gorender, o mais importante intelectual marxista brasileiro, recentemente falecido e cujo desaparecimento mereceu na ocasião umas poucas linhas do jornal.

No passado, estes veículos eram mais diretos e menos eficientes. No governo Collares, RBS instrumentalizou, por incrível que pareça, o moralismo pequeno burguês do PT na Assembléia, levantando questões ridículas como a reforma do banheiro do Palácio Piratini e a compra de bolachas, que tinham o nome da mulher do governador, para distribuir nas escolas.

Mais adiante, foram os deputados do PDT, com o imenso apoio da mídia da RBS que tentaram desestabilizar o governo de Olívio Dutra com a chamada CPI do Jogo do Bicho.

Hoje, seus veículos se dizem imparciais, embora, como perguntou o Governador Tarso Genro em sua entrevista, “porque, no Governo Britto a RBS “jogava o Estado para cima” e agora faz tudo para “jogar o Estado para baixo?”

Pena que percebendo tudo isso, o Governador autorize a publicação da parcela maior da verba publicitária do Estado em veículos da RBS, como percebeu um leitor do Sul21, que flagrou no mesmo dia da entrevista um anúncio institucional do Governo a cores, ocupando toda uma página de ZH.

Os publicitários costumam dizer que se trata de uma mídia técnica: levam a verba maior os veículos com maior audiência. Só que isso se transforma num círculo vicioso, onde os veículos mais poderosos têm a maior fatia da verba publicitária e porque têm esta fatia maior, continuam sempre mais poderosos.

Marino Boeira é professor universitário

http://www.sul21.com.br/jornal/2013/08/um-novo-partido-politico-no-rio-grande-por-marino-boeira/

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