Marino
Boeira - 9/ago/2013, 9h38min
Na
história do Rio Grande do Sul sempre houve dois lados disputando o poder
político. No passado mais distante, os dois lados representavam a mesma classe
social, ainda que eventualmente antagônicos por alguma questão pontual, como no
caso dos chimangos e maragatos.
Posteriormente,
com a chegada dos colonos europeus e depois com o início do processo de
industrialização do Estado, a introdução de uma nova classe social no jogo
político, a dos trabalhadores, esta dicotomia foi representada por partidos
conservadores, representando os interesses das velhas e novas oligarquias
econômicas e os reformistas empunhando bandeiras populares.
A
exceção de um breve período no final da segunda guerra mundial, os partidos com
algum conteúdo revolucionário, pouca expressão tiveram nesse jogo. Assim, a
partir da chamada redemocratização no final da guerra, o confronto se deu entre
o PTB e eventuais aliados (do Partido Comunista aos integralistas do PRP de
Plínio Salgado e os seguidores de Adhemar de Barros, do PSP) contra a aliança
conservadora formada pelo PSD, UDN e PL.
Com
o golpe de 64, mudaram os nomes dos participantes do jogo: de um lado, ficaram
os velhos reacionários e os oportunistas do momento, apoiando os militares
golpistas, abrigados sob a bandeira da Arena, e de outro lado a oposição
consentida, o MDB.
Mais
tarde, com o retorno da democracia formal, e o ressurgimento dos partidos, o PT
passou a ser o representante mais coerente dos interesses populares, ganhando
pouco a pouco a liderança entre os partidos que se colocavam a esquerda no
espectro político do Estado.
Durante
todos estes anos, as disputas eleitorais no Rio Grande do Sul deram mais de uma
oportunidade para que os partidos que representavam os interesses populares
chegassem ao Governo do Estado, mas suas administrações pouco se diferenciaram
daquelas mais ligadas aos interesses conservadores.
Walter
Jobim, Ernesto Dorneles, Ildo Meneghetti, Leonel Brizola, Ildo Meneghetti
novamente, Peracchi Barcelos, Euclides Triches, Sinval Guazelli, Amaral de
Souza (estes quatro últimos eleitos pela Assembléia Legislativa), Jair Soares,
Pedro Simon, Alceu Collares, Antônio Brito, Olívio Dutra, Germano Rigotto,
Yedas Crusius e Tarso Genro, se sucederam ao longo do tempo, mas apenas em dois
momentos, houve algum tipo de ruptura na forma acomodada de governar o Estado.
A
primeira e mais impactante foi no governo Brizola, com o enfrentamento das
multinacionais de energia e telefonia, o forte investimento na educação pública
e no plano político, a resistência ao golpe engendrado contra a posse de João
Goulart.
O
segundo momento, mais recente, foi na administração de Olívio Dutra, com a
introdução do Orçamento Participativo e a defesa dos interesses do Estado no
confronto com a Ford.
Fora
isso, o que o Rio Grande do Sul assistiu durante estes anos foi uma ação
política dos governantes, que ora chegava muito próxima de um entreguismo
escancarado, como no governo Britto, ora oscilava para a esquerda, ainda que
mais na teoria do que na prática, como nos casos de Collares e Tarso.
Durante
estes longos anos, em que os partidos políticos e seus representantes se
alternaram no poder, um novo partido foi crescendo no Rio Grande do Sul e ainda
que formalmente nunca disputasse um pleito político, está mostrando que é cada
vez mais capaz de influenciar no voto de todos os gaúchos.
Falamos
da RBS, a poderosa rede de comunicação que através dos seus veículos determina
a pauta dos assuntos que lhe interessa que sejam discutidos.
“É
sabido que a RBS é, também, além de um grupo midiático, um grupo
político-ideológico de comunicação. Não faz, assim, uma cobertura isenta, não
só das questões nacionais, como das regionais. Pode-se dizer até que grupos
como a RBS e a Rede Globo são, na verdade, um novo tipo de partido político.
Eles hierarquizam e organizam a apresentação dos fatos de acordo com a sua visão
de mundo.”
Quem
disse isso, foi o Governador Tarso Genro, essa semana, em entrevista para o
Sul21.
É
interessante ver como este grande grupo de mídia, que como a Rede Globo, só
cresceu durante o regime militar, intervém permanentemente no dia a dia da vida
dos gaúchos, pautando os assuntos a serem discutidos, sempre a partir de uma
ótica que defende os interesses privados, apresentados como éticos e
progressistas, em detrimento do público, onde sempre grassa a corrupção.
Hoje,
com um grau de eficiência muito maior, os veículos aprenderam que dar algum
espaço para o contraditório, ajuda a construir a imagem de imparcialidade que
seus dirigentes apregoam.
Sábado,
por exemplo, no seu caderno cultural, Zero Hora publicou um belo texto do
historiador Mário Maestri sobre Jacob Gorender, o mais importante intelectual
marxista brasileiro, recentemente falecido e cujo desaparecimento mereceu na
ocasião umas poucas linhas do jornal.
No
passado, estes veículos eram mais diretos e menos eficientes. No governo Collares,
RBS instrumentalizou, por incrível que pareça, o moralismo pequeno burguês do
PT na Assembléia, levantando questões ridículas como a reforma do banheiro do
Palácio Piratini e a compra de bolachas, que tinham o nome da mulher do
governador, para distribuir nas escolas.
Mais
adiante, foram os deputados do PDT, com o imenso apoio da mídia da RBS que
tentaram desestabilizar o governo de Olívio Dutra com a chamada CPI do Jogo do
Bicho.
Hoje,
seus veículos se dizem imparciais, embora, como perguntou o Governador Tarso
Genro em sua entrevista, “porque, no Governo Britto a RBS “jogava o Estado para
cima” e agora faz tudo para “jogar o Estado para baixo?”
Pena
que percebendo tudo isso, o Governador autorize a publicação da parcela maior
da verba publicitária do Estado em veículos da RBS, como percebeu um leitor do
Sul21, que flagrou no mesmo dia da entrevista um anúncio institucional do
Governo a cores, ocupando toda uma página de ZH.
Os
publicitários costumam dizer que se trata de uma mídia técnica: levam a verba
maior os veículos com maior audiência. Só que isso se transforma num círculo
vicioso, onde os veículos mais poderosos têm a maior fatia da verba
publicitária e porque têm esta fatia maior, continuam sempre mais poderosos.
Marino
Boeira é professor universitário
http://www.sul21.com.br/jornal/2013/08/um-novo-partido-politico-no-rio-grande-por-marino-boeira/
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