ANO 117 Nº 109 - PORTO ALEGRE, TERÇA-FEIRA, 17 DE JANEIRO DE 2012
A morte de João Goulart, ocorrida há 35 anos, em 6 de dezembro de 1976, em Mercedes, na Argentina, está sendo investigada pelas autoridades argentinas. Essa decisão é consequência da representação, como cidadão, protocolada no Juizado de Instrução de Paso de los Libres por Ivan Cláudio Marx, procurador da República em Uruguaiana. As condições da morte de Jango suscitam dúvidas há muito tempo, já foram objeto de duas CPIs no Brasil e de uma ação penal, arquivada. Continua em curso uma ação civil. Ivan Marx tem-se destacado por suas investigações em relação à Operação Condor, mecanismo conjunto das ditaduras chilena, brasileira, uruguaia, argentina, boliviana e paraguaia para eliminar adversários políticos ditos subversivos ou incômodos.
Entre os mortos mais conhecidos estão os parlamentares uruguaios Héctor Ruiz e Zelmar Michelini, assassinados em Buenos Aires, e o político e diplomata chileno Orlando Letelier, morto em Washington. Há quem jure que JK, João Goulart e Carlos Lacerda, que morreram entre agosto de 1976 e setembro de 1977 em situações duvidosas, foram vítimas do voo assassino do Condor. O caso de Jango se complicou com um livro-denúncia panfletário do uruguaio Enrique Foch Diaz e com as declarações de Mario Neira Barreiro, preso em Charqueadas, de que teria participado da operação para liquidar o ex-presidente brasileiro exilado no Uruguai e na Argentina. Até hoje não foram encontradas provas.
O corpo de Jango, sem autópsia, foi trazido às pressas para o Brasil. A investigação na Argentina é a única possibilidade de surgimento de novas e decisivas informações. Talvez elas abram caminho para a exumação do corpo de Jango, o que poderia levar a conclusões inapeláveis. Conversei com Ivan Marx, em Porto Alegre, na companhia de Christopher Goulart, neto de Jango, que vê com bons olhos essa nova frente de apuração sobre a morte do avô. A família quer o esclarecimento dos fatos. Ivan Marx atuou na investigação do sequestro de dois argentinos em território brasileiro. Faz parte também da força-tarefa que trabalha no escândalo do Detran. Atua junto à equipe da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência e dos ministérios da Defesa e da Justiça, que busca localizar os corpos dos guerrilheiros do PC do B executados no Araguaia durante a ditadura brasileira.
O silêncio sobre o passado da recente ditadura brasileira nada branda parece com os dias contados. Mesmo que o Brasil seja um dos poucos países a fazer de tudo para acobertar crimes e torturadores, impedindo a revisão da lei da anistia, aos poucos, brechas vão aparecendo. A Argentina tem dado lições nesse sentido. Não faz o menor esforço para proteger os militares que lhe impuseram um regime autoritário violento. Bota na cadeia. Poderá resolver o enigma da morte de Jango. Sem a sinuosidade do samba e com a dramaticidade do tango, os argentinos lidam melhor com conflitos. Não os temem. Tratam de enfrentá-los. Diferenças culturais. Procuradores brasileiros jovens mostram vontade de mudar de ritmo e de gênero. É o caso de Ivan Marx. Ou será influência do sobrenome?
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