Ter, 27 de Setembro de 2011
Nos termos do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa o vocábulo “gauchada” pode ter o significado, entre outros, de ação própria de gaúcho. Já em outro sentido, pejorativo, ato, dito ou modos de fanfarrão.
Bem analisado o conjunto de festividades e manifestações alusivas a data fica evidente que se está diante de um difícil equilíbrio entre um e outro desses dois significados acima arrolados.
Cada vez mais os festejos da semana farroupilha, organizados sob os auspícios do MTG, de sua carta de Princípios, de acordo com uma cartilha cuidadosamente observada por Piquetes, Grupos de Arte Nativa e CTGs se consolidam como manifestação única da cultura gaúcha confundindo-a com a cultura rio-grandense.
O sentido plural da cultura rio-grandense – criação de lusos, açorianos, de indígenas, de negros, de imigrantes, das populações urbanas de cidades cada vez maiores, mais cosmopolitas – acaba reduzido ao da cultura gauchesca. Inadvertidamente, ou não, os festejos “farroupilhas” acabam por confundir a parte com o todo. A cultura gaúcha/gauchesca não é sinônimo de rio-grandense, é pura e simplesmente uma de suas manifestações.
O historiador britânico Eric Hobsbawn chama a atenção para o que ele denomina “a invenção das tradições”, título, aliás, de um de seus livros. De acordo com o autor, em algumas circunstâncias consolida-se uma explicação do passado, uma representação do mesmo que nem sempre é expressão da verdade.
Os acontecimentos do passado estão lá, no passado, cristalizados. O que muda, sempre a partir do presente, é a interpretação que se faz desses acontecimentos. Para tomarmos um exemplo recente da história brasileira e rio-grandense: a Campanha da Legalidade passa agora a ser reavaliada positivamente, com isso aparecem muitos atores e manifestações jubilosas a respeito.
Trinta anos atrás, já saindo da ditadura militar, ainda era problemático falar da Legalidade, poucos eram os “heróis” que se apresentavam como atores ou herdeiros daquele feito. Mudou o acontecido, a Campanha da legalidade? Não mudou a interpretação que se faz desse evento.
Algo similar acontece no âmbito da ”invenção da tradição”. Por certo houve a Revolução Farroupilha, os gaúchos marginalizados e os gaúchos estancieiros envolveram-se em guerras contra espanhóis e platinos.
A motivação, os interesses envolvidos, os resultados desses entreveros é bastante diferenciado e complexo. A tradição inventada reduziu tudo a uma mesma coisa, construindo uma explicação homogeneizadora de um passado idealizado.
Alguns detalhes podem ajudar a entender como é inventada a tradição em nosso caso. O Hino Riograndense que cantamos com tanto fervor e entusiasmo foi composto pelo Maestro Joaquim José Medanha, pertencente ao exército Imperial e feito prisioneiro pelos farroupilhas.
Mais interessante ainda é que a atual versão do hino foi “melhorada” em 1966, durante a vigência da Ditadura Militar, que determinou a supressão de uma estrofe “que entre nós reviva Atenas/ para assombro dos tiranos/ sejamos gregos na glória/ e na virtude, romanos.”
Mais um detalhe, o lema que identifica a capital do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, é “mui leal e valerosa” em alusão a resistência que a mesma ofereceu aos farroupilhas, mantendo-se fiel ao Império.
Para não alongar muito o comentário, o lema adotado na bandeira rio-grandense – Liberdade, Igualdade, Humanidade, motiva, aliás, muito do imaginário de que os farroupilhas eram libertários e defensores da igualdade.
O que ocorreu à época é bem distinto. Nas estâncias os negros continuavam escravos, mais que isso líderes farroupilha financiavam a guerra ora vendendo parcela de seus escravos, ora arrendando-os para trabalhar em Montevideo.
Pode-se alegar que o acordo de paz entre o Império e os Farroupilhas assegurava a liberdade aos escravos que tinham lutado nas fileiras farrapas. Belas palavras, mas o massacre dos lanceiros negros parece contradizer tal espírito libertário.
Enfim, é um pouco arriscado afirmarmos em alta voz “... que sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra...”, sem que tenhamos bem claro de que façanhas estamos falando.
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