Mário Magalhães
Publicado
em 14-Jan-2013
Pesquisa
extenuante, riqueza de detalhes, revelações, inteligência na exposição e
honestidade. Essas são apenas algumas das qualidades de “Marighella”, livro do
jornalista Mário Magalhães lançado no fim do ano passado. É com o autor que
este blog tem o prazer de fazer a entrevista deste mês.
A
biografia de Carlos Marighella já recebeu diversos, empolgados e mais do que
merecidos elogios desde que foi lançada. São 732 páginas de uma história
fascinante, resultado de mais de nove anos de pesquisa em diversos países e com
256 entrevistados.
“Sua
trajetória tem muita ação, aventura, drama, humor, mistérios, espionagem,
ideias, amor e histórias. Permitiu contar a história trepidante de quatro
décadas do Brasil e do mundo, de 1930 a 1960. Dezenas de coadjuvantes ou
coprotagonistas merecem, eles mesmos, biografias exclusivas, tal seu encanto.
Com o que mais um repórter poderia sonhar, além disso?”, diz Magalhães.
Um
dos muitos pontos altos da biografia foi o de não fazer o julgamento de
Marighella, não o elegendo como um herói ou um bandido: “Mais do que pintar
Marighella como um facínora destituído de decência, certa historiografia
oficial se empenhou em eliminá-lo da memória do país. Perderam: não lograram
apagá-lo da história.”.
Para
ele, o silêncio sobre Marighella no ensino de história representa um crime de
desonestidade intelectual. Acompanhem a entrevista:
[
Zé Dirceu ] Mário, como
aconteceu a ideia deste trabalho sobre o Marighella?
[
Magalhães ] Nasci na
primeira semana de abril de 1964, a do golpe de Estado que derrubou o governo
constitucional do presidente João Goulart. Em 2003, eu tinha 39 anos. Antes de
completar os 40, queria mergulhar em uma reportagem de fôlego, sem as amarras
de tempo e espaço próprias de uma redação de jornal. Decidi escrever uma
biografia. Não encontrei personagem com vida mais fascinante, goste-se ou não
dele, do que Carlos Marighella (1911-69).
Sua
trajetória tem muita ação, aventura, drama, humor, mistérios, espionagem,
ideias, amor e histórias. Permitiu contar a história trepidante de quatro
décadas do Brasil e do mundo, de 1930 a 1960. Dezenas de coadjuvantes ou
coprotagonistas merecem, eles mesmos, biografias exclusivas, tal seu encanto.
Com o que mais um repórter poderia sonhar, além disso?
[
Zé Dirceu ] Conte-nos
um pouco como foi seu trabalho de pesquisa, quanto tempo durou e como se deu a
reunião da documentação, das entrevistas.
[
Magalhães ] Foram mais
de nove anos de trabalho, dos quais cinco anos e nove meses em dedicação
exclusiva. Entrevistei 256 pessoas, das quais cerca de 30 já faleceram _não sou
pé-frio, eram na maioria octogenários e nonagenários, contemporâneos de
Marighella. Até com a professora de inglês dele e seu camarada Maurício
Grabois, Heddy Peltier, eu conversei. Ela lhes deu aulas no fim dos anos 1920,
no célebre Ginásio da Bahia.
Os
documentos foram garimpados em arquivos públicos e privados de Rússia,
República Tcheca, Estados Unidos, Paraguai e Brasil. No total, consultei mais
de 70 mil páginas de documentos. Em boa parte secreta (no caso de papéis
produzidos pelo Estado) ou clandestina (por militantes de oposição) na origem.
A bibliografia somou 600 títulos, equivalendo a quase 700 volumes.
Organizado,
esse material rendeu em torno de 5.500 arquivos digitais, incluindo a
transcrição de perto de mil horas de entrevistas. Com um comando de busca,
posso encontrar todas as informações armazenadas referentes a um determinado
personagem do livro.
[ Zé Dirceu ] Gostaríamos de saber mais sobre essas entrevistas. Você pode citar alguma que te marcou mais ou que foi mais representativa?
[
Magalhães ] Eu seria
profundamente injusto se destacasse um só entrevistado. Todos foram relevantes
para contar a história de Marighella. Dos seus partidários mais fiéis aos
inimigos mais encarniçados. Para muitas pessoas, a entrevista para a biografia
serviu como desabafo, com confidências guardadas por décadas. Não foram poucas
as que se emocionaram. Um dos aspectos que mais me chamaram a atenção foi como
os antagonistas respeitavam ou mesmo se assombravam com a coragem de
Marighella. Não foram apenas seus correligionários que o qualificaram como
valente, mas perseguidores como o policial Cecil Borer, que o caçou no Rio de
Janeiro por mais de 30 anos.
[
Zé Dirceu ] O que mais
te impressiona no Marighella? Se você fosse contar para alguém que jamais ouviu
falar dele, como você o sintetizaria?
[
Magalhães ] Marighella
foi um revolucionário que deu a vida pelos ideais que defendia. Era um
homem valente, essencialmente de ação. Viveu intensamente. Para ele, a vida
estava muito longe de se resumir à política. Ele se autodefiniu em meados da
década de 1940: “Sou um mulato baiano”.
[
Zé Dirceu ] Como você
avalia a memória dos brasileiros em relação ao Marighella e, também, ao período
militar como um todo?
[
Magalhães ] A memória
está sendo construída. Mais do que pintar Marighella como um facínora
destituído de decência, certa historiografia oficial se empenhou em eliminá-lo
da memória do país. Perderam: não lograram apagá-lo da história. Assim como não
“colou” o papel de vilão a que tal historiografia pretendeu condenar os
militantes que combateram legitimamente a ditadura, a despeito das viúvas daquele
regime que ainda hoje esperneiam.
Isso
tudo apesar de Marighella ainda ter hoje muito mais projeção no exterior do que
no Brasil. É impossível fazer uma relação dos brasileiros mais conhecidos mundo
afora no século XX, excluindo artistas e desportistas, sem incluir Marighella.
É incrível que a Bahia ainda hoje não tenha um Memorial Marighella. O político
baiano mais famoso no exterior em todos os tempos não é Juracy Magalhães
(nascido no Ceará, mas com carreira na Bahia), Antonio Conselheiro (outro cearense),
Otávio Mangabeira ou Antonio Carlos Magalhães. É Marighella, disparado!
Em
2012, o Brasil conheceu um pouco mais Marighella. Foram lançados o filme
dirigido por Isa Grinspum Ferraz; o clipe de Daniel Grinspum, com os Racionais
MC’s; a música “Um comunista”, de Caetano Veloso; e a biografia que escrevi
– tudo sobre Marighella.
Ainda
há muito por se descobrir a respeito do nosso passado, mas os brasileiros sabem
que a ditadura foi nefasta. Por que não aparece um só candidato a cargo
majoritário em eleição defendendo o regime que vigorou de 1964 a 85? Porque só
obteria meia dúzia de votos.
Espero
que a Comissão Nacional da Verdade contribua decisivamente para o reencontro do
Brasil com sua memória e para que se faça justiça. Enquanto responsáveis por
crimes contra os direitos humanos não forem punidos, novas gerações de
carrascos se sentirão desimpedidas para perpetrar de novo as mesmas violações
do período inaugurado em 1964. A rigor, já perpetram, na tortura e extermínio
cotidiano de jovens pobres por agentes do Estado.
[
Zé Dirceu ] Você
afirmou que projeção internacional de Marighella é maior do que a no Brasil.
Por quê? Fale-nos mais sobre esse reconhecimento internacional.
[
Magalhães ] Ao se
tornar o personagem mais influente e conhecido da luta armada contra a ditadura
no Brasil, Marighella tornou-se figura mundial. O jornal francês “Le Monde” o
chamava de “mulato hercúleo”. A revista americana “Time” se referiu ao “mulato
de olhos verdes” – Marighella se transformava em mito; seus olhos na verdade
eram castanhos. Quando a Ação Libertadora Nacional (ALN), organização fundada e
comandada por Marighella, tomou os transmissores da Rádio Nacional paulista, em
agosto de 1969, o “New York Times”, um dos diários mais importantes do planeta,
dedicou ao fato mais de 250 linhas.
A
Central Intelligence Agency, a CIA norte-americana, apontou Marighella como o
sucessor do guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara na inspiração de
movimentos rebeldes na América Latina. Em todo o mundo, movimentos
contestatórios e revolucionários se inspiraram em Marighella e seu “Minimanual
do guerrilheiro urbano”, brochura de junho de 1969. “Todo o mundo” mesmo, dos
Panteras Negras nos Estados Unidos à Organização para a Libertação da Palestina
(OLP) no Oriente Médio.
Sem
contar a dimensão de Marighella no Brasil enquanto viveu e não foi alvo da
tentativa de eliminá-lo da história. Para ficar em um exemplo, a revista “Veja”
dedicou-lhe duas vezes a capa, em novembro de 1968 e novembro de 1969. Quantos
personagens ganharam duas vezes a capa de “Veja” em um período tão curto?
[
Zé Dirceu ] Você traz
duas importantes novidades na pesquisa. A primeira que Marighella não trocou
tiros com os militares durante a emboscada. Como você descobriu isso?
[
Magalhães ] A rigor, o
livro tem centenas de revelações, do lugar onde Marighella realmente nasceu às
circunstâncias de seu assassinato. Sobre Marighella não ter disparado um só
projétil na noite de 4 de novembro de 1969, quando o mataram, inexiste
controvérsia: jamais apareceram relatos de que ele tenha atirado. A polícia
montou uma farsa na versão oficial da morte de Marighella, mas não chegou ao
ponto de inventar que ele tivesse dado algum tiro. O que eu fiz foi checar
todas as fontes, dos registros balísticos e da necropsia até entrevistar
pessoas presentes na cena do crime, incluindo alguns agentes repressores e dois
frades partidários de Marighella.
O
que os funcionários da ditadura fantasiaram foi a existência de seguranças de
Marighella. No livro, eu esquadrinho todas as provas de que isso não passa de
cascata. Narro a morte em minúcias no capítulo “Tocaia”. O capítulo seguinte é
“Post mortem: anatomia de uma farsa”. Nele, explico em minúcias as provas que
permitem descrever com segurança os momentos derradeiros de Marighella. Por
exemplo: como saber que Marighella, ao contrário de tantas versões, estava
mesmo desarmado? Explico na biografia.
[
Zé Dirceu ] Como você
chegou à conclusão de que Marighella entrou com 23 anos no Partido Comunista e
não com 19?
[
Magalhães ] Esse é o
típico empenho de apuração que passa despercebido ao leitor. Na página 68,
gasto uma só frase, com menos de dez palavras, para cravar que Marighella
ingressou no PCB em 1934, ano do seu 23º aniversário. Quase todos os relatos
conhecidos dão conta de que Marighella foi admitido com 18 ou 19 anos no
partido. Eu já sabia que isso era impossível, pois em agosto de 1932 ele fora
preso por apoiar o movimento paulista contra Getulio Vargas. Como o Partido
Comunista se opunha tanto ao presidente da República como aos oligarcas de São
Paulo, Marighella não poderia ser na época militante daquela agremiação.
Na
Casa de Oswaldo Cruz, li um depoimento do médico Manuel Isnard Teixeira, que
recepcionou Marighella na Juventude Comunista. Seu relato indica que isso
ocorreu a partir de 1933, mas não determina o ano.
Só
em 2012 foi possível ter certeza, com base numa fonte privilegiada: o próprio
Marighella contou que se integrou ao PCB em 1934. A informação consta de uma
autobiografia manuscrita por ele em castelhano. Em sete páginas, foi redigida
em 1954, na então União Soviética. Até hoje está guardada em Moscou, em
arquivos da ex-URSS que o dirigente russo Vladímir Pútin manteve fechados por
muitos anos, mas que recentemente voltaram a ser abertos ao público.
[
Zé Dirceu ] Como você
avalia o lugar de Marighella na história?
[
Magalhães ] Carlos
Marighella é um gigante da história do Brasil, independentemente do juízo que
se faça sobre ele. É legítimo amá-lo ou odiá-lo, mas é impossível ficar
indiferente à sua história fascinante. Enquanto ele for mantido à margem dos livros
escolares, continuará a ser um brasileiro maldito. Não defendo que os manuais
de história o promovam, nem que o condenem. Mas não podem mais calar sobre ele.
O
silêncio sobre Marighella no ensino de história representa um crime de
desonestidade intelectual. Seria como apagar o nome de Carlos Lacerda, o mais
tonitruante anticomunista no Brasil do século XX. Ou seja, um absurdo. E
Lacerda nunca teve maior projeção internacional, ao contrário de Marighella,
que até hoje inspira revolucionários em todo o mundo.
[
Zé Dirceu ] Qual o
papel do jornalismo investigativo hoje e o que é necessário para fazer uma boa
biografia?
[
Magalhães ] O
jornalismo dito investigativo não pode se conter nas aparências. Tem de apurar
a essência. Não deve ser preconceituoso. Tem de ser mais substantivo e menos
adjetivo. Em outras palavras, ater-se à informação, sem se deixar contaminar
por tanta opinião. Repórteres e jornalistas que contam histórias não deveriam
nutrir veleidades de promotor (por exemplo, para acusar personagens como
Marighella ou instituições às quais ele pertenceu); de advogado (para
defendê-los); e muito menos de juiz (cabe aos repórteres, biógrafos ou não,
fornecer informações que permitam ao leitor tirar as suas próprias conclusões).
No
caso de Marighella, não o julguei. A biografia que escrevi não afirma nem que
ele é herói, nem que é vilão. Narro o que ele fez, disse e pensou. Ofereço
matéria-prima para cada pessoa concluir o que quiser, conforme suas próprias
ideias. Marighella já tem muitos partidários e inimigos; meu propósito foi o de
contar sua história frenética.
Uma
necessidade indispensável para o biógrafo é a de tempo. Eu poderia produzir no
período de dois ou três anos um livro sobre Marighella. Mas não seria a
biografia que escrevi. A redação do livro me tomou mais tempo do que a
apuração, por mais imensa que esta tenha sido. Há um risco altíssimo de
transformar um volume monumental de informações em texto de tom relatorial,
enfadonho. Eu me propus a redigir o livro como se ele fosse um romance,
com a diferença escrupulosa de que nele tudo é verdade _ao fim do volume, 2.580
notas indicam a fonte de cada informação interessante ou relevante. Pensei
assim: ao contar uma vida de tirar o fôlego, meu propósito estético tem de ser
o de produzir uma narrativa de tirar o fôlego. Não sei se consegui, mas é o que
tentei fazer.
[
Zé Dirceu ] Você afirma
que Marighella é um gigante da História. O que é preciso para que ele seja
reconhecido como tal?
[
Magalhães ] É preciso
que se conheça sua história – ela fala por si.
“Marighella”
Autor:
Mário Magalhães
Editora:
Companhia das Letras
784
páginas
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