quarta-feira, 19 de junho de 2013

Algumas cenas e combinações preocupantes

O povo organizado nas ruas lutando por seus direitos é fundamental para o avanço da democracia. Mas há algumas combinações e cenas preocupantes. Não resumem o que está acontecendo, mas sugerem, no mínimo, alguma prudência: discursos generalizados contra “a política” e os partidos, tentativas de colocar fogo em parlamento (como ocorreu no Rio), depredação de prédios, ônibus e telefones públicos (como ocorreu em Porto Alegre), elogio da ausência de direção política. Mesmo que seja uma minoria a atacar parlamentos e sedes de governos, se a maioria recusa a política e os partidos, o que sobra, afinal de contas? A violência da polícia sempre é esperada. Excluindo-se a hipótese de querer enfrentar a violência da polícia com mais violência, só resta a via da política. E esses protestos podem ser uma grande oportunidade para debater o papel e a continuidade das polícias militares no Brasil. Mas, para isso, é preciso dar outros passos.

As redes sociais são ferramentas de mobilização e articulação, mas não são substitutos de programas e de organização política. Podem dar origem a grandes manifestações e o que mais? O culto da horizontalidade, esvaziado de política, com multidões nas ruas, leva para onde exatamente?

A solução para a chamada crise da representação política, para a violência da polícia, para o alto custo e baixa qualidade do transporte público, para o custo das obras da Copa é extinguir os partidos e tocar fogo nos parlamentos e nos políticos? Obviamente esse não é o objetivo da imensa maioria dos protestos, mas os ataques, mais ou menos agressivos, contra sedes de governos e de parlamentos ocorreram com uma frequência que recomenda no mínimo um pouco de atenção. Foram uma minoria? Foram. Mas, às vezes, minorias enlouquecidas podem deslegitimar o movimento da maioria.

Multidão nas ruas, sem direção, sem agenda definida, com elogio do espontaneísmo e discurso contra a política, contra partidos, contra “tudo isso que está aí” e que deixa uma minoria violenta assumir protagonismo, que não hesita em colocar fogo em ônibus de transporte coletivo?  Qual é o próximo passo, exatamente? Uma nova manifestação. E depois? Outra manifestação… E aí? Tomar o poder? Ou mudar o Brasil e o mundo sem tomar o poder? Sem política, fica difícil. Mas, enfim, apenas um exercício de advogado do diabo que não tira a legitimidade e o valor do que vem ocorrendo nos últimos dias no país.
(Marco Weissheimer, editor da Carta Maior e do blog RS Urgente]

Nenhum comentário:

Postar um comentário