O povo organizado nas ruas lutando por seus direitos é fundamental
para o avanço da democracia. Mas há algumas combinações e cenas preocupantes.
Não resumem o que está acontecendo, mas sugerem, no mínimo, alguma prudência:
discursos generalizados contra “a política” e os partidos, tentativas de
colocar fogo em parlamento (como ocorreu no Rio), depredação de prédios, ônibus
e telefones públicos (como ocorreu em Porto Alegre), elogio da ausência de
direção política. Mesmo que seja uma minoria a atacar parlamentos e sedes de
governos, se a maioria recusa a política e os partidos, o que sobra, afinal de
contas? A violência da polícia sempre é esperada. Excluindo-se a hipótese de
querer enfrentar a violência da polícia com mais violência, só resta a via da
política. E esses protestos podem ser uma grande oportunidade para debater o
papel e a continuidade das polícias militares no Brasil. Mas, para isso, é
preciso dar outros passos.
As redes sociais são ferramentas de mobilização e articulação, mas
não são substitutos de programas e de organização política. Podem dar origem a
grandes manifestações e o que mais? O culto da horizontalidade, esvaziado de
política, com multidões nas ruas, leva para onde exatamente?
A solução para a chamada crise da representação política, para a
violência da polícia, para o alto custo e baixa qualidade do transporte
público, para o custo das obras da Copa é extinguir os partidos e tocar fogo
nos parlamentos e nos políticos? Obviamente esse não é o objetivo da imensa
maioria dos protestos, mas os ataques, mais ou menos agressivos, contra sedes
de governos e de parlamentos ocorreram com uma frequência que recomenda no
mínimo um pouco de atenção. Foram uma minoria? Foram. Mas, às vezes, minorias
enlouquecidas podem deslegitimar o movimento da maioria.
Multidão nas ruas, sem direção, sem agenda definida, com elogio do
espontaneísmo e discurso contra a política, contra partidos, contra “tudo isso
que está aí” e que deixa uma minoria violenta assumir protagonismo, que não
hesita em colocar fogo em ônibus de transporte coletivo? Qual é o próximo
passo, exatamente? Uma nova manifestação. E depois? Outra manifestação… E aí?
Tomar o poder? Ou mudar o Brasil e o mundo sem tomar o poder? Sem política,
fica difícil. Mas, enfim, apenas um exercício de advogado do diabo que não tira
a legitimidade e o valor do que vem ocorrendo nos últimos dias no país.
(Marco Weissheimer,
editor da Carta Maior e do blog RS Urgente]
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