quarta-feira, 19 de junho de 2013

Jovens nas ruas

Criticavam os jovens por só quererem jogar videogames e namorar nos shopping centers. Os mais velhos e politizados recorriam a uma palavra pré-histórica para chicotear essa juventude conformista: alienação. Os jovens estão nas ruas. Enfrentaram o aumento das passagens de ônibus em Porto Alegre, Goiânia e São Paulo. Foram combatidos violentamente pelas forças progressistas da ordem. Receberam duras e contraditórias críticas: desordeiros, manipulados por partidos políticos, militantes radicalizados e irresponsáveis. Escrevo este texto depois de ter lido sobre a morte de Pierre Mauroy, o primeiro a ocupar o cargo de primeiro-ministro num governo socialista na França, em 1981, na Presidência de Mitterrand. Pierre e François queriam “mudar a vida”.

Os jovens brasileiros que, com alguns exageros típicos das manifestações de massa, incomodam governos municipais de esquerda, como em São Paulo, também querem mudar a vida. Mauroy desejava colocar mais azul no céu. Era um tempo em que ainda não se falava em fim da história nem em decadência das utopias. Em 1984, ele pediu demissão. O socialismo francês encolheu, o comunismo do Leste europeu bateu as botas sem deixar saudades, o neoliberalismo teve os seus dias de glória e capotou com a crise de 2008. Os jovens saíram dos centros comerciais, das redes sociais e dos games para defender um pouco mais de azul nos céus das pátrias.

Um jovem que não experimenta sair às ruas para tentar mudar o mundo, ainda que modestamente, perde um pouco do que o mundo lhe reserva como experiência existencial. Não deixa de ser divertido ver a Polícia de São Paulo, em defesa do prefeito mauricinho Fernando Haddad, poste de Lula, baixar o pau para tirar das ruas uma juventude incômoda e excessivamente politizada. Os jovens estão cansados de gente de meia idade ou idade avançada com bom senso desmedido. É em nome da sensatez que se quer tomar as terras dos índios em Mato Grosso do Sul, trocar árvores por asfalto em Porto Alegre, espancar manifestantes por toda parte e não perturbar a paz dos torturadores do regime militar com as investigações da Comissão da Verdade. Só a insensatez dos jovens salva.

O excesso de sensatez é o mal de Alzheimer dos políticos e dos empresários preocupados exclusivamente com a saúde dos negócios. Os jovens de hoje são tão maravilhosamente insensatos
que praticam a infidelidade partidária. Colocam as suas causas e convicções acima dos partidos. A fila anda. A irresponsabilidade dessa juventude é tamanha que eles exigem saber quanto lucram as empresas de ônibus que lhes prestam os maus serviços de todo dia. A inconsequência desses jovens é tanta que colocam a defesa do meio ambiente acima dos interesses do desenvolvimento econômico e não se impressionam facilmente com o argumento prêt-à-porter da criação de empregos. Querem provas, números, demonstrações, dados.

Definitivamente, essa galera das redes sociais é muito perigosa. Quer botar mais azul no céu dos negócios. Por falta de experiência, acha que se pode mudar a vida. Por insensatez, entendo que o interesse público é maior.

Juremir Machado da Silva, Correio do Povo, 10/06/2013.

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