Criticavam
os jovens por só quererem jogar videogames e namorar nos shopping centers. Os
mais velhos e politizados recorriam a uma palavra pré-histórica para chicotear
essa juventude conformista: alienação. Os jovens estão nas ruas. Enfrentaram o
aumento das passagens de ônibus em Porto Alegre, Goiânia e São Paulo. Foram
combatidos violentamente pelas forças progressistas da ordem. Receberam duras e
contraditórias críticas: desordeiros, manipulados por partidos políticos,
militantes radicalizados e irresponsáveis. Escrevo este texto depois de ter
lido sobre a morte de Pierre Mauroy, o primeiro a ocupar o cargo de
primeiro-ministro num governo socialista na França, em 1981, na Presidência de
Mitterrand. Pierre e François queriam “mudar a vida”.
Os
jovens brasileiros que, com alguns exageros típicos das manifestações de massa,
incomodam governos municipais de esquerda, como em São Paulo, também querem
mudar a vida. Mauroy desejava colocar mais azul no céu. Era um tempo em que ainda
não se falava em fim da história nem em decadência das utopias. Em 1984, ele
pediu demissão. O socialismo francês encolheu, o comunismo do Leste europeu
bateu as botas sem deixar saudades, o neoliberalismo teve os seus dias de
glória e capotou com a crise de 2008. Os jovens saíram dos centros comerciais, das
redes sociais e dos games para defender um pouco mais de azul nos céus das
pátrias.
Um
jovem que não experimenta sair às ruas para tentar mudar o mundo, ainda que
modestamente, perde um pouco do que o mundo lhe reserva como experiência existencial.
Não deixa de ser divertido ver a Polícia de São Paulo, em defesa do prefeito mauricinho
Fernando Haddad, poste de Lula, baixar o pau para tirar das ruas uma juventude
incômoda e excessivamente politizada. Os jovens estão cansados de gente de meia
idade ou idade avançada com bom senso desmedido. É em nome da sensatez que se
quer tomar as terras dos índios em Mato Grosso do Sul, trocar árvores por
asfalto em Porto Alegre, espancar manifestantes por toda parte e não perturbar
a paz dos torturadores do regime militar com as investigações da Comissão da
Verdade. Só a insensatez dos jovens salva.
O
excesso de sensatez é o mal de Alzheimer dos políticos e dos empresários
preocupados exclusivamente com a saúde dos negócios. Os jovens de hoje são tão
maravilhosamente insensatos
que
praticam a infidelidade partidária. Colocam as suas causas e convicções acima
dos partidos. A fila anda. A irresponsabilidade dessa juventude é tamanha que
eles exigem saber quanto lucram as empresas de ônibus que lhes prestam os maus
serviços de todo dia. A inconsequência desses jovens é tanta que colocam a
defesa do meio ambiente acima dos interesses do desenvolvimento econômico e não
se impressionam facilmente com o argumento prêt-à-porter da criação de
empregos. Querem provas, números, demonstrações, dados.
Definitivamente,
essa galera das redes sociais é muito perigosa. Quer botar mais azul no céu dos
negócios. Por falta de experiência, acha que se pode mudar a vida. Por
insensatez, entendo que o interesse público é maior.
Juremir
Machado da Silva, Correio do Povo, 10/06/2013.
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