Juremir Machado da Silva| juremir@correiodopovo.com.br
Notícias fresquinhas da República Popular de Palomas. A Rede Baita
Sol continua fazendo das suas por lá. Ela é proprietária do jornal Meia-Noite,
conhecido por seu cosmopolitismo em manchetes como “nenhum gaúcho morto entre
os 3 mil arrastados pelo tsunami na Indonésia”, da Rádio Gaudéria, reverenciada
pela sua neutralidade tricolor, do impresso popular Diário Gaudério, que
oferece como serviço as melhores mulheres seminuas da praça, e de outros
veículos puxados a boi. É fácil identificar um jornalista da Rede Baita Sol: basta
ver se anda com o peito estufado, o nariz empinado e se fala como se
representasse Deus na terra. A Rede Baita Sol é especialista em projetos
mirabolantes. Nos últimos anos, passou a crer que é dona até da virada do ano.
Se precisar, atrasa a meia-noite para entrar ao vivo de algum lugar. Nada pode
acontecer sem a sua autorização.
Em
Palomas, a Rede Baita Sol manda e desmanda. Até muitos dos integrantes do
Partido dos Tauras, tradicional adversário do conservadorismo midiático da
Baita Sol, que se posiciona à direita da revista Óia, acabam por cair de
joelhos diante dela. Trabalhar na Rede Baita Sol abre caminho direto para o
Senado. Parece, no entanto, que um dos expoentes da empresa quer pegar um
atalho rumo ao Piratini. Eu estava falando dos projetos mirabolantes da Rede
Baita Sol. Consta que um deles, assado lentamente pelos marqueteiros da casa
para captar recursos oficiais, só será lançado quando houver espaço
publicitário disponível, comprado a peso de ouro, no programa dominical noturno
da Rede Planeta. Só depois disso é que haverá divulgação regional. A Rede Baita
Sol costuma se preocupar com os grandes temas da sociedade palomense como
educação e desenvolvimento econômico.
Dispõe
de seus próprios intelectuais orgânicos para legitimar suas ideias pedagógicas
geralmente atrasadas em meio século. Um das ideias mais vanguardistas da Rede
Baita Sol em educação fecha a retaguarda das nações desenvolvidas: a escola
regida com critérios de empresa ou a pedagogia do mérito e dos resultados.
Adepta de um universalismo abstrato defendido por gênios com cérebro de
ervilha, a Rede Baita Sol é contra tudo o que possa significar compensação para
a plebe por dívidas históricas, admitindo mecanismos de correção de injustiças
apenas para a turma dos camarotes. Grande parte dos jornalistas da Baita Sol
poderia ganhar anualmente o principal prêmio atribuído pelo Partido dos
Roedores de Palomas, o troféu Jair Bolsonaro, que recompensa o obscurantismo
praticado com brilho, ênfase, fúria, deslumbramento e convicção.
Nada
tenho contra a Rede Baita Sol. Como palomense rastaquera, curto o seu estilo
humorístico total. Quanto mais sério o programa ou o apresentador, mais
engraçado. É a única rede do planeta que não pratica o chamado humor judaico:
jamais ri de si mesma. Só dos outros. O nome da rede vem do fato de que para
ela o sol é sempre maior, brilha mais, emite mais calor e bronzeia sem
descontinuidade. A Rede Baita Sol encarna o pensamento único na República
Popular Neoliberal da Grande Palomas.
Edição on line do dia 23/11/2012. Disponível em http://digital.correiodopovo.com.br/clientes/correiodopovo/web/index.php
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