quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Rede Baita Sol


Juremir Machado da Silva| juremir@correiodopovo.com.br

Notícias fresquinhas da República Popular de Palomas. A Rede Baita Sol continua fazendo das suas por lá. Ela é proprietária do jornal Meia-Noite, conhecido por seu cosmopolitismo em manchetes como “nenhum gaúcho morto entre os 3 mil arrastados pelo tsunami na Indonésia”, da Rádio Gaudéria, reverenciada pela sua neutralidade tricolor, do impresso popular Diário Gaudério, que oferece como serviço as melhores mulheres seminuas da praça, e de outros veículos puxados a boi. É fácil identificar um jornalista da Rede Baita Sol: basta ver se anda com o peito estufado, o nariz empinado e se fala como se representasse Deus na terra. A Rede Baita Sol é especialista em projetos mirabolantes. Nos últimos anos, passou a crer que é dona até da virada do ano. Se precisar, atrasa a meia-noite para entrar ao vivo de algum lugar. Nada pode acontecer sem a sua autorização.

Em Palomas, a Rede Baita Sol manda e desmanda. Até muitos dos integrantes do Partido dos Tauras, tradicional adversário do conservadorismo midiático da Baita Sol, que se posiciona à direita da revista Óia, acabam por cair de joelhos diante dela. Trabalhar na Rede Baita Sol abre caminho direto para o Senado. Parece, no entanto, que um dos expoentes da empresa quer pegar um atalho rumo ao Piratini. Eu estava falando dos projetos mirabolantes da Rede Baita Sol. Consta que um deles, assado lentamente pelos marqueteiros da casa para captar recursos oficiais, só será lançado quando houver espaço publicitário disponível, comprado a peso de ouro, no programa dominical noturno da Rede Planeta. Só depois disso é que haverá divulgação regional. A Rede Baita Sol costuma se preocupar com os grandes temas da sociedade palomense como educação e desenvolvimento econômico.

Dispõe de seus próprios intelectuais orgânicos para legitimar suas ideias pedagógicas geralmente atrasadas em meio século. Um das ideias mais vanguardistas da Rede Baita Sol em educação fecha a retaguarda das nações desenvolvidas: a escola regida com critérios de empresa ou a pedagogia do mérito e dos resultados. Adepta de um universalismo abstrato defendido por gênios com cérebro de ervilha, a Rede Baita Sol é contra tudo o que possa significar compensação para a plebe por dívidas históricas, admitindo mecanismos de correção de injustiças apenas para a turma dos camarotes. Grande parte dos jornalistas da Baita Sol poderia ganhar anualmente o principal prêmio atribuído pelo Partido dos Roedores de Palomas, o troféu Jair Bolsonaro, que recompensa o obscurantismo praticado com brilho, ênfase, fúria, deslumbramento e convicção.

Nada tenho contra a Rede Baita Sol. Como palomense rastaquera, curto o seu estilo humorístico total. Quanto mais sério o programa ou o apresentador, mais engraçado. É a única rede do planeta que não pratica o chamado humor judaico: jamais ri de si mesma. Só dos outros. O nome da rede vem do fato de que para ela o sol é sempre maior, brilha mais, emite mais calor e bronzeia sem descontinuidade. A Rede Baita Sol encarna o pensamento único na República Popular Neoliberal da Grande Palomas.
Edição on line do dia 23/11/2012. Disponível em http://digital.correiodopovo.com.br/clientes/correiodopovo/web/index.php

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