07/11/12
| 15:30
Por Cássio Moreira
Em primeiro de abril
de 1964 acontecia o golpe civil-militar, ou para alguns a revolução de 31 de
março, que depôs o presidente João Goulart. Jango, como era chamado, foi eleito
pela segunda vez consecutiva vice-presidente. Sendo que da primeira vez fizera
mais votos que o próprio JK. Com a renuncia de Jânio Quadros, presidente que se
elegera em 1961 prometendo varrer a corrupção do país (a corrupção não foi
inventada pelo PT como parte da mídia insiste em repetir) e que a elite o
adorava pela suposta política antissindicalismo, Jango chegou a presidência
após a valorosa Campanha da Legalidade. Para permitir que Jango assumisse a
presidência, os conservadores modificaram o sistema político do país em tempo
recorde (parecido com aquelas mudanças na constituição para permitir a
reeleição, algo que se faz para impedir que governos de cunho popular cheguem
ao poder). Após um período parlamentarista, Goulart retomou os poderes de
presidente e partiu para as chamadas Reformas de Base.
Na época do golpe,
conforme pesquisa do IBOPE, Jango contava com um bom índice de aprovação do seu
governo. Entretanto, era acusado, principalmente por grande parte da grande
mídia, de ser um presidente fraco, indeciso e de realizar um governo caótico e
prestes a ser dominado pelos comunistas.
Entretanto, como a
história é contada pelos vencedores, faltou dizer que o PTB antigo (em nada se
parece com o atual) era o partido que mais crescia nas eleições e em breve
teria maioria no congresso. A doutrina trabalhista ganhava as mesas de bares e
o Brasil começava a ter seus ídolos (assim como outras potências como EUA e
URSS com seus Washington, Lincoln, Roosevelt, Lênin, Trotski, Stalin). Nós
teríamos o Dr. Getúlio Vargas e seus discípulos Jango e Brizola; Miguel Arraes
entre outros. Esses eram alguns dos executores de um projeto que estava a
ameaçar os interesses estrangeiros e de grande parte dos detentores do capital
nacional.
O governo Jango,
tinha uma sustentação política muito frágil. PTB (antigo) aliado a um PSD (não
tão antigo assim). O primeiro, de base operaria, abrigava os chamados pelegos,
apelido dado pelos mais radicais, e tinha forte apoio dos movimentos sindicais.
O segundo, com base no latifúndio e na maquina estatal. Com as Reformas de
Base, principalmente a agrária, essa aliança é rompida e o PSD corre para os
braços do PSDB-DEM, digo, UDN.
É interessante observar
que nomes ilustres de centro-esquerda apoiaram o golpe, tais como: Ulysses
Guimarães e JK. Eles tinham a certeza que o regime que se instalaria após o
golpe de 1964 seria breve e que logo em 1965 seriam marcadas novas eleições.
Ledo engano… o golpe não era contra o governo “caótico” de Jango, tampouco
contra a ameaça comunista, embora a maioria dos executores do golpe achassem
que sim. O golpe, já tentado em 1954, 1955 e 1961, foi contra um projeto de
país consubstanciado dentro do programa de um partido político, o PTB (antigo),
e das Reformas de Base, ou seja, contra o Trabalhismo.
O golpe durou 20
anos, pois é um tempo mais que necessário para apagar uma doutrina; pois isso
não se faz em poucos anos e sim em gerações. Por isso foram necessárias duas décadas
de ditadura militar para varrer do mapa o pensamento trabalhista.
Infelizmente
conseguiram…
Pasmem! Uma boa
parte dos militantes e políticos de esquerda de hoje nunca leram Alberto
Pasqualini, ademais alguns ainda atribuem ao trabalhismo (Getúlio e Jango) o
termo “populismo”, mas não com sentido de popular, e sim, com o sentido
pejorativo de demagogia.
Hoje a própria esquerda não sabe direito o que é. Alguns são comunistas e escondem a foice e o martelo. Outros são de extrema esquerda e seus projetos são: o não capitalismo e o… ?? Outros são um saco de gatos, digo, de correntes ideológicas. Outros são redutos de disputas entre deputados e caciques partidários de cargos, digo, de pensamentos diferentes. Por outro lado, a direita sabe o que é e o que quer. Ela quer manter o status quo da desigualdade social e do elitismo (complexo de inferioridade revestido de superioridade). Enquanto a direita se une. Boa parte da esquerda se torna antipetista !!!?
Parafraseando San
Tiago Dantas. A esquerda hoje continua sendo dividida entre “negativa” e
“positiva”. A primeira tem como seu “projeto” a critica feroz, mas nunca
governou um município ou estado para ver que não é tão fácil governar. A
segunda, é um conjunto de partidos que defendem um “projeto nacional de
desenvolvimento” e/ou se dizem herdeiros do trabalhismo histórico: alguns tem
comunista ou socialista no nome, outros tem trabalhadores na sigla, outros tem
apenas o trabalhismo herdado na sigla e outros se dizem trabalhistas mas apoiam
o PSDB em São Paulo e em Pelotas. Entretanto, todos defendem, embora alguns
apenas em seus discursos e outros em sua prática (mesmo que, por vezes, de
forma inconsciente), a doutrina trabalhista: não pregam a revolução e sim um
capitalismo com justiça social.
Atualmente ser de
esquerda ou direita está muito mais relacionado com o grau de intervenção do
Estado na economia do que em relação à questão das multinacionais, do capital
estrangeiro ou de fazer a revolução. Ademais, a obtenção do poder por um
partido político não deve ser um fim, e sim, um meio para executar um projeto.
Para a chamada
“esquerda positiva” sugiro o que diria um dos grandes pensadores da humanidade,
Karl Marx, “uni-vos”! Nesse momento prol de um projeto de país consistente e
viável: o trabalhismo. Pode parecer que sou a favor do capitalismo, pelo
contrário; acho um sistema com muitas falhas. Entretanto, acredito que apenas
com o tempo, o avanço das inovações tecnológicas e da evolução espiritual é que
vai surgir um sistema econômico viável, com liberdade, solidariedade e maior
justiça social. Esse sistema ultrapassará o capitalismo, assim como esse o fez
com o feudalismo. Acredito que ele ainda não tem um nome… mas, como diria Júlio
Verne, ‘Tudo que um homem pode imaginar outros homens poderão realizar’.
OBS: o projeto
trabalhista ficou adormecido durante o regime militar, tentou-se enterrá-lo com
o atentado, digo, mandato de FHC e aos poucos sustento que foi retomado pelo
governo Lula-Dilma (em relação às criticas a afirmação de que o governo Dilma é
um governo trabalhista; insisto que, em outro contexto histórico, acredito que sim…e
tenho pesquisado sobre esse tema. Data vênia, embora existem “reinos da
verdade” espalhados por toda parte, essa é a minha opinião).
Cássio Moreira é
economista, doutor em Economia do Desenvolvimento (UFRGS) e professor do IFRS –
Câmpus Porto Alegre.www.cassiomoreira.com.br
Comentário
interessante na matéria:
Professor Luciano | 7 de novembro de 2012 |
21:44
O golpe civil-militar de 1964 se insere num contexto mais amplo. Não foi um mero ataque ao “trabalhismo”. Se assim fosse teríamos que denominar “trabalhistas” governos de Bolívia, Chile, etc. Foi resultado de uma intervenção estadunidense na América Latina no sentido de garantir a acumulação capitalista no continente em um contexto de crise do sistema. Essa crise do sistema também pode ser observada para explicar o governo Jango, de conciliação de classes que começava a ser questionado pela crescente ascensão revolucionária das massas (a despeito do apoio do PCB stalinista a Jango).
O golpe civil-militar de 1964 se insere num contexto mais amplo. Não foi um mero ataque ao “trabalhismo”. Se assim fosse teríamos que denominar “trabalhistas” governos de Bolívia, Chile, etc. Foi resultado de uma intervenção estadunidense na América Latina no sentido de garantir a acumulação capitalista no continente em um contexto de crise do sistema. Essa crise do sistema também pode ser observada para explicar o governo Jango, de conciliação de classes que começava a ser questionado pela crescente ascensão revolucionária das massas (a despeito do apoio do PCB stalinista a Jango).
Achei
esse texto do prof Cássio muito reducionista. O trabalhismo é, na minha visão,
um fenômeno aparente de uma sociedade capitalista que precisava garantir a sua
reprodução. Por isso o sindicalismo “pelego”, porque atrelado ao Estado.
Aliás
como existir governo “dos trabalhadores” sem sindicatos livres? Se o
trabalhismo representa um projeto de nação como o autor defende, como explicar
a repressão varguista aos trabalhadores que buscassem a via da independência de
classe, livres da burguesia e do Estado? Seria esse um projeto de nação para os
trabalhadores?
Trotsky,
que é um autor que deveria ser mais lido, afirmava que o papel dos
revolucionários de todo o mundo, em uma hipótese de ataque da Inglaterra
imperialista ao Brasil varguista seria a defesa do Brasil, até porque as massas
e os trabalhadores ao perceberem suas forças iriam em um segundo momento
derrubar Vargas, num importante passo para a revolução. Mas isso, complementa
Trotsky, jamais deveria ser entendido como submissão dos trabalhadores e suas
organizações ao Estado e ao governo varguista (trabalhista).
Sendo
assim discordo da visão de que partidos burgueses como o PDT, o PSB ou
semelhantes representem alguma saída para os trabalhadores. Somente um partido
operário independente poderá ser instrumento da construção de uma sociedade
onde finde a exploração, as guerras, o imperialismo. Uma sociedade socialista.
http://sul21.com.br/jornal/2012/11/o-golpe-de-1964-foi-contra-o-trabalhismo/
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