segunda-feira, 14 de outubro de 2013

MINHAS ANDANÇAS, Por Noel Guarany

"Lembro-me quando em 1956, nós caminhávamos muito a pé, para irmos aos bailes que aconteciam normalmente em casas de famílias e de quando em vez, improvisava-se em ramadas com chão batido de cupim, o qual umedecia-se bem para não levantar muita poeira, dançava-se até o clariar do dia e divertíamo-nos muito. Não havia caixas de som, aparelhagens. O instrumento era um acordeon e um violão, muito raramente um bandoneon. Nesse tempo ainda não haviam CTGS. 

Em 1958, eu já havia começado a tocar violão. Eu já havia descoberto o crime que o acordeon fez ao violão ou guitarra, como se diz na Argentina ou Uruguai, pois, como diz a quadrinha popular: A gaita matou a viola; O fósforo matou o isqueiro; A bombacha; o chiripá; A moda o uso campeiro.

Nessa época eu andava peregrinando, nos bailes e festas junto com o Reduzino Malaquias. Havia em São Nicolau, um tradicionalista muito autentico, o qual muito me aconselhou e gostava muito da nossa música, era o Capitão João Silva. Resolvemos fundar o CTG "Primeira Querência do Rio Grande", com a finalidade de educar aquele povo, muito animalizado na época, era raro o dia que não matavam alguém. Em 1964, surgiu o MTG e o nosso CTG foi virando apenas mais uma bailanta e perdeu totalmente o sentido de um Centro de Tradições.

Eu empunhava meu violão e saia a percorrer estância por estância. Nessa época não havia televisão, apenas alguns rádios e tal era a alegria do povo, com a minha chegada, que logo carneavam uma vaca e largavam um "próprio" (mensageiro) à vizinhança, avisar que eu havia chegado e que viessem conhecer o violonista e já estava formado o baile. Aí eu amanhecia tocando para o povo dançar. Eu ficava dois ou três dias em cada estância. De quando em quando eu ia para os "comércios de carreiras", tocar violão e comer churrascos. Estes eram muito animados. A cerveja que tomávamos nestes locais eram quentes. Fazia-se um buraco no chão, mais ou menos grandes, dentro das carpas e punha-se água. Molhava-se um bolsa de estopa e punha-se acima das garrafas. Ai ficávamos de três a cinco dias, correndo carreiras de dia e formando-se bailes à noite, junto a prostitutas. Às vezes de cola atada. Tudo ao som do meu violão. Não estava ainda definida a música missioneira.

Em 1960, fui servir a Pátria, no 3º Regimento de Cavalaria de São Luiz Gonzaga, muito orgulhoso, pois já me considerava um homem. Ingressei no curso de cabo de comunicações, já que comunicação para mim, é uma vocação. Mas logo vi que os ministradores do curso, sem distinção de oficiais graduados a sargentos davam mais valor a um analfabeto puxa-saco do que a um homem positivo e de fibra. Me desiludi, com isso, então fui negligenciando até sair expulso do curso. Voltei novamente ao violão, consequentemente a uma boêmia forçada e natural. Não cuidei mais da vida na caserna.

Foi descoberto, nesse tempo, um grande roubo na unidade, liderado por majores e capitães até aos soldados rasos. Foi outra desilusão que tive. Não podia acreditar que militares graduados também roubassem. Aprendi mais tarde que o roubo e a corrupção foram os maiores amigos das ditaduras militares. Em seis meses de caserna, acossado por castigos e prisões, presenciar o banditismo efetuado por um tenente psicopata e sanguinário, que prendeu um soldado de apelido Cêbo, porque o mesmo havia roubado um revolver 45, e seus companheiros de farra haviam lhe roubado o mesmo revolver.

O soldado Cêbo tomava essa arma emprestada ao almoxarifado quase todos os dias, devolvendo-a no dia seguinte. Nem o Comandante do Esquadrão, nem o Oficial de Dia, descobriam sua arte. Mas a raposa tanto vai ao ninho que um dia deixa o focinho, como não pode fazer a devolução, foi descoberto o roubo.

Aberta a sindicância chefiada pelo tenente Moreira Pinto, este prendeu o soldado. O tenente levou-lhe a um solitário e retirado local chamado picadeiro, onde fazia-se equitação em dias de chuva, e aí fazia todo e qualquer tipo de safadezas e atrocidades, num homem atado e sem defesa, para que confessasse a quem havia vendido a arma. Como lhe haviam roubado, não poderia saber. Foi levado então ao Quartel General, com sede em Santa Maria, para ser ouvido.

No caminho, assustaram-lhe tanto como condenação à morte, prisão perpétua, que o apavoraram a tal ponto que na viagem feita de Maria fumaça, ao ultrapassar uma ponte, o soldado suicidou-se. Vendo que uma guarda de ferro passava a poucos centímetros do trem, ele tirou a cabeça, dando fim a sua vida e deixando impunes seus responsáveis. Vendo isto, desertei e fui para a Argentina. Neste país comecei como tarefeiro nos ervais de Concepcion de La Sierra, junto a um tio meu que morava nos ervais de Santa Maria, espécie de Distrito dessa cidade.

Posteriormente, como existiam várias propostas para desmatamento em San Xavier, Missiones, para o plantio de cana de açúcar, pois queriam fundar uma usina de açúcar e alcool em San Xavier, fui para lá, cortar lenha em metro, pois a cooperativa iria consumir muita lenha. Acabei colaborando assim para destruir a ecologia daquela rica região em matas, caças, até onça parda existia e eu, totalmente ignorante, colaborei para a largada do mioto no nosso rio Uruguai. Consequentemente, o desequilíbrio ecológico em ambas as margens do seu leito que tinha águas azuis e cristalinas.

Não aguentei o serviço e vim para o Brasil, levar gente para cortar cana, gente essa composta de todo tipo de marginais, que não tinham para onde ir e para lá se aventuravam. Brigas e entreveros de cachaça, taios de palmo e meio, pois andavam todos armados de facão, eram quase que diárias. Todas as segundas feiras, estava eu nas comissárias para afiançar e tirar maus elementos que trabalhavam comigo. Como eu tinha livre transito entre os comissários, pois tocava violão para eles, participava de festinhas, não tive problemas para tal.

Mais tarde, abandonei esse serviço e fui trabalhar numa lancha com o sr. Getulio Cândia. Onde aprendi a conduzir lanchas e acabei me radicando, e fazendo parte da Marinha Argentina. Aí trabalhei muito tempo, passava contrabandos dos quileiros ao Porto Pindaí, e porto Xavier, no Brasil. Algumas vezes, nós puchavamos algumas balsas de madeira para a mesma andar mais depressa, quando o rio começava a baixar. A balsa levava madeira para os grandes exportadores de matéria prima que havia em Federacion (Hoje Federacion está debaixo dágua), nem as balsas existem mais.

Em 64 elas foram proibidas. Tive nessa época, oportunidade de conhecer grandes intelectuais, onde tive grandes amigos e conselheiros como o Dr. Lizardo Morales, que me diziam: "Se existe a música de Corrientes, a música de Entre-Rios, e de tantas outras regiões, porque as Missões, no Rio Grande do Sul, não têm esse tipo de música ?" Então, numa ida ao Paraguai, fiquei sabendo da importância da música de uma região, de um estado, de um país.

Um dia, no Mato Grosso, fui a São Luiz de Cáceres e dali, tocando violão sempre, fui convidado para passar para a Bolivia. Fui até Santa Cruz de La Sierra, chegando num restaurante comecei a tocar, para poder comer e tomar uns tragos. Começaram a chegar musiologos locais, com seus instrumentos e anunciarem "canções de sua terra".

Nesse interim, chegou a polícia boliviana, revistou-nos e ficou por ali, aparentemente escutando música; notei que me olhavam muito. Eu falava com um e outro e tinha um excelente e correto castelhano. Até que me pediram a identidade, mostrei-a, mas não adiantou pois eles estavam acostumados com identidade do Mato Grosso, que era diferente.

Então me levaram preso a corregedoria. O corregedor não se encontrava, pois era pouco após o meio dia. Fiquei detido por duas horas ou mais, esperando o chefe para explicar-lhe que eu era do Rio Grande do Sul, que eu não era Paraguaio. Que eu estava apenas conhecendo a cidade. Naturalmente o chefe iria entender minha explicação, pois os soldados militares me pareciam demasiado hostis. Com a chegada do chefe, expliquei-me e fui liberado.

Voltei ao Brasil imbuído de descobrir onde estava a música missioneira. Como era grande a dificuldade financeira, depois de muito peregrinar, cheguei a Buenos Aires. Hospedei-me em um pequeno hotel e na parte da manhã, eu procurava entrar em contato com musiologos, folclorologos e comunicadores, à tarde eu pegava o violão e ia para os bairros, fins de linha. Como eu estava com o violão, não faltava um portenho a perguntar-me o que eu fazia com a guitarra. Respondia-lhe que tocava, que era de Corrientes, mas que sabia tocar tango, respondia sempre em castelhano. Começava a tocar e dentro em pouco já estavam passando o chapéu e tiravam dinheiro para minha despesa diária.

Assim, consegui contato com grandes violonistas da época, aprendendo novas técnicas e tomando novos rumos ao violão.

Voltando a Porto Alegre, comecei a introduzir a música missioneira em todos os meios possíveis, que tinha oportunidade. Parecia-me um castigo quando nos rancherios mais humildes fosse do país que fosse, com olhar sincero de patriotismo, um campesino, mesmo abandonado, pelos governos e instituições, dizia ao empunhar qualquer instrumento: "Vou cantar uma canção de minha terra".

Eu considerava uma verdadeira afronta, isto porque, no Brasil, não existia canto missioneiro, aos poucos fui me conscientizando do enorme pecado que estava cometendo pois estava me tornando um grande instrumentista e um aplaudido cantor campesino só daquilo que o rádio da época tocava e ensinava a tantos outros tocadores e cantadores como eu vez ou outra tentava ler alguma coisa e mais o enigma de minhas origens despertando minha curiosidade de saber quem sou eu, o que estou fazendo aqui? De onde venho? E pra onde vou?

Nessa época o sucesso nas gravações eram do catarina Pedro Raimundo, os irmãos Bertussi estavam começando, no rádio era "Coração de Luto" , "Chote Soledade", "Gaúcho de Passo Fundo", do Teixeirinha e "Pára Pedro" de José Mendes.

Além disso o rádio vivia a martelar alienações desleais ao povo sul-americano e grandes cantores entraram no mercado violentamente, que os próprios "Sebastião da Silva", começaram a usar pseudônimos norte-americanos como Dick Farney e outros, procurando dessa maneira vender discos como os Frank Sinatras e outros grandes nomes e ídolos estrangeiros.

Além dessa invasão cultural liderada pelas gravadoras multinacionais, outro atrito existia no Rio Grande do Sul, devido as diferentes regiões como por exemplo a teuto-riograndense, com suas polcas e bandinhas, a ítalo-riograndense, com a linha melódica estilizada dos pioneiros do acordeon, na década de 30, década de ouro do rádio sul-americano, onde podemos citar o precursor deste instrumento que foi o "Cabo-laranjeira", o qual nunca se soube o nome (sabe-se que desapareceu com a coluna Prestes após a epopéia da grande Marcha) mas ficaram como exemplo o seu pioneirismo: Tio Bilia, Reduzino Malaquias, Dedé Cunha, Aparício Saraiva e tantos outros.

Foi então que começou a surgir com muita força, nas Missões, a música dos irmãos Bertussi, com dois acordeons, totalmente inautêntica, mas muito apreciada para bailes nos CTGs que estavam proliferando desmedidamente, não havia músico nas missões, que não tocasse músicas dos Bertussi. Começaram também a aparecer duplas como os irmãos Teixeira, Primos Peixoto, Gauchinhas Missioneiras, e uns sem fim de imitadores dos irmãos Bertussi. Música totalmente alienígena para a região das missões, pois os Bertussi, italo-riograndenses, já copiavam de Pedro Raimundo, catarinense de Laguna, sem responsabilidade lírica nenhuma com nosso estado.

Quando comecei a sentir cheiro da podridão da arte no Rio Grande do Sul e ver cantores alienados, suburbanos, vestindo largas e espalhafatosas indumentárias de souvenirs para iludir turistas trouxas; a ver falsos tradicionalistas a berrar alto em potentes emissoras, avalizados por patrões de CTGs a promover bailes e churrasqueadas principalmente no dia em que tinham que baixar a cabeça e peregrinar em silêncio numa homenagem póstuma a heróis anônimos que derramaram seu sangue para sustentar aqueles gananciosos de poderes e de sesmarias da Revolução Farroupilha; inclusive cantores de outros estados a confundir a sensibilidade de gaúchos autênticos, tradicionalistas ansiosos por uma personalidade justa no campo cultural do país e a mal ensinar aqueles que se acostumaram com a vida simples do homem do campo riograndense tal como italianos, alemães que vieram colonizar a solidão de nossas serras, trazendo consigo seu extrovertimento, com bailes animados de querbs, farras e risos colaborando muito com a nossa produção e aqui se adaptou ao mate e ao churrasco, exceto à nostalgia do povo sul americano.

Chegou-se ao ponto de no Rio Grande do Sul não mais se cantar, bastava uma gaiteiro para armar-se barulhos e peleias com algum gaúcho de pele indiática, mau olhado pelos moços loiros que o enxotavam.

Além destas barbaridades, alia-se o domínio dos incautos radialistas de todo o país que lhes dita as emissoras do eixo Rio-São Paulo, devido a omissão de nossas autoridades sobre o assunto. Por exemplo, no Rio de Janeiro, cidade absolutamente afro-brasileira, a música é o samba. Música essa mais regionalista de todo o país, mas como têm ritmo, a indústria fonografica maldosamente a chama de música popular brasileira.

Notando eu, estas distorções culturais, comecei a condenar a ausência do que era nosso. Nosso patrimônio cultural, nas missões, onde estava? Quem o defenderia? Nossa região tão rica em legendas e fatos históricos decisivos no contexto de entrelaçamento latino americano e um sem fim de riquezas a clamar por uma manifestação lírica de defesa ao consumo da intelectualidade do povo. Cantava eu, então, tangos, boleros, canções centro americanas, serestas, guarânias...

Foi então que resolvi refazer a música missioneira. Para isto, saí para os grandes centros, procurando infiltrar a música das missões e sensibilizar os intelectuais da época.

Foi uma luta árdua para divulgar música de pesquisa. Com o modismo dos festivais, onde o povo acatava os ritmos impuros e desgastados de música alienígena ao Rio Grande, era muito difícil ingressar no mundo fotográfico em São Paulo. Com muita abnegação consegui, para mim e para muitos. Eu não gravo discos para receber falsos laureais de multinacionais, eu gravo para mostrar a seriedade que nós os missioneiros devotamos a um instrumento de nossa Região. Encontrei muitas dificuldades, mas consegui que a música missioneira fosse escutada.

Tive muitos amigos que ajudaram a divulgar minha música como Barbosa Lessa, Jorge Karan, Glênio Fagundes. Peregrinei muito em busca de conhecimentos antigos, que eram novos. Tive grandes companheiros de viagens, que abraçavam junto comigo a defesa do patrimônio cultural regional, como Cenair Maicá, Jaime Caetano Braum. Colaborou muito comigo a casa do poeta riograndense na pessoa do abnegado Nelson da Lenita Faquinelle, ao saudoso poeta Ciro Gavião, ao Prof. Moacir Santana e ao Grêmio Literário Gaúcho.

Tivemos muitas passagens difíceis, no exterior, e mesmo no Brasil posso recordar quando estávamos no parque Anhembi, em São Paulo, quando um segurança da exposição queria abrir a mala de Cenair Maicá para certificar-se se não havia roubo na mesma. Ora, nos ofendemos eu disse que missioneiro não era ladrão e que ele se retirasse dali e deu uma confusão muito grande, com polícia, repórteres etc....

Lembro de uma passagem muito triste que tive com o amigo Marcus Faemann, no Palácio das Convenções no Parque Anhembi quando os amigos da convergência socialista queriam salvar do caos o jornal Versus, naturalmente, que os inimigos número um do militarismo existente na época, abraçaram a causa e todos se dispuseram a fazer um Show para o referido jornal, aqueles que sabiam da sujeira muito grande da Mídia Global, aqueles que sabiam da sujeira do arbítrio e do autoritarismo, posso até nomear a todos que também lutaram pelas liberdades democráticas em nosso país, mesmo arriscando sua própria liberdade, são eles: Tarancon, Quarteto em Cy, Dércio Marques, MPB 4, Renato Borgui, Ester Góis, Marilia Medalha, Edu Lobo, Alaíde Costa, Chico Buarque, Bibi Ferreira, Guarnieri, companheiro Fernando Peixoto, Hélio Goldsztein, tudo liderado por Marcus Faermann. Eu chegava a ser chamado por cantor maldito.

Quando, ao consultar velhos payadores e guitarreiros, como também gente intelectualizada e a receber seus incentivos, soube, sem sombra de dúvidas que a minha bandeira seria uma só: "Cantar a minha terra".

http://www.probst.pro.br/

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