quinta-feira, 17 de outubro de 2013

As mazelas do Lasier (por Laura Wottrich e Lúcio Centeno)

Data: 16/out/2013

O Jornal do Almoço, da RBS/TV, trouxe uma novidade no dia 7 deste mês: o apresentador comentarista Lasier Martins despediu-se do programa depois de 27 anos de atuação. Foi, porém, menos uma despedida e mais um comício. Os distintos telespectadores foram informados que Lasier partia “para enfrentar um projeto político eleitoral”. Assim, com todas as letras e ênfases. “Saio um ano antes para preparar as propostas que vou submeter ao eleitorado no ano que vem”, disse o futuro candidato ao Senado, valendo-se do canhão midiático da RBS/TV para desancar “os maus serviços públicos, as corrupções, a impunidade, a precariedade nas estradas, os escorchantes impostos”.

Foram seis minutos e 18 segundos de propaganda eleitoral antecipada realizada num veículo cujo uso é regido por concessão pública. Seis minutos e 18 segundos que a legislação não autoriza conceder a ninguém. Seis minutos e 18 segundos que nenhum candidato ou pré-candidato ao Senado Federal dispôs ou disporá. O Ministério Público Eleitoral está avaliando o caso, a partir da representação realizada pelo Levante Popular da Juventude na última semana.

O partido do Lasier

Lasier escolheu o PDT para sua candidatura ao senado, mas não é uma criatura política gestada no ventre do trabalhismo em qualquer de suas vertentes. Identifica-se mais com outra sigla, muito mais poderosa e influente. Lasier é um rebento do partido que hegemoniza a política no Rio Grande do Sul, cuja sede ergue-se na confluência das avenidas Ipiranga e Érico Veríssimo. Ali está, tão transparente quanto as águas do arroio Dilúvio que escorrem pastosamente diante de sua fachada, refletindo e interpretando a construção imponente de alumínio, cimento e vidro: chama-se RBS.

Dali se constrói e destrói governadores, senadores e deputados. Esta operação, evidentemente, é realizada pelos demais conglomerados de comunicação no Brasil. O diferencial que a RBS vem imprimindo nessa relação promíscua com o sistema político é justamente o fato de eliminar os mediadores na representação de seus interesses. Ao invés, de sustentar candidaturas alinhadas com seus interesses políticos, ela mesma constitui seus eleitos.

Do seu colo, surgiram os governadores Antonio Britto e Yeda Crusius, ambos ex-funcionários do grupo – ele, chefe de telejornalismo na RBS TV, ela comentarista de economia – e ambos de amarga lembrança. Nas prévias do PMDB em 1994 que apontaria seu candidato a governador, os dois concorrentes – Britto e Mendes Ribeiro — eram funcionários da RBS. Dali saiu também o campeão de votos, ex-presidente do legislativo estadual e ex-senador Sérgio Zambiasi, do PTB. Em 2006, fez o deputado estadual mais votado, Paulo Borges, do DEM, cuja notoriedade advinha da condição de “Homem do Tempo” na RBS/TV. Agora, preparando-se para 2014, o grupo quer emplacar governadora Ana Amélia Lemos, senadora do PP e ex-chefe da sucursal da RBS em Brasília. Lasier também faz parte dessa equação.

A política da RBS

O mecanismo utilizado na construção dessa hegemonia é tão simples quanto execrável. Primeiro, os meios de comunicação desconstroem a esfera da política, seja ela operada nas instituições, seja a exercida nas ruas. O objetivo é consolidar um senso comum de que todos os atores da política, sejam partidos, sejam movimentos sociais, são corruptos e/ou ilegítimos. Ao mesmo tempo em que desconstroem a arena da política, colocam-se como entidades que pairam acima dos interesses vis da luta política. Envoltas no manto da neutralidade apenas perseguem o ”bem comum”, denunciando as “mazelas da política”.

Depois de minar o campo e fustigar todos seus adversários, vem a parte mais fácil, apresentar-se como a solução: “Já que todos os políticos não prestam, eis aqui os nossos candidatos. Vocês os conhecem bem, vem eles todos os dias em nossos meios, enunciando a verdade e combatendo a imoralidade. E o mais importante: eles não são políticos”. Foi o que fez Lasier na última semana: colocou-se como guardião da ética e vociferou contra as más práticas, comprometendo-se a atuar “contra essas mazelas que têm levado a descrença aos políticos e da política”.

Trata-se de uma força que exalta ou oculta fatos, direciona opiniões para atingir seus objetivos. Não é difícil: a RBS é a terceira maior organização de mídia privada do Brasil, segundo o projeto Os Donos da Mídia. De acordo com informações contidas no site da própria empresa, são 24 emissoras de rádio, oito jornais diários e dois canais de televisão com 20 emissoras. O grupo possui também negócios na área de TV por assinatura, internet, mercado editorial e indústria fonográfica. Uma única voz que orienta como pensar, sobre o que falar. E também, como se deve votar. Isto é poder.

Essa relação promíscua ficou evidente no dia em que Lasier anunciou sua candidatura. Não bastasse utilizar uma concessão pública, o canal de TV, como palanque eleitoral, a notícia foi imediatamente reproduzida em outros veículos do Grupo RBS, aumentando exponencialmente seu alcance.

Embora a mídia hegemônica veja a política quase como uma excrecência, ela mesma não se edifica sem política. Primeiro a dos generais, depois a da jovem democracia brasileira, penosamente construída. Em dezembro de 2002 – último mês do governo FHC- foram assinadas 96 concessões de retransmissoras espalhadas por todo país. A RBS recebeu 21 novas concessões. Em seu Horário Eleitoral Exclusivo, na última semana, Lasier espinafrou “as mazelas da política”. Talvez ignore que, uma vez eleito, “as mazelas” serão parte essencial do seu trabalho.

Laura Wottrich e Lúcio Centeno são do Levante Popular da Juventude
http://www.sul21.com.br/jornal/opiniaopublica/as-mazelas-do-lasier-por-laura-wottrich-e-lucio-centeno/

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