Data: 16/out/2013
O
Jornal do Almoço, da RBS/TV, trouxe uma novidade no dia 7 deste mês: o
apresentador comentarista Lasier Martins despediu-se do programa depois de 27
anos de atuação. Foi, porém, menos uma despedida e mais um comício. Os
distintos telespectadores foram informados que Lasier partia “para enfrentar um
projeto político eleitoral”. Assim, com todas as letras e ênfases. “Saio um ano
antes para preparar as propostas que vou submeter ao eleitorado no ano que
vem”, disse o futuro candidato ao Senado, valendo-se do canhão midiático da
RBS/TV para desancar “os maus serviços públicos, as corrupções, a impunidade, a
precariedade nas estradas, os escorchantes impostos”.
Foram
seis minutos e 18 segundos de propaganda eleitoral antecipada realizada num
veículo cujo uso é regido por concessão pública. Seis minutos e 18 segundos que
a legislação não autoriza conceder a ninguém. Seis minutos e 18 segundos que
nenhum candidato ou pré-candidato ao Senado Federal dispôs ou disporá. O
Ministério Público Eleitoral está avaliando o caso, a partir da representação
realizada pelo Levante Popular da Juventude na última semana.
O partido do Lasier
Lasier
escolheu o PDT para sua candidatura ao senado, mas não é uma criatura política
gestada no ventre do trabalhismo em qualquer de suas vertentes. Identifica-se
mais com outra sigla, muito mais poderosa e influente. Lasier é um rebento do
partido que hegemoniza a política no Rio Grande do Sul, cuja sede ergue-se na
confluência das avenidas Ipiranga e Érico Veríssimo. Ali está, tão transparente
quanto as águas do arroio Dilúvio que escorrem
pastosamente diante de sua fachada, refletindo e interpretando a construção
imponente de alumínio, cimento e vidro: chama-se RBS.
Dali
se constrói e destrói governadores, senadores e deputados. Esta operação,
evidentemente, é realizada pelos demais conglomerados de comunicação no Brasil.
O diferencial que a RBS vem imprimindo nessa relação promíscua com o sistema
político é justamente o fato de eliminar os mediadores na representação de seus
interesses. Ao invés, de sustentar candidaturas alinhadas com seus interesses
políticos, ela mesma constitui seus eleitos.
Do
seu colo, surgiram os governadores Antonio Britto e Yeda Crusius, ambos
ex-funcionários do grupo – ele, chefe de telejornalismo na RBS TV, ela
comentarista de economia – e ambos de amarga lembrança. Nas prévias do PMDB em
1994 que apontaria seu candidato a governador, os dois concorrentes – Britto e
Mendes Ribeiro — eram funcionários da RBS. Dali saiu também o campeão de votos,
ex-presidente do legislativo estadual e ex-senador Sérgio Zambiasi, do PTB. Em
2006, fez o deputado estadual mais votado, Paulo Borges, do DEM, cuja
notoriedade advinha da condição de “Homem do Tempo” na RBS/TV. Agora, preparando-se
para 2014, o grupo quer emplacar governadora Ana Amélia Lemos, senadora do PP e
ex-chefe da sucursal da RBS em Brasília. Lasier também faz parte dessa equação.
A política da RBS
O
mecanismo utilizado na construção dessa hegemonia é tão simples quanto
execrável. Primeiro, os meios de comunicação desconstroem a esfera da política,
seja ela operada nas instituições, seja a exercida nas ruas. O objetivo é
consolidar um senso comum de que todos os atores da política, sejam partidos,
sejam movimentos sociais, são corruptos e/ou ilegítimos. Ao mesmo tempo em que
desconstroem a arena da política, colocam-se como entidades que pairam acima
dos interesses vis da luta política. Envoltas no manto da neutralidade apenas
perseguem o ”bem comum”, denunciando as “mazelas da política”.
Depois
de minar o campo e fustigar todos seus adversários, vem a parte mais fácil,
apresentar-se como a solução: “Já que todos os políticos não prestam, eis aqui
os nossos candidatos. Vocês os conhecem bem, vem eles todos os dias em nossos
meios, enunciando a verdade e combatendo a imoralidade. E o mais importante:
eles não são políticos”. Foi o que fez Lasier na última semana: colocou-se como
guardião da ética e vociferou contra as más práticas, comprometendo-se a atuar
“contra essas mazelas que têm levado a descrença aos políticos e da política”.
Trata-se
de uma força que exalta ou oculta fatos, direciona opiniões para atingir seus
objetivos. Não é difícil: a RBS é a terceira maior organização de mídia privada
do Brasil, segundo o projeto Os Donos da Mídia. De acordo com informações
contidas no site da própria empresa, são 24 emissoras de rádio, oito jornais diários e dois canais de
televisão com 20 emissoras. O grupo possui também negócios na área de TV
por assinatura, internet, mercado editorial e indústria fonográfica. Uma única
voz que orienta como pensar, sobre o que falar. E também, como se deve votar.
Isto é poder.
Essa
relação promíscua ficou evidente no dia em que Lasier anunciou sua candidatura.
Não bastasse utilizar uma concessão pública, o canal de TV, como palanque
eleitoral, a notícia foi imediatamente reproduzida em outros veículos do Grupo
RBS, aumentando exponencialmente seu alcance.
Embora
a mídia hegemônica veja a política quase como uma excrecência, ela mesma não se
edifica sem política. Primeiro a dos generais, depois a da jovem democracia
brasileira, penosamente construída. Em dezembro de 2002 – último mês do governo
FHC- foram assinadas 96 concessões de retransmissoras espalhadas por todo país.
A RBS recebeu 21 novas concessões. Em seu Horário Eleitoral Exclusivo, na
última semana, Lasier espinafrou “as mazelas da política”. Talvez ignore que,
uma vez eleito, “as mazelas” serão parte essencial do seu trabalho.
Laura Wottrich e Lúcio Centeno são do Levante Popular da
Juventude
http://www.sul21.com.br/jornal/opiniaopublica/as-mazelas-do-lasier-por-laura-wottrich-e-lucio-centeno/
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