A
senadora Katia Abreu, em sua coluna na Folha, criticou a atuação do
Ministério Público Federal (MPF) e, em especial, deste membro, acusando-nos de
promover o que chamou de "fundamentalismo ambiental" ("Pragas
ideológicas", 12/10).
Em
realidade, a crítica foi uma reação contra solicitação que dirigimos à Comissão
Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), a fim de que esta promovesse
audiência pública, bem como mais estudos técnicos, antes que sejam liberadas
para comercialização sementes transgênicas de soja e milho resistentes a
agrotóxicos perigosos. O principal deles é o herbicida 2,4-D, usado inclusive
como arma química na Guerra do Vietnã e considerado extremamente tóxico pela
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O
pedido do MPF foi motivado por informações prestadas por vários pesquisadores,
alguns membros da própria CTNBio. Segundo se suspeita, a liberação comercial
poderia proporcionar um aumento relevante do consumo de 2,4-D no Brasil, país
que já é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo.
Na
solicitação que enviamos ao órgão, não determinamos que fossem indeferidas as
liberações (que beneficiariam grandes empresas estrangeiras, as quais lucram
com a produção simultânea de agrotóxicos e sementes transgênicas resistentes
aos mesmos agrotóxicos).
Simplesmente
solicitamos que as sementes que ainda não foram autorizadas para circulação
econômica sejam objeto de mais exames, com participação da sociedade civil.
Essa
medida de cautela é motivada pela necessidade de se respeitar os direitos da
população à saúde, à alimentação e ao ambiente equilibrado, os quais não podem
ser sacrificados a fim de satisfazer o interesse de empresas internacionais.
Também
nos preocupa a possibilidade de que as liberações das sementes em questão
aumentem a dependência do setor rural brasileiro aos produtos fornecidos pelas
multinacionais --tanto das próprias sementes quanto dos agrotóxicos aos quais
elas são resistentes.
Essa
dependência não é boa nem ambientalmente (como já vimos), nem economicamente,
pois gera um aumento de custos na produção, prejudicando principalmente os
pequenos produtores, que não têm recursos suficientes para adquirir tais
tecnologias genéticas e químicas.
Voltando
ao pedido de audiência pública que fizemos à CTNBio, ele foi submetido ao órgão
no último dia 17, sendo acolhido pela maioria simples dos presentes. Contudo,
como não foi alcançado o quórum regimental de maioria absoluta para aprovação,
a CTNBio decidiu por não promover o debate público.
Em
razão de tal deliberação, decidimos promover no próprio MPF a audiência
pública, a fim de debater com a sociedade civil os efeitos diretos e indiretos
que podem ser produzidos caso sejam liberadas as sementes transgênicas de soja
e milho tolerantes ao herbicida 2,4-D.
Todos
serão convidados para essa audiência popular, inclusive a senadora Katia Abreu,
que poderá, democraticamente, continuar a defender os interesses econômicos das
empresas estrangeiras, dentro de um espaço público em que a sociedade não se
calará e em que será dada voz a todos.
ANSELMO
HENRIQUE CORDEIRO LOPES, 32, doutorando em direito constitucional pela
Universidade de Sevilha (Espanha), é procurador da República no Distrito
Federal
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/135367-a-sociedade-nao-silenciara.shtml
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