Juremir Machado da
Silva
Correio do Povo |
04 set 2013 | Pg. 02
O golpe de 1964 não foi
apenas militar. Nem mesmo apenas civil-militar como se diz agora. Foi
midiático-civilmilitar. Essa é a tese que defendo em meu livro “Jango: A Vida e
a Morte no Exílio”. Os militares, manipulados pelos Estados Unidos, executaram
o que a mídia queria e conseguiu convencer parte da classe média e as classes
altas conservadoras a quererem. Folha de S.Paulo, Estado de S. Paulo, O Dia,
Jornal do Brasil, Correio da Manhã, O Globo, Tribuna da Imprensa e todos os
veículos nacionais influentes, à exceção da Última Hora, ajudaram a derrubar
João Goulart. Sem a legitimação da mídia nada teria sido possível. A mídia foi
o intelectual do golpe.
No dia 2 de abril
de 1964, o Globo saiu com um editorial capaz de envergonhá-lo para sempre:
“Ressurge a democracia”. Agora, em resposta direta ao meu livro, que destaca
esse primeiro movimento e também um novo editorial, de 1984, em que Roberto Marinho
ardilosamente, fingindo valorizar a abertura, renovava o seu apoio aos
militares, o Globo resolveu retratar-se. É um falso pedido de desculpas. O
jornal reconhece que errou, mas repete como verdadeiras as razões que
justificariam as suas escolhas: “A situação política da época se radicalizou, principalmente
quando Jango e os militares mais próximos a ele ameaçavam atropelar Congresso e
Justiça para fazer reformas de ‘base’ ‘na lei ou na marra’. Os quartéis ficaram
intoxicados com a luta política, à esquerda e à direita. Veio, então, o
movimento dos sargentos, liderado por marinheiros — cabo Ancelmo à frente —, a
hierarquia militar começou a ser quebrada e o oficialato reagiu”. Tudo igual.
Nada mudou.
O Globo continua
pensando o que sempre pensou, embora queira limpar sua barra para eliminar constrangimentos.
A síntese de que não alterou sua forma de pensar aparece nesta frase sobre
1964: a situação era “aguçada e aprofundada pela radicalização de João Goulart,
iniciada tão logo conseguiu, em janeiro de 1963, por meio de plebiscito,
revogar o parlamentarismo, a saída negociada para que ele, vice, pudesse
assumir na renúncia do presidente Jânio Quadros”. A culpa era de Jango. O erro
estava em querer as reformas de base. Na sua falsa retratação, o Globo
transforma Roberto Marinho, o maior beneficiário do golpe e da ditadura, em
democrata incansável e perfeito: “Em todas as encruzilhadas institucionais por
que passou o país no período em que esteve à frente do jornal, Roberto Marinho
sempre esteve ao lado da legalidade”. Uau! Marinho foi um dos sustentáculos do
golpe que sepultou a legalidade em 64.
O editorial de O
Globo retratando-se é uma obra-prima da retórica da inversão: desdizer-se para
reafirmar-se. É um passo: “À luz da história, contudo, não há por que não
reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro”. O próximo passo precisa
ser o reconhecimento de que as reformas de base eram boas para o Brasil e o que
Jango não representava o perigo comunista. Ou seja, aceitar que as causas eram
falsas. Depois desse pedidinho de desculpas de um jornal, a bola fica com os
militares. Quando as Forças Armadas pedirão desculpas por terem colaborado com
o estrangeiro e jogado o país numa ditadura que matou, torturou e barbarizou?
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