Leonardo Sakamoto, 05/02/2013 - 9:55
Baseado no que nos dizem os comerciais de televisão,
finalmente consegui entender quem é a mulher brasileira.
Ela é simpática, meiga, solícita. Independente, mas
multitarefa. Não é que não queira a ajuda de ninguém – ela não precisa. Faz
questão de trabalhar o dia inteiro e, depois, chegar em casa e cuidar de tudo e
dos filhos. E, se o marido aguentar, ainda está disponível para muito sexo.
Vejamos: ela gosta de fazer uma boa faxina.
Daquelas pesadas, que incluem tirar gordura do fogão, a sujeira do chão e o pó
que se esconde nos vãos, desde que os produtos usados não irritem muito a pele.
E que o sachê para tirar odor do vaso sanitário possa ser trocado facilmente.
Afinal de contas, hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás! O que
ela mais ama ganhar de presente de Dia das Mães é uma geladeira e um aspirador
de pó.
E o momento em que a mulher brasileira prefere dar
a geral na casa é quando os filhos clamam por atenção, querendo a velha e boa
papinha de nenê com frango com hormônio ou a fralda nova que absorve o xixi
antes mesmo dele ser feito. Ou no momento exato em que a horda composta pelos
amigos do rebento mais velho resolve vir comer cachorro-quente e sanduíche de
peito de peru ao mesmo tempo. É sempre ela, sozinha, que abre as garrafas de
refrigerante, engordando a molecada.
Até porque, como sabemos, é raro homem aparecendo
na cozinha em comercial. Ele só vai para preparar pratos especiais, refinados,
gourmet. No dia a dia, o reino das panelas é das mulheres. Para ele, há outras
tarefas: aparece com mais frequência, por exemplo, em anúncios de TVs LED de
52″ e de carros que não rodam, voam – deixando claro que tamanho e potência são
o que importam de verdade. Ou nos de cerveja, como se o consumo de álcool fosse
algo apartado por gênero. Aí sim, ressurge a brasileira, pelada, esbanjando
sensualidade, disponível para qualquer coisa, quase pedindo: “vem cá e me beba
inteira”.
Voltemos à mulher que acabou de lavar a louça com
um detergente que transforma pratos em espelhos e colocar a roupa do marido do
futebol na máquina de lavar com um sabão que deixa tudo muito branco. Ela, que
nasceu com um cabelo maravilhosamente cacheado, aproveitou o tempinho livre que
o uso de produtos de limpeza avançados lhe concedeu e o alisa inteiro com uma
das incríveis chapinhas anunciadas no canal a cabo. Quer ficar igual às amigas,
que são iguais às mulheres dos comerciais de TV, que são iguais às
modelos, que atendem a um parâmetro traçado por uma elite de outro continente,
de que liso é bom, curvo é uma droga. Tem o mesmo DNA da ideia de que branco é
bom, negro é uma droga.
Ela ainda aproveita alguns segundos para untar a
barriga com gel emagrecedor, tomar alguns comprimidos feitos com esterco de
besouro caolho da Serra da Mantiqueira que prometem emagrecer e depilar a perna
com emplastos coloridos que ninguém provou que não são carcinogênicos. Está
está cansada, mas sabe como o marido fica depois de tanto comercial de cerveja.
Quer agradá-lo. Coitado, trabalha tanto, né? Corre ao banheiro e esconde o
tempo, o cansaço e a idade com maquiagens mil. Diante do espelho, ao ver outra
mulher que não ela, uma mulher que ela tem certeza que viu diz desses na TV,
sorri.
Então, respira fundo para poder aceitar a vida que
os comerciais lhe garantiram ser o modelo de felicidade. Deita-se na cama,
enquanto espera. E viaja para bem longe. Sozinha.
Pena que, infelizmente, antidepressivo não aparece
em comercial de TV. Ainda.
http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2013/02/05/quem-e-a-mulher-brasileira-dos-comerciais-de-tv/
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