Feb 18th, 2013 - By Marco Aurélio Weissheimer.
Tomei
conhecimento do documentário Muito Além do Peso pelo ótimo blog do médico José Carlos Souto, urologista gaúcho que
trabalha na Santa Casa e que vem se dedicando a estudar as relações entre
nutrição e saúde. Na opinião de Souto, um dos documentários mais importantes já
produzidos no Brasil. “É um documentário assustador. Trata da obesidade
infantil no Brasil (e nos EUA), de uma forma que você nunca viu. O filme
produziu em mim uma mistura de sentimentos, que incluíram tristeza, raiva,
incredulidade e surpresa”, comenta o doutor Souto em um post que publicou,
recomendando vivamente que o documentário fosse assistido. E, de fato, “Muito
Além do Peso” é tudo isso e muito mais. Deveria virar instrumento de política
pública e ser exibido em todas as escolas do país, na presença de pais,
professores e crianças.
Dirigido
por Estela Renner, produzido pela Maria Farinha Filmes com o patrocínio do Instituto Alana, “Muito Além do
Peso” mostra e discute o fenômeno da obesidade infantil no Brasil e no mundo.
“Pela primeira vez na história da raça humana, crianças apresentam sintomas de
doenças de adultos. Problemas de coração, respiração, depressão e diabetes tipo
2” – é disso que se trata. Os fatores causadores dessa epidemia têm nome e
sobrenome bem definidos: indústria alimentícia, cadeias de fast-food, governos
omissos, pais desinformados e agências de publicidade e meios de comunicação
que faturam milhões vendendo drogas diariamente para crianças.
A
conexão entre a indústria alimentícia e a plataforma das indústrias
midiática-publicitária-entretenimento é particularmente mortífera e poderosa. A
maioria das iniciativas de alguns corajosos médicos e promotores no sentido de
regulamentar e proibir determinado tipo de propaganda vem sendo sistemática e
criminosamente boicotado pelos proprietários dessas empresas que não hesitam em
levantar a bandeira da “liberdade de expressão” e da “liberdade de escolha”
para defender a propaganda de seus produtos que vem envenenando milhões de
crianças em todo o mundo. Acha que é um exagero? Veja o documentário, ouça a
opinião de pais, crianças, professores, médicos e promotores e tire suas
próprias conclusões. Uma mãe, que trabalhou como gerente em uma cadeia de
fast-food , diz lá pelas tantas que sentia como uma traficante vendendo crack
para crianças.
“O
problema afeta crianças em todo o país e em todas as classes sociais. As
crianças não sabem mais identificar a comida de verdade: confundem pimentão com
abacate, cebola com batata, etc. Afinal, só comem coisas que vem dentro de
embalagem”, observa José Carlos Souto, comentando o que viu no documentário.
“Uma
das maiores tragédias de se permitir que publicitários tenham acesso irrestrito
às crianças é que a publicidade, na verdade, enfraquece o brincar criativo. Os
brinquedos mais vendidos são normalmente ligados à mídia ou são brinquedos com
chip de computador em que basta apertar um botão. E os brinquedos gritam,
pulam, cantam, fazem tudo sozinhos, enquanto as crianças ficam sentadas
apertando um botão. Isso é interessante para os vendedores pois os brinquedos
não são muito interessantes e as crianças logo vão querer outro”, diz a
psicóloga Susan Linn, diretora da Campaign for a Comercial-Free Childhood (Campanha por uma infância livre de
propaganda), entrevistada no documentário que dá atenção especial às técnicas
publicitárias e de marketing dos fabricantes de refrigerantes e fast-food e sua
associação com a indústria de brinquedos.
No
início deste ano, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), vetou o
Projeto de Lei 193/2008, que propõe a restrição da publicidade de alimentos não
saudáveis dirigida às crianças entre às 6h e 21h nas rádios e TVS e a qualquer
horário nas escolas. Após assistir “Muito Além do Peso”, fica difícil fugir da
sensação de que o governador está, na verdade, incorrendo em uma prática
criminosa. Ou que nome devemos dar a decisões que contribuem direta ou
indiretamente com o que autoridades médicas já definem como uma epidemia que
está afetando milhões de crianças em todo o mundo? Veja e decida você mesmo.
http://rsurgente.opsblog.org/2013/02/18/epidemia-de-obesidade-infantil-a-conexao-criminosa-entre-industria-publicidade-e-midia/
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