Sala de espera
Jornal > Juremir Machado da Silva
ANO 117 Nº 21 - PORTO ALEGRE, SEXTA-FEIRA, 21 DE OUTUBRO DE 2011
A vida pode ser muito dura. O sujeito fica um mês tossindo. É uma tosse chata, seca, que sai do nada. Vai dando uma coceira na garganta até explodir. O cara vai ao médico. Toma injeção e xarope. Pensa na parte mais difícil da infância. Como era horrível tomar injeção e xarope. Ao menos, admite, as injeções ficaram menos doloridas. Deve ser a evolução do material. Tudo evolui, até agulha de injeção. O problema é a persistência da tosse. Depois de dois dias de alívio, volta e fica. Parece praga. Parece o Bolívar, sai e volta, sempre piorando. É preciso marcar consulta novamente, alterar a agenda, pensar em prováveis causas. Sempre tem alguém para apavorar: deve ser alguma coisa no pulmão. Ou para aterrorizar de vez: deve ser algo para fonoaudióloga.
O encontro com o médico normalmente é agradável. O problema é a sala de espera. No dentista, tem o barulho da broca, que escapa quando a secretária entra, e aquela música de elevador. Não sei o que é pior. No médico, o problema vem daquelas caras de pânico ou dúvida. O pior mesmo são as revistas. Em toda sala de espera tem a revista Veja. É aí que se termina de adoecer. Alguém precisa tomar uma providência. O Congresso Nacional deveria aprovar uma lei proibindo revista Veja em consultório médico. Veja e Caras. Agrava os sintomas. A pessoa chega mal e fica pela hora da morte. Todo mundo lindo e maravilhoso na Caras. E a figura ali, na sala de espera, de cara no chão, de bunda para cima, exposto, infeliz, anônimo, à espera do diagnóstico, do veredicto, da sentença. Com a Veja tudo é mais grave. Nada mais é assustador no Brasil do que a Veja. Nem escarro de tuberculoso. Sim, ainda existe. Se a Veja publicar algo sobre isso, por acaso, a culpa será das esquerdas da América Latina. A Veja pode ser um erro de diagnóstico. Tudo na Veja pode ser visto como ideologia, no pior sentido da palavra, aquele que a própria Veja condena: dissimulação, racionalização, manipulação dos fatos em benefício de um ponto de vista prévio, encobrimento da história, deturpação consciente dos acontecimentos. Na capa dessa revista deveria ter aquela advertência tradicional: ler a Veja faz mal à saúde. A Veja acha que só faz jornalismo por denunciar a corrupção. Mas denuncia a corrupção no estilo da Tribuna de Imprensa de Carlos Lacerda, conforme a conveniência. Veja adora pseudo-historiadores conservadores. A bola da vez é Leandro Narloch, cuja principal arte é reler o passado de maneira a legitimar as posições de direita da atualidade, tipo os negros também eram racistas, os negros também tiveram escravos. Tudo se equivale, tudo se harmoniza, a infâmia é absolvida, salvo se for em nome das virtudes do lucro e da acumulação de capital. É o tal do remédio amargo. O que fazer? Manifestações? Por que ninguém organiza pelo Twitter e pelo Facebook uma manifestação contra a revista Veja em consultório médico? Seria uma ação cívica, patriótica, progressista e em defesa da saúde pública. Sala de espera de médico precisa ser saudável. O mal costuma ser o que a Veja pensa e defende. No momento, contudo, mesmo sem ser por virtude, é o que ela revela. Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br |
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